TRUMP(A)

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 80

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ROSA ROSAE
É nas tuas mãos de vidro
é no teu olhar aberto
que aparece o espelho certo
definido. 
Amar de longe é tão perto
Amar de perto é tão vivo
que não pode haver decerto
castigo. 
Sim eu vejo em ti a minha força
tu vês em mim a tua rosa
formosa.
Sou a flor do espanto e da ternura
não serei casta nem pura
sou rosa. 
Mas a rosa que vive e dança
formosa mas não segura
rosa que nunca se cansa
dos ventos da desventura
rosa, rosae
da ternura. 
É nas tuas mãos vazias
que eu deponho a vida inteira
com espinhos todos os dias
roseira. 
Roseira mas não lareira
de fogo brando no lar
apenas rosa fronteira
do mar. 
Sim eu vejo em ti o meu perfume
a lava densa do ciúme
demente.
Sou a rosa brava sem queixume
flor vermelha do meu lume
ardente. 
Demente mas sem loucura
apenas rosa
apenas rosa verdade
rosa
rosae
liberdade!
[José Carlos Ary dos Santos, in Palavras das cantigas]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 79

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REDENÇÃO
Vozes do mar, das árvores, do vento! 
Quando às vezes, n'um sonho doloroso, 
Me embala o vosso canto poderoso, 
Eu julgo igual ao meu vosso tormento... 

Verbo crepuscular e íntimo alento 
Das cousas mudas; psalmo misterioso; 
Não serás tu, queixume vaporoso, 
O suspiro do mundo e o seu lamento? 

Um espírito habita a imensidade: 
Uma ânsia cruel de liberdade 
Agita e abala as formas fugitivas. 

E eu compreendo a vossa língua estranha, 
Vozes do mar, da selva, da montanha... 
Almas irmãs da minha, almas cativas! 
[Antero de Quental, in Sonetos]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 78

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UMA APÓS UMA AS ONDAS APRESSADAS
Uma após uma as ondas apressadas 
Enrolam o seu verde movimento 
E chiam a alva 'spuma 
No moreno das praias. 

Uma após uma as nuvens vagarosas 
Rasgam o seu redondo movimento 
E o sol aquece o 'spaço 
Do ar entre as nuvens 'scassas. 

Indiferente a mim e eu a ela, 
A natureza deste dia calmo 
Furta pouco ao meu senso 
De se esvair o tempo. 

Só uma vaga pena inconsequente 
Para um momento à porta da minha alma 
E após fitar-me um pouco 
Passa, a sorrir de nada. 
[Ricardo Reis, in Odes]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 77

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PASSEI O DIA OUVINDO O QUE O MAR DIZIA
Eu ontem passei o dia 
Ouvindo o que o mar dizia. 

Chorámos, rimos, cantámos. 

Falou-me do seu destino, 
Do seu fado... 

Depois, para se alegrar, 
Ergueu-se, e bailando, e rindo, 
Pôs-se a cantar 
Um canto molhado e lindo. 

O seu hálito perfuma, 
E o seu perfume faz mal! 

Deserto de águas sem fim. 

Ó sepultura da minha raça 
Quando me guardas a mim?... 

Ele afastou-se calado; 
Eu afastei-me mais triste, 
Mais doente, mais cansado... 

Ao longe o Sol na agonia 
De roxo as águas tingia. 

«Voz do mar, misteriosa; 
Voz do amor e da verdade! 
- Ó voz moribunda e doce 
Da minha grande Saudade! 
Voz amarga de quem fica, 
Trémula voz de quem parte...» 
. . . . . . . . . . . . . . . . 
E os poetas a cantar 
São ecos da voz do mar! 
[António Botto, in Canções]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 76

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MAR
I
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.

[Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 75

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Únicamente el río conoce tu secreto,
ese secreto tuyo que es el secreto mío.
El río es un hombre de corazón inquieto
pero el amor se aleja como el agua del río.

Únicamente el río nos vio por la vereda,
y el rumor de sus aguas era como un reproche.
Tu piel era más blanca bajo la magra seda,
como el deslumbramiento de la nieve en la noche.

No importa que huya el agua como un amor de un día;
mi amor, igual que el río, se quedará aunque huya.
Únicamente el río supo que fuiste mía,
para que mí alma fuera profundamente tuya.

El río es como un viaje para el sueño del hombre,
el hombre, es como el río, un gran dolor en viaje.
Únicamente el río te oyó decir mí nombre
cuando las hojas secas decoraron tu traje.

Sí. El río es como un hombre de corazón inquieto
que va encendiendo hogueras y se muere de frío.
Únicamente el río conoce tu secreto.
Únicamente el río.
[José Ángel Buesa]
Esta é a quarta de uma série de ilustrações em torno do tema água. A terceira está aqui.
foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 74

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LEVE, BREVE, SUAVE
Leve, breve, suave
Um canto de ave
Sobe no ar com que principia
O dia.
Escuto e passou...
Parece que foi só porque escutei
Que parou.
Nunca, nunca, em nada,
Raie a madrugada,
Ou ‘splenda o dia, ou doire no declive,
Tive
Prazer a durar
Mais do que o nada, a perda, antes de eu o ir
Gozar.
[Fernando Pessoa Ortónimo, in Cancioneiro]
Esta é a terceira de uma série de ilustrações em torno do tema água. A segunda está aqui; a quarta, aqui.
foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 73

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IV
Desde a orla do mar
Onde tudo começou intacto no primeiro dia de mim
Desde a orla do mar
Onde vi na areia as pegadas triangulares das gaivotas
Enquanto o céu cego de luz bebia o ângulo do seu voo
Onde amei com êxtase a cor o peso e a forma necessária das conchas
Onde vi desabar ininterruptamente a arquitetura das ondas
E nadei de olhos abertos na transparência das águas
Para reconhecer a anémona a rocha o búzio a medusa
Para fundar no sal e na pedra o eixo reto
Da construção possível 
Desde a sombra do bosque
Onde se ergueu o espanto e o não-nome da primeira noite
E onde aceitei em meu ser o eco e a dança da consciência múltipla 
Desde a sombra do bosque desde a orla do mar 
Caminhei para Delphos
Porque acreditei que o mundo era sagrado
E tinha um centro
Que duas águias definem no bronze de um voo imóvel e pesado 
Porém quando cheguei o palácio jazia disperso e destruído
As águias tinham-se ocultado no lugar da sombra mais antiga
A língua torceu-se na boca da Sibila
A água que primeiro eu escutei já não se ouvia
Só Antinoos mostrou seu corpo assombrado
Seu noturno meio-dia.
[Sophia de Mello Breyner Andresen, in Dual]
Esta é a segunda de uma série de ilustrações em torno do tema água. A primeira está aqui; a terceira, aqui.
foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 72

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VIAGEM
Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé do marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar…
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura…
Mas corto as ondas sem desanimar,
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.
[Miguel Torga]
Esta é a primeira de uma série de ilustrações em torno do tema água. A segunda está aqui.
foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 71

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NÓS SOMOS
Como uma pequena lâmpada subsiste 
e marcha no vento, nestes dias, 
na vereda das noites, sob as pálpebras do tempo. 

Caminhamos, um país sussurra, 
dificilmente nas calçadas, nos quartos, 
um país puro existe, homens escuros, 
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro, 
uma terra existe nesta terra, 
nós somos, existimos 

Como uma pequena gota às vezes no vazio, 
como alguém só no mar, caminhando esquecidos, 
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados, 
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento, 
uma pálida lâmpada ao fundo do corredor, 
uma frescura de nada, nos cabelos nos olhos, 
uma voz num portal e a manhã é de sol, 
nós somos, existimos. 

Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho, 
uma carta que segue, um bom dia que chega, 
hoje, amanhã, ainda, a vida continua, 
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia, 
nas mãos que se dão, nos punhos torturados, 
nas frontes que persistem, 
nós somos, 
existimos. 
[António Ramos Rosa, in Sobre o rosto da terra, 1961]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 70

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VEM, NOITE ANTIQUÍSSIMA E IDÊNTICA
Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio. Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.


Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas.
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo.
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora.
Na distância subitamente impossível de percorrer.
(…)

Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma.
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.

(…)

Vem, Noite silenciosa e extática,
Vem envolver na noite manto branco
O meu coração...
Serenamente como uma brisa na tarde leve,
Tranquilamente com um gesto materno afagando.
Com as estrelas luzindo nas tuas mãos
E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.
Todos os sons soam de outra maneira
Quando tu vens.
Quando tu entras baixam todas as vozes,
Ninguém te vê entrar.
Ninguém sabe quando entraste,
Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
Que tudo perde as arestas e as cores,
E que no alto céu ainda claramente azul
Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem,

A lua começa a ser real.
[Álvaro de Campos, 30-6-1914]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 69

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Vamos ressuscitados, colher flores! 
Flores de giesta e tojo, oiro sem preço... 
Vamos àquele cabeço 
Engrinaldar a esperança! 
Temos a Primavera na lembrança; 
Temos calor no corpo entorpecido; 
Vamos! Depressa! 
A vida recomeça! 
A seiva acorda, nada está perdido!
[Miguel Torga, S. Martinho de Anta, 2 abril 1961]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 68

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ODE MARÍTIMA
(…)
Parte-se em mim qualquer coisa. O vermelho anoiteceu. 
Senti demais para poder continuar a sentir. 
Esgotou-se-me a alma, ficou só um eco dentro de mim. 
Decresce sensivelmente a velocidade do volante. 
Tiram-me um pouco as mãos dos olhos os meus sonhos. 
Dentro de mim há um só vácuo, um deserto, um mar noturno. 
E logo que sinto que há um mar noturno dentro de mim, 
Sabe dos longes dele, nasce do seu silêncio, 
Outra vez, outra vez o vasto grito antiquíssimo. 
De repente, como um relâmpago de som, que não faz barulho mas ternura, 

Subitamente abrangendo todo o horizonte marítimo 
Húmido e sombrio marulho humano noturno, 
Voz de sereia longínqua chorando, chamando, 
Vem do fundo do Longe, do fundo do Mar, da alma dos Abismos, 
E à tona dele, como algas, boiam meus sonhos desfeitos...  
(…)
[Álvaro de Campos, Ode Marítima (excerto)]
[esta é a quinta de cinco ilustrações (de excertos) de Ode Marítima. A quarta está aqui].
foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 67

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ODE MARÍTIMA
(…)
Ah, como pude eu pensar, sonhar aquelas coisas? 
Que longe estou do que fui há uns momentos! 
Histeria das sensações - ora estas, ora as opostas! 
Na loura manhã que se ergue, como o meu ouvido só escolhe 
As cousas de acordo com esta emoção - o marulho das águas. 
O marulho leve das águas do rio de encontro ao cais.... 
A vela passando perto do outro lado do rio, 
Os montes longínquos, dum azul japonês, 
As casas de Almada, 
E o que há de suavidade e de infância na hora matutina!... 

Uma gaivota que passa, 
E a minha ternura é maior. 

Mas todo este tempo não estive a reparar para nada. 
Tudo isto foi uma impressão só da pele, com uma carícia 
Todo este tempo não tirei os olhos do meu sonho longínquo, 
Da minha casa ao pé do rio, 
Da minha infância ao pé do rio, 
Das janelas do meu quarto dando para o rio de noite, 
E a paz do luar esparso nas águas! 
(…)
[Álvaro de Campos, Ode Marítima (excerto)]
[esta é a quarta de cinco ilustrações (de excertos) de Ode Marítima. A terceira está aqui. A quinta, aqui]
foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 66

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ODE MARÍTIMA
(…)
Quero ir convosco, quero ir convosco, 
Ao mesmo tempo com vós todos 
Pra toda a parte pr'onde fostes! 
Quero encontrar vossos perigos frente a frente, 
Sentir na minha cara os ventos que engelharam as vossa 
Cuspir dos lábios o sal dos mares que beijaram os vossos 
Ter braços na vossa faina, partilhar das vossas tormentas 
Chegar como vós, enfim, a extraordinários portos! 
Fugir convosco à civilização! 
Perder convosco a noção da moral! 
Sentir mudar-se no longe a minha humanidade! 
Beber convosco em mares do Sul 
Novas selvajarias, novas balbúrdias da alma, 
Novos fogos centrais no meu vulcânico espírito! 
Ir convosco, despir de mim - ah! põe-te daqui pra fora! - 
O meu traje de civilizado, a minha brandura de ações, 
Meu medo inato das cadeias, 
Minha pacífica vida, 
A minha vida sentada, estática, regrada e revista! 

No mar, no mar, no mar, no mar, 
Eh! pôr no mar, ao vento, às vagas, 
A minha vida! 
Salgar de espuma arremessada pelos ventos 
Meu paladar das grandes viagens. 
Fustigar de água chicoteante as carnes da minha aventura, 
Repassar de frios oceânicos os ossos da minha existência, 
Flagelar, cortar, engelhar de ventos, de espumas, de sóis, 
Meu ser ciclónico e atlântico, 
Meus nervos postos como enxárcias, 
Lira nas mãos dos ventos! 
(…)
[Álvaro de Campos, Ode Marítima (excerto)]
[esta é a terceira de cinco ilustrações (de excertos) de Ode Marítima. A segunda está aqui. A quarta, aqui]
foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 65

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ODE MARÍTIMA
(…)
Ah, todo o cais é uma saudade de pedra! 
E quando o navio larga do cais 
E se repara de repente que se abriu um espaço 
Entre o cais e o navio, 
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente, 
Uma névoa de sentimentos de tristeza 
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas 
Como a primeira janela onde a madrugada bate, 
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa 
Que fosse misteriosamente minha. 

Ah, quem sabe, quem sabe, 
Se não parti outrora, antes de mim, 
Dum cais; se não deixei, navio ao sol 
Oblíquo da madrugada, 
Uma outra espécie de porto? 
Quem sabe se não deixei, antes de a hora 
Do mundo exterior como eu o vejo 
Raiar-se para mim, 
Um grande cais cheio de pouca gente, 
Duma grande cidade meio-desperta, 
Duma enorme cidade comercial, crescida, apoplética, 
Tanto quanto isso pode ser fora do Espaço e do Tempo? 
[Álvaro de Campos, Ode Marítima (excerto)]
[esta é a segunda de cinco ilustrações (de excertos) de Ode Marítima. A primeira está aqui. A terceira, aqui]
foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 64

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ODE MARÍTIMA
(…)
Toda a vida marítima! tudo na vida marítima! 
Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina 
E eu cismo indeterminadamente as viagens. 
Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte! 
Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas! 
As solidões marítimas, como certos momentos no Pacífico 
Em que não sei por que sugestão aprendida na escola 
Se sente pesar sobre os nervos o fato de que aquele é o maior dos oceanos 
E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós! 
A extensão mais humana, mais salpicada, do Atlântico! 
O Índico, o mais misterioso dos oceanos todos! 
O Mediterrâneo, doce, sem mistério nenhum, clássico, um mar para bater 
De encontro a esplanadas olhadas de jardins próximos por estátuas brancas! 
Todos os mares, todos os estreitos, todas as baías, todos os golfos, 
Queria apertá-los ao peito, senti-los bem e morrer! 

E vós, ó coisas navais, meus velhos brinquedos de sonho! 
Componde fora de mim a minha vida interior! 
Quilhas, mastros e velas, rodas do leme, cordagens, 
Chaminés de vapores, hélices, gáveas, flâmulas, 
Galdropes, escotilhas, caldeiras, coletores, válvulas; 
Caí por mim dentro em montão, em monte, 
Como o conteúdo confuso de uma gaveta despejada no chão! 
Sede vós o tesouro da minha avareza febril, 
Sede vós os frutos da árvore da minha imaginação, 
Tema de cantos meus, sangue nas veias da minha inteligência, 
Vosso seja o laço que me une ao exterior pela estética, 
Fornecei-me metáforas imagens, literatura, 
Porque em real verdade, a sério, literalmente, 
Minhas sensações são um barco de quilha pro ar, 
Minha imaginação uma âncora meio submersa, 
Minha ânsia um remo partido, 
E a tessitura dos meus nervos uma rede a secar na praia! 
[Álvaro de Campos, Ode Marítima (excerto)]
[esta é a primeira de cinco ilustrações (de excertos) de Ode Marítima. A segunda está aqui]
foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 63

Paz nas montanhas, meu alívio certo.
O girassol do mundo, aberto,
E o coração a vê-lo, sossegado.
Fresco e purificado,
O ar que se respira.
Os acordes da lira
Audíveis no silêncio do cenário.
A bem-aventurança sem mentira.
Asas nos pés e o céu desnecessário.
[Miguel Torga. Gerês, 1 de agosto de 1953]

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Gerês, 3 de agosto de 1953 – A serra a queimar como uma fogueira de pedra. Mas ardo nela com a fanática devoção das viúvas indianas na pira da fidelidade. O pouco que sou devo-o às fragas. Foi a pisá-las que aprendi a conhecer a dureza do mundo e a admirar o ímpeto que se não resigna à lisa sonolência duma paz interior espalmada. A inquietação da terra vê-se nos montes. Sem eles, quem daria aos homens o permanente exemplo de sublevação natural que há no espírito da própria vida?
[Miguel Torga, in Diário VII]

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 62

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NOITE APRESSADA
Era uma noite apressada 
depois de um dia tão lento. 
Era uma rosa encarnada 
aberta nesse momento. 
Era uma boca fechada 
sob a mordaça de um lenço. 
Era afinal quase nada, 
e tudo parecia imenso! 

Imensa, a casa perdida 
no meio do vendaval; 
imensa, a linha da vida 
no seu desenho mortal; 
imensa, na despedida, 
a certeza do final. 

Era uma haste inclinada 
sob o capricho do vento. 
Era a minh'alma, dobrada, 
dentro do teu pensamento. 
Era uma igreja assaltada, 
mas que cheirava a incenso. 
Era afinal quase nada, 
e tudo parecia imenso! 

Imensa, a luz proibida 
no centro da catedral; 
imensa, a voz diluída 
além do bem e do mal; 
imensa, por toda a vida, 
uma descrença total! 
[David Mourão-Ferreira, in À Guitarra e à Viola]

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 61

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E TUDO ERA POSSÍVEL
Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido 
Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido 
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer 
Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer
[Ruy Belo, in Homem de Palavra[s]]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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