TRUMP(A)

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EX-CITAÇÕES * 134. envelhecer

Depois dos noventa as pessoas já não envelhecem como depois dos cinquenta ou sessenta. Envelhecem sem ressentimento. O rosto de Nini estava enrugado e rosado -- as matérias muito nobres envelhecem assim, como as sedas de centenas de anos em que uma família teceu toda a sua habilidade manual e os seus sonhos.

[Sándor Márai. As velas ardem até ao fim. Alfragide: D. Quixote, 24ª ed., 2012, p. 13]

escrito por ai.valhamedeus

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EX-CITAÇÕES * 133. religiões à parte


A propósito do texto do ai.valhamedeus: os caminhos de deus, lembrei-me deste excerto de um texto que li recentemente, sobre a preocupação dos ingleses em quererem distinguir entre a respeitável palavra Islão e a condenável palavra Islamismo.

Eu, é claro, respeito todas as religiões (não vá o diabo tecê-las). Que é como quem diz, desconfio de todas. Dá-se-lhes confiança e transformam-se logo em ismo. Por isso, se tem de haver religiões, quantas mais houver melhor para todos. Fica a ser como se não houvesse nenhuma. Como no Brasil, que é um país pagão porque há divindades diferentes para tudo. O mal é quando se quer que cada religião seja a única e se procura impor a verdade absoluta de cada uma delas. Nisso o Pessoa tinha toda a razão. Ou o Ricardo Reis, que se calhar foi por isso que foi para o Brasil e, como Saramago mostrou, voltou de lá um homem transformado.
[Hélder Macedo, escritor]

escrito por Gabriela Correia, Faro (a 28 de Junho de 2013, véspera do dia de S. Pedro, para quem andar distraído do calendário e/ou do Borda D´Água)

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EX-CITAÇÕES * 132. é a greve!

A proximidade do final do ano lectivo deveria sugerir um balanço. Mas o estado de alerta permanente, a excepção, o susto, a incerteza vão minando tudo, rarefazendo o horizonte das vidas, dos trabalhos, dos dias. 
Agora que celebramos os cem anos de Albert Camus, apeteceria relembrar um célebre dito do autor --  “É preciso imaginar Sísifo feliz!” (…)

(…) Seria preciso imaginar Sísifo com sua pedra – o seu trabalho, o seu arrimo vital –, mas nem isso nos é já permitido, e os mais precavidos vão antecipando, gravemente, uma reedição de 2007. Ano em que a ilustrada, desenvolta e ´corajosa´ (conheço outro nome para a virtude assim descrita) Maria de Lurdes Rodrigues concursou a titularidade Professional.

Este ano, lá para o Outono, está prometido mais um ciclo de despedimentos na Administração Pública, de novo centrado nos professores e nas escolas, sob a forma de recondução a uma simulada reconversão profissional. Entre os professores, há que ser claro, a coisa tem um nome: exclusão, sem critério, e às ordens das suseranias locais, de professores de quem nem o trajecto profissional nem as qualificações serão escrutinadas, a exemplo do que sucedeu em 2007. (…)

(…) Orwell, falando sobre a guerra, explicou, em página célebre, que o segredo no campo de batalha é não ver o humano no inimigo. Camus contava que um alto dignitário do regime nazi – Himmler? – entrava em casa pelas traseiras para não acordar o canário. E muitos outros são os exemplos de insensibilização face ao humano. (…)

A minha tese é a de que a maioria dos detentores de cargos públicos electivos (directa ou indirectamente, mediante cooptação ou outra forma de designação tributária, porém de eleição, para servir também o geométrico ministro Gaspar) não conhece o significado e o valor civilizacional – para não acrescentar o pendor marcadamente racional, que não apenas sentimental – da cooperação. É que, com isso, querem um país reduzido a uma disputa infrene entre grupos dissidentes. Da liberdade, da lei, da mera decência. Já lá estamos.
[João Santos. In Escrever nas Margens]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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EX-CITAÇÕES * 131. oportunidades e omissões do Estado mínimo

Foi em 1955 que, num artigo que ficaria célebre -- the role of government in education --  Milton Friedman articulou pela primeira vez, em linguagem de economista, o discurso de privatização, na forma da defesa do voucher ou cheque-educação.

(…) MARCA LIBERDADE DE ENSINO

Mas o mesmo já não se passa com todos os que estão in it-just for the Money, como se diz na canção. Com esses, mais ou menos religião ou liberdade de aprender e de ensinar, é só uma questão de oportunidade: se a marca vende, porque não?

De tal forma que são cada vez mais raros os que praticam a adesão intelectual a uma doutrina, substituídos por uns bem mais pragmáticos académicos prêt-à-porter : desses que admitem qualquer coisa, desde que não muito empenhada, coerente ou persistentemente. Mesmo que provenham da Universidade Católica, tornada popularmente, nolens volens, uma espécie de emblema da velha ortodoxia goldman sachs no domínio da ciência económica.

O jogo que se avizinha envolve, ademais, um género de parceiros que encontraremos em todas as privatizações que o poder do dia ensaiar: políticos profissionais, com assento em parlamentos e autarquias, legisladores interessados, banqueiros inventores de “produtos” para a educação: desde programas de endividamento para a vida, propostos a licenciandos e mestrandos, até, por que não, “planos de resgate” de escolas públicas, em que se trocará o valor do terreno mais edifícios por todos os servos da gleba que lá exerçam, na condição de se poder modificar, a bel-prazer, os termos da servidão e, mais tarde, mas não muito mais, determinar o encerramento por mudança de ramo, deixando ao Estado a incumbência de criar uma oferta residual adequada. Porque disto os privatizadores nunca se esquecerão: o Estado tem de ficar com o que a iniciativa empreendedora não quer: os pobres e as dívidas.
[João Santos – ESCREVER NAS MARGENS]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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EX-CITAÇÕES * 130. por um défice mais feliz

…”Os governos deveriam zelar pela felicidade dos cidadãos. Uma ideia básica que, hoje em dia, é tida como irresponsável, só porque não dá bons resultados na folha do Excel. (…) 

E se não é rentável ter filhos, tão pouco é ter velhos, que só dão prejuízo e ainda escrevem cartas às Juntas de Freguesia. Muito menos doentes, que nem cartas escrevem; para não falar dos desempregados que, aprofundando a lógica, deviam morrer à míngua e assim aliviar as taxas que tanto preocupam os nossos parceiros europeus. Se o avô não dá lucro, atira-se pela janela.

Defenestrar avós não é permitido por lei. À sociedade resta algum bom senso e respeito pelos valores básicos. E mesmo a actual política não prevê tal acto, (…)

 Há uma cegueira de curto prazo, da lógica imediata, que invalida saídas futuras.(Por ex: a saída do governo?) Esta lógica não só compromete o médio e o longo prazo como, por absurdo, inviabiliza a eficácia no prazo mais curto. Na Bélgica, há já muitos anos, resolveram iluminar as auto-estradas. (Eu sou testemunha: era uma profusão de candeeiros, um ambiente feérico, a perder de vista; tinha a minha filha 4 anos. Já tem 31. É só fazer as contas).

Através de um estudo, chegaram à conclusão de que a melhoria das condições de segurança na via compensava financeiramente, poupando-se não só em vidas humanas como em tratamentos hospitalares. Por cá desinvestem na saúde, nos transportes, na educação, na cultura, sem que se apercebam de que a médio e longo prazo o prejuízo (mesmo o financeiro) será altíssimo. O problema não é da folha de Excel, mas sim da fórmula utilizada.
[Manuel Halpern]


escrito por Gabriela Correia, Faro

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EX-CITAÇÕES * 129. bancos e famílias

Os bancos financiam-se; as famílias, endividam-se.
[Ricardo Araújo Pereira, em programa televisivo]

escrito por ai.valhamedeus

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EX-CITAÇÕES * 128. ...os professores versus os professores

D. Dinis prestou especial atenção à educação do reino, criando um local para semear almas: fundou a primeira universidade do país. Para que estas almas dessem bons frutos, isentou de impostos os alimentos destinados a professores e estudantes. (Agora há professores a recorrerem ao Banco Alimentar, conforme notícia na RTP) A importância destes está bem patente numa lei que autorizava a sua permanência nas ruas para além do recolher obrigatório, ou seja, podiam circular depois do sino da Sé tocar no fim do dia. Tinham, no entanto, de trazer consigo uma lanterna, para que pudessem ser bem identificados.
[In “A Vida Louca dos Reis e Rainhas de Portugal”]
…Nos primeiros tempos de Salazar, os professores, na sua maioria republicanos, foram substituídos por regentes escolares, que ensinavam a ler, escrever e contar e, na verdade, pensava-se que, quanto muito, era isso que os portugueses deviam saber. O que se passa agora? O consumidor precisa de ler Camões e Os Lusíadas, a mitologia? Não. Basta que conheça o vocabulário elementar que lhe permita compreender um anúncio. A pobreza, a miséria vocabular, em que estão encurralados e enclausurados os portugueses é da mesma natureza do ler, escrever e contar que Salazar entendia que bastava para o povo. …
[Mário de Carvalho, escritor e advogado]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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EX-CITAÇÕES * 127. ...o café dos motards e manuel maria carrilho

Preâmbulo:

A ida ao café dos meus caríssimos vizinhos, o Moto clube de Faro (onde a bica se mantém a 50 cêntimos), e a conversa escutada: um amigo meu disse-me que vamos piorar sempre durante os próximos 4 a 5 anos. Pois eu acho que nunca mais nos endireitamos; o que nos foi roubado nunca mais nos irá ser devolvido, fez-me lembrar a leitura desta entrevista:
P: Em Portugal, Passos Coelho aguenta até quando?

MMC: Com os erros todos que tem feito, vai ter muitas dificuldades. Não percebe o que é o memorando, que é uma factura de um empréstimo. Ele entusiasmadamente falou sempre em ir além do memorando. É onde estamos.

… Cavaco Silva é um dos responsáveis pela crise de 2011.

… E há um ponto que é muito importante, quando se esgravata um bocadinho a capa dos problemas que temos, vai-se encontrar decisões de Cavaco Silva. Quando começaram as Fundações? Quem fez a aposta do betão? A desvalorização da qualificação? A grande promoção das universidades privadas de quem foi?

… É de um provincianismo total, de um parolismo total, o modo como este governo fala das questões europeias…

A ideia que preside é a de que vamos empobrecer sempre, isto é completamente decisivo.


escrito por Gabriela Correia, Faro

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EX-CITAÇÕES * 126. ...os perigos da internet

Vimos que [a Internet] é uma poderosa ferramenta que foi utilizada nas revoluções de veludo.
[Ministro iraniano das Telecomunicações, Reza Taghipur. Fevereiro/2012]
A Internet converteu-se no inimigo número um dos censores iranianos.
[Hadi Ghaemi, da Campanha Internacional pelos Direitos Humanos no Irão. Fevereiro/2012]

escrito por ai.valhamedeus

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EX-CITAÇÕES * 125. ...pólvora à valenciana

A pretexto das cargas policiais sobre as manifestações estudantis em Valência, escrevia Manuel Vicent, no El País de 26/2/2012:

A adolescência é uma idade complicada, cheia de turbulências, fácil de manipular em alguns casos, mas ao longo da vida destes escolares não haverá mais um tempo em que a sua ira seja tão limpa, desinteressada e arrojadiça. Para eles a injustiça não é uma ideia abstrata. Sofrem-na cada dia nos institutos e escolas públicas degradados, na deterioração dos bairros onde crescem em geral sem outra saída que não seja a de exprimir as suas neuras com spray nos muros. [...] Ao contrário do movimento do 15-M, a cólera destes estudantes não deriva de um mal-estar difuso que pode encher de pancartas e gritos uma praça para se dissolver pouco depois no ar. A sua rebeldia já é um poder que se canaliza e se desenvolve nas salas e pátios do Ensino Público, um âmbito cada dia mais irrespirável. Há que conhecer Valência. Nessa terra dão-se as fricções ideológicas mais violentas. Engana-se quem pense que se trata de uma sociedade arrebanhada, conformista e paelheira, pelo facto de ter dados três maiorias absoluta a uma direita que se tem movido à sua vontade entre o esbanjamento provinciano e a corrupção impune. Debaixo desse conformismo há muita pólvora acumulada.  
escrito por ai.valhamedeus

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EX-CITAÇÕES * 124. ...de doidos

Este país em que vivo está a ficar doido. Cheguei a pensar que seria da fome provocada pela austeridade, mas desisti da hipótese: neste caso, os doidos são gente com massa suficiente para não passar fome.



  • A deputada do PSD, Teresa Leal Coelho, referiu, no debate das moções de censura do BEe do PCP, que é a troika que paga essas discussões e não um "Moscovo Soviético". E insistiu na asneira, com referências à queda do muro de Berlim. Não sei se esta gaja está doida (provavelmente, está); agora...que não vê boi disto (da História, das ideologias que alimentam o Bloco, etc., etc.), não vê.
  • O economista João Duque (lembram-se dele, aqui há uns meses atrás?) diz que o atual governo "é mais esquerdista" que comunistas e bloquistas. E, para que não haja dúvidas, insiste: "É um Governo que está muito à esquerda do Bloco de Esquerda e talvez seja esse o problema do Bloco".
  • O Gaspar das Finanças, referindo-se à manifestação de 15 de Setembro, sublinhou que o povo português "é o melhor do mundo". Bem... neste caso, o Gaspar (que, segundo se diz por aí, fala monocordicamente devagar porque está sempre a fazer a tradução simultânea do que Merkel lhe escreveu) não é doido: é cínico.

escrito por ai.valhamedeus

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EX-CITAÇÕES * 123. qualquer semelhança...

...com a situação actual não é pura coincidência.

E querendo António de Faria embarcar, se quis despedir primeiro do ermitão…, dizendo que lhe pedia muito pelo amor de Deus que se não escandalizasse (o roubo da prata que se achava nos caixões de mistura com os ossos dos finados e que estavam à guarda do ermitão), porque lhe certificava que a muita pobreza em que se via o fizera fazer aquilo, que na verdade não era de sua condição… pelo que levava determinado ir-se logo por esse mundo a fazer tanta penitência quanta entendia que lhe era necessária para satisfação de tamanho crime. 
Ao que o ermitão respondeu: 
-- Praza ao Senhor que te não faça mal entenderes tanto dele quanto mostras nessas palavras. Porque te afirmo que muito maior perigo corre o que isto entende se faz más obras, que o ignorante sem lei a quem a falta de entendimento está desculpando com Deus e com o mundo. 
Aqui se quis intrometer na conversa um dos nossos de nome Nuno Coelho e lhe disse que se não agastasse por tão pouco. A quem ele (ermitão) respondeu: 
-- … E se queres mais prata, como mostras na sede de tua cobiça, para com ela acabares bem de encher o fardel do teu infernal apetite, nessoutras casas acharás com que bem te enchas até arrebentares… 
E tornando o Nuno Coelho a replicar que lhe rogava que tomasse tudo em paciência, porque assim o mandava Deus em sua santa lei, o ermitão, pondo a mão na testa a modo de espanto, … lhe respondeu: 
-- Certo que agora vejo o que nunca cuidei que visse nem ouvisse: maldade por natureza e virtude fingida, que é furtar e pregar! …
[Fernão Mendes Pinto. In Peregrinação, Livro Três, Cap. LV A LXXIX, pp. 105 /106]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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EX-CITAÇÕES * 122. contra a mansidão, a dureza

Crato vai estatelar-se e perder-se no labirinto que criou para o ano-lectivo próximo. Perdidos tantos outros, é o tempo propício para um novo discurso político, orientador e agregador da classe. A quem fala manso e age duro, urge responder com maior dureza. Lamento ter que o dizer, mas há limites para tudo. Como? Assim a classe me ouvisse. Crato vergava num par de semanas.
[Santana Castilho. Uma classe zombie e um ministro bárbaro. In Público, 18/07/2012). Negrito meu]

escrito por ai.valhamedeus

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EX-CITAÇÕES * 121. a mais vilipendiada classe

[... a] mais desventurada e vilipendiada classe profissional é a dos professores. Resumindo bastante uma longa história, podemos dizer que os professores estão desde há bastante tempo sujeitos a estas duas regras que não passam de alíneas nos tratados de domesticação: fazer com que a sua legitimidade não tenha uma fonte mais elevada — por exemplo, o saber, algo que não move nem comove a escola atual — do que a dos próprios gestores do ministério; fazer com que eles não acedam a nenhuma espécie de autonomia. Deste modo, se outrora o tempo de trabalho do professor se dividia entre o tempo controlado e o tempo autónomo, hoje todo o seu tempo de trabalho é controlado (à hora, aliás). A única autoridade que conta hoje na escola é de ordem administrativa. 
[António Guerreiro. Os exames e a comédia do rigor. In Atual (Expresso), 14/07/2012). Negrito meu]

escrito por ai.valhamedeus

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EX-CITAÇÕES * 120. graça moura

… As duas experiências que, por razões muito semelhantes, mais me marcaram foram os dez anos na IN/CM, e os oito como comissário das comemorações dos 500 anos dos Descobrimentos… Se as vacas não eram gordas, não eram esquálidas como são hoje… E eu, que sempre fui contra os subsídios e apoios, penso que neste momento a cultura pode estar em risco de morrer pela sua falta. Porque a sociedade civil, agora, não está em condições de o fazer… isso pode gerar obrigações especiais para o Estado. Porque é um caso de força maior. … E isto pode implicar, por exemplo, a morte do cinema português. Já não se trata de centralismo beneficente, que corresponde a uma certa mendicância de apoios, como aconteceu durante muito tempo, mas sim a uma situação objectiva, incontrolável, que determina a necessidade de intervenções de outro tipo…. 
… Acho que a cultura em Portugal nunca tem as dotações suficientes, sequer para aquilo que sempre pensei que o Estado deve fazer no plano do património, da divulgação da nossa cultura, da sua relação com a escola. Então no que diz respeito ao património edificado tem sido clamoroso. …
… Quando me convidaram para gerir o CCB achei que não tinha nada a perder, e aceitei. …
[Vasco Graça Moura]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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EX-CITAÇÕES * 119. a crise (na mouche!)

A crise não é global. Não se sente em alguns dos territórios que frequento. Enquanto escritor sofro com a crise em Portugal, por causa da brutal queda de vendas dos livros. Todavia, no Brasil, onde passo cada vez mais tempo, não existe crise no livro. Há uma multiplicidade de festivais literários, e todos os projectos prosperam. Nunca senti uma energia tão boa.

Em Angola, a situação é confusa. Assiste-se a um crescimento económico, mas com poucos reflexos na vida cultural. É um crescimento torto, que despreza a educação e a cultura. Um crescimento sem futuro.
[José Eduardo Agualusa]

Como elas fazem jeito para fazer regredir direitos e conquistas políticas e sociais. Como fazem jeito para adiar esperanças e esvaziar utopias.
[Mia Couto]

Estamos a regressar aos anos 50, 60. Voltaram os discursos radicais e as vagas de emigração. E a direita impõe-se com força. A crise está aí e terá consequências nefastas, incluindo a perda da liberdade.
[Juan Marsé]

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EX-CITAÇÕES * 118. maria joão e o algarve


P: Conte-nos os seus planos para o Verão de 1994.
R: O Forte de Cabanas, dos meus generosíssimos amigos Teresa e António Baião do Nascimento. 
P: O que é para si o final de tarde perfeito de um dia muito quente?
R: A preguiça, o tinir do gelo nos copos, as cores da areia, do mar e do céus vistos das muralhas do Forte de Cabanas. Os amigos à volta. A chegada do primeiro mocho da noite.
P: A artista brasileira Cristiane Torloni, depois de regressar ao Brasil, afirmou ao jornal "Globo": "Santana Lopes faz política barata (...). Em Portugal não se pode sonhar e agora entendo o índice de viciados em heroína." Quer comentar?
R: Consta que o meu amigo arquitecto Manuel Vicente, há muitos anos de poiso em Macau, diz o seguinte das hordas de amigos e conhecidos que, por lá passando, se abeiram e instalam em sua casa:  
"Comem-nos a carne assada
bebem-nos a aguardente 
cagam-nos a casa toda 
e ainda vão dizer mal da gente."
P: Há uma geração rasca em Portugal? E, se existe, como se comporta essa geração quando o calor aperta?
R: Há. Têm entre 35 e 55 anos e. quando o calor aperta, prometem-nos mais fundos.
P: Do Minho ao Algarve, escolha a praia que privatizaria só para si, para a sua família e para os seus amigos.
R: Cabanas.
P: Conhece o Alentejo profundo? E o Pulo do Lobo? E então?
R: Não. Não. Então é assim, não conheço. 
P: O que é que a irrita profundamente?
R: O Cavaquistão. 
P: Descreva-nos o seu dia ideal de férias. Praia ou campo? Ou cidade?
R: O mar. Tudo o que tenha a ver com o mar, no mar, ao pé do mar. 
P: Na costa portuguesa recomende-nos um restaurante à beira-mar para um jantar de arromba. Recomende e justifique.
R: O Capelo, em Santa Luzia. As amêijoas, os linguados, as escamas, as conchas todas do mar.  
P: Há 20 anos, vivia-se o primeiro Verão pós-25 de Abril. Lembra-se como e onde o passou? E com quem? E quais eram as suas preocupações?
R: Entre Lisboa e Olhos de Água. Com a tribo de sempre. Mais o major Vítor Alves, ministro sem pasta, com quem fui trabalhar em Julho. Que o MFA ganhasse em todas as frentes. Que o fim da guerra colonial e a independência das colónias fossem sem recuo.
[citações de "entrevista" de Maria João Seixas ao Público de 9/jul/1994. Negritos meus]

escrito por ai.valhamedeus

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EX-CITAÇÕES * 117. a obra de maria

Para os meus lados quando se fazem porções desiguais costuma-se dizer:“Tudo para Jesus e Nada para Maria”. A frase tem o seu fundamento: as escrituras sagradas, especialmente na aventura da natividade, são desequilibradas na distribuição de papéis. O filho brilha por si mesmo mais do que pela escolta de uma estrela; José toma algumas decisões difíceis inspirado em sonhos por oportunas instruções angélicas; Maria, pelo contrário, é um corpo emprestado pela natureza à providência. Fica grávida antes de habitar com o seu marido, uma falha que aos olhos do mundo a faria passar por adúltera, punível com lapidação. Na agitação dos acontecimentos a narração sagrada segue José, os seus escrúpulos, a dúvida dolorosa, diluída enfim por um sonho.
Erri de Luca, in Caroço de Azeitona
Fonte: Diário 2012, 25 de Março, Dia da Anunciação
Ed. Assírio & Alvim

escrito por Gabriela Correia, Faro

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EX-CITAÇÕES * 116. professores e cinema

Dia 28 de Fevereiro -- consideravelmente monótono, preenchido com tarefas administrativas como a distribuição de serviço docente para o próximo ano lectivo -- para breve um primeiro esboço de horário -- e a análise dos pedidos de mudança de disciplina dos alunos de licenciatura. Se a investigação é uma dimensão pouco visível da vida profissional de um docente universitário, esta outra quase passaria por secreta. Deveria desconfiar-se de todos os que afirmam que é só dar pouco mais de meia dúzia de horas de aulas por semana.

Não invejo os professores do básico e secundário, com mais para leccionar e sem a componente mais desafiante que é a pesquisa. 

… A propósito dos Óscares deste ano: não foi o digital nem qualquer outra inovação técnica que matou o cinema; foi a indústria que se suicidou. 

[Jorge Martins Rosa, 39 anos, professor do Departamento de Ciências da Comunicação da FCSH - UNL]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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EX-CITAÇÕES * 115. os feriados, a opinião

…A questão dos feriados criou condições favoráveis a um saudável debate sobre um tema cívico e cultural que poderia levar os portugueses a reflectir sobre o seu passado, o seu presente e o seu futuro. Infelizmente, não se passa assim e apenas se amontoam opiniões…

… os regimes liberais “democráticos”, onde se afirma afinal o poder da opinião dos que têm acesso a ela e não dos que estudam maduramente a realidade ou as suas representações. Há alguns anos atrás ainda vimos surgir o magistério dos que mais estudaram os temas, mas em breve, nesta lógica neoliberal, ele foi substituído pela força dos que têm possibilidades de opinar, inseridos no sistema do sensacionalismo jornalístico. E opinam sobre tudo: sobre política, economia, educação, futebol ou feriados.

… o 1º de Dezembro de 1640 se hoje é mais “uma data sem memória”- simples holiday bank, à maneira inglesa, em que não se fazem negócios (fazem sim nos centros comerciais, onde sempre se fazem) e os bancos estão fechados -- é  porque os governos não têm sabido(nem desejado) despertá-la, entretidos que andaram, e andam, primeiro, em deixar aprofundar e, depois, depois, em tentar superar a dívida soberana, de que são os principais responsáveis, com a sua velha política renovada e modernizada de clientelismo e de laissez faire, laissez passer

Por sua vez, confinar o 5 de Outubro (de que mal se acabou de se celebrar o Centenário, com certo impacto cultural e social) à formação da República jacobina e à “preparação do Salazarismo”, como faz Vasco Pulido Valente, é entrar por uma via simplista e finalista da história… 

…a história tem de ser entendida na sua complexidade e no seu momento. O grito republicano, como o grito liberal de 1820 e como o grito democrático de 25 de Abril de 1974, foi, sobretudo, um momento de idealismo, afirmado em muitos aspectos da vida portuguesa…. 

… a crise da Democracia a que assistimos é culpa da Democracia ou dos falsos democratas, dos carreiristas, dos “políticos profissionais” sem ideal e sem pátria?... 

…o certo é que terminar com feriados significativos, em nome da economia e da produtividade, é entrar pela mais lamentável das argumentações. Do mesmo tipo que tem justificado a crise da classe média, o desemprego e a profunda crise social em nome da solvência da dívida soberana a todo o custo ou que, noutro sentido, justifica pagamentos milionários de certos gestores… 

…constatamos que é um país doente aquele em que vivemos. A prova dessa enfermidade – que é sobretudo cultural – é que alegadamente se quer salvar a economia matando a História, esquecendo, por exemplo, que países produtivos, como a Finlândia ou o Japão, têm maior número de feriados do que Portugal. E por certo não ousariam extingui-los em nome da economia. 

[Luís Reis Torgal]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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