TRUMP(A)

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POIS!... [estórias exemplares] -21-stress assim, sim!

Sexta-feira, dia 13 de Junho, fui a Mértola com um amigo. Tinha ponto de encontro num café da Vila

(claro que não no Museu Islâmico ou na biblioteca).
O café é mesmo na rotunda grande que fica à entrada da Vila para quem vem de Beja. Eram 12,40h. Íamos almoçar aos Corvos, a uma … pizaria
(não se deixem enganar pelo nome).
Avisto, sentado num banco, à sombra de uma árvore, o meu amigo Luís Capelo. Chamei-o.
-- Luís, vamos beber um copo?
O Luís é de uma povoação, os Salgueiros, distante 18 kms de Mértola. O Luís levantou-se, caminhou com dificuldade, uma vez que os seus quase 200 kgs não lhe deixam muita ligeireza nas suas deslocações, e lá entrámos no café.
-- Então, amigo Luís, que fazia ali?
perguntei.
-- À espera da camioneta para os Salgueiros.
-- Veja lá se perde o transporte...
-- Não. É só às 5!
Stress este, punhefla!

escrito por Carlos M. E. Lopes

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POIS!... [estórias exemplares] -20-Dalai Lama

A coisa passou-se hoje.

Na tasca onde costumo almoçar, uma apresentadora da Sic apresentava na tv as principais tragédias das últimas horas nacionais e internacionais. Uma "caixa de texto" destacava a notícia então em desenvolvimento: secamente, anunciava "Dalai Lama em Lisboa".

O meu vizinho de mesa pousou o copo meio vazio de tinto e publicamente manifestou a admiração : "já viram isto?! como é que estes metrologistas conseguem adivinhar tudo?! eles bem disseram ontem que hoje ia haver muita chuva... E lá está ela: muita lama em Lisboa. Carago! Qualquer dia sabem mais que Deus!..."

[nb: esta estória não tem muita graça, reconheço. Mas é real -- e o que é real...]

escrito por ai.valhamedeus

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POIS!... [estórias exemplares] -19- O BÊBEDO... ABSTÉMIO

Aníbal e Carlota

[os nomes são fictícios, mas a história é verdadeira. Contava-a o meu pai. Não digo os nomes porque já não me lembro e, além disso, são irrelevantes]
prepararam-se para ir à Feira de São Francisco a Tavira. Eles iam de Santo Estêvão, a capital do barrocal. Mas Carlota avisou solenemente o marido:
hoje não te largo, tração. Hoje não te vais embebedar! Não te largo”.
Se a última parte da sentença se cumpriu, já a de não se embebedar ficou por comprir. É que Aníbal chegou a casa com uma carraspana de alto gabarito. Carlota, avisada e receosa dos ímpetos de Baco, deixou para mais tarde a resolução do enigma. Como é que o seu Aníbal, o desavergonhado do Aníbal, aquela alma sem tino, se tinha embebedado, se tinha andado sempre com ela?! Ela não o tinha deixado. Tinha ido às farturas e ele bebeu um Sumol; tinham almoçado na tasca do Papa-léguas e ele tinha bebido um copinho de vinho, porque ela não tinha deixado mais, apesar das súplicas dele. E tinha bebido porque ficava mal não pedirem nada para beber, uma vez que a comida, tinham-na levado de casa; o resto da tarde andaram juntos como dois amásios em lua-de-mel –– e o desgraçado chegou a casa encharcado, como há muito não o via. Como podia ser, se ela não o viu emborcar nem um copo?!
Oh, Aníbal, más rás te partam, diz-me lá: como te embebedaste ontem em Tavira se andaste todo o dia comigo?
- Oh, mulher, lembras-te quantas vezes fui mijar?
escrito por Carlos M. E. Lopes

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POIS!... [estórias exemplares] -18- GENTE RURAL

Corria o ano de 1976, saímos de Santo Estêvão em demanda de Lisboa. O nosso objectivo era emigrar. Éramos quatro: o Madruga, o Zé Pedro, o Idalécio e eu. O condutor era o Rolandino, que nada tinha que ver com o grupo, era taxista e era contratado.

Saímos da aldeia bem cedo, como era hábito para quem quisesse “governar vida”. Seriam umas cinco da manhã. Queríamos ir para a Austrália. Os outros eram pedreiros ou arrimados, eu não sabia fazer nada. Tinha estudado no Liceu e então nem contabilista

(como o nosso Cavaco),
nem electricista, como os da Escola Industrial.

Estávamos no começo dos vinte anos e queríamos sair daqui.

O grupo era heterogéneo, mas amigos de sempre
(e para sempre).
O pai do Madruga era criador de ovelhas e cabras e seu guardador. A mãe fazia uns queijos maravilhosos. Assim que entrou no carro, o Madruga disse logo que tinha comido um requeijão muito bom. A viagem era atribulada, a serra do Caldeirão era
(e é)
um martírio. São muitas curvas e apertadas. O Madruga não aguentou e, alguns quilómetros depois, já o requeijão da mãe enfeitava o vidro traseiro esquerdo do táxi. Era um cheiro a azedo, ainda que não muito desagradável. “Ai meu rico queijinho”, gemia o Madruga. Em Santo Estêvão era assim e o Madruga não quis dar sinal de fraco. Parámos. Rimos. Nessa altura ríamos de tudo.
O Idalécio era pequeno, vaidoso, poupadinho e um pouco feio
(e ainda é, graças a Deus).
Quando parámos é que vi. O Idalécio ia no banco de trás, no meio, entre o Zé Pedro e o Madruga. Pois o Idalécio ia em cuecas
(naquela altura ainda não havia boxers).
Tinha tirado as calças, dobrado com muito cuidado e posto na parte de trás, para não se amarrotarem. Não queria fazer má figura ao chegar a Lisboa.

Ninguém foi para a Austrália. Foi uma tentativa falhada.

escrito por Carlos M. E. Lopes

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POIS!... [estórias exemplares] -17- O MEU VIZINHO BARBEIRO

Tive um vizinho, durante todo o tempo que vivi naquela casa onde nasci, que era barbeiro, carpinteiro e agricultor. Era uma pessoa sui generis. Vivia perto de duas tabernas, mas nunca o vi beber um sumol sequer. Era poupado, reservado e pouco dado a conversas, apesar de ser barbeiro. O Joaquim dos Reis

(era assim conhecido, sem Sr. nem nada),
não era dado a grandes filosofias nem a tiradas sonantes. Cortava o cabelo, falava de coisas triviais, dava uma mirada à rua pelo canto do olho, entre duas tesouradas, e levava uma vida modesta com a sua Ermelinda. Tinha a oficina numa divisão ainda mais modesta da sua casa, e o salão, amplo, logo à entrada. À esquerda do salão tinha os aposentos reservados para ele, a sua Ermelinda e a filha. A casa tinha um quintal modesto, com duas ou três árvores e cisterna de água. Maravilhosa água que todos invejávamos. É que na minha aldeia não havia água potável, nem em poços. Mas o Joaquim dos Reis tinha a sua cisterna, com água fresca que nos provocava. Nem pensar em pedir-lhe fosse o que fosse.

O Joaquim dos Reis viveu assim desde que o conheci. Há mais de cinquenta anos. A filha, a Felisbela, apesar de mais velha, era a pessoa com quem eu brincava. Brincadeiras inocentes, é bem de ver. Naquele tempo a vida estava para além da minha terra.

O Joaquim dos Reis organizava umas excursões, altura em que ia à minha casa fazer telefonemas para a “à viária”. Coisa que acontecia uma vez por ano. Nunca foi a casa de ninguém, estou em crer, nem ninguém foi a sua casa
(coisa frequente no Algarve litoral).
O homem da casa, era ele que fazia as compras. Era sabido que, no Verão, sempre comprava quatro sardinhas, duas para ele, uma para a mulher e outra para a filha.

Um dia, tinha eu uns seis anos, vi o Joaquim dos Reis a encher uma garrafa grande de granizo, do algeroz, empoleirado em uma escada, no quintal. Tinha chovido e ele queria preservar aquele fenómeno para mostrar ao futuro.

Soube que a Ermelinda terá morrido há dois meses, o Joaquim dos Reis foi a seguir. Discreto, silencioso, como sempre vivera. Não resistiu à ida da sua Ermelinda.

escrito por Carlos M. E. Lopes

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POIS!... [estórias exemplares] -16- A GAIVOTA

Deambulando pela praia, o meu olhar foi atraído para o céu por cima da minha cabeça, ao invés de se ocupar do sítio onde punha os pés, para não ser surpreendida pelos dejectos dos inúmeros (e lindos) cães que se cruzam no nosso caminho, correndo doidos no areal, livres da trela dos donos.

Talvez tenha sido sempre assim, mas naquele fim de manhã serena e azul, o céu pareceu-me pejado de tráfego aéreo, tracejando-o de riscos brancos finíssimos, como se fora com a ajuda de régua e tiralinhas, pesadelo da minha adolescência aprisionada.

Parecia milagre que o entrecruzar de tanta tecnologia, prateada pelo reflexo do sol, não provocasse acidentes fatais nas planuras longínquas do firmamento.

Depois os traços perfeitos começavam a esborratar como chantilly em bolo de fim de festa. Ou desenhos geométricos arruinados pelo tremer da mão ansiosa da minha perdição.

Cansada da observação, e com dores no pescoço, trouxe o olhar cá para baixo, para o campo de visão dos pés, pouco assentes no chão de areia insegura. E vi, claramente vista, uma gaivota jovem (pareceu-me) a preparar conscienciosamente um pequeno peixe, antevendo já o prazer de o deglutir. Veloz, voando do nada, outra gaivota mais velha (afigurou-se-me) em voo picado, aterrou quase em cima da jovem e inexperiente, arrebatando-lhe o almoço, com uma perícia exemplar, e sem cerimónias. A outra nem tempo teve para saber o que lhe estava a acontecer, quanto mais para defender a presa! Ficou-se por ali a remoer o despeito e de papo a dar horas.
Logo outra, da mesma faixa etária, creio, se lhe juntou, solidária. Quedaram-se, amigas, um bom bocado. Quase podia ouvi-la segredar: “ Deixa lá, não fiques triste. Aquela sempre foi assim: uma invejosa e garganeira. Uma calaceira, sempre à espreita, à espera de fisgar o que é dos outros”.

A tentativa de consolo deve ter resultado, pois daí a nada levantaram voo em simultâneo, zarpando a plagas de competição menos feroz.

A que se abarbatara com o peixe alheio ali ficou e, sem competidores, preparou o alimento com cuidados e técnicas ancestrais: com bicadas enérgicas, virando-o ora de um lado, ora do outro, qual cozinheiro escarmentado. Após tratamento adequado e escrupuloso, deu o trabalho por terminado, engolindo o peixe de uma só vez.

De papo literalmente cheio, voou para longe, quiçá à procura de nova presa para mais tarde deglutir.

P.S. Os nutricionistas conscienciosos e preocupados com os nossos estômagos, aconselham-nos a mastigar os alimentos, pelo menos 400 vezes!!

Pois, … é pedir muito.

escrito por Gabriela Correia, Faro

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