TRUMP(A)

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hoje é sábado 347. PRIMAVERA

A Primavera vem dançando
com os seus dedos de mistério e de turquesa
Vem vestida de meio dia e vem valsando
entre os braços dum vento sem firmeza

Nu como a água o teu corpo quieto e ausente
Só este inquieto esvoaçar do teu sorriso
Loiro o rosto o olhar não sei se mente
se de tão negro e parado é um aviso
do destino que me fixa finalmente

Ai, a Primavera vai passando
com os seus dedos de mistério e de turquesa
Segue Primavera vai cantando
Que será do nosso amor nesta praia de incerteza
[Rodrigues, Urbano Tavares, Horas de Vidro, Dom Quixote, Alfragide, 2010, pág. 43]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 346. COM UM PEQUENO CLÍTORIS

Com um pequeno clitóris alto
De súbito crescido
E tumefacto,
Indo explodir no fundo da vagina

Uma rosa poisada
ali no quarto
entre as coxas largadas e sem doçura

Carnívora, ardente e esfomeada
de tudo o que sedento
é já fissura

Uma rosa de seda
de sede
de humidade

Uma rosa de pele
uma ametista breve
um rubi sangrando entre as pálpebras
[Horta, Maria Teresa, Rosa Sangrenta, Nova Nórdica, Lisboa, 1987, pág. 15]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 345. EXÍGUOS ANSEIOS

Não quero o mar.

Quero o instante
Em que o oceano inteiro
Se enrosca numa só onda.

Não quero rios.

Um redondo de lágrimas me basta:
Teus dedos
Recolhendo gaivotas
No raso voo sobre o meu peito.

Eu quero um deserto.
Mas de vastidão mindinha.

Desses que cabem num grão de areia.
[Couto, Mia, vagas e lumes, Caminho, Alfragide, 2014, pág. 25]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 344. O HABITANTE

O habitante
(ao meu pai)

Se partiste, não sei.
Porque estás,
Tanto quanto sempre estiveste.

Essa tua,
Tão nossa, presença
Enche de sombra a casa
Como se criasse
Dentro de nós,
Uma outra casa.

No silêncio distraído
De uma varanda
Que foi o teu único castelo,
Ecoam ainda os teus passos
Feitos não para caminhar
Mas para acariciar o chão.

Nessa varanda te sentas
Nesse tão delicado modo de morrer
Como se nos estivesses ensinando
Um outro modo de viver.

Se o passo é tão celeste
A viagem não conta
Senão pelo poema que nos veste.

Os lugares que buscaste
Não têm geografia.

São vozes, são fontes,
Rios sem vontade de mar,
Tempo que escapa da eternidade.

Moras dentro,
Sem deus nem adeus.

[Couto, Mia, vagas e lumes, Caminho, Alfragide, 2014, pág.14-15]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 100

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VIII

Ah, abram-me outra realidade!
Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos
E ter visões por almoço.
Quero encontrar as fadas na rua!
Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras,
Desta civilização feita com pregos.
Quero viver como uma bandeira à brisa,
Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer! 
Depois encerrem-me onde queiram.
Meu coração verdadeiro continuará velando
Pano brasonado a esfinges,
No alto do mastro das visões
Aos quatro ventos do Mistério.
O Norte — o que todos querem
O Sul — o que todos desejam
O Este — de onde tudo vem
O Oeste — aonde tudo finda
— Os quatro ventos do místico ar da civilização
— Os quatro modos de não ter razão, e de entender o mundo
[Álvaro de Campos]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 99

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VIII

Ah quantas máscaras e submáscaras,
Usamos nós no rosto de alma, e quando,
Por jogo apenas, ela tira a máscara,
Sabe que a última tirou enfim?
De máscaras não sabe a vera máscara,
E lá de dentro fita mascarada.
Que consciência seja que se afirme,
O aceite uso de afirmar-se a ensona.
Como criança que ante o espelho teme,
As nossas almas, crianças, distraídas,
Julgam ver outras nas caretas vistas
E um mundo inteiro na esquecida causa;
E, quando um pensamento desmascara,
Desmascarar não vai desmascarado.
[Fernando Pessoa, in Poemas Ingleses]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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hoje é sábado 343. TESOURO DA PALAVRA

Trago palavras de esperança e são vento
trago vento de ternura e são carinhos
trago do Verbo ideias e pensamento
trago da vida madrigais, rosas e espinhos

Dou-te palavras de fé e são cristais
dou-te cristais de sonhos como oração
dou-te sonhos alados e são meus ais
dou-te a alma liberta e sou perdão

bordo palavras em cor e são teus versos
bordo versos de contas e são como terços
bordo-os em concha e pérolas e são de ouro.

Assim, te ofereço palavras como poemas
rimas em papel de asas viajando penas
palavras tecidas de luz, um eterno tesouro.
[Silva, Calane da, Gotas de sol, a manifestação da palavra, Alcance Editores, Maputo, 1ª edição, 2015, pág. 32]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 98

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Cansa sentir quando se pensa.
No ar da noite a madrugar
Há uma solidão imensa
Que tem por corpo o frio do ar. 
Neste momento insone e triste
Em que não sei quem hei de ser,
Pesa-me o informe real que existe
Na noite antes de amanhecer. 
Tudo isto me parece tudo.
E é uma noite a ter um fim
Um negro astral silêncio surdo
E não poder viver assim. 
(Tudo isto me parece tudo.
Mas noite, frio, negro sem fim,
Mundo mudo, silêncio mudo —
Ah, nada é isto, nada é assim!)
[Fernando Pessoa]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 97

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Acordo de noite, muito de noite, no silêncio todo.
São — tictac visível — quatro horas de tardar o dia.
Abro a janela diretamente, no desespero da insónia.
E, de repente, humano,
O quadrado com cruz de uma janela iluminada!
Fraternidade na noite! 
Fraternidade involuntária, incógnita, na noite!
Estamos ambos despertos e a humanidade é alheia.
Dorme. Nós temos luz. 
Quem serás? Doente, moedeiro falso, insone simples como eu?
Não importa. A noite eterna, informe, infinita,
Só tem, neste lugar, a humanidade das nossas duas janelas,
O coração latente das nossas duas luzes,
Neste momento e lugar, ignorando-nos, somos toda a vida. 
Sobre o parapeito da janela da traseira da casa,
Sentindo húmida da noite a madeira onde agarro,
Debruço-me para o infinito e, um pouco, para mim. 
Nem galos gritando ainda no silêncio definitivo!
Que fazes, camarada, da janela com luz?
Sonho, falta de sono, vida?
Tom amarelo cheio da tua janela incógnita...
Tem graça: não tens luz elétrica.
Ó candeeiros de petróleo da minha infância perdida!
[Álvaro de Campos]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 96

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Bem sei que há ilhas lá ao sul de tudo
Onde há paisagens que não pode haver.
Tão belas que são como que o veludo
Do tecido que o mundo pode ser. 
Bem sei. Vegetações olhando o mar,
Coral, encostas, tudo o que é a vida
Tornado amor e luz, o que o sonhar
Dá à imaginação anoitecida. 
Bem sei. Vejo isso tudo. O mesmo vento
Que ali agita os ramos em torpor
Passa de leve por meu pensamento
E o pensamento julga que é amor. 
Sei, sim, é belo, é luz, é impossível,
Existe, dorme, tem a cor e o fim,
E, ainda que não haja, é tão visível
Que é uma parte natural de mim. 
Sei tudo, sim, sei tudo. E sei também
Que não é lá que há isso que lá está
Sei qual é a luz que essa paisagem tem
E qual o mar por que se vai para lá.
[Fernando Pessoa]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 95

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A minha saudade tem o mar aprisionado
na sua teia de datas e lugares.
É uma matéria vibrátil e nostálgica
que não consigo tocar sem receio,
porque queima os dedos,
porque fere os lábios,
porque dilacera os olhos.
E não me venham dizer que é inocente,
passiva e benigna porque não posso acreditar.
A minha saudade tem mulheres
agarradas ao pescoço dos que partem,
crianças a brincarem nos passeios,
amantes ocultando-se nas sebes,
soldados execrando guerras.
Pode ser uma casa ou uma rede
das que não prendem pássaros nem peixes,
das que têm malhas largas
para deixar passar o vento e a pressa
das ondas no corpo da areia.
Seria hipócrita se dissesse
que esta saudade não me vem à boca
com o sabor a fogo das coisas incumpridas.
Imagino-a distante e extinta, e contudo
cresce em mim como um distúrbio da paixão.
[José Jorge Letria]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 94

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Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres. 

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo! 

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
[Fernando Pessoa]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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hoje é sábado 342. ESTOICISMO

[A Manuel Duarte de Almeida]

Tu que não crês, nem amas, nem esperas,
Espírito de eterna negação,
Teu hálito gelou-me o coração
E destroçou-me da alma as primaveras...

Atravessando regiões austeras,
Cheias de noite e cava escuridão,
Como num sonho mau, só oiço um não,
Que etrnamente ocoa entre esferas...

- Porque suspiras, porque te lamentas,
Cobarde coração? Debalde intentas
Opor à Sorte a queixa do egoísmo...

Deixa os tímidos, deixa os sonhadores,
A esperança vã, seus vãos fulgores...
Sabe tu encarar sereno o abismo!
[Quental, Antero, Sonetos, livraria Sá da Costa, Lisboa, 7ª edição, 1984, pág. 88]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 93

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ANO NOVO
Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa: tudo continua.
Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.
Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento.
[Fernando Pessoa]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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hoje é sábado 341. PIETÀ

Vejo-te ainda, Mãe, de olhar parado,
Da pedra e da tristeza, no teu canto,
Comigo ao colo, morto e nu, gelado,
Embrulhado nas dobras do teu manto.
Sobre o golpe sem fundo do meu lado
Ia caindo o rio do teu pranto;
E o meu corpo pasmava, amortalhado,
De um rio amargo que adoçava tanto.
Depois, a noite de uma outra vida
Veio descendo lenta, apetecida
Pela terra-polar de que me fiz;
Mas o teu pranto, pela noite além,
Seiva do mundo, ia caindo, Mãe,
Na sepultura fria da raiz.
[Torga, Miguel, Diário I, Coimbra, Edição do Autor, 6ª edição, 1978, pág. 124]

Lisboa, Cadeia do Aljube, Natal de 1939 -
Como se fosse ainda em S. Pedro de Roma

escrito por Carlos M. E. Lopes

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 92

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NATAL, E NÃO DEZEMBRO
Entremos, apressados, friorentos, 
numa gruta, no bojo de um navio, 
num presépio, num prédio, num presídio 
no prédio que amanhã for demolido... 
Entremos, inseguros, mas entremos. 
Entremos e depressa, em qualquer sítio, 
porque esta noite chama-se Dezembro, 
porque sofremos, porque temos frio. 

Entremos, dois a dois: somos duzentos, 
duzentos mil, doze milhões de nada. 
Procuremos o rastro de uma casa, 
a cave, a gruta, o sulco de uma nave... 
Entremos, despojados, mas entremos. 
De mãos dadas talvez o fogo nasça, 
talvez seja Natal e não Dezembro, 
talvez universal a consoada.
[David Mourão-Ferreira]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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hoje é sábado 340. SANTO E SENHA

Deixem passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar
Quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada.
Deixem, que vai apenas
Beber água de Sonho a qualquer fonte;
Ou colher açucenas
A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.
Vem da terra de todos, onde mora
E onde volta depois de amanhecer.
Deixem-no pois passar, agora
Que vai cheio de noite e solidão.
Que vai ser
Uma estrela no chão.
[Torga, Miguel, Diário I, Coimbra, Edição do Autor, 6ª edição, 1978, pág. 9]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 91

[Clique na imagem, para a ver maior]
COMO UM FLOR VERMELHA
À sua passagem a noite é vermelha,
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia. 
Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas. 
Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.
[Sophia de Mello Breyner Andresen]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 90

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SONETO DO AMOR DIFÍCIL
A praia abandonada recomeça
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa… 
Mas se na praia a onda se espedaça,
há logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça. 
Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe 
de súbito surgido à flor dos limos.
E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu. 
[David Mourão-Ferreira]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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hoje é sábado 339. ODE SOBRE UMA URNA GREGA

I

Inviolada noiva de quietude e paz,
Filha do tempo lento e da muda harmonia,
Silvestre historiadora que em silêncio dás
Uma lição floral mais doce que a poesia:
Que lenda flor-franjada envolve tua imagem
De homens ou divindades, para sempre errantes.
Na Arcádia a percorrer o vale extenso e ermo?
Que deuses ou mortais? Que virgens vacilantes?
Que louca fuga? Que perseguição sem termo?
Que flautas ou tambores? Que êxtase selvagem?


II

A música seduz. Mas ainda é mais cara
Se não se ouve. Dai-nos, flautas, vosso tom;
Não para o ouvido. Dai-nos a canção mais rara,
O supremo saber da música sem som:
Jovem cantor, não há como parar a dança,
A flor não murcha, a árvore não se desnuda;
Amante afoito, se o teu beijo não alcança
A amada meta, não sou eu quem te lamente:
Se não chegas ao fim, ela também não muda,
É sempre jovem e a amarás eternamente.

III

Ah! folhagem feliz que nunca perde a cor
Das folhas e não teme a fuga da estação;
Ah! feliz melodista, pródigo cantor
Capaz de renovar para sempre a canção;
Ah! amor feliz! Mais que feliz! Feliz amante!
Para sempre a querer fruir, em pleno hausto,
Para sempre a estuar de vida palpitante,
Acima da paixão humana e sua lida
Que deixa o coração desconsolado e exausto,
A fronte incendiada e língua ressequida.

IV

Quem são esses chegando para o sacrifício?
Para que verde altar o sacerdote impele
A rês a caminhar para o solene ofício,
De grinalda vestida a cetinosa pele?
Que aldeia à beira-mar ou junto da nascente
Ou no alto da colina foi despovoar
Nesta manhã de sol a piedosa gente?
Ah, pobre aldeia, só silêncio agora existe
Em tuas ruas, e ninguém virá contar
Por que razão estás abandonada e triste.

V

Ática forma! Altivo porte! em tua trama
Homens de mármore e mulheres emolduras
Como galhos de floresta e palmilhada grama:
Tu, forma silenciosa, a mente nos torturas
Tal como a eternidade: Fria Pastoral!
Quando a idade apagar toda a atual grandeza,
Tu ficarás, em meio às dores dos demais,
Amiga, a redizer o dístico imortal:
"A beleza é a verdade, a verdade a beleza"
— É tudo o que há para saber, e nada mais.
[Keats, John, "Ode Sobre Uma Urna Grega", in Rosa do Mundo, 2001 poemas para o futuro, Assírio & Alvim, Lisboa, 2ª edição, 2001, pág. 1035-1037]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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