TRUMP(A)

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hoje é sábado 336. À NOITE QUANDO A LUA REPOUSA NO OMBRO

à noite quando a lua repousa no ombro
mais chegado à melancolia

a chávena mal se distingue no parapeito
e a peste dos meus versos alastra lá ao fundo
numa abandonada escrivaninha

sou o escravo que repousa do idioma
entregando-se ao inaparente ruído dos insectos
e de mãos tombadas sobre o vazio

vela o descomedido trauma terreal
[Miguel-manso, persianas, Tinta da China, Lisboa, 2015, pág.17]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 335. CADA TACO AFAGADO

cada taco afagado
untado de cera repele
a ruína
que virá

as cortinas do quarto
que alaranjam as paredes
a cama o guarda-fatos

encobrem alguma coisa má

dentro daquela gaveta
dormindo
muito bem guardado está
a ruína que virá

em toda a parte na despensa
no escritório
na varanda no vestíbulo
na garagem

dentro e fora da vedação
do quintal

a ruína, adiada, que virá
[Miguel-manso, persianas, Tinta da China, Lisboa, 2015, pág. 51]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 334. OS AMIGOS

Vamos vendo os amigos cada vez mais longe,
muitas vezes de costas,
a sacudir o espaço dos seus tempos como se entrassem
no mundo pela primeira vez.

São pequenas formações quase desumanas
que às vezes se reconhecem
disformes quase sempre sós e aos pés oculto de todos
corre um rio.

Um rio que nos vai confundindo a vida
e a memória
Que percorre os lugares do júbilo como uma água
aflita e sem regresso.

Quando os olho por dentro no começo da tarde
os amigos cintilam como corpos estranhos
entre os nossos desastres bebemos o anoitecer
e adormeceríamos juntos se soubéssemos.
[Carvalho, Armando Silva, A sombra do Mar, Assírio & Alvim, s/l, 2015, pág. 48]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 333. ALGUMA ETERNIDADE

Um nome é uma vida, um sangue, um coração absoluto,
o estremecer de alguma eternidade.

Tudo tem direito a um nome.
Ate uma lagarta que se move entre a frescura das couves
e os restos amarelos do que já apodreceu,
com todos os seus gestos lentos de cocotte,
não despedaça o seu nome na lama.
A boca de deus chamará
por ela.

Olhai toda a natureza exuberante
que merece o esplendor duma outra nomenclatura.
A não-nomenclatura que existe antes do verbo,
todo esse despertar do mal e bem entre a matéria,
da exaltação da flora desumana,
da língua branca e fria
e glaciar,
da boca aberta da lava,
dos avós asteroides, da desordem do ser e do silêncio,
da igualdade da morte, da monomania
da vida.
Os nomes não queimam o tudo e todos
que a eles têm direito.
É a língua de carne em chamas,
no frio da casa obscura,
feita de nós, por nós, ociosos de deus,
criada de apelos verbais,
pois quem finge que chama, chama para dividir
e reinar,
nunca saberá olhar a sombra do seu próprio monstro,
e ser também a simples partícula do bem
suspenso no vazio do seu nome.
[Carvalho, Armando Silva, A Sombra do Mar, Assírio & Alvim, s/l, 2015, pág. 84/85]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 332. INTERMEZZO

Hoje não posso ver ninguém:
sofro pela Humanidade.
Não é por ti.
Nem por ti.
Nem por ti.
Nem por ninguém.
É por alguém.
Alguém que não é ninguém
mas que é toda a Humanidade.
[Gedeão, António, Poesias Completas (1956 – 1967), 7ª edição, Portugália Editora, Lisboa,1978, pág. 38]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 331. A QUEIXADA

A queixada marca o tempo
neste lugar
a queixada com o seu
furioso mastigar.

É entrar num restaurante
popular
é entrar e ver a queixada
a abrir e a fechar.

À queixada não dão tempo
neste lugar,
não dão tempo nem comida
da que se pode manjar

E a queixada não se queixa
(que outras se vão queixar)
Recebe, esmaga e despacha
a comida por provar

Como lhe falta comida,
carniça boa a sangrar
a queixada, que não é parva
e não pode viver do ar

come tudo o que lhe derem
no restaurante, no bar
uma dobrada singela
ou um frango a engelhar.

Tem é pressa e um vazio
a preencher, a tapar
Neste verso bebe vinho,
neste vai recomeçar…
[O´Neil, Alexandre, Poesias Completas, 1951/1986, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, s/l, 1990, pág.147]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 330. CARPINTARIA

Troco nervo
por nervura.

Destroco
corpo
por madeira.

O sangue,
vegetal,
em seiva
ascende até pétala.

No latejar da gota
vou
de árvores
para tábua
[Couto, Mia, vagas e lumes, Caminho, Alfragide, 2014, pág. 54]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 329. A CONQUISTA DE CACELA

As praças-fortes foram conquistadas
Por seu poder e foram sitiadas
As cidades do mar pela riqueza

Porém Cacela
Foi desejada só pela beleza
[Andresen, Sophia de Mello Breyner, Obra Poética, II, Lisboa, Caminho, 1991, pág. 101]

escrito por ai.valhamedeus

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hoje é sábado 328. EXERCÍCIO ESPIRITUAL

É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer um homem
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem

É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora
[Cesariny, Uma grande Razão, os poemas maiores, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007, pág. 40]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 327. LIVREIRO DA ESPERANÇA

Há homens que são capazes 
de uma flor onde 
as flores não nascem. 
Outros abrem velhas portas 
em velhas casas fechadas há muito. 
Outros ainda despedaçam muros 
acendem nas praças uma rosa de fogo. 
Tu vendes livros quer dizer 
entregas a cada homem 
teu coração dentro de cada livro. 
[Alegre, Manuel, Praça da Canção, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1979 (edição de Bolso), pág. 57]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 326. EIS QUE

Eis que o mundo de ti cai abolido
E tu ficas sozinho e muito longe
Com dois búzios do mar sobre os ouvidos
Ouvindo, só para ti, uma canção
Assim as flores de dentro para fora
Se queimam sob o halo dos perfumes
E voltam para nós os olhos cegos
Estrangeiras a tudo no sabor
Duma substância angélica e terrível.
[Andresen, Sophia de Mello Breyner, Obra Poética I, Caminho, s/l(Lisboa), (2ª edição),, 1991, pág. 177]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 325. VIVER SEMPRE TAMBÉM CANSA

Viver sempre também cansa! 
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada. 
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes. 
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua. 
Tudo é igual, mecânico e exacto. 
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação. 
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida... 
E obrigam-me a viver até à Morte! 
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo? 
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte. 
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela." 
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...
[Ferreira, José Gomes, Poeta Militante, 1 volume, Moraes Editores, Lisboa, 1977, pág. 15]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 324. OS PAPELOTES

Nunca choraremos bastante
termos querido ser belas
à viva força
eu quis ser bela
e julguei que para ser bela
bastava usar canudos
pedi para me fazerem canudos
com um ferro de frisar e papelotes
puxaram-me muito pelos cabelos
eu gritei
disseram-me para ser bela
é preciso sofrer
depois o cabelo queimou-se
não voltou a crescer
tive de passar a andar com uma peruca
para ser bela é preciso sofrer
mas sofrer não nos faz forçosamente belas
um sofrimento não implica como consequência
uma recompensa
uma dor de dentes pode comover a nossa mãe
que para nos consolar sem saber de quê
nos dá um rebuçado
mas o rebuçado ainda nos faz doer mais os dentes
a consequência de um sofrimento
pode ser outro sofrimento
a causa é posterior ao efeito
o motivo do sofrimento é uma das consequências
do sofrimento
os papelotes são uma consequência da peruca
[Lopes, Adília, Caras Baratas (antologia), Relógio D´Água, Lisboa, 2004, pág.71]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 323. REFORMULAÇÕES DAS COISAS

Uma dúvida de tudo
não faz certeza de nada,
que o sapato de veludo
não se engraxa normalmente

(Alegoria inocente
de calada inspiração
a querer dizer
sobretudo
que uma dúvida de nada
não faz certeza
de tudo)

O sapato de veludo?
Ficou lá atrás no verso,
e foi somente pretexto
para manter atenção

A destacar:
só a graxa
em crescente inspiração,
luzidia e bem untada
onde a dúvida desliza
juntamente
com certeza

A binária oposição,
ou tradicional em vez,
agora no reconcerto
da certeza duvidada
e da dúvida mais certa

(como se vê
por sapato
em verso três)

[Amaral, Ana Luísa, E Todavia, Assírio & Alvim, s/l, 2015, pág 69]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 322. EDIFICANTE POEMA ESCRITO EM PORTUÑOL

Don Ramón se tomo um pifón:
bebia demasiado, don Ramón!

Y al volver cambaleante a su casa,
avistó em el camino:
um árbol
y um toro...

Pero como veia duplo, don Ramón
vio um árbol que era
y um árbol que no era,
um toro que era
y um toro que no era.
Y don Ramón se subió al árbol que no era:
Y lo atropelo el toro que era.
Triste fim de don Ramón!
[Quintana, Mário, Poesia Completa, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 2008, pág. 691]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 321. LEMBRANÇA DO MUNDO ANTIGO

Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranqüilo em redor de Clara.

As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim, pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!
[Andrade, Carlos Drummond de, Antologia Poética, Record, Rio de Janeiro, 44ª edição, 1999, pág. 116]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 320. POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
[Campos, Álvaro de, Poesia, edição Teresa Rita Lopes, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, pág. 262]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 319. DOBRADA À MODA DO PORTO

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo ...

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

[Campos, Álvaro de, Poesia, edição Teresa Rita Lopes, Assírio & Alvim, 2002, pág. 510]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 318. NO PAÍS

no  país  no  país  no  país  onde  os  homens
são só até ao joelho
e  o  joelho  que  bom é  só até à ilharga
conto os meus dias tangerinas brancas
e vejo a noite Cadillac obsceno
a rondar os meus dias tangerinas brancas
para um passeio na estrada Cadillac obsceno

e  no  país  no  país  e  no  país  país
onde as lindas lindas raparigas são só até ao pescoço
e o pescoço que bom é só até ao artelho
ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,
chega a atingir o cérebro e as flores da cabeça,
recordo os meus amores liames indestrutíveis
e vejo uma panóplia cidadã do mundo
a dormir nos meus braços liames indestrutíveis
para que eu escreva com ela, só até à ilharga,
a grande história de amor só até ao pescoço

e  no  pais  no  pais  que  engraçado  no  pais
onde o poeta o poeta é só até à plume
e a plume que bom é só até ao fantasma
ao passo que o fantasma - ora ai está -
não é outro senão a divina criança (prometida)
uso os meus olhos grandes bons e abertos
e vejo a noite (on ne passe pas)

diz que grandeza de alma. Honestos porque
Calafetagem por motivo de obras.
relativamente queda de água
e já agora há muito não é doutra maneira
no pais onde os homens são só até ao joelho
e o joelho que bom está tão barato
[Cesariny, Uma grande Razão – Os Poemas maiores, Assírio & Alvim, 2007, pág. 31-32]
escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 317. PROCURO-TE

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.
[Andrade, Eugénio, As Palavras Interditas, Até Amanhã, Assírio & alvim, s/l, 2012, pág. 33-34]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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