TRUMP(A)

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ARGUMENTAÇÃO 4. falácias formais e informais

Nota prévia: este texto foi motivado pela irritação que me têm provocado algumas declarações do presidente do conselho de ministros português.

Falácias
No último texto, procurei responder à pergunta
o que é um argumento bom?
Em síntese, um argumento é bom/cogente, se, ao analisá-lo, for possível responder afirmativamente a estas 3 perguntas:
  • o argumento é válido?
  • o argumento tem premissa(s) verdadeira(s)?
  • o argumento tem premissa(s) mais plausível(s) que a conclusão?
Se qualquer uma destas perguntas for respondida negativamente, estamos perante um argumento falacioso. Procurarei a seguir esclarecer o que é uma falácia e distinguir 2 tipos de falácias: as formais e as informais.
  1. Analisemos este argumento acerca do sentido da vida:
    Se Deus existe, então a vida tem sentido.
    Deus não existe.
    Logo, a vida não tem sentido.
    Este argumento parece válido. Mas não é válido, e veremos a seguir porquê.

    Segundo a primeira premissa, a vida tem sentido se Deus existir: esta premissa será verdadeira se, cumprida
    [e por se cumprir]
    a condição de Deus existir, a vida tiver sentido. No entanto, a segunda premissa afirma que Deus não existe: e o que é que sobre esta não existência se diz na primeira premissa? nada. Insisto: o que a primeira premissa afirma é que, se Deus existir, a vida tem sentido; e se Deus não existir? sobre isso a primeira premissa não diz nada: a vida tanto pode ter sentido como não ter. Portanto, neste caso, mesmo que as duas premissas sejam verdadeiras, a conclusão tanto pode ser verdadeira como falsa. Ou seja, de acordo com a definição de argumento válido, que já expliquei, este argumento é inválido: se as premissas forem verdadeiras, a conclusão tanto pode ser verdadeira como falsa.

  2. Portanto, o argumento anterior parece válido mas é inválido. Não obedece, portanto, à primeira condição dos argumentos cogentes: estes argumentos são falaciosos.

  3. A forma do argumento anterior
    [um dia destes, explico este conceito de forma, que aqui espero ser "intuído"]
    é esta (P="Deus existe"; Q="A vida tem sentido"):
    Se P, então Q.
    Não P.
    Logo, não Q.
    Portanto, concluimos da exposição anterior que esta forma é inválida. E, portanto, nenhum argumento que tenha esta forma é válido. Dou só 1 exemplo, entre bué de exemplos possíveis que, por terem esta forma, são inválidos:

    Vamos supor que estamos no último jogo do campeonato português de futebol, com o Futebol Clube do Porto (FCP) em primeiro lugar, o Benfica em segundo com menos 3 pontos e o terceiro classificado sem hipótese de vencer o campeonato. Nestas condições, o argumento
    Se o FCP ganhar o jogo, então ganha o campeonato.
    O FCP não ganhou o jogo.
    Logo, o FCP não ganhou o campeonato.
    não é válido: se as duas premissas forem verdadeiras, a conclusão pode ser falsa
    [e um argumento destes é, por definição, inválido]
    -- para que a conclusão seja falsa, basta que o jogo acabe empatado ou que o FCP faça um resultado melhor do que o Benfica fez na primeira mão.

  4. Se um argumento tiver uma forma inválida, não obedece à primeira condição dos argumentos cogentes, acima referida. Ou seja, é uma falácia em virtude da forma: é uma falácia formal. No entanto, um argumento pode ter uma forma válida
    [ser formalmente válido]
    e mesmo assim ser falacioso: basta que, por exemplo, não tenha premissa(s) verdadeira(s)
    (ver segunda condição dos argumentos cogentes).
    Exemplificarei isto com este exemplo:

    José Sócrates tem repetido insistentemente que quem não quer esta avaliação de professores não quer ser avaliado. O argumento, formalizado, ficaria assim:
    Ou os professores são avaliados por este modelo ou não são avaliados.
    Os professores não são avaliados por este modelo.
    Logo, não são avaliados.
    Este argumento tem uma forma válida (P="os professores são avaliados por este modelo"; Q="os professores não são avaliados"):
    Ou P ou Q.
    Não-P.
    Logo, Q.
    Portanto, é um argumento (formalmente) válido: se as premissas forem verdadeiras
    [se for verdade que a) ou os professores são avaliados por este modelo ou não são avaliados; b) os professores não são avaliados por este modelo],
    a conclusão tem que ser verdadeira
    [os professores não são avaliados].
    O mal deste argumento é que a primeira premissa
    [uma premissa disjuntiva]
    não é verdadeira. A disjunção não é verdadeira, porque não esgota todas as possibilidades: há, de facto, outras possibilidades para além das enunciadas: os professores ou são avaliados por este modelo ou são avaliados por outros modelos ou não são avaliados. Como a primeira premissa não é verdadeira, a conclusão tanto pode ser verdadeira como falsa -- e, por isso, este não é um bom argumento. É uma falácia.

  5. Ora, este segundo argumento é falacioso não em virtude da forma
    [como era o primeiro],
    mas em virtude de outras razões não formais
    [no caso, a falsidade duma premissa].
    Por isso, é uma falácia informal.

  6. Às falácias exemplificadas pelo último exemplo chamamos, por razões óbvias, falácias do falso dilema.
escrito por ai.valhamedeus [com um beijo para o Filipe, benfiquista ferrenho e meu consultor desportivo]

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O sr. Miguel é do pior

O sr. Miguel

(de apelidos Sousa Tavares, o sr. Miguel diz uns comentários na TVI e escreve outros em jornais)
pertence a uma classe conhecida pelo nome de comentadores. Ora o sr. Miguel comenta o que quer que seja. Ele é política, ele é economia, ele é educação — ele é o resto também. Não sei qual é a especialidade do sr. Miguel, quer dizer, qual é o domínio onde ele tem autoridade. Cheguei a pensar que o sr. Miguel teria autoridade em tudo — até o ouvir dizer algumas tolices em domínios onde, segundo tudo indica, eu sei mais qualquer coisita que o sr. Miguel
(designadamente, no domínio da educação/ensino).
E o sr. Miguel, para mim, perdeu toda a autoridade: quando o ouço (ou quando, mais raramente, o leio), se não entendo do que ele fala ou escreve, fico sempre com a sensação de que o sr. Miguel poderá estar a dizer ou escrever alguma idiotice. E, quando o percebo, fico com essa outra sensação de que o homem ou (se) faz de parvo ou é ignorante
(inclino-me cada vez mais para rejeitar a primeira hipótese).
No Expresso de 7 de Janeiro o sr. Miguel escreve extensamente para defender a tese de que os portugueses são os piores dos 25 da Comunidade. Os trabalhadores, os empresários, o Estado… tudo do pior
(não refere os jornalistas mas, como acrescenta que "nada funciona como devia", também se incluirá a si próprio. Digo eu).
A favor da sua tese conhecida
(tudo indica que o sr. Miguel não tem mais do que duas ou três ideias, que vende há um ror de anos),
o sr. Miguel utiliza sobretudo a argumentação através de exemplos. Assim, e para provar que os professores são do pior, apresenta o seu caso (seu, do sr. Miguel). Caso dramático, pelos vistos (ou pelos lidos): dramaticamente escreve que "arrostando com filas de trânsito e arriscando acidentes"
(também temos os piores condutores, não é, sr. Miguel? e estará o sr. Miguel incluído?),
tratou do regresso do filho a Lisboa, de modo a que no primeiro dia de aulas do segundo período pudesse estar no "liceu central onde estuda"
(ó sr. Miguel, já não há liceus em Portugal há uns anotes!).
A acreditarmos no pai, nesse dia, das cinco aulas marcadas o moço só teve uma -- e no dia seguinte, uma outra das quatro que deveria ter.

Admitirei aqui (embora com alguma dificuldade) que o sr. Miguel não esteja a mentir. Mas que conclusão poderemos tirar nós
(nós, insisto, que ele tira a de que os professores também são do pior)
de tal exemplo? Apenas esta: que o filho do sr. Miguel teve uma aula na segunda e outra na terça. Ficamos sem saber quantas aulas tiveram os colegas (das outras turmas) do filho do sr. Miguel; ficamos sem saber quantas aulas tiveram os alunos das restantes escolas deste país do pior em que o sr. Miguel vive
(a título de exemplo, garanto que a Escola onde trabalho não serve de exemplo para a tese que o sr. Miguel pretende defender).
Pelos vistos o sr. Miguel ignora o que qualquer aluno medíocre do secundário papagueia (e pratica): o modo como raciocinou (e como raciocina com frequência inadmissível) é falacioso. Trata-se de uma falácia de indução fraca –- a falácia da generalização apressada. Qualquer bom compêndio de Lógica ensinaria ao sr. Miguel
(se o sr. Miguel estivesse disposto a aprender)
que se conclui indevidamente quando se extrai uma conclusão de uma amostra atípica.

Os textos (e os discursos orais) do sr. Miguel sofrem ainda de uma outra falácia: o chamado argumentum ad populum (apelo ao povo). Incorre nessa falácia
(o sr. Miguel encontra isto, designadamente, na “Enciclopédia de termos lógico-filosóficos” da Gradiva)
quem procura persuadir alguém de algo despertando o “espírito das massas” (apelo directo) ou fazendo apelo a sentimentos que se supõem ser comuns à generalidade das pessoas (apelo indirecto)
(toda a gente sabe que os funcionários públicos em geral, e os professores em particular, são uns malandros -- não é?)
É isso o que o sr. Miguel faz constantemente
(já agora… o sr. actual pior primeiro-ministro deste pior país, também).
O sr. Miguel é do pior.

escrito por ai.valhamedeus

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FALÁCIA DA BOLA DE NEVE


No filme Planeta dos Macacos: A Origem, o cientista Will Rodman (James Franco), na procura de uma cura para o mal de Alzheimer, cria uma droga chamada ALZ-112. Porém, essa droga possui um efeito curto, e depois de algum tempo o corpo consegue produzir anticorpos que acabam com o efeito do vírus ALZ-112. O vírus causa uma neurogénese, aumentando o QI dos símios.

É um filme que levanta o problema dos limites das investigações científicas, apontando para a problematização dessas investigações a partir da ideia de que o cientista não pode brincar a ser Deus: Deus é que cria/criou os seres e é perigoso que o Homem queira tomar o Seu lugar na criação.
Esta é uma argumentação típica: é a falácia da bola de neve.

Em que consiste essa falácia? O meu baú responde.

escrito por ai.valhamedeus

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Subtexto e falácia ad hominem

1.
Quando falamos ou escrevemos, construimos um texto. Construimo-lo num determinado contexto

(contexto é a relação entre o texto e a situação em que ele ocorre: a época histórica, cultural ou de qualquer outra índole em que o texto e o próprio autor se enquadram)
-- ou, mais bem dito, em determinados contextos. Chamo subtexto
(um termo influenciado pelo subconsciente da Psicanálise)
a um outro nível do texto: o nível daquilo que o texto diz implicitamente (isto é, aquilo que o texto diz sem que o autor tenha disso necessariamente consciência).

Seja o exemplo de um incidente entre Sócrates, o actual primeiro ministro, e José Tavares (JT), ex-coordenador do Plano Tecnológico do governo de Sócrates. Passaram-se as coisas numa conferência da Economist, após um discurso de Sócrates.

Cito o Público: "Na fase de perguntas e respostas do discurso de José Sócrates, José Tavares levantou-se, apresentou-se como professor da Universidade Nova e ex-coordenador do Plano Tecnológico e interrogou o primeiro-ministro sobre um "projecto charneira" do Plano: o MIT Portugal. 'O Presidente do MIT [Massachusetts Institute of Technology] já disse ao Governo português que está disposto a avançar. É um projecto que envolve um investimento de 50 milhões de euros, quatro quilómetros de TGV, que pode ser co-financiado a 50 por cento pela União Europeia', disse Tavares, acrescentando que há 'um ministro' que está 'pessoalmente contra o projecto'.
'O projecto está na sua mesa', disse Tavares. 'Vai avançar ou não?'".

O subtexto da resposta de Sócrates é significativo: "O projecto MIT será decidido pelo Governo e não por nenhum funcionário público". Assim subtextualmente se confirma o que já sabíamos: a arrogância deste "nosso" primeiro; e a ideia negativa que Sócrates tem dos funcionários públicos. Só faltou que tivesse dito expressamente (tê-lo-á pensado?) "...e não por nenhum reles funcionário público".

2.
A telenovela MIT seguiu com outros episódios.
Supõe-se que o referido ministro-anti-MIT será Mariano Gago (MG). MG garantiu entretanto que as afirmações de JT não merecem qualquer credibilidade... e argumenta falaciosamente: usa a conhecida falácia ad hominem.

Argumentar ad hominem consiste em atacar uma pessoa em vez dos argumentos/ideias que ela defende. Fê-lo em tempos, por exemplo, Santana Lopes (se é verdade o que então se disse), quando sugeriu a homossexualidade de Sócrates para tentar evitar que chegasse a primeiro-ministro
(na verdade, verificámos já que as opções do primeiro ministro são más, sejam quais forem as suas opções sexuais).
As ideias valem (ou não valem) por si, quero dizer, independentemente da cor da camisola que vista quem as defenda.

Voltemos à nossa novela. MG ataca JT (e não as suas "ideias") dizendo que este não deveria ter dito o que disse, por ser um funcionário português
(novamente o subtexto a provar que a imagem negativa que Sócrates tem dos funcionários portugueses é partilhada pelos seus ministros e que o governo "socialista" gostaria de ter funcionários públicos mais submissos)
e "professor em início de carreira"
(uma observação muito rica... subtextualmente, a insinuar até uma ameaça: professor em início de carreira não pode ser tão... explicitamente crítico. A menos que queira que a sua carreira fique pelo início).
De outro modo dito: ficamos sem saber se as críticas de JT são verdadeiras ou não. Sabemos (ou pretende-se que fiquemos a saber) é que JT, a pessoa, não tem perfil para... pessoa pública.

3.
Nota final: A falácia ad hominem é vício muito comum nas discussões entre os digníssimos habitantes diurnos da nossa Assembleia da República. Pelo menos a julgar por algumas que de vez em quando ouço na tv. Valha-nos Deus, se pode!

escrito por ai.valhamedeus (com um abraço ao Jerónimo, que me chamou a atenção para os factos)

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MANOBRAS DE DIVERSÃO FALACIOSAS

O actual poder pê-èsse distingue-se, em vários aspectos, de outros anteriores poderes
[a comparação é com outros poderes... autoritários. Não sei se tanto se menos autoritários que o poder pe-èsse. Para termo de comparação, podem ser os governos cavaquistas].
Há um aspecto que me chama particularmente a atenção: a frequência da argumentação
[Cavaco "argumentava" que não lia jornais; proibia os ministros de falar a não ser em dia para o efeito reservado a eleitos...].
Para tomarem o ar de democratas, os actuais governantes pê-èsse, e seus lacaios, aparecem com frequência a justificar os seus actos. E com frequência fazem-no de modo tal que bem poderiam ser belíssimas ilustrações para os professores de Lógica apresentarem aos seus alunos exemplos de falácias.

Sejam dois exemplos tirados das notícias recentes. Está na berra a polémica sobre os chumbos no ensino. Não me pronunciarei aqui sobre se os alunos devem ou não chumbar. Limito-me a analisar brevemente as justificações de um tal Valter Lemos, personagem sombrio do actual ministério chamado da educação, e de um tal Albino Almeida, de uma tal Confederação Nacional das Associações de Pais. Diz o primeiro que o governo não quer proibir as escolas de chumbarem os alunos até ao 9.º ano de escolaridade. Quer é que os chumbos desapareçam naturalmente, "reforçando as estratégias e as medidas de apoio à recuperação dos alunos, de forma a que a retenção e a repetição de ano deixem naturalmente de acontecer".

A gente ouve isto e pensa: bem... quem poderá estar em desacordo? Mas não há aqui nada de novo: isto foi o que sempre se quis e se quer -- que os chumbos desapareçam naturalmente
(isto é, que os alunos passem sabendo).
Só que a questão não é essa: a questão é a de saber se os alunos que não sabem 
[vamos pôr entre parêntesis o carácter um tanto indefinido deste conceito]
devem ou não passar. Sobre isto o que o manhoso Valter parece pensar é que o Ministério não quer "pura e simplesmente proibir as retenções de alunos por via administrativa", como acontece na Finlândia. Mas não quer porquê? Repare-se na "fineza" da argumentação: porque "no caso português, o princípio da retenção e de repetência está muito arreigado, com muita gente a pensar que, se não houver chumbos, não há exigência".

Aí está! A rejeição da coisa não é por a coisa ser correcta ou incorrecta, é porque, para já, o povo não iria perceber
[portanto, quando o povo perceber...].
Aonde foi parar o anterior argumento de que o que se quer é que os alunos passem sabendo? Qual das 2 posições é a verdadeira posição do ministério? A história recente deste ministério faz-me supor que ele está interessado é em aumentar o "sucesso" nos termos noticiados ultimamente: aumentá-lo nas estatísticas
[e a impossibilidade do chumbo consegue isso às mil maravilhas, quero dizer, completamente].
A falácia mais comum nos argumentos destes tipos é precisamente essa: a manobra de diversão. Ensina a Enciclopédia de termos lógico-filosóficos, da Gradiva, que esta falácia acontece "quando quem argumenta procura distrair a atenção de quem o ouve mudando completamente de assunto e acabando por ou retirar uma conclusão acerca deste outro assunto como se fosse a continuação do anterior, ou assumir simplesmente que alguma conclusão foi tirada". As manobras de diversão destes tipos têm esta nuance: apresentam as razões que sabem que o público aceita para justificar as conclusões que o público aceita, sendo que a interpretação dessas conclusões as transforma em outras, quando "aplicadas"
[encontramos ilustrações exemplares desta manobra quando lemos as justificações de determinados actos/diplomas legais e as confrontamos com as determinações que se lhes seguem. Recordo só dois casos: a invocação do reforço da autoridade do professor para justificar o novo Estauto do aluno; a invocação do direito(?) dos professores a serem avaliados, para justificar um modelo de avaliação contra o qual está a esmagadora maioria dos professores].
O cuidado destes tipos às vezes é insuficiente para esconder o rabo do gato... escondido com rabo de fora. Aconteceu acima com o tal Valter. Acontece agora com o tal Albino. Concorda este com o fim dos chumbos. Porquê? Justificação expressa: "O facto de as escolas não poderem reprovar os alunos obriga-as a fazer com que os alunos atinjam os standards mínimos do currículo". Está aqui presente outra característica da argumentação destes tipos
[em que os governantes actuais têm sido mestres]:
predomina o argumentum ad populum
[uma falácia que, explica a referida enciclopédia, consiste em tentar persuadir alguém de algo despertando o 'espírito das massas' ou fazendo apelo a sentimentos que se supõem ser comuns à generalidade das pessoas].
No argumento abilinino, o sentimento, que se supõe generalizado, é o de que "as escolas"
[os professores, que são quem nas escolas ensina]
estão cheias de malandros, que é preciso "obrigar" a trabalhar pelo sucesso, pelos mais refinados mecanismos.

Mas a fineza da argumentação abilinina não termina aqui. Acrescenta: "Já pensou o que é que representa de impostos deitados à rua os alunos que demonstraram dificuldades específicas terem que repetir o ano todo?".

Cá está a machadada final! Dupla machadada:
a) um argumento que apela ao "sentimento económico" das pessoas, num momento particularmente grave de crise financeira apregoada como generalizada;

b) um argumento com verdadeiro valor para os donos dos cifrões
[ministério das finanças e belmiros incluídos],
que anula o valor de qualquer outra alternativa -- designadamente, pedagógica
[e eu lembro, como contraponto, o slogan "a educação é cara? experimentem a ignorância!".
...e cá vamos cantando e rindo. Para não chorar...

escrito por ai.valhamedeus

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TOLERÂNCIA E BONECO DE PALHA


Dia 16 de Novembro é Dia da Tolerância. Pretexto para os textos Tolerância e A tolerância segundo Voltaire.

Dia 17 de Novembro é, este ano, Dia da Filosofia. Pretexto para o texto Dia Mundial da Filosofia.

Pretexto para O boneco de palha: é uma falácia que "vem" para o futuro exame final de filosofia e alguns manuais não o explicam. Começa assim a explicação d'O meu baú:
Tenho um amigo pugilista que detesta a sogra. Detesta-a tanto que pintou a cara dela nos sacos que tem de “bater” durante os treinos: dá-lhe murros, diz ele, até a partir toda. 
Agressividade à parte, este meu amigo é o exemplo acabado da falácia do boneco/homem de palha.
escrito por ai.valhamedeus

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O SR DOM JOSÉ CONTINUA A SER BURRO

Secundando o pastor alemão na asneira sobre o preservativo, o sr dom josé policarpo insiste na asneira: que o preservativo falha no combate à sida.

O sr dom josé não explica. Fundamenta-se em "responsáveis portugueses", mas sem dizer quais
[qualquer dos meus alunos do 11º ano sabe que isto é uma falácia: a falácia da autoridade anónima].
...Eu estive p'raqui a pensar e cheguei à conclusão de que o sr dom josé talvez tenha razão. Ou possa ter: se, por exemplo, se usar um preservativo a que se cortou a ponta de tal modo que o esperma passe, até o sr dom josé pode apanhar a sida, se tiver relações com um gajo infectado. Que se cuide, pois!

escrito por ai.valhamedeus

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AS FALÁCIAS DO VITAL

Com o texto A manife e Vital Moreira, o Carlos Lopes motivou-me a ida, pela primeira vez, ao blogue do Vital
[aonde nunca tinha ido, porque há muito tempo deixei de achar piada aos gajos que são "a voz do dono". Mas fui, para ver].
Tenho posto de lado a série de textos sobre a argumentação, que comecei de escrever, porque esta fase
[a fase de testes]
é particularmente absorvente para os professores
[facilmente se esgotam as horas semanais que o Ministério reserva para trabalho individual].
Mas um dia destes hei-de acrescentar aos textos que já escrevi sobre falácias, um outro sobre o assunto. Os textos panfletários que Vital Moreira escreve hoje
[Terreno congestionado e Roer a corda]
ajudariam imenso na tarefa. Sirvam de prova só estas duas breves notas:
  • Poço envenenado é uma falácia que consiste em
    [explica Anthony Weston, em A Arte de Argumentar, da Gradiva]
    "usar uma linguagem tendenciosa para denegrir um argumento ainda antes de este chegar a ser apresentado". O Vital chama "fronda" a esta luta contra este modelo de avaliação
    [enfim... isso será o menos, até porque permite-lhe exibir um certo encicloped(ant)ismo];
    e aos que apoiam essa luta chama "manada". Apetece descer ao nível do poço envenenado do Vital e responder-lhe: "Tá bem, boi!"

  • Em Roer a corda, Vital defende que os sindicatos são "tábua de sustentar prego". Metáfora bonita
    [eventualmente, e mais uma vez, encicloped(ant)ista],
    mas nada mais que isso. Que argumento apresenta o Vital para defender essa tese? Este: os sindicatos assinaram um acordo e agora rompem o acordo. Não veria problema nenhum se assim fosse
    [quantos acordos se não rompem por aí, meu deus?!],
    mas o ponto não é esse. Os sindicatos, de facto, entenderam-se com o Ministério em alguns pontos, mas esse entendimento não incluía qualquer acordo acerca de 2 pontos
    [no documento a plataforma sindical deixou expresso esse desacordo]:
    acerca deste modelo de avaliação e acerca da divisão da carreira em 2 níveis. Portanto, o Vital incorre aqui na falácia da supressão de dados: apresenta "unicamente a parte dos dados que sustenta a afirmação, ignorando as partes que a contradizem"
    [Anthony Weston, ob. cit.].
Estes não são os únicos aspectos fracos da péssima argumentação do Vital. E, dada a teórica formação académica do Vital, era de supor que ele conhecesse isto. E talvez conheça -- mas isto de ser a voz do dono...

escrito por ai.valhamedeus

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DIZCIONÁRIO [46 falácia]

Acabo de assistir ao habitual frente-a-frente do jornal das 21h da Sic Notícias

[onde há confrontos interessantes mas também autênticas nódoas].
Hoje, entre Vítor Ramalho (VR)
[a defender, como lhe convém, a candidatura de António Costa à Câmara Municipal de Lisboa]
e Nuno Melo
[do CDS/PP. ou ex-CDS/PP?].
Às tantas, Nuno Melo defendeu que não era "pedagógico" o pê-èsse tirar do governo um elemento preponderante para o candidatar a uma Câmara
[nesta altura em que Portugal se prepara para presidir às reuniões da união dos países da Europa, etc. e tal].
Resposta de VR: "isso é um argumento de direita!".

E... pronto! Está anatematizado! Não interessa se tem razão ou não -- é de direita, acabou-se
[supondo VR, digo eu, que o pê-èsse é de esquerda. Muito erradamente, digo eu]!
Saberá VR o que é uma falácia? Saberá VR que a sua "resposta" é falaciosa?

escrito por ai.valhamedeus

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DIZCIONÁRIO [30]

ad hominem

Já aqui me referi à falácia ad hominem: trata-se de um raciocínio defeituoso que acontece quando, para pretensamente atacarmos um argumento, atacamos o autor do argumento em vez do argumento.

Seja (mais) um exemplo deste governo. O ministro Correia de Campos mandou fechar várias maternidades do País. Entre elas, a de Barcelos. Sobre o encerramento desta última,
  1. não me interessa agora interpretar o facto de o acto ter lugar a quatro dias de o Tribunal Administrativo e Fiscal de Braga se pronunciar sobre a providência cautelar que visa impedir o fecho do serviço de partos;
  2. não me interessa agora saber se o protesto dos habitantes de Barcelos tem razão ou não;
  3. Correia Campos desvaloriza a manifestação que está a decorrer em Barcelos, alegando que é "promovida por um partido político" (o PSD). Ouvi na tv uma manifestante contrariar o ministro declarando-se militante do PS -- mas isto também não me interessa agora;
  4. o que me interessa é que, seja a manifestação promovida por um partido ou não, o importante é saber se os manifestantes têm razão ou não. Não o fazendo, a resposta do ministro é tipicamente uma falácia ad hominem;
  5. o que me interessa é que este governo pê-èsse faz isto com frequência: rejeita ideias pela invocação do(s) seu(s) autor(es). E isto, em políticos a priori competentes, tem um nome: é má fé.
escrito por ai.valhamedeus

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TAUTOLOGIAS

[A pretexto do texto de Sousa Tavares, comentado neste artigo do Ai meu Deus]

O tudólogo Miguel de Sousa Tavares (MST) vive enclausurado entre a opinião e a propaganda. Enquanto produz opinião podemos sempre (se o lermos), dar-lhe o benefício da dúvida; militando na propaganda, dispomo-lo no espaço dos anúncios: consome quem quer. A questão, no entanto, por obra e graça da personagem, podendo resumir-se aos estilos que pratica, tem um alcance que urge explicitar, ora porque as opiniões são infundadas, ora porque a propaganda, sendo o que é, orienta-se engenhosamente pelo engano. Os textos de MST não resistem a uma análise lógica, terapia que o ajudaria a inclinar-se para a verdade, pelo menos dos factos, procurando-a. Dizer que ele é militante da falácia é como condecorá-lo com a “Ordem da Instrução Pública”. Ele sabe (?!) que o raciocínio (defeituoso) é o que mais colhe os descuidados, engrossando o número dos que vociferam com ele, tomando o duvidoso pelo genuíno e o presumível pelo consistente.

MST deve ser tratado, a meu ver, como retórico, sim, aquele que usa a persuaso e que é capaz de ganhar um auditório, não através de premissas sustentáveis, mas usando mentiras que parecem plausíveis, enquanto “verdades”. É assim que ele formula conclusões difíceis de contestar, usando e abusando do artifício. MST usa o ardil porque sabe que o palco, de onde se dirige aos crentes, lhe dá a suposta autoridade que, em conjunto com a larga experiência que o bafeja, lhe permite manipular cidadãos pouco esclarecidos – e são tantos – sobre os complexos meandros do ensino. Muitos são facilmente (e gostam de ser) enganados com tiros furtivos que, deixando feridas, demoram uma eternidade a curar, i. é, a esclarecer.

MST cumpre, aqui, uma função que, para além de ser remunerada por cada palavra, devia valer-lhe, pelo menos uma secretaria de estado. Se a ideia é a instauração de um conflito civil, usando, para já, o belicismo das palavras e o tempero do medo, o cronista, tendo cada vez mais detractores, não deixa de incorporar um exército ululante de fiéis seguidores, prontos para o combate às greves, aos sindicatos (jsd), aos professores, aos servidores do Estado (excepto os boys), aos aposentados (peste grisalha) e a tutti quanti, abarrotando de direitos, se devem contentar apenas com deveres. Daí às novas escravaturas vai um passo (já) menor do que a perna.

MST tem uma especial predilecção pelas sociedades esclavagistas (modernas), ou talvez não. Deve ser essa a sua próxima ficção. Que o encha de felicidade. Sobre as obscenidades que, uma vez mais, propala sobre os professores, para lhe responder, seria preciso desqualificar o nível da prosa e isso, fica inteiramente com ele.

escrito por Jerónimo Costa

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O SR MIGUEL OU É BURRO OU SE FAZ

Há muuuuito tempo que não leio nem ouço Miguel Sousa Tavares. A razão é simples: com frequência,  o sr. Miguel escreve e fala sobre o que não sabe

[numa das últimas vezes que o ouvi, perorava contra a função pública invocando as diuturnidades, que já não existiam há bué de tempo]
-- e, como não sabe, inventa, para defender as duas ou três ideias que não lhe saem da cabeça
[talvez seja isso que impede que lhe entrem outras]. 
Dito de outro modo: é grande o risco de o ouvir/ler dizendo asneira.

Por muita insistência de amigos, acabo de quebrar a jura de o ignorar, lendo um dos textos (publicado no Expresso) onde vai destilando odiozinhos de estimação para ganhar mais uns cobres. Nada de novo: é o habitual chorrilho de tolices, a habitual sessão de pancadaria nos professores, nos ditos privilégios de classe, na dita mediocridade dos profissionais...

A leitura reforçou ainda a ideia de que o sr Miguel (usando linguagem da gente humilde da aldeia onde me criei) ou é burro ou faz-se (numa versão mais polida, ou é palhaço ou faz-se). O texto está construído sobre falácias, de que destaco apenas o seguinte (e já estou, com toda a certeza, a gastar cera a mais com tão ruim defunto):



  1. O sr Miguel parece saber que o argumento no meu tempo era muito pior e a coisa funcionava é, no mínimo, "perigoso" (um argumento estafado, usado por muitos comentadores, que facilmente descamba para a analogia falaciosa, como aqui se prova); por isso diz (e repete) que não o vai usar. Mas usa: usa-o para concluir que "tudo é relativo", que na Finlândia é que é,... e que, em comparação, os professores portugueses trabalham pouco e ganham muito. Não sei por que razão o sr Miguel perdeu tantas palavras nos parágrafos anteriores (será só porque lhe pagam à palavra?), se eles não suportam estas teses, apenas atiradas para o papel (como diria o meu amigo Quim, sou dessa opinião ou da contrária, se necessário for).
  2. Invocando, pela enésima vez, a ideia tola de que a classe docente recusou "a possibilidade de ser avaliada para efeitos de progressão profissional - isto é, uma classe onde os medíocres reivindicaram o direito constitucional de ganharem o mesmo que os competentes", o sr Miguel avança para a recente greve, "irresponsável" e "leviana" aos exames. Vou ignorar a leitura leviana que o sr Miguel faz da mesma (entendendo-a como sinal exemplar da pouca importância que os professores atribuem à avaliação); chamo apenas a atenção para um belo exemplo da falácia do boneco de palha: o sr Miguel enumera uma série de falcatruas, de pseudo-direitos adquiridos, de regalias,... para as colocar como objetivo da greve e mais facilmente lhe poder malhar. Por que razão o sr Miguel se não concentra na análise objetiva das reivindicações explícitas que levaram à greve?
    Bem sei que é isto que o homem tem feito/escrito, há muitos anos; mas, porra!, vai sendo tempo de mudar a cassete.
  3. O alvo das espingardas do sr Miguel são sempre os mesmos. Quando, por (mais um) exemplo, escreve sobre os trabalhadores que se reformaram antecipadamente, é sobre estes que atira. A elasticidade mental do sr Miguel não é suficiente para, uma vez por outra, se colocar do outro lado do espelho (das causas de tais antecipações -- muitas delas indesejadas pelos próprios aposentados -- e dos responsáveis por essas causas). O que o sr Miguel vê é tão só o seu lado --  o pensamento vulgar (o que vende artigos de opinião) é o que lhe vem à mona.
  4. E o texto termina com mais uma analogia falaciosa: a comparação entre um cirurgião que não pode entrar em greve face a um doente anestesiado para a operação (ou um bombeiro face a um incêndio ou um controlador aéreo face a um avião a aterrar) e um professor que faz greve a um exame. Repito: ou o sr Miguel é burro ou se faz.
    Admitamos que não se lhe possa pedir que saiba, expressamente, que numa analogia válida não pode haver diferenças significativas entre os termos comparados (como existem na sua comparação); admitamos que os seus odiozinhos de estimação lhe anestesiam os neurónios responsáveis pelo raciocínio. Mesmo admitindo isso, custa aceitar que o homem não perceba vagamente que a comparação não é válida e que passam por aí as razões por que no Ensino não há serviços mínimos, ao contrário dos outros serviços que ele invoca.
    Ou será que o homem sabe-o bem -- tão bem quanto sabe que textos menos falaciosos não lhe renderiam tanto?

escrito por ai.valhamedeus [ilustração retirada do artigo do Expresso]

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DO CONTRA [89] a petição de princípio papal

Uma petição de princípio é uma falácia. Um argumento inválido. E é inválido porque nele se tenta provar B a partir de A, mas A prova-se a partir de B. Exemplifiquemos com o dogma católico da infalibilidade papal.

Afirma este dogma que,

quando delibera ou clarifica solenemente algo em matéria de fé ou moral, com a intenção de definir doutrina de fé ou moral, 
o Papa está sempre correto, nunca erra. Implica essa infalibilidade que essas matérias devem ser aceites por todos os católicos.

Podemos perguntar de onde vem tanta segurança a Sua Santidade (SS) e aos seus seguidores. A razão é que, nessa situação, o Papa tem a assistência sobrenatural do Espírito Santo (ES), que evita que ele erre.

Se nos atrevermos a perguntar de onde vem essa garantia da assistência do ES a SS, a resposta é: vem de SS. A infalibilidade papal foi declarada um dogma na Constituição Dogmática Pastor Aeternus, promulgada pelo Concílio Vaticano I.

Ou seja, e esquematizando:
SS não erra, e portanto o que diz é dogma, porque é assistido pelo ES; e sabemos que SS é assistido pelo ES porque SS o diz dogmaticamente, isto é, assistido pelo ES.
Com tanta circularidade de argumentação, fico com a cabeça a andar às voltas: valha-me Deus!, se pode...

escrito por ai.valhamedeus

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Só cretinices. 3


O pê-èsse de Sócrates

[ou o Sócrates do pê-èsse]
gritou que quem escolhe o governo são os portugueses, não a troika. Sócrates, desta vez, tem razão, se entendido literalmente. Não a tem no pretendido alcance das suas palavras. Porque quem escolhe o programa do governo
[admitindo a certeza de que será um governo pê-èsse ou psd -- o que, para o caso, tanto faz]
são os troikos.


[Desafio para os meus alunos: há, neste discurso de Sócrates, alguma falácia?]

[leia o só cretinices. 2]

escrito por ai.valhamedeus

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ARGUMENTAR AD HOMINEM

Chamar a José Sócrates de mentiroso é uma falácia ad hominem? O problema é posto à discussão aqui.

escrito por ai.valhamedeus

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A FARSA DE VPV

A crónica de Vasco Pulido Valente, no Público de hoje, é
[como seria de prever]
sobre as declarações de Saramago. Uma lástima, ao "melhor" estilo da mediocridade que tem caracterizado as reacções públicas às ideias do escritor.

O que VPV faz é atacar Saramago
[em vez de atacar as ideias],
que
"tem 80 e tal anos, coisa que não costuma acompanhar uma cabeça clara, e que, ainda por cima, não estudou o que devia estudar, muito provavelmente contra a vontade dele".
Atira depois para o Prémio Nobel, com farpas do género das anteriores: "
"ganhou o Prémio Nobel, como vários "camaradas" que não valiam nada, e vendeu milhões de livros, como muita gente acéfala e feliz que não sabia, ou sabe, distinguir a mão esquerda da mão direita".
Finalmente recorda o que fez no PREC, depois do qual
"Saramago está mesmo entre as pessoas que nenhum indivíduo inteligente em princípio ouve".
E sobre as ideias que Saramago tem exposto? Qualificativos, também e nada mais.
"Saramago não disse mais do que se dizia nas folhas anticlericais do século XIX ou nas tabernas republicanas no tempo de Afonso Costa. São ideias de trolha ou de tipógrafo semianalfabeto, zangado com os padres por razões de política e de inveja. Já não vêm a propósito".
Ou seja, Saramago não tem razão, porque o que ele diz é o que dizem os trolhas e analfabetos -- e o que diz essa gentalha, diga o que disser, não é verdade. Belíssimo argumento
[falacioso. Daquelas falácias básicas uqe qualquer aluno do secundário é capaz de identificar... Mas, vindo de um intelectual que nem é trolha nem analfabeto, deixa de ser falácia].
Do mesmo teor de outro argumento
[igualmente muito complexo, sobretudo a partir de determinadas horas da noite, em noites que a sede aperta]:
Saramago não tem razão quando emite opinião sobre a Bíblia, porque
"não assiste a Saramago a mais remota autoridade para dar a sua opinião sobre a Bíblia ou sobre qualquer outro assunto, excepto sobre os produtos que ele fabrica, à maneira latino-americana, de acordo com o tradição epigonal indígena".
De quem é a culpa?, perguntaríamos neste ponto. VPV responde: do "regime de liberdade, aliás relativa, em que vivemos" que "permite ao primeiro transeunte evacuar o espírito de toda a espécie de tralha".

Seguindo o tipo de "argumentação" de VPV
[para que ele verifique que há trolhas e analfabetos como eu que também são capazes de chamar nomes],
concluo que é esse mesmo regime de liberdade, aliás excessiva, que permite a qualquer cronista evacuar as asneiras que os uísques fazem ferver nos intestinos e na figadeira, a altas horas da noite, depois de ter desfeito o cérebro em vapores etéreos. Com o pequeno detalhe, que faz grande diferença, de que, no caso destes cronistas, as tralhas evacuadas pagam bem o preço dos uísques emborcados. Louvado seja o Altíssimo!...

escrito por ai.valhamedeus

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JUÍZOS DE FACTO E JUÍZOS DE VALOR

Para qualquer aluno do 10º ano, a distinção entre juízo de facto e juízo de valor é um assunto básico.

Se eu disser "José Sócrates recebeu dinheiro para o licenciamento do Freeport", emito um juízo de facto. Pode ser um juízo verdadeiro ou falso, mas, em qualquer dos casos, um juízo de facto.

Sócrates mentiroso
Se eu disser "José Sócrates é mentiroso", emito um juízo de valor.

A distinção entre juízos de facto e juízos de valor é polémica
[nalguns casos, é difícil decidir se o juízo é de facto ou de valor; há, por outro lado, quem defenda que qualquer juízo de valor é um juízo de facto complexo],
mas é importante, por várias razões. Por esta, por exemplo:

Um juízo de valor pode ser refutado com factos: se um qualquer dirigente do pê-èsse disser que José Sócrates não é mentiroso e eu apresentar algumas situações em que ele de facto mentiu
[tarefa nada difícil],
aquele juízo, de valor, no mínimo, estará em questão.

Já um juízo de facto dificilmente
(impossivelmente?)
pode ser negado através de juízos de valor, sobretudo se o juízo de valor é sobre quem emite o juízo de facto. 

Nos últimos tempos, os juízos de facto sobre o envolvimento de José Sócrates no caso Freeport
[que se juntam aos muitos factos, pessoais e políticos, "estranhos" que sobre o dito têm sido apresentados desde que é chefe deste governo pê-èsse, não havendo memória de um político português tão vergastado com factos]
têm-se multiplicado ao ritmo em que se multiplicam as subsequentes aparições de figuras públicas
[e do próprio]
a defender o chefe negando os factos através da emissão de juízos de valor. Indevidamente. Alberto Martins poderá chamar caluniadores, intrigadores, invejosos ou maldizentes 
[tudo juízos de valor, ontem emitidos]
aos que apresentam os factos acima referidos; mas não são tais gritos que provam que os juízos de facto são falsos. Mesmo que, em vez de Alberto Martins, seja Mário Soares a gritar 
[como também gritou ontem, ao modo do seu sereno gritar].
Até porque emitir juízos de valor sobre os autores de juízos de facto facilmente resvala para uma falácia ad hominem.

escrito por ai.valhamedeus

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O ACORDO ORTOGRÁFICO

Não tenho opinião sobre o acordo ortográfico: não o li, não o conheço senão em pormenores… Contudo, ainda não ouvi um único argumento contra que me convencesse.

  1. Diz-se que o acordo é inconstitucional porque, contrariando o disposto na Constituição, não preserva a língua portuguesa. Então, pergunto eu, uma língua, como qualquer entidade viva, por se renovar perde-se
    [ou, bem pelo contrário, ganha nova vida]?
  2. Diz-se que as alterações propostas podem conduzir a alterações na pronúncia. Dupla falácia
    [ou duplo sofisma?],
    digo eu
    [para além de não estar provado que as alterações na pronúncia sejam em si
    negativas].
    Graça Moura dá o exemplo de “adopção” que, escrita “adoção”, poderá vir a pronunciar-se “adução”. Não viesse o exemplo de quem vem, e eu pensaria tratar-se de anedota.
    Ponto um: desde quando os falantes alteram a pronúncia por via da alteração da escrita? Não é, inversamente, a ortografia, notação da fala -- e, enquanto tal, um artifício?
    Ponto dois: desde quando é a língua portuguesa uma entidade onde a relação entre fala e grafia é o reino da lógica, onde modificações da segunda seriam causas de modificações da primeira? Para utilizar alguns exemplos: onde é grafada, em “sede”, a diferença entre a pronúncia “séde”
    [a sede do Partido A]
    e “sêde”
    [sede de água]?
  3. No meu leigo entender de escrevinhador, qualquer código ortográfico deveria respeitar os princípios da simplicidade, da uniformidade lógica e da fidelidade à língua falada. Assim, não faz sentido escrever “baptizado” quando se fala e se lê “batizado”
    [e não se diga que a função do “p” é “abrir” o “a”, como se sem “p” o “a” se
    “fechasse”: tudo isto são convenções].
  4. Conclui-se, dos princípios enunciados, a impossibilidade de um acordo ortográfico entre os vários países de língua portuguesa? Provavelmente. Não faz sentido portugueses e brasileiros acordarem, por exemplo, na alteração de “facto” para “fato”, pela razão simples de que os portugueses de facto dizem “facto”
    [a par com “fato”],
    enquanto os brasileiros falam “fato” e não "facto"
    ["desconhecendo" o nosso “fato”, que substituem por “terno”].
  5. Estaremos condenados, a longo prazo, à criação de tantos “português” quantos os Estados
    [para não encarar já a hipótese da multiplicação de línguas dentro de alguns
    Estados]?
    Possivelmente, de modo inevitável – e não creio que o fenómeno seja evitável por via de qualquer acordo ortográfico: afinal, repito, inevitavelmente os falantes recriam a língua independentemente de tais acordos.

  6. Uma nota final para uma discussão que entendo mesquinha: a de saber quem
    [quero dizer, Portugal ou Brasil],
    no acordo presente, fica a ganhar. Entretenham-se os políticos com esses jogos!... Entretanto, promovam os políticos portugueses a sua língua pelas vias verdadeiramente eficazes.

escrito por ai.valhamedeus

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Pê...quê?! [57] GOVERNO DESSINCRONIZADO

Acaba de acabar mais um debate sobre Educação, no Parlamento. Fiz o gigantesco exercício masoquista de ficar a ouvir

[as respostas da]
ministra da educação até ao fim, na esperança de que a criatura tivesse mudado qualquer coisinha. Foi o que supusera: ausência completa de debate. A ministra e o grupo parlamentar do pê-èsse
[provocou-me vómitos a sua última intervenção, a cargo de uma deputada qualquer, de que não recordo o nome]
insistiram em
  • um discurso completamente atingido pela conhecidíssima falácia: o PC não tem razão porque é o PC; o PSD e o CDS não têm razão porque há uns anos foram os responsáveis por um concurso de professores desastrado...

  • reduzir o "debate" a um ataque aos partidos representados na Assembleia da República, ignorando que o principal problema não está em a oposição estar toda contra, está em a esmagadora maioria dos intervenientes na escola estar contra, ao contrário do que a ministra apregoou, exemplificadamente quando repetidamente apregoou que as escolas estavam a trabalhar na avaliação dos professores.
A ministra insistiu ainda na conhecida estratégia governamental de apregoar princípios abstractamente justos
[como o combate ao abandono, a melhoria das aprendizagens, o reforço da autoridade dos professores]
com os quais pretende justificar as suas medidas e práticas, que nada têm que ver com tais princípios. Chama-me isto à memória as telenovelas mexicanas dobradas para português, em que o mover dos lábios dos personagens estava completamente dessincronizado do som que se ouvia na tradução. Este é um governo dessincronizado. Esta foi uma sessão abaixo de medíocre.

escrito por ai.valhamedeus

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A FALÁCIA DOS TRÊS FETOS

Esta diatribe é parte de uma coisa mais longa que andava aos tombos na minha cabeça. A boazona do ai Jesus!

[do texto Despenalização: sim ou não?]
puxou o gatilho. A culpa não é minha.

Se disserem que viram uma sobredose de cinismo, não são cegos. Foi sem querer querendo.
Tem graça e é engraçada a publicidade dos três fetos. Na minha modesta apreciação, o terceiro feto tem até muitas graças. Mas o problema é que o dito anúncio revela muito boa carne, mas pouco e mau espírito. Vejamos: querem dizer os do «NÃO» que eles defendem que todos os fetos cheguem a ser como o terceiro feto. Nesse caso, cada aborto roubaria descaradamente à «Playboy» uma potencial boazona «coelhinha do mês». E lá se ia o ganho desta respeitada revista de trabalho socio-penal (a mais utilizada nas prisões).

O que não dizem os defensores das «coelhinhas», é que lhes importa muito pouco a vida das pessoas. Só se interessam por determinados fetos. Os que lhes podem dar ganho (económico ou ideológico). Um aborto é um eleitor menos, um soldado menos, um seminarista menos, um trabalhador menos, um doente menos, um estudante menos, um cliente menos, um consumidor menos.

Se estes profetos defendessem todos os fetos (digo, a vida), estariam logicamente eles e elas na primeira fila de todas as lutas contra a violência que destrói a vida. Estariam agora mesmo a inventar anúncios criativos e engraçados para dizer ao mundo que as vidas ceifadas, por exemplo, no Iraque, Afganistão e Palestina superam por milhares todos os abortos legais. Mas preferem o chá com torradas das reuniões onde se inventam os tais anúncios das «coelhinhas», porque isso não incomoda os senhores do poder.

Curiosamente, os que enchem a boca e a televisão com a defesa dos fetos que ainda não podem ser capa da «Playboy» são extremamente selectivos. Só defendem os fetos em risco de desaparecerem sob a alçada da lei. O problema, pois, não está em defender os fetos, mas sim opor-se à lei. Por isso votam NÃO e com isso têm o seu problema resolvido e a consciência tranquila. No Iraque, por exemplo, em quatro anos de guerra, terão morrido 15.000 mulheres grávidas e não consta que alguém lhes tenha perguntado quantas semanas tinha o feto. A dirigência nacional do NÃO declarará guerra total ao governo do Iraque quando este pretender aprovar uma lei que proíba às balas e aos carros-bomba matar mulheres grávidas depois das primeiras 10 semanas de gravidez. Quando em Wiriyamu os soldados portugueses faziam cesarianas com as suas facas de mato e gritavam ufanos: «um terrorista menos!», isso era um aborto ou um acto patriótico? Alguns dos dirigentes e figuras gradas do NÃO eram muito provavelmente alferes em Moçambique, talvez ali a um par de quilómetros de Wiriyamu. Pois é, não havia referendos nessa época. Consciência, tranquila!
SIM, a hipocrisia social e religiosa mata mais que todos os abortos legais!

escrito por J. Alberto, Porto Rico

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