TRUMP(A)

hoje é sábado 271. FLOR DA ESTEVA

I

Mal toquei na flor da esteva,
logo se desfez,
frágil como névoas de Verão.

A corola branca
desconjuntou-se em pétalas dispersas
como flocos de neve fora de tempo
pousando com cautela sobre a terra.

Passou assim a haver
no campo um astro a menos.

Mas passou a haver também
Um odor a esteva nos meus dedos.

Ficou ela por ela.
[Cabral, a.m. pires, gaveta do fundo, Tinta da China, Lisboa, 2013, pág. 27]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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VÍDEO DA SEXTA 178.“The Me Bird”

Inspirado no poema homónimo do chileno Pablo Neruda, a animação “The Me Bird” (O Eu Pássaro) narra a história de uma bailarina em busca de sua liberdade. O curta foi exibido na sessão Panorama do Anima Mundi 2013.

Um belo encontro entre poesia e animação!


O Pássaro Eu

Chamo-me pássaro Pablo,
ave de uma pena só,
voador na escuridão clara
e claridade confusa,
minhas asas não são vistas,
os ouvidos me retumbam
quando passo entre as árvores
ou por debaixo das tumbas
qual funesto guarda-chuva
ou como espada desnuda,
estirado como um arco
ou redondo como uma uva,
voo e voo sem saber,
ferido na noite escura,
aqueles que vão me esperar,
os que não querem meu canto,
os que me querem ver morto,
os que não sabem que chego
e não virão para vencer-me,
a sangrar-me, a retorcer-me
ou beijar minha roupa rota
pelo sibilante vento.
Por isso eu volto e vou,
voo mas não voo, mas canto:
pássaro furioso sou
da tempestade tranquila.
[Pablo Neruda]

Fonte: [http://www.animamundi.com.br/2014/the-me-bird-poema-de-pablo-neruda-da-vida-a-animacao/]

escrito por Adriana Santos

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 7


[clique na foto para a ver melhor]

NÃO QUERO IR ONDE NÃO HÁ A LUZ

Não quero ir onde não há a luz,
Do outro lado abóbada do solo,
Ínfera imensa cripta, não mais ver
As flores, nem o curso ao sol de rios,
Nem onde as estações que se sucedem
Mudam no campo o campo. Ali, no escuro,
Só sombras múrmuras, êxuis de tudo,
Salvo da saudade, eternas moram;
Região aos mesmos íncolas incógnita,
Dos naturais, se os tem, desconhecida.
Ali talvez só lírios cor de cinza
Surgirão pálidos da noite imota.
Ali talvez só gelo com as águas,
Como a cegos, serão, e o surdo curso,
No côncavo sossego lamentoso,
Se acaso à vista habituada aclare,
Será como um cinzento tédio externo.
 
Não quero o pátrio sol de toda a terra
Deixar atrás, descendo, passo a passo,
A escadaria cujos degraus são
Sucessivos aumentos de negrume,
Até ao extremo solo e noite inteira.
 
Para que vim a esta clara vida?
Para que vim, se um dia hei-de cair
Da haste dela? Para que no solo
Se abre o poço da ida? Porque não
Será sem fim [?...]
[Fernando Pessoa]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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LIVROS PROIBIDOS PELO ESTADO NOVO

Com o jornal Público está a vender-se, às quintas-feiras, uma coleção de 13 livros proibidos pelo Estado Novo, nas suas edições originais, acompanhados pelos relatórios oficiais de censura.

A semana passada, foi a vez de POVO 
[contos de Afonso Ribeiro, um dos expoentes da prosa de ficção neo-realista portuguesa, natural de Moimenta da Beira. O seu livro de novelas Ilusão na Morte, de 1938, é considerado precursor na área. Professor primário em zonas rurais, o contacto com as desigualdades sociais e com as carências das classes desfavorecidas inspira uma prosa atenta à verosimilhança da fala das personagens, aos seus problemas e escravidões. As suas obras denunciam a miséria moral de proprietários e trabalhadores, proclamando a necessidade de olhar para o mundo rural com diferentes olhos. Colaborou nos jornais O Diabo e Sol Nascente e com a Revista Vértice, tendo deixado um importante legado literário que abarca diferentes géneros].
Esta série de contos foca na sua generalidade a miséria em que vivem as classes trabalhadoras populares, oprimidas pelas classes patronais dos abastados. Foi proibido pelas razões que se reproduzem na imagem seguinte e se podem sintetizar na expressão "Pura propaganda comunista", da autoria do censor, o capitão Carlos Maria do Carmo.


[clicar na imagem para ler melhor]

Os livros da coleção (com detalhes) encontram-se listados aqui.

escrito por ai.valhamedeus

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ZOOM [91] - saída limpa


escrito por ai.valhamedeus

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hoje é sábado 270. PEQUENA ELEGIA CHAMADA DOMINGO

O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos
estavam os montes e os rios
e as nuvens.
Mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.

Hoje os montes e os rios
e as nuvens
não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios...)
O domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.
[Andrade, Eugénio, Primeiro Poemas, as mãos e os frutos, os amantes sem dinheiro, Assírio & Alvim, s/l, 2012, pág.  62]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 6


PARÁGRAFOS

No silêncio que a noite impõe
Segredam-me, íntimas gotas de poesia
Que escrevem nas folhas do meu diário
A languidez das horas aladas.

Na escuridão do insondável
Buscam minhas mãos o mistério
E imprimem, no chão frio do tempo
Os ermos parágrafos do viver.

Acendo o fogo na intimidade das coisas
Olho o sentido das nuvens, a espuma das marés
Escrevo o repouso que as noites ditam.

Fecho os olhos e, calmamente, no ondular breu
Deixo-me morrer no infinito que me adormece
Nos parágrafos do anoitecer.
[Cecília Vilas Boas, in O eco do Silêncio (Esfera do Caos, 2012)]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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LEIT(e)URAS [53] o negócio dos livros


André Schiffrin era um editor americano
(melhor, um editor na América. Ele nasceu em França) 
filho do criador da Plêiade
(só isso lhe daria direito ao Panteão do Livro), 
escreveu O negócio dos livros, publicado em Portugal pela Letra Livre
[André Schiffrin, O negócio dos Livros, Letra Livre, Lisboa, 2013].
Nele procura e denuncia a força dos grandes editores e o interesse único no lucro, sem olhar à qualidade ou à natureza dos livros. Certamente essa pressão será mais forte na América, apesar de, como me dizia uma livreira suíça, a América seja Nova Iorque e pouco mais. E isto porque eu dizia que na América se tinham publicado 70 mil livros num ano, o que, comparado com Portugal, cerca de 15 mil, era pouco
(ainda que, segundo Schiffrin, se tenham vendido em 98 2,5 mil milhões de livros!).
Schiffrin está indignado com a falta de sensibilidade dos editores e porque os mesmos “afunilam” a procura para livros de êxito fácil, estando-se borrifando para a qualidade, antes procurando o lucro a todo o custo. E em Portugal? O mesmo. Só quero aqui recordar o que o patrão da Leya disse uma vez (cito de cor):
“não gosto de livros, gosto é de automóveis”. 
Paes do Amaral não disse isto por gozo, disse isto porque corresponde ao seu pensamento. A “guerra” das editoras (Leya e Porto Editora) é a guerra dos livros escolares, a guerra de 200 milhões do mercado do livro escolar. Nada mais. O resto é para dar sainete. É de censurar? It´s the business, stupid!

Este livro tem um introito de Vítor Silva Tavares (da &etc) que vale a pena ler.

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 269. 25 DE ABRIL

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
[Andresen, Sophia de Mello Breyner, Obra Poética III, Editorial Caminho, s/l, 1996 (2ª edição), pág. 195]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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VIDEO DA SEXTA 177. "o menino e o mundo"


O Menino e o Mundo

Sofrendo com a falta do pai, um menino deixa sua aldeia e embarca em uma jornada de descobrimento. Na viagem, o menino aprende sobre o trabalho no campo e nas fábricas. Vê quando máquinas modernas chegam à indústria, fazendo com que trabalhadores percam o emprego. Uma inusitada animação com várias técnicas artísticas que retrata as questões do mundo moderno através do olhar de uma criança.
Fonte: [http://blog.animamundi.com.br/o-menino-e-o-mundo-de-ale-abreu-tem-trilha-sonora-com-emicida/]

escrito por Adriana Santos

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O 25 DE ABRIL FOI UMA REVOLUÇÃO?


Por ocasião do 25 de abril de 2012 e servindo-se de um texto de Medeiros Ferreira, O meu baú discutiu essa questão: 25 de abril, uma revolução?

No portal anarquista (por exemplo) defende-se que NÃO:
Não se celebra, no 25 de Abril, uma revolução, mas um golpe de estado realizado por uma camada das forças armadas, descontente com a situação que se vivia na altura, incluindo a Guerra Colonial, e procurando apenas o benefício próprio e não o da população explorada. [ler o texto todo, aqui]
escrito por ai.valhamedeus

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É P'RA CAÇAR E ESFOLAR!


Passos Coelho disse ontem que
Não devemos esfolar um coelho antes o caçar. 
Quem não acreditar confirme aqui.

Tem razão. Está, pois declarada
ABERTA A CAÇA AO COELHO! VAMOS A ELE, PARA DEPOIS O ESFOLAR!
escrito por ai.valhamedeus

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 5


Si alguien llama a tu puerta, amiga mía,
y algo en tu sangre late y no reposa
y en su tallo de agua, temblorosa,
la fuente es una líquida armonía. 
Si alguien llama a tu puerta y todavía
te sobra tiempo para ser hermosa
y cabe todo abril en una rosa
y por la rosa se desangra el día. 
Si alguien llama a tu puerta una mañana
sonora de palomas y campanas
y aún crees en el dolor y en la poesía. 
Si aún la vida es verdad y el verso existe. 
Si alguien llama a tu puerta y estás triste,
abre, que es el amor, amiga mía.
[Gabriel García Márquez]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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E ESTA, HEIN!... 19



escrito por Gabriela Correia, Faro [recebida por email]

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EX-CITAÇÕES * 145. o 25 de abril: 40 anos depois

METONÍMIA DA EUROPA E DO MUNDO

Muros de Liberdade é o título do livro que em breve chegará às livrarias, em Portugal e na Alemanha. O subtítulo da obra, de que são coordenadores Karl- Eckhard Carius (escultor e professor universitário, que ensinou na Escola Alemã de Lisboa durante muitos anos), também autor de muitas das fotos, e Viriato Soromenho-Marques,deixa mais claro qual o seu “tema”: As imagens esquecidas de Lisboa e o clamor de hoje. “Os muros de Lisboa transformaram-se na metonímia das paredes da Europa e do mundo”. O volume inclui ainda textos de mais 7 autores alemães e portugueses. A edição portuguesa é da Esfera do Caos e a alemã da Westfaelisches Dampfboot, com o título Mauern der Freiheit: Lissabons vergessene Bilder und der Aufschrei heute. 
[Jornal de Letras]

Refundar Abril
Cortar o novo nó górdio

… Consolidar a democracia e aderir à Comunidade Europeia foram dois actos coerentes, e até necessários. Já a adesão -  ainda por cima sem consulta popular -  ao tratado de Maastricht (1992), que criou o caminho para a União Económica e Monetária, e para o Euro, foi um erro… 
…O que temos hoje é um mercado comum e uma moeda única que funcionam como máquinas de terror económico e social sobre milhões de mulheres e homens desprovidos de poder efectivo. Como escreveu recentemente a deputada alemã, Sahra Wagenknecht, do partido Die Linke, Portugal deixou de ser um império colonial para se transformar numa colónia da burocracia de Bruxelas, ao serviço do capital financeiro, e da hegemonia defensiva de Berlim. Hoje, a Alemanha é temível, não pela sua ambição desmedida, mas porque o seu governo está petrificado, paralisado pelo medo pelo futuro. A falta de lucidez é tanta, que a chanceler Merkel, na sua alegria por ser a nova rainha de uma Europa que vai de Lisboa a Kiev, se esqueceu daquele pequeno país chamado Rússia… A sua política europeia, quando se propõem reformas federais capazes de salvar a Europa, é sempre a mesma: “Nein! 
… Portugal tem pouco tempo, para não se tornar num sítio desprezível. No 25 de Abril, cortámos o nó górdio da Ditadura. Hoje, apesar de abundarem as vozes que defendem a escravatura como único caminho, ainda há mulheres e homens em Portugal que sabem ser a liberdade mais valiosa do que uma vida desonrada. Ou fazemos um federalismo europeu para cidadãos europeus iguais, ou, então teremos de reclamar a soberania que nos foi usurpada….
[Viriato Soromenho-Marques]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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EX-CITAÇÕES * 144. 25 de abril - 40 anos depois...!

Este livro (OS MEMORÁVEIS) é um livro empurrado pela tristeza. Já não vejo poesia, quando olho para a rua, apenas uma crise que nos cerca e domina, limitando a nossa liberdade e felicidade. Interrogo a História e só vejo esquecimento. Este romance é a expressão da minha revolta…

… Ao olharmos para estas quatro décadas percebemos que houve zonas em que não tocámos. Um bem transformou-se num mal….

… É impossível desmantelar um país de interesses subterrâneos de um momento para o outro. E isso conduziu-nos onde estamos hoje. Se calhar também houve uma certa apatia e imobilismo, o que não ajudou. A pouca acção e reacção prolongou o adormecimento….

… A minha resposta foi fazer o caminho inverso: voltar atrás para perceber se houve uma traição, quem nos traiu, como nos traímos….

…É injusto nascermos para a felicidade e não podermos alcançá-la. Mais: nascermos para a fraternidade e não a cumprirmos….

… Portugal vendeu-se à economia de mercado, à Europa, que trata melhor da casota das galinhas do que da casa das pessoas….

… Mas o país não é o mesmo. Isso ninguém pode esquecer. A liberdade foi uma conquista extraordinária…

…Interessam-me os heróis da retirada, na feliz expressão de Eisenberg. Que fazem grandes coisas e saem de cena…

…É por isso que Salgueiro Maia é o herói perfeito….

… Escrevi O DIA DOS PRODÍGIOS para não esquecer um tempo que ia desaparecer. Este foi para compreender o tempo que está para vir. Enquanto aquele era a balada de um tempo arcaico, este é a crónica de uma conquista imperfeita….

… Por estas páginas passa a minha carne.
[Entrevista a Lídia Jorge sobre o seu último romance “Os Memoráveis”]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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hoje é sábado 268. ABRIL DE ABRIL

Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.

Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.

Era um Abril na praça Abril de massas
era um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.

Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril em acto
em mil novecentos e setenta e quatro.

Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.

Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas.
[Alegre, Manuel, País de Abril, uma antologia, Dom Quixote, Lisboa, 2014, pág. 67-68]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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VIDEO DA SEXTA 176. "A la Française"



À Francesa: era apenas mais uma tarde da realeza no Palácio de Versalhes A atmosfera de luxo e requinte criada na animação ganha graça com a escolha dos diretores ao usarem galinhas ao invés de pessoas como personagens.  
A história explora como a elite vive em um mundo de aparências, quando por trás das perucas gigantes e muito ouro todos são movidos pelo mesmo instinto animal. Toda a pompa da realeza cai por água abaixo após as anotações da informante do rei voarem pelo salão. Em pouco tempo a classe e a “finesse” dão lugar ao caos.  
Leve e engraçado, o curta surpreende pela qualidade gráfica e mostra como, cada vez mais, pequenas produção de estudantes estão se aperfeiçoando tecnicamente.
Fonte: [http://blog.animamundi.com.br/a-francesa-era-apenas-mais-uma-tarde-da-realeza-no-palacio-de-versalhes/]

escrito por Adriana Santos

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 4



Os Cinco Sentidos

São belas - bem o sei, essas estrelas,
Mil cores - divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:
Em toda a natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti - a ti!

Divina - ai! sim, será a voz que afina
Saudosa - na ramagem densa, umbrosa.
Será: mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti - a ti!

Respira - n'aura que entre as flores gira,
Celeste - incenso de perfume agreste.
Sei... não sinto: a minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti - de ti!

Formosos - são os pomos saborosos,
É um mimo - de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede... sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão... mas é de beijos
É só de ti - de ti!

Macia - deve a relva luzidia
Do leito - ser por certo em que me deito
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti - em ti!

A ti! ai, a ti só os meus sentidos,
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E, quando venha a morte,
Será morrer por ti. 
(Almeida Garrett, Folhas Caídas)



foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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FREITAS DO AMARAL E O VOTO OBRIGATÓRIO

Freitas do Amaral veio defender o voto obrigatório, uma vez que o povo não vota, dedica aos candidatos uma olímpica indiferença e, por isso, deve obrigar-se o eleitor a votar.

O Prof. não é novato na proposta. Em 75 ou 76 defendia o mesmo. Nessa altura dizia que, sendo a esquerda mais “militante” que a direita, obrigar os portugueses a votar era uma forma de a direita

(atenção: não ele, que era rigorosamente do centro!!!) 
poder discutir as eleições com a esquerda, uma vez que havia a tendência para não votar por parte das pessoas de ideias mais de direita.

A ideia já existe, por exemplo, no Brasil, onde a abstenção ronda, de qualquer forma, os 20%. A coima rondará uma percentagem do ordenado mínimo e não é dissuasora.

Entre nós o voto é obrigatório, por exemplo, nas eleições para os órgãos da Ordem dos Advogados. Fazendo uma busca verifica-se que a abstenção ultrapassa os 50%!!!

Para se fazer uma ideia, na Suécia, onde o voto não é obrigatório, a abstenção ronda os 13%.

A fraca participação dos eleitores terá outros motivos ou motivações. Um candidato a primeiro-ministro que promete 250 000 empregos e que gera 300 000 desempregados (Sócrates) ou que diz não ir haver cortes nas reformas ou aumentos de impostos (Coelho) não deveria, depois de fazer o contrário do que disse, ser imediatamente demitido pelo Presidente da República? Não deveria haver imediata responsabilidade política pela irresponsabilidade… política? Mas não. O rapaz diz logo que não sabia que as contas públicas não eram o que ele pensava
(ignorância e incompetência)
 e que se viu forçado a fazer o contrário do que prometeu.

Na movimentação dos descontentes em Madrid surgiu uma sugestão que o Rui Rio defendeu recentemente. E a “coisa” era assim: aplicava-se o método de Hondt às abstenções e deixavam-se cadeiras vazias no Parlamento de acordo com a “votação”. Assim, o PSD tinha 25%, o PS 30% e a abstenção 35%, e assim sucessivamente, haveria tantas cadeiras no Parlamento vazias quantas as abstenções representassem. É uma ideia interessante mas que nunca será aplicada. Já viram um deputado ter de conversar com uma cadeira vazia a seu lado?

Eu acho que o “desligamento” do eleitor em relação à participação política se deve ao clima de irresponsabilidade existente, em que o candidato promete o que não pode cumprir e depois não tem consequências. Mas se o governo deixou de ser responsável perante o Presidente da República, como pode este desempenhar um papel mais interventivo? E têm estado eles interessados?

A obrigatoriedade do voto não devolve nem acrescenta mais dignidade à política. Haveria que dotar o sistema de regras que tornassem mais responsáveis os candidatos. Um sistema misto de círculos uninominal e círculo nacional? Como se sabe, o círculo uninominal tem vantagens e desvantagens. Prometo voltar ao tema.

escrito por Carlos M. E. Lopes

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