TRUMP(A)

hoje é sábado 272. COM AS GAIVOTAS

Contente de me dar como as gaivotas
bebo o Outono e a tarde arrefecida.
Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor
por mais que digam é perfeito como a vida.

Tenho tristezas como toda a gente.
E como toda a gente quero alegria.
Mas hoje sou dum céu que tem gaivotas,
leve o diabo essa morte dia a dia.
[Andrade, Eugénio de, Primeiros Poemas, As Mãos e os Frutos, Os Amantes Sem Dinheiro, Assírio & Alvim, s/l, 2012, pág. 96]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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VÍDEO DA SEXTA 178. “O Coelho e o Veado ”

O Coelho e o Veado vence Prémio Indie Júnior Árvore da Vida do Indie Lisboa 2014

Com a duração de 16 minutos, conta a história de um Coelho e de um Veado que vivem sem preocupações num mundo bidimensional até que a sua amizade é posta à prova pela nova obsessão do Veado em encontrar a fórmula para a terceira dimensão. Depois de um inesperado acidente, o Veado descobre um mundo novo e surpreendente e, ao mesmo tempo, tem de procurar uma forma de manter a sua amizade.


Fonte: [http://www.rtp.pt/extra/index.php?article=431&visual=4]

escrito por Adriana Santos

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 8

[clicar na imagem, para a ver melhor/maior]
ARTE POÉTICA

Mirar el río hecho de tiempo y agua
Y recordar que el tiempo es otro río,
Saber que nos perdemos como el río
Y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
Que sueña no soñar y que la muerte
Que teme nuestra carne es esa muerte
De cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo
De los días del hombre y de sus años,
Convertir el ultraje de los años
En una música, un rumor y un símbolo,

Ver en la muerte el sueño, en el ocaso
Un triste oro, tal es la poesía
Que es inmortal y pobre. La poesía
Vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara
Nos mira desde el fondo de un espejo;
El arte debe ser como ese espejo
Que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
Lloró de amor al divisar su Itaca
Verde y humilde. El arte es esa Itaca
De verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable
Que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
Y es otro, como el río interminable.
[Jorge Luis Borges]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ZOOM [92] - abstémio

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escrito por Gabriela Correia, Faro

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hoje é sábado 271. FLOR DA ESTEVA

I

Mal toquei na flor da esteva,
logo se desfez,
frágil como névoas de Verão.

A corola branca
desconjuntou-se em pétalas dispersas
como flocos de neve fora de tempo
pousando com cautela sobre a terra.

Passou assim a haver
no campo um astro a menos.

Mas passou a haver também
Um odor a esteva nos meus dedos.

Ficou ela por ela.
[Cabral, a.m. pires, gaveta do fundo, Tinta da China, Lisboa, 2013, pág. 27]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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VÍDEO DA SEXTA 178.“The Me Bird”

Inspirado no poema homónimo do chileno Pablo Neruda, a animação “The Me Bird” (O Eu Pássaro) narra a história de uma bailarina em busca de sua liberdade. O curta foi exibido na sessão Panorama do Anima Mundi 2013.

Um belo encontro entre poesia e animação!


O Pássaro Eu

Chamo-me pássaro Pablo,
ave de uma pena só,
voador na escuridão clara
e claridade confusa,
minhas asas não são vistas,
os ouvidos me retumbam
quando passo entre as árvores
ou por debaixo das tumbas
qual funesto guarda-chuva
ou como espada desnuda,
estirado como um arco
ou redondo como uma uva,
voo e voo sem saber,
ferido na noite escura,
aqueles que vão me esperar,
os que não querem meu canto,
os que me querem ver morto,
os que não sabem que chego
e não virão para vencer-me,
a sangrar-me, a retorcer-me
ou beijar minha roupa rota
pelo sibilante vento.
Por isso eu volto e vou,
voo mas não voo, mas canto:
pássaro furioso sou
da tempestade tranquila.
[Pablo Neruda]

Fonte: [http://www.animamundi.com.br/2014/the-me-bird-poema-de-pablo-neruda-da-vida-a-animacao/]

escrito por Adriana Santos

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 7


[clique na foto para a ver melhor]

NÃO QUERO IR ONDE NÃO HÁ A LUZ

Não quero ir onde não há a luz,
Do outro lado abóbada do solo,
Ínfera imensa cripta, não mais ver
As flores, nem o curso ao sol de rios,
Nem onde as estações que se sucedem
Mudam no campo o campo. Ali, no escuro,
Só sombras múrmuras, êxuis de tudo,
Salvo da saudade, eternas moram;
Região aos mesmos íncolas incógnita,
Dos naturais, se os tem, desconhecida.
Ali talvez só lírios cor de cinza
Surgirão pálidos da noite imota.
Ali talvez só gelo com as águas,
Como a cegos, serão, e o surdo curso,
No côncavo sossego lamentoso,
Se acaso à vista habituada aclare,
Será como um cinzento tédio externo.
 
Não quero o pátrio sol de toda a terra
Deixar atrás, descendo, passo a passo,
A escadaria cujos degraus são
Sucessivos aumentos de negrume,
Até ao extremo solo e noite inteira.
 
Para que vim a esta clara vida?
Para que vim, se um dia hei-de cair
Da haste dela? Para que no solo
Se abre o poço da ida? Porque não
Será sem fim [?...]
[Fernando Pessoa]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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LIVROS PROIBIDOS PELO ESTADO NOVO

Com o jornal Público está a vender-se, às quintas-feiras, uma coleção de 13 livros proibidos pelo Estado Novo, nas suas edições originais, acompanhados pelos relatórios oficiais de censura.

A semana passada, foi a vez de POVO 
[contos de Afonso Ribeiro, um dos expoentes da prosa de ficção neo-realista portuguesa, natural de Moimenta da Beira. O seu livro de novelas Ilusão na Morte, de 1938, é considerado precursor na área. Professor primário em zonas rurais, o contacto com as desigualdades sociais e com as carências das classes desfavorecidas inspira uma prosa atenta à verosimilhança da fala das personagens, aos seus problemas e escravidões. As suas obras denunciam a miséria moral de proprietários e trabalhadores, proclamando a necessidade de olhar para o mundo rural com diferentes olhos. Colaborou nos jornais O Diabo e Sol Nascente e com a Revista Vértice, tendo deixado um importante legado literário que abarca diferentes géneros].
Esta série de contos foca na sua generalidade a miséria em que vivem as classes trabalhadoras populares, oprimidas pelas classes patronais dos abastados. Foi proibido pelas razões que se reproduzem na imagem seguinte e se podem sintetizar na expressão "Pura propaganda comunista", da autoria do censor, o capitão Carlos Maria do Carmo.


[clicar na imagem para ler melhor]

Os livros da coleção (com detalhes) encontram-se listados aqui.

escrito por ai.valhamedeus

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ZOOM [91] - saída limpa


escrito por ai.valhamedeus

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hoje é sábado 270. PEQUENA ELEGIA CHAMADA DOMINGO

O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos
estavam os montes e os rios
e as nuvens.
Mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.

Hoje os montes e os rios
e as nuvens
não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios...)
O domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.
[Andrade, Eugénio, Primeiro Poemas, as mãos e os frutos, os amantes sem dinheiro, Assírio & Alvim, s/l, 2012, pág.  62]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 6


PARÁGRAFOS

No silêncio que a noite impõe
Segredam-me, íntimas gotas de poesia
Que escrevem nas folhas do meu diário
A languidez das horas aladas.

Na escuridão do insondável
Buscam minhas mãos o mistério
E imprimem, no chão frio do tempo
Os ermos parágrafos do viver.

Acendo o fogo na intimidade das coisas
Olho o sentido das nuvens, a espuma das marés
Escrevo o repouso que as noites ditam.

Fecho os olhos e, calmamente, no ondular breu
Deixo-me morrer no infinito que me adormece
Nos parágrafos do anoitecer.
[Cecília Vilas Boas, in O eco do Silêncio (Esfera do Caos, 2012)]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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LEIT(e)URAS [53] o negócio dos livros


André Schiffrin era um editor americano
(melhor, um editor na América. Ele nasceu em França) 
filho do criador da Plêiade
(só isso lhe daria direito ao Panteão do Livro), 
escreveu O negócio dos livros, publicado em Portugal pela Letra Livre
[André Schiffrin, O negócio dos Livros, Letra Livre, Lisboa, 2013].
Nele procura e denuncia a força dos grandes editores e o interesse único no lucro, sem olhar à qualidade ou à natureza dos livros. Certamente essa pressão será mais forte na América, apesar de, como me dizia uma livreira suíça, a América seja Nova Iorque e pouco mais. E isto porque eu dizia que na América se tinham publicado 70 mil livros num ano, o que, comparado com Portugal, cerca de 15 mil, era pouco
(ainda que, segundo Schiffrin, se tenham vendido em 98 2,5 mil milhões de livros!).
Schiffrin está indignado com a falta de sensibilidade dos editores e porque os mesmos “afunilam” a procura para livros de êxito fácil, estando-se borrifando para a qualidade, antes procurando o lucro a todo o custo. E em Portugal? O mesmo. Só quero aqui recordar o que o patrão da Leya disse uma vez (cito de cor):
“não gosto de livros, gosto é de automóveis”. 
Paes do Amaral não disse isto por gozo, disse isto porque corresponde ao seu pensamento. A “guerra” das editoras (Leya e Porto Editora) é a guerra dos livros escolares, a guerra de 200 milhões do mercado do livro escolar. Nada mais. O resto é para dar sainete. É de censurar? It´s the business, stupid!

Este livro tem um introito de Vítor Silva Tavares (da &etc) que vale a pena ler.

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 269. 25 DE ABRIL

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
[Andresen, Sophia de Mello Breyner, Obra Poética III, Editorial Caminho, s/l, 1996 (2ª edição), pág. 195]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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VIDEO DA SEXTA 177. "o menino e o mundo"


O Menino e o Mundo

Sofrendo com a falta do pai, um menino deixa sua aldeia e embarca em uma jornada de descobrimento. Na viagem, o menino aprende sobre o trabalho no campo e nas fábricas. Vê quando máquinas modernas chegam à indústria, fazendo com que trabalhadores percam o emprego. Uma inusitada animação com várias técnicas artísticas que retrata as questões do mundo moderno através do olhar de uma criança.
Fonte: [http://blog.animamundi.com.br/o-menino-e-o-mundo-de-ale-abreu-tem-trilha-sonora-com-emicida/]

escrito por Adriana Santos

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O 25 DE ABRIL FOI UMA REVOLUÇÃO?


Por ocasião do 25 de abril de 2012 e servindo-se de um texto de Medeiros Ferreira, O meu baú discutiu essa questão: 25 de abril, uma revolução?

No portal anarquista (por exemplo) defende-se que NÃO:
Não se celebra, no 25 de Abril, uma revolução, mas um golpe de estado realizado por uma camada das forças armadas, descontente com a situação que se vivia na altura, incluindo a Guerra Colonial, e procurando apenas o benefício próprio e não o da população explorada. [ler o texto todo, aqui]
escrito por ai.valhamedeus

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É P'RA CAÇAR E ESFOLAR!


Passos Coelho disse ontem que
Não devemos esfolar um coelho antes o caçar. 
Quem não acreditar confirme aqui.

Tem razão. Está, pois declarada
ABERTA A CAÇA AO COELHO! VAMOS A ELE, PARA DEPOIS O ESFOLAR!
escrito por ai.valhamedeus

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 5


Si alguien llama a tu puerta, amiga mía,
y algo en tu sangre late y no reposa
y en su tallo de agua, temblorosa,
la fuente es una líquida armonía. 
Si alguien llama a tu puerta y todavía
te sobra tiempo para ser hermosa
y cabe todo abril en una rosa
y por la rosa se desangra el día. 
Si alguien llama a tu puerta una mañana
sonora de palomas y campanas
y aún crees en el dolor y en la poesía. 
Si aún la vida es verdad y el verso existe. 
Si alguien llama a tu puerta y estás triste,
abre, que es el amor, amiga mía.
[Gabriel García Márquez]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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E ESTA, HEIN!... 19



escrito por Gabriela Correia, Faro [recebida por email]

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EX-CITAÇÕES * 145. o 25 de abril: 40 anos depois

METONÍMIA DA EUROPA E DO MUNDO

Muros de Liberdade é o título do livro que em breve chegará às livrarias, em Portugal e na Alemanha. O subtítulo da obra, de que são coordenadores Karl- Eckhard Carius (escultor e professor universitário, que ensinou na Escola Alemã de Lisboa durante muitos anos), também autor de muitas das fotos, e Viriato Soromenho-Marques,deixa mais claro qual o seu “tema”: As imagens esquecidas de Lisboa e o clamor de hoje. “Os muros de Lisboa transformaram-se na metonímia das paredes da Europa e do mundo”. O volume inclui ainda textos de mais 7 autores alemães e portugueses. A edição portuguesa é da Esfera do Caos e a alemã da Westfaelisches Dampfboot, com o título Mauern der Freiheit: Lissabons vergessene Bilder und der Aufschrei heute. 
[Jornal de Letras]

Refundar Abril
Cortar o novo nó górdio

… Consolidar a democracia e aderir à Comunidade Europeia foram dois actos coerentes, e até necessários. Já a adesão -  ainda por cima sem consulta popular -  ao tratado de Maastricht (1992), que criou o caminho para a União Económica e Monetária, e para o Euro, foi um erro… 
…O que temos hoje é um mercado comum e uma moeda única que funcionam como máquinas de terror económico e social sobre milhões de mulheres e homens desprovidos de poder efectivo. Como escreveu recentemente a deputada alemã, Sahra Wagenknecht, do partido Die Linke, Portugal deixou de ser um império colonial para se transformar numa colónia da burocracia de Bruxelas, ao serviço do capital financeiro, e da hegemonia defensiva de Berlim. Hoje, a Alemanha é temível, não pela sua ambição desmedida, mas porque o seu governo está petrificado, paralisado pelo medo pelo futuro. A falta de lucidez é tanta, que a chanceler Merkel, na sua alegria por ser a nova rainha de uma Europa que vai de Lisboa a Kiev, se esqueceu daquele pequeno país chamado Rússia… A sua política europeia, quando se propõem reformas federais capazes de salvar a Europa, é sempre a mesma: “Nein! 
… Portugal tem pouco tempo, para não se tornar num sítio desprezível. No 25 de Abril, cortámos o nó górdio da Ditadura. Hoje, apesar de abundarem as vozes que defendem a escravatura como único caminho, ainda há mulheres e homens em Portugal que sabem ser a liberdade mais valiosa do que uma vida desonrada. Ou fazemos um federalismo europeu para cidadãos europeus iguais, ou, então teremos de reclamar a soberania que nos foi usurpada….
[Viriato Soromenho-Marques]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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EX-CITAÇÕES * 144. 25 de abril - 40 anos depois...!

Este livro (OS MEMORÁVEIS) é um livro empurrado pela tristeza. Já não vejo poesia, quando olho para a rua, apenas uma crise que nos cerca e domina, limitando a nossa liberdade e felicidade. Interrogo a História e só vejo esquecimento. Este romance é a expressão da minha revolta…

… Ao olharmos para estas quatro décadas percebemos que houve zonas em que não tocámos. Um bem transformou-se num mal….

… É impossível desmantelar um país de interesses subterrâneos de um momento para o outro. E isso conduziu-nos onde estamos hoje. Se calhar também houve uma certa apatia e imobilismo, o que não ajudou. A pouca acção e reacção prolongou o adormecimento….

… A minha resposta foi fazer o caminho inverso: voltar atrás para perceber se houve uma traição, quem nos traiu, como nos traímos….

…É injusto nascermos para a felicidade e não podermos alcançá-la. Mais: nascermos para a fraternidade e não a cumprirmos….

… Portugal vendeu-se à economia de mercado, à Europa, que trata melhor da casota das galinhas do que da casa das pessoas….

… Mas o país não é o mesmo. Isso ninguém pode esquecer. A liberdade foi uma conquista extraordinária…

…Interessam-me os heróis da retirada, na feliz expressão de Eisenberg. Que fazem grandes coisas e saem de cena…

…É por isso que Salgueiro Maia é o herói perfeito….

… Escrevi O DIA DOS PRODÍGIOS para não esquecer um tempo que ia desaparecer. Este foi para compreender o tempo que está para vir. Enquanto aquele era a balada de um tempo arcaico, este é a crónica de uma conquista imperfeita….

… Por estas páginas passa a minha carne.
[Entrevista a Lídia Jorge sobre o seu último romance “Os Memoráveis”]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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