TRUMP(A)

hoje é sábado 283. O AMOR BATE NA AORTA

Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito.

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que corre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...
[De Andrade, Carlos Drummond, Antologia Poética, Editora Record, Rio de Janeiro-São Paulo, 1999 (44ª edição), págs. 144-145]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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VÍDEO DA SEXTA 201. "a lua"

Um menino acompanha pela primeira vez seu pai e avô numa noite de trabalho. As três gerações tomam um velho barco de madeira, remam mar adentro e quando não há mais terra à vista eles param e esperam. O menino se surpreende quando descobre que o trabalho de sua família é mais inusitado do que ele poderia imaginar.
Fonte: [http://www.adorocinema.com]

escrito por Adriana Santos

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 23

[Praça de Espanha, Sevilha.
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ANDALUCÍA

Cielo brillante, fuentes rumorosas,
ojos negros, cantares y verbenas,
altares adornados de azucenas,
rostros tostados, perfumadas rosas.
Bellas noches de amor esplendorosas,
mares de plata y luz, brisas serenas,
rejas de nardos y claveles llenas,
serenatas, mujeres deliciosas.
Cancelas orientales, miradores,
la guitarra y su triste melodía,
vinos dorados, huertas, ruiseñores,
deslumbradora y plácida poesía...
He aquí al pueblo del sol y los amores,
la mañana del mundo: ¡Andalucía!
[Manuel Reina]
[esta é a quarta ilustração de uma série sugerida por um tema comum: Lugares/viagens. A anterior, está aqui. A quinta, aqui].
foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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EX-CITAÇÕES * 147. cidadãos do cupão, franchisados e net-liberais

A cidadania democrática deu mais um passo. O serviço de impostos abriu um casino de slot machines por tudo quanto é sítio onde se realize a mais modesta transacção. Injecta-se dinheiro -- a troco de, por exemplo, uma couve coração, declina-se um número de contribuinte e espera-se. A política resume-se aos acertos privados entre privados, que se nos dão tranquilamente em espectáculo no espaço mediático. Contempladores da própria impotência cívica, vamos espreitando, na Tv. paga, os lances retóricos da monodia em que se converteu o discurso político, enquanto as instituições se fecham ao escrutínio público. Ao mesmo tempo, a devassa e o registo centralizado dos mais pequenos gestos quotidianos convertem a distopia orwelliana numa parábola inocente sobre a verdade e o controlo das consciências. Antes do imposto higienista sobre o açúcar e o sal. Ou do mais temível contador imaginado por Abelaira, em A Palavra é de Oiro.
[SANTOS, João - Escrever nas Margens, in JL]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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PODEM CHAMAR-ME EURÍDICE...


O Público tem vindo a publicar livros proibidos antes do 25 de abril. Este sábado, foi a vez de Podem chamar-me Eurídice de Orlando da Costa. O autor nasceu em Moçambique de pai goês. Intelectual do PCP, é pai de António Costa e de Ricardo Costa.

O seu livro foi proibido porque o “ambiente é subversivo e com alguma imoralidade”, lê-se no relatório do major censor.


Este Costa era homem sério, segundo me dizem…

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 282. AO NOSSO AMOR INACABADO

AO NOSSO AMOR INACABADO (1)
À Mila

Mila
Que sabes tu do nosso amor?
Do fundo ignóbil do meu medo
À limpidez do teu olhar?
Que sabes tu do meu desespero?
Da vontade, da fúria e da angústia
por um moçambicano a menos nos nossos braços?

E esta lança atirada no cosmos
estas Luas pálidas para sempre
este naufragar íntimo que me rebela?
Que sabes tu dos meus versos?
Do silêncio quase forçado
à raiva de ser imperfeito?

Mila
do perdão
noites contínuas acto-contrito
solicito-me e solicito-te
esta derradeira autocrítica
tão necessária ao tempo essencial
do nosso Amor inacabado.
(Setembro, 1973)

[Da Silva, Calane, Dos Meninos da Malanga, Planeta editores, Maputo, 2013, pág. 43]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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VÍDEO DA SEXTA 200. "o vendedor de fumaça"


O Vendedor de Fumaça é uma curta-metragem de animação realizada integralmente pelos alunos de PrimerFrame.com, em outubro de 2010 e foi um dos finalista aos prémios Goya 2013.
Fonte: [http://asebenta.wordpress.com/]

escrito por Adriana Santos

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 22

[Num parque de Londres...
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OS PÁSSAROS DE LONDRES

Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres
quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos.
[Mário Cesariny, in Poemas de Londres]
[esta é a terceira ilustração de uma série sugerida por um tema comum: Lugares/viagens. A anterior está aqui. A quarta, aqui].
foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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GARCÍA LORCA


Federico García Lorca foi fuzilado há 78 anos (a 19 de Agosto de 1936). O meu baú recorda o poeta granadino. Aqui.

escrito por ai.valhamedeus

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DO TEMPO DA MARIA CACHUCHA

Quando se diz que algo «é do tempo da Maria Cachucha», quer-se dizer que é muito antigo

[porquê? encontra a explicação aqui].

Mas isto de ser "muito antigo" é muito... relativo. A informática, por exemplo: os objetos da fotografia anterior são do tempo da Maria Cachucha. Quero dizer, dos anos 90 do século XX. Conservo-os ainda, fora de uso obviamente, mas usava-os há uns 20 e poucos anos atrás.

É um leitor de disquetes de 5,25 polegadas e as respetivas disquetes. Em cada uma delas cabiam 720KB de dados; fazendo as contas, para gravar a informação que se guarda numa daquelas minúsculas pen de 16GB, hoje comuns, que se transportam num bolso, seriam necessários vários milhões de disquetes destas. Isso mesmo, milhões. Como diria o outro, é só fazer as contas...

escrito por ai.valhamedeus

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EX-CITAÇÕES * 146. no próximo oriente...


George Bush Jr. acreditava que as pessoas são democratas de modo natural. Que se se retiram as autoridades repressoras, a população deixa fluir os seus instintos liberais. E atuou em conformidade. Graças a ele, este ano no Iraque proclamou-se um califado, este sim dirigido por terroristas. E o Afeganistão só é governável com a cumplicidade... dos talibãs. 
Se Bush queria democracias no Próximo Oriente, deveria ter financiado muito mais que uma guerra: escolas, juízes e toda uma organização social laica. Mas tinha uma opção mais viável: apoiar a sociedade civil muçulmana maioritária, que detesta o terrorismo mas exige respeito pela sua maneira de viver (ou seja, democracia). 
Bush já está fora de jogo. Mas Hollande ainda está a tempo de cometer o mesmo erro.
[Santiago Roncacliolo. ¿La amenaza islamista?]

escrito por ai.valhamedeus

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hoje é sábado 281. DOS MENINOS DA MALANGA

DOS MENINOS DA MALANGA
(Minkhokweni)
Ao Quinho (Alexandre João Gouvéris)

Mukhokweni
não é lugar de cocos.
Mukhokweni
também tem história
retida na íris
dos meninos da Malanga.
Vivíamos a monte
entre coqueiros, pamas e piteiras
e tínhamos tudo!
Crianças sempre esfarrapadas
mulheres grávidas todos os anos
xibalos-carregadores
e magaízas endinheirados
que os mabandido por vezes
esfaqueavam.
A polícia também investia
para metralhar corpos
e efectuar prisões
mas em Mukhokweni
sobretudo
vivíamos entregues a nós mesmos.
Vinte e quatro anos são passados
sobre os coqueiros, pamas e piteiras
de Mukhokweni ora urbanizado.
Mas os gritos
pragas e imagens continuaram
doidamente condensados
nos nossos corações já amadurecidos.
Jacinto, Fernanda, Madala
e tu Kadir?
Todos companheiros de infância
que o regime implacável dividiu.
Lembram-se irmãos
dos jogos de futebol no campo da Glória
onde o Zeca
esse loiro traquina
apanhava da mãe para não aprender
a falar landim?
Mas o pau de amoreira
no seu corpo franzino
não o assustava
e lá o tínhamos diariamente
como avançado-centro da nossa equipa.
Não sei o que foi feito dele.
Da Fernanda sei.
Essa menina mulata
de tranças de carapinha
não teve ninguém
por isso há dias sem me reconhecer
quis vender-me amor num quarto qualquer da cidade.
Não me mente
este tempo historiado!
Agora
meninos totalmente diferentes
vivem em Mukhokweni
sem coqueiros, sem pamas e sem piteiras.
Porém
quando passo no lugar
quase sem rancor
choro
milhares de pessoa
que Mukhokweni marcou para sempre!
[Da Silva, Calane, Dos Meninos da Malanga, Alcance Editores, Maputo, 2013, pág. 21]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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ESCOLA E MOÇAMBIQUE


Ao lado do antigo Liceu Salazar, agora Escola Secundária Josina Machel, na rotunda situa-se o Museu de História Natural. Orgulhoso da fauna e sobretudo da coleção de fetos de elefantes que tem
(única no mundo?), 
o Museu é visitado por escolas e é bonito ver, em cada turma de visita ao museu, haver três ou quatro alunos a tirar apontamentos num caderno. Os outros não tiram porque não têm
(e não haverá um pouco de vaidade naqueles que têm?). 
De resto, a única coisa que os miúdos me pediram nos dias que por cá ando, foram cadernos. A escola parece ser coisa séria.

Entre Maputo e Inhambane, cerca de 500 kms, veem-se milhares de miúdos que vêm ou vão para a escola. Com um elemento de vestuário igual
(camisa, calças/saia, gravata há em bordeaux, verdes, azuis, amarelos) 
conforme a divisão administrativa, Segundo me disseram… No outro período do dia, ajudam a mãe na venda de fruta.  Há, neste fardamento, qualquer coisa de britânico a que não será alheia a influência sul-africana. E, no entanto, há a carência de 800 mil carteiras nas escolas do país. Muitas daquelas crianças sentam-se no chão para ter aulas…

O Museu de História Natural é pequeno, mas interessante. Mas denota carências que não estão de acordo com o orgulho que as autoridades dizem ter nele. As legendas escasseiam, estão gastas, não há guias
(ou desaparecem)...
São negligências incompreensíveis num museu com um acervo importante e de que os Moçambicanos se devem orgulhar.

escrito por Carlos M. E. Lopes

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VÍDEO DA SEXTA 199. "The Lost Thing "


THE LOST THING
Realização: Andrew Ruhemann, Shaun Tan
Ano: 2010

Sinopse
Um jovem descobre uma criatura estranha enquanto apanhava tampas de garrafa na praia. Ao aperceber-se de que está perdida, o rapaz tenta procurar o dono ou o local a que pertence, mas é confrontado com a indiferença de todos, que quase nem dão pela sua presença.
Fonte: [http://www.thelostthing.com/]


escrito por Adriana Santos

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DO CONTRA [104] a elevação da virgem


Faz, hoje, anos
[foi a 15 de agosto de 42]
que faleceu a Virgem Maria, Nossa Senhora, mãe de Jesus. Segundo a tradição da Igreja, teria "dormido" e ressuscitado sendo elevada ao Céu em corpo e alma pelos anjos.

As coisas que esta gente da Igreja sabe...

escrito por ai.valhamedeus

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NÃO CONFIO EM CACHORROS


Esta é uma imagem que circula pelo Facebook com alguma intensidade vírica.

“Não confio em pessoas que não gostam de cachorro, mas confio totalmente num cachorro quando ele não gosta de uma pessoa”. Não sei se esta frase é de Einstein ou não. Nem me interessa
(embora me incline para pensar que não é): 
se for, é (mais) uma prova de que um grande génio pode dizer uma grande asneira.

Já torço o nariz à primeira parte da citação, mas admito-a: primeiro, porque qualquer pessoa tem o direito de (não) confiar em quem entender; segundo, porque se por “não gostar de cachorro” se entender “fazer mal aos animais”, a frase começa a “fazer sentido”.

Agora… a segunda parte é que é asneira completa, se atendermos ao que ela supõe; isto é, não que afirma o referido direito de alguém (não) confiar em quem entender, mas que o facto de um cachorro “não gostar” de uma pessoa significa que essa pessoa não é de confiança. Pelo seguinte:

  • Os factos desmentem esta “teoria”; se ela fosse verdadeira, todos os animais, humanos ou não humanos (cachorros incluídos), que passam na minha rua seriam de pouca confiança: há um cachorro que ladra violentamente a tudo o que seja animal movente e lhe passe na redondeza… E, se pensarmos naqueles cachorros que se atiram aos donos, o que é que deveríamos concluir daí?
  • Se a frase fosse verdadeira, eu próprio seria… um monstro: na verdade, eu não gosto de cachorros, nem de qualquer animal em geral. Não gosto, no sentido de que não ando aos beijos ou às carícias aos ditos, nem nada que com isso se pareça – embora seja incapaz de fazer mal a qualquer animal, a não ser àqueles que, sem minha permissão, me entram em casa (designadamente moscas e quejandos). Dito de outro modo, respeito eu mais os animais em geral do que alguns animais (sobretudo cães) me respeitam a mim.

E anda Einstein (ou, mais provavelmente, alguém por ele) a dizer que… que não sei quê?! Valha-o Deus, se pode…

escrito por ai.valhamedeus

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 21

[Copenhague, Dinamarca. Estátua da pequena sereia.
Clique na imagem, para a ver maior]

Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
(…) 
Escuto-te de aqui, agora, e desperto a qualquer coisa.
Estremece o vento. Sobe a manhã. O calor abre.
Sinto corarem-me as faces.
Meus olhos conscientes dilatam-se.
O êxtase em mim levanta-se, cresce, avança,
E com um ruído cego de arruaça acentua-se
O giro vivo do volante.

Ó clamoroso chamamento
A cujo calor, a cuja fúria fervem em mim
Numa unidade explosiva todas as minhas ânsias,
Meus próprios tédios tornados dinâmicos, todos!...
Apelo lançado ao meu sangue
Dum amor passado, não sei onde, que volve
E ainda tem força para me atrair e puxar,
Que ainda tem força para me fazer odiar esta vida
Que passo entre a impenetrabilidade física e psíquica
Da gente real com que vivo!

Ah seja como for, seja por onde for, partir!
Largar por aí fora, pelas ondas, pelo perigo, pelo mar.
Ir para Longe, ir para Fora, para a Distância Abstrata,
Indefinidamente, pelas noites misteriosas e fundas,
Levado, como a poeira, plos ventos, plos vendavais!
Ir, ir, ir, ir de vez!
[Álvaro de Campos, excerto de Ode Marítima]
[esta é a segunda ilustração de uma série sugerida por um tema comum: Lugares/viagens. A anterior está aqui. A terceira, aqui].
foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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O ELEVADOR


Um elevador é um objeto a que nunca liguei muito
(a não ser aquele tremedor que sinto quando nele embarco, muito semelhante ao que sinto quando entro num avião…). 
É a coisa mais natural num prédio alto. Não necessariamente assim, sempre. No edifício Mira d´Ouro
(será assim?), 
na Julius Nyerere, em Maputo, a coisa fiava mais fino. Aquele elevador tinha feito a guerra colonial, a guerra civil e vive hoje numa relativa paz. E vive à custa da habilidade, sageza e desenrascanço dos porteiros. Ao entrar no prédio, o meu olhar dirigia-se sôfrego para a porta, desejando não ver a vassoura a barrar o caminho ou a placa “fora de serviço…”. Mesmo assim, ao premir o botão esperava, ansioso que a luz se acendesse ao chegar ao meu piso. É que o elevador não tem luz a indicar se vem ou está parado, dentro, não sabemos onde estamos, a porta pode não abrir, pode parar ligeiramente abaixo de onde queremos sair. Enfim, uma viagem é uma aventura. A minha vizinha italiana bem gritava “porca miséria. 30 000 dólares e nem o elevador funciona”.

Aprendi (?) eu que um bem económico, grosso modo, é um objeto que satisfaz uma necessidade humana, raro, mas acessível. Nunca vi uma definição tão verdadeira. Aquele elevador era ouro. É que eu morava no 11º andar, correspondente a 12, e a rua ficava a 182 degraus abaixo. Ou melhor, a porta da minha casa ficava a 182 degraus da rua!

Lá em cima, uma vista deslumbrante sobre a baía. Mas subir 182 degraus, carago?!?! Chegámos cerca das 21 horas
(noite cerrada e já meio da noite. A noite cai às 17,30…), 
cansados. Aprontei-me para levar a rainha ao colo, porque dormia. Avancei, lesto para o prédio. Subi o primeiro degrau, direito à porta do elevador. Depois, bom... depois, foram mais 181 degraus… o piso intermédio foi rápido, em jeito de atleta. No primeiro andar, comecei a sentir as pernas. Coisa de nada. Ao segundo andar, com a porta com figuras hindus, já o fôlego me faltava. Os músculos das pernas já se faziam sentir. Encostei os meus 125 quilos, mais os 12 da transportada, ao corrimão. Isto é um minuto, pensava, enquanto esperava que nenhum atlético vizinho passasse por mim e olhasse com ar de gozo. A mim, parecia-me que os músculos se iriam virar e que deixava cair a carga que transportava. Nunca odiei tanto os cozidos à portuguesa, as feijoadas, as favas com chouriço, os enchidos, o vinho, a cerveja, os whiskys, os doces que comi e bebi. Jurei ali mesmo passar a fazer uma vida saudável, à base de verduras e frutas.

No quinto andar, estava um senhor sentado nos degraus a ganhar fôlego. Fumava para descontrair, dizia ele. Eu, com as tripas em alvoroço e as pernas a recusarem responder a qualquer ordem, encostava-me. Ainda pensei deixar a carga a dormir e os pais que tratassem dela. Já derreado, sem noção de onde estava, cheguei ao 182º degrau. Procurei as chaves. São duas portas. Uma de ferro. Tinha que puxar a porta para ela abrir. Como fazê-lo com a carga humana em cima? Lá me torci e abri as portas. Fui deitar a miúda. Senti-me um herói, suado. Deitei-me sobre a cama. Deu-me fome. Fui à cozinha. Abri uma Laurentina e fiz uma sandes de chouriço. Lembrei-me do que tinha prometido. Pensei: “começo amanhã”.

escrito por Carlos M. E. Lopes

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E ESTA, HEIN!... 21

…Apesar do desrespeito dos últimos tempos pela profissão de professor e dos dias de desânimo, apesar da crescente burocracia que não deixa tempo para o que é verdadeiramente essencial na vida docente, continuo ainda a acreditar no meu trabalho e sei que sou privilegiada porque me levanto todos os dias para fazer o que gosto, numa escola perto de casa, sem precisar de me afastar da minha família, como acontece com tantos colegas. …
[Conceição Dinis Tomé, professora bibliotecária no Agrupamento de Escolas Viseu Sul, doutoranda em Estudos Portugueses e investigadora do Centro de Estudos das Migrações e Relações Interculturais da Univ. Aberta]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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PENA DE MORTE NOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA


Discute-se na América a forma de executar as penas de morte. E isto porque o último executado, James Wood, levou 1 hora e 5 min a morrer. E acho bem que 72% dos Estados dos USA usem a pena de morte: assim se defendem os valores da democracia, tolerância, liberdade e dos direitos humanos. O que não está certo não é a pena de morte, mas gastar tanto tempo em eliminar um ser nocivo à humanidade
(mesmo que se venha a descobrir mais tarde que estava inocente do crime pelo qual foi executado). 
Time is Money e, de facto, duas horas para limpar o “sarampo” a um criminoso é demasiado tempo. Os estudos vão realizar-se céleres, de forma a se evitar tanto tempo e assim aliviar consciências.

Mas os americanos
(e outros que têm pena de morte)
deveriam aprender com os da Al-Qaeda e não só. Lembremo-nos do jornalista Daniel Pearl, decapitado no Paquistão… As imagens são terríveis, mas cortaram-lhe a cabeça em dez ou vinte segundos. Mas na civilizada América leva-se quase duas horas…

Tenho a opinião de que país que tem a pena de morte entre as medidas de sanção é um país incivilizado. Se leva duas horas para executar um cidadão, é um país selvagem.

escrito por Carlos M. E. Lopes

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