TRUMP(A)

hoje é sábado 288. NÃO SE MATE

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
Reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.
Não se mate
[Andrade, Carlos Drummond de, Antologia Poética, Editora Record, Rio de Janeiro S. Paulo, 1999, pág. 147]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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VÍDEO DA SEXTA 206. " 7°anão - o pequeno herói


Sinopse
Quando Bobo, o mais novo dos sete anões, pica acidentalmente a Princesa Rose (também conhecida como Bela Adormecida), e lança o Reino num século de sono, ele e os outros seis anões têm de viajar até ao futuro para acordar Rose... e descobrir que até o mais pequeno anão pode ser Rei.

escrito por Adriana Santos

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QUE RAZÃO MANTÉM DE PÉ ESTA FICÇÃO?


Crato, além de fingir de ministro, desautorizar a matemática, considerar (só) as Universidades de Lisboa 'extraordinárias' e se assumir como uma ficção, tornou-se, talvez por efeito de uma dieta de espinafres, especialista em gramática.

O verbo manter - e apenas em duas flexões - é, por enquanto, o seu mais recente contributo para 'esclarificar' a nano diferença entre mantêm-se e manter-se-ão. Os tribunais, onde pontua uma figura tão ficcional
(e cómica) 
como a justiça que nos tutela, poderão ser chamados a dirimir
(no Citius)
a proeminente questão gramatical e, se houver lugar a qualquer indemnização, por reiterada e abusiva incompetência de quem toma decisões aparentadas com a loucura, o erário público, sustentado pelos já acostumados contribuintes, será chamado, por razões gramaticais, creio, a prestar contas.

Se até o 'espírito santo', com tantas garantias do altíssimo, acabou por se estatelar sem a ousadia de um Ícaro, que razão mantém de pé uma ficção ministerial que mais não faz do que estatelar-se, sem nunca ter conseguido
(sequer) 
tentar 'voar'?

escrito por Jerónimo Costa

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 29


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ENCRUZILHADA
A cada amanhecer, novos mistérios
Que escondem os pesares do mal
A cada folha que cai, uma quimera
Que embalou o sonho e se fez real

Choramos, hoje, a mágoa de ontem
Sepultando-a em cova rasa
Nossas esperanças, nossas utopias
Na dúvida de tantas filosofias
Na angústia cruel que o peito arrasa
Vagamos sem lume pelas noites frias

E nos desencontros de nossas pobres almas 
O vazio nos arrebata por completo
Cada um seguiu seu caminho errante
Afogado na mágoa, na busca constante
Do encontro verdadeiro e certo
E nunca olhamos quem está por perto
E sempre procuramos viver num outro instante

Perdemo-nos em nossos descaminhos
Preconceitos e discórdias foram nossas marcas
Esquecemo-nos do simples numa busca vã
Do impossível que não vem com o amanhã
Se nossos sonhos não se encontram
Desviam-se em cada encruzilhada
E seguem solitários, tristes, nessa estrada.
[Paulo Gondim]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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LEIT(e)URAS [59] a república


Campos Monteiro terá sido um médico e monárquico que escreveu uma bem humorada crónica dos últimos tempos da 1ª República. A coisa não era muito diferente do que temos assistido hoje.
Por exemplo, a indicação do Ministro da Instrução e Negócios Estrangeiros:
– Então você vai indicar para ministro da Instrução um homem que não tem exame de instrução primária?  
- O João Camoesas poucos exames tinha, e fez um bom lugar – respondia o interpelado.
- Mas, Doutor Paulo, ministro dos estrangeiros, um homem que fala apenas a língua portuguesa, e mal! 
- Vocês verão como ele se faz compreender, por mímica, por todos os embaixadores. Tem às vezes gestos tão expressivos!

E é neste tom divertido que o Dr. Campos Monteiro nos vai relatando as peripécias do estertor da 1ª República. Julgo que ele exagera, mas é uma crónica bem-humorada.

Diz ele que
já Guerra Junqueiro asseverava que n´este doce paiz á beira-mar plantado se não inutilizava um politico nem correndo-lhe por cima um cilindro de estrada. (pág. 177)
Haverá semelhanças com os tempos de agora?

Transcrevo aqui a passagem relativa a António Sérgio (esse mesmo, o dos ensaios…)
o perceptor e guia de todos os seus colegas, com mais preponderância no ministério que o próprio José Domingos [presidente do governo], era António Sérgio. Singular figura esta, simpática pelo talento e faculdades de trabalho, mas irritante, enormemente rebarbativa pela vaidade desmedida e pelo seu doentio anceio de originalidade e supremacia intelectual! Se um critério definido, e desviado de uma sã orientação filosófica, serviram-lhe a inteligência e a memória para encher o craneo de teias de aranha, - uma rede inextricável de teorias a que pedantescamente chamava «humanismo crítico» como podia chamar-lhe outra coisa. E a convicção de ser ele o único homem inteligente n'um paiz de estupidos enchera-o de uma filáucia ridícula, levando-o a pontificar ex-catedra e a impor as suas opiniões com uma embófia de brahamane senhor dos profundos mistérios do Rog-Veda (pág 175-176).

Há aqui algum despeito, mas o clima geral é bem disposto e dá-nos a sensação de déjà vu. Por exemplo, após a vitória da revolta, a tropa foi toda promovida dois postos. Resultado: em Lisboa passou a haver 10 000 sargentos e nenhum soldado...

Procurem. Este emprestaram-me, mas já o vi a 6€ e a 18…
(há várias edições. Esta é a mais interessante. Nas transcrições mantive a pontuação e a grafia do livro citado).
escrito por Carlos M. E. Lopes

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EX-CITAÇÕES * 148. escócias de outra vida

… Quem mais contribuiu para revigorar o nacionalismo escocês foi a desastrosa mrs. Thatcher, quando impôs à Escócia reformas de “liberalização económica”que, pelas suas nefastas consequências (nalgumas comunidades o desemprego atingiu 80%), não foram adoptadas no resto do Reino Unido…. 
… Enquanto que na Inglaterra as universidades têm vindo a ser transformadas em empresas comerciais (os alunos são agora “clientes” endividados), o ensino universitário escocês continua a ser implementado como um investimento público. E o Serviço Nacional de Saúde, que está a ser gradualmente privatizado na Inglaterra, continua a ser grátis na Escócia…. 
… O facto é que a Escócia tem conseguido assegurar a manutenção de benefícios sociais que estão a ser destruídos na Inglaterra à custa, em larga medida, da economia global do Reino Unido de que a Inglaterra é a parte dominante… 
… Oh, cínica Inglaterra! Como bem dizia o iracundo Junqueiro quando foi do Ultimato. Nesse tempo, o nosso sentimento nacionalista foi tão intenso que até quisemos comprar à Inglaterra um naviozito de guerra… para invadir a Inglaterra!... 
… Não sendo inglês nem escocês, mas residente nestas paragens há mais de meio século (e com uma confessada simpatia pela Escócia que aplaude os nossos futebolistas nos jogos contra a Inglaterra), o que eu gostaria é que houvesse maior autonomia da Escócia no contexto do Reino Unido e menor autonomia do Reino Unido no contexto duma União Europeia mais equitativa. Deixando o nacionalismo para os hinos e os jogos de futebol. ….
[Hélder Macedo, escritor, poeta]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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ESCRITARIA 2014


A Escritaria, em Penafiel, termina hoje. O programa está aqui.

escrito por ai.valhamedeus

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hoje é sábado 287.

Julgam-me mui sabedor.
E é tão grande o meu saber
que desconheço o valor
das quadras que sei fazer
[António Aleixo in Poetas e Prosadores Algarvios de Elviro Rocha Gomes, Algarve em Foco Editora, Faro, 1999, pág. 42]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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OS LIVROS E AS LIVRARIAS

Tenho por hábito abraçar causas perdidas. Cada qual nasce para o que nasce…

Tenho estado com alguma atenção ao que se passa no mundo livreiro. Um dia, por azar, tive a ousadia de dizer na Buchholz

(também vou a lugares últimas a finos), 
na apresentação de um livro, que o livro, como o conhecíamos, tinha os dias contados. Fui insultado pela minha amiga Cristina, gerente da loja.

Entretanto fecharam não sei quantas livrarias. Uma das últimas o Pátio de Letras em Faro, que recebeu inúmeros escritores e intelectuais e que não souberam ou ignoraram o “evento”. A Liliana merecia mais consideração. O Pátio de Letras era o verdadeiro Centro Cultural do Algarve
(cheguei a dizê-lo lá).
Entretanto havia fechado a Bertrand na Guia. E tantas outras. O fecho é inevitável e vai varrer ainda mais o país. Estou crente que que em breve a FNAC fará o mesmo…
Leio no El Pais
(dou-me a esse luxo, de vez em quando…) 
que uns “espertos” ibero-americanos se reuniram em Madrid para discutir “los libros y los lectores” (1 de octobre de 2014). E aí vem a lenga lenga do costume: “a indústria editorial e os governos fracassaram na hora de forjar novos leitores e novos planos de fomento da leitura”
(a tradução é minha e não dos “espertos” do aijesus).
A “coisa” expande-se por todo o mundo: a leitura tem descido. O aumento da leitura dos livros digitais não colmata a queda geral. Que fazer? Há que fazer?

escrito por Carlos M. E. Lopes

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 28


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ENTARDECER
Sol-posto ungindo o mar: incensos de ouro!

Recolhe funda a tarde em sonho e mágoa.
Surdina fluida: anda o silêncio a orar –
E há crepúsculos de asas e, na água,
O céu é mármore extático a cismar!

E nas faces marmóreas dos rochedos
Esboçam-se perfis,
- Cintilações,
Penumbra de segredos!

Ó painéis de nuvens sobre a terra,
Ogivas delirantes
Na água refratando…
Encheis de sombra o mar de espumas rasas,
Iniciando
A hora pânica das asas!

E, à meia luz da tarde,
Na areia requeimada,
São vultos sonolentos
As proas dos navios…

Ó tristeza dos balões
Iluminando,
Na água prateada,
Os pegos e baixios…

Dormentes constelações
Que, em fundos lacustres
E musgosos,
Pondes reverberações
Em nossos olhos ansiosos.

Ó tardes de aquático esplendor,
Descendo em meu olhar!

Num sonho de regresso,
Numa ânsia de voltar,
Em mim todo me esqueço
E fico-me a cismar.

A tarde é toda um sonho moribundo.
É já olor da cor que amorteceu.
O céu vive no mar: sono profundo.
A asa do rumor no ar adormeceu!
[Luís de Montalvor, in Antologia Poética]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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GESTORES MERDIONÁRIOS

No top dos prémios milionários (com 804 mil euros!), um tal Ricardo Salgado.



...prémios milionários para, supostamente, gerirem (bem). De repente, descobre-se que, afinal, em vez da boa gestão fizeram... merda.

escrito por ai.valhamedeus

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CHAMA O ANTÓNIO


Nas eleições primárias (do PS) de ontem, leio, o António perdeu; quem ganhou foi o António.

Como homenagem a ambos, recordo uma popularíssima canção, conhecida pela sua qualidade (ao melhor nível dos ex-debates televisivos e da ex-campanha eleitoral):


escrito por ai.valhamedeus

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O QUE VEM À REDE * 4



... e a pirataria está agora (mais) legitimada.

escrito por ai.valhamedeus

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hoje é sábado 286. A JOVEM PEREIRA...


[Lopes, Teresa Rita, O Sul dos Meus Sonhos, Gente Singular, Olhão, 2009, pág. 72]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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VÍDEO DA SEXTA 205. " O Jogo de Geri”


Geri's Game (O Jogo de Geri) é um filme de curta-metragem de 1997 realizado pela Pixar Animation Studios, que vem como bônus do filme Vida de Inseto da Disney em parceria com a Pixar. O curta também foi exibido nos cinemas junto com o filme Vida de Inseto.

Sinopse
O curta se passa em um parque e conta a história de um simpático velhinho chamado Geri que joga xadrez contra ele mesmo, de um lado ele é do bem e de outro lado ele é do mal. Seu lado mau está ganhando e faz seu lado bom quase ter um ataque cardíaco, Mas seu lado bom consegue virar o jogo (literalmente).

Geri aparece também em Toy Story 2, como o restaurador de brinquedos.
Fonte: [http://pt.wikipedia.org/wiki/Geri%27s_Game]

escrito por Adriana Santos

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LEIT(e)URAS [57] afirma pereira




Antonio Tabucchi nasceu há 71 anos, completados ontem, O meu baú festejou-os com uma síntese de Afirma Pereira, um romance histórico do escritor falecido há dois anos.

escrito por ai.valhamedeus

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PENSAMENTO DO DIA

A propósito da salsicha, do Citius, da fórmula matemática, etc., etc., ocorreu-me uma comparação, por contraste: sabem qual é a diferença entre o Rei Midas e este governo? É que Midas transformava tudo aquilo em que tocava em ouro.

escrito por Gabriela Correia, Faro

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 27


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SORRISO AUDÍVEL DAS FOLHAS 
Sorriso audível das folhas,
Não és mais que a brisa ali.
Se eu te olho e tu me olhas,
Quem primeiro é que sorri?
O primeiro a sorrir ri.
 
Ri, e olha de repente,
Para fins de não olhar,
Para onde nas folhas sente
O som do vento passar.
Tudo é vento e disfarçar.
 
Mas o olhar, de estar olhando
Onde não olha, voltou;
E estamos os dois falando
O que se não conversou.
Isto acaba ou começou?
[Fernando Pessoa, in Poesias]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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O GOVERNO DOS ERROS E DA SALSICHA

Tudo indica que está em extensão a ligação dos dirigentes do PSD às comidas. Só que, a ser verdade esta minha tese, a qualidade decresce na mesma proporção...

Na campanha eleitoral de 2002, Margarida Sousa Uva dedicou um excerto do poema "sigamos o cherne", de Alexandre O'Neill, ao marido, Durão Barroso, a partir daí conhecido como o Cherne.



Agora, Passos Coelho (auto)associa-se à salsicha. Diz ele

[piadeticamente -- ou, se não, pindericamente. De qualquer modo, com muito mau gosto: as salsichas são cheias com... a gente sabe/adivinha com quê]
que
sabemos [sabemos?! quem é que sabe?] melhor do que ninguém que aumentar a chamada salsicha educativa não é a mesma coisa que ter um bom resultado educativo
Será que, brevemente, o primeiro deste país virá pedir desculpa, mais uma vez
[repetindo o que ele próprio já fez e os ministros dele estão a fazer -- recorde-se a ministra da justiça e o da educação]?
escrito por ai.valhamedeus

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hoje é sábado 285. TABERNEIROS

Numa sórdida tasca, húmida e escura,
O taberneiro, de a bonacheirão,
Como quem tem nas mãos o coração,
Vende, por bom, uma banal mistura…

E o freguês, pobre e ingénua criatura,
Que rejeitar devia a podridão,
Bebe-a com tal prazer, sofreguidão
Que chega a ser bem cómica figura!

Fazendo, assim, por aumentar a pança
do jovial e oleoso vendedeiro
Que, mal o vê em cega contradança,

O invectiva de besta, de casmurro;
E, em paga de ficar com seu dinheiro
Prega-lhe violento e forte murro!
[Gago, Adolfo C., Lágrimas de Luz/ Sob o império da verdade, Edição da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António (prefácio de Teresa Patrício), VRSA, 2001, pág.31-32 (do Sob o Império da Verdade)]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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