TRUMP(A)

hoje é sábado 290. RÍGIDOS SEIOS

Rígidos seios de redondas, brancas,
frágeis e frescas inserções macias,
cinturas, coxas rodeando as ancas
em que se esconde o corredor dos dias; 
torsos de finas, penugentas, frias,
enxutas linhas que nos rins se prendem,
sexos, testículos, que inertes pendem
de hirsutas liras, longas e vazias 
da crepitante música tangida,
húmida e tersa na sangrenta lida
que a inflada ponta penetrante trila; 
dedos e nádegas, e pernas, dentes,
Assim, no jeito infiel de adolescentes,
a carne espera, incerta, mas tranquila.

[Sena, Jorge de, Antologia Poética, Asa Editores, Porto 2001 (2ª edição), pág. 69]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 31


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CANÇÃO DE OUTONO
Perdoa-me, folha seca, 
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo, 
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão 
se havia gente dormindo 
sobre o próprio coração? 
E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando aqueles 
que não se levantarão... 
Tu és folha de outono 
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...
[Cecília Meireles]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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NÃO HÁ FOME QUE NÃO DÊ EM FARTURA


Enquanto Crato continua ministro, mesmo à força, pelo que dizem, sequestrado por Pedro, por ser especialista em implosões em áreas vitais da estrutura social, um professor
[que até já tinha abdicado de o ser] 
foi agora colocado em 95 escolas! Assim como se lhe saísse o Euromilhões sem ter jogado e, pasme-se, contra a sua vontade.

Se isto é apenas notícia do JN sem mais consequências, para além do experimentalismo que tomou conta deste executivo, pode significar que, neste país já nada constitui alarme público e o direito à indignação foi removido das nossas vidas.

Se ao menos em Belém existisse um pr e não um fantasma, este arremedo aziago de governo há muito que tinha sido sepultado nas catacumbas de qualquer inferno. Mas a prioridade do alto dignatário do estado de citius, depois de espreitar o sorriso das vaquinhas açoreanas, passou para a fertilidade do cavalo lusitano. Isso sim, são desígnios da Pátria!

escrito por Jerónimo Costa

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O LAMPEIRO


Hey! hey!

Nasceu uma nova classe no futebol português: o LamPeiro (cruzamento de lampião com tripeiro)

De todos os sinónimos, retenho dois:
  • intrometido, porque o Luís Duque acabou por ver intro-metida uma candidatura à qual não se fez e da qual não sabia, duas horas antes;
  • serôdio (quem mais se pode aproximar do LamPeiro, em termos de imagem, que um dos grandes ícones da infância da geração "25 de Abril": o Guarda Serôdio dos amigos de Gaspar)?

    Já dizia ele, ninguém entra! Nem ninguém sai...fica tudo na mesma.

escrito por ai.que.me.foram.ao.bolso.outra.vez.com

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O GOVERNO DE PORTUGAL É DO OUTRO MUNDO!


A colocação de professores, este ano, foi/está a ser a barafunda que se sabe. Continua a haver escolas sem professores. E a situação continua(rá) problemática. A própria colocação de professores remetida para as escolas parece ter criado problemas, em vez de os resolver...

...mas o primeiro dos ministros de Portugal afirma, alto e bom som...
"ACERTEI QUANDO ESCOLHI CRATO PARA MINISTRO DA EDUCAÇÃO".
Em que país estamos, ó deuses?

escrito por ai.valhamedeus

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hoje é sábado 289. ALMINHA

Às vezes eu ando nas ruas
Pesado como nos sonhos
Com a loucura pousada nos ombros
Sinto vontades estranhas
Como pequenas alminhas
Sugerindo outros rumos
- Vai ser advogado, vai! Ficar dentro de um terno
o dia inteiro nas portas dos tribunais!
- Vai ser morador de rua, vai! Ser dono de nada
num meio de u tudo!
- Vai ser soldado, vai! Passar a vida de guarda,
vendo a vida passar!
Tem cada alminha mais sem graça…
Ainda bem que sei
Que a loucura é coisa que dá, mas passa.
[Sá, Vicente, Engenho da Loucura, ed. do autor (?), Brasília, 2011, pág. 21]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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VÍDEO DA SEXTA 207. "LILA"

A BELEZA ESTÁ NOS OLHOS DE QUEM VÊ


"LILA" from Carlos Lascano

"Temos a arte para não morrer da verdade"
[Friedrich Nietzsche]

escrito por Adriana Santos

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CAFÉ E PACOTES DE AÇÚCAR

É um ícone. Urbano e cosmopolita. Mutante e mutável. Reinventa-se e faz-nos «companhia» nos momentos especiais e naqueles que achamos menos especiais. É ritual de culto, de charme e de glamour. Num gole de café expressam-se mil bagos de sensações. Emoções. Aromáticas. Mais ou menos amargas, mais ou menos doces, mais ou menos quentes, ou até mesmo geladas. Numa chávena de café cabem universos mágicos, daqueles que nos transportam para outras histórias de nós. Ele também tem a sua história, aliás, histórias. Lendas que fazem dele algo que consumimos de forma quase mística. Envolto em negócios secretos, em enredos amorosos, em coisas do demónio, dos anjos ou, simplesmente, banais. O café atravessou séculos, resistiu a tudo e impôs-se como um conceito. Sim, haverá outra bebida no mundo que possa provocar igual sedução quotidiana como o café? Curto, cheio, de saco ou expresso, com ou sem açúcar, pingado ou com cheirinho, escaldado ou gelado... cada café, Arábico ou Robusto, tem a sua personalidade. 
É nessa essência que nos enfeitiça. Sozinhos, tomamo-lo num momento de pausa, só nosso. Em companhia, tomamo-lo com amigos ou a dois, oferecemo-lo como cartão de cortesia e também o tomamos como pretexto de encontros e desencontros. À volta de um café dão-se muitas outras voltas. Aceita um café?
COM OU SEM AÇÚCAR
Porque adoçamos, geralmente, o café? Há quem explique que este acto acompanhou desde cedo os consumidores desta bebida milenar por ela ser demasiado forte e amarga, o que em muito contribui a fase de torração dos bagos de café. Também há especialistas que defendem a ideia de que se o café for de alta qualidade, suave e aromático, não deve ser adoçado. Existem até estudos, alguns bem recentes, como aquele que a Universidade de Barcelona divulgou, em que se assegura que a aliança entre cafeína e glicose eleva os niveis de atenção e de inteligência. Contudo, e como o café é e continuará a ser um ícone, o seu lado mais romântico e até social espalhou-se, como que por osmose, aos famosos pacotes de açúcar. 

Há até em Portugal, como também por outras paragens do mundo, associações e clubes de coleccionadores de pacotinhos de açúcar. Há muito que as marcas se aperceberam que num simples pacote de açúcar era possível passar várias mensagens. Tal como acontece, por exemplo, em t-shirts impressas com frases ideológicas. Num mercado tendencialmente voltado para o indivíduo como um ser único e especial, os pacotes de açúcar reinventaram-se no seu próprio conceito e hoje encontramos estas doces embalagens rectangulares carregadas de significado. Muitas marcas, algumas mais do que outras, apostam em campanhas de sucesso com frases a que ninguém fica indiferente. Quanto ao adoçante, a controvérsia subsiste e está sistematicamente agarrada a estudos. Mas seja lá como for - com ou sem açúcar, com ou sem adoçante - o café mantêm o lado mais dócil da vida. Na companhia de uma «bica» ou de um «cimbalino», de um “expresso” cheio ou de uma «italiana», esta é a bebida que romanceia e nos faz divagar por outras paragens. 
[Carla CONCEIÇÃO. Café: momentos de paixão. Gavião: Ramiro Leão, 2011, p. 7 e 21. Negritos meus]

escrito por ai.valhamedeus

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 30


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LA PLENITUD 
Delante está el carmín de la emoción.
Y al fondo de la vida,
por el suave azul nublado,
entre las cobres hojas últimas
que se curvan en éstasis de gloria,
la eterna plenitud desnuda.

(Y el agua una se ve más.
El color es más él, más sólo él,
el olor solo tiene un ámbito mayor, 
el calor todo se oye más.
Y grita
en el aire, en el agua,
sobre el calor, sobre el olor, sobre el color,
ante el carmín de la pasión segunda,
la esterna plenitud desnuda.)

¡Armonía sin fin, gran armonía
de lo que se despide sin cuidado,
en luz de oro para luego verde,
que ha de ver tantas veces todavía,
ante el carmín de la ilusión,
la interna plenitud desnuda!
[Juan Ramón Jiménez]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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DO CONTRA [105] nem a virgem gostou disto

Nem meio ano aguentou por cá!


escrito por ai.valhamedeus

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hoje é sábado 288. NÃO SE MATE

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
Reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.
Não se mate
[Andrade, Carlos Drummond de, Antologia Poética, Editora Record, Rio de Janeiro S. Paulo, 1999, pág. 147]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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VÍDEO DA SEXTA 206. " 7°anão - o pequeno herói


Sinopse
Quando Bobo, o mais novo dos sete anões, pica acidentalmente a Princesa Rose (também conhecida como Bela Adormecida), e lança o Reino num século de sono, ele e os outros seis anões têm de viajar até ao futuro para acordar Rose... e descobrir que até o mais pequeno anão pode ser Rei.

escrito por Adriana Santos

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QUE RAZÃO MANTÉM DE PÉ ESTA FICÇÃO?


Crato, além de fingir de ministro, desautorizar a matemática, considerar (só) as Universidades de Lisboa 'extraordinárias' e se assumir como uma ficção, tornou-se, talvez por efeito de uma dieta de espinafres, especialista em gramática.

O verbo manter - e apenas em duas flexões - é, por enquanto, o seu mais recente contributo para 'esclarificar' a nano diferença entre mantêm-se e manter-se-ão. Os tribunais, onde pontua uma figura tão ficcional
(e cómica) 
como a justiça que nos tutela, poderão ser chamados a dirimir
(no Citius)
a proeminente questão gramatical e, se houver lugar a qualquer indemnização, por reiterada e abusiva incompetência de quem toma decisões aparentadas com a loucura, o erário público, sustentado pelos já acostumados contribuintes, será chamado, por razões gramaticais, creio, a prestar contas.

Se até o 'espírito santo', com tantas garantias do altíssimo, acabou por se estatelar sem a ousadia de um Ícaro, que razão mantém de pé uma ficção ministerial que mais não faz do que estatelar-se, sem nunca ter conseguido
(sequer) 
tentar 'voar'?

escrito por Jerónimo Costa

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 29


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ENCRUZILHADA
A cada amanhecer, novos mistérios
Que escondem os pesares do mal
A cada folha que cai, uma quimera
Que embalou o sonho e se fez real

Choramos, hoje, a mágoa de ontem
Sepultando-a em cova rasa
Nossas esperanças, nossas utopias
Na dúvida de tantas filosofias
Na angústia cruel que o peito arrasa
Vagamos sem lume pelas noites frias

E nos desencontros de nossas pobres almas 
O vazio nos arrebata por completo
Cada um seguiu seu caminho errante
Afogado na mágoa, na busca constante
Do encontro verdadeiro e certo
E nunca olhamos quem está por perto
E sempre procuramos viver num outro instante

Perdemo-nos em nossos descaminhos
Preconceitos e discórdias foram nossas marcas
Esquecemo-nos do simples numa busca vã
Do impossível que não vem com o amanhã
Se nossos sonhos não se encontram
Desviam-se em cada encruzilhada
E seguem solitários, tristes, nessa estrada.
[Paulo Gondim]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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LEIT(e)URAS [59] a república


Campos Monteiro terá sido um médico e monárquico que escreveu uma bem humorada crónica dos últimos tempos da 1ª República. A coisa não era muito diferente do que temos assistido hoje.
Por exemplo, a indicação do Ministro da Instrução e Negócios Estrangeiros:
– Então você vai indicar para ministro da Instrução um homem que não tem exame de instrução primária?  
- O João Camoesas poucos exames tinha, e fez um bom lugar – respondia o interpelado.
- Mas, Doutor Paulo, ministro dos estrangeiros, um homem que fala apenas a língua portuguesa, e mal! 
- Vocês verão como ele se faz compreender, por mímica, por todos os embaixadores. Tem às vezes gestos tão expressivos!

E é neste tom divertido que o Dr. Campos Monteiro nos vai relatando as peripécias do estertor da 1ª República. Julgo que ele exagera, mas é uma crónica bem-humorada.

Diz ele que
já Guerra Junqueiro asseverava que n´este doce paiz á beira-mar plantado se não inutilizava um politico nem correndo-lhe por cima um cilindro de estrada. (pág. 177)
Haverá semelhanças com os tempos de agora?

Transcrevo aqui a passagem relativa a António Sérgio (esse mesmo, o dos ensaios…)
o perceptor e guia de todos os seus colegas, com mais preponderância no ministério que o próprio José Domingos [presidente do governo], era António Sérgio. Singular figura esta, simpática pelo talento e faculdades de trabalho, mas irritante, enormemente rebarbativa pela vaidade desmedida e pelo seu doentio anceio de originalidade e supremacia intelectual! Se um critério definido, e desviado de uma sã orientação filosófica, serviram-lhe a inteligência e a memória para encher o craneo de teias de aranha, - uma rede inextricável de teorias a que pedantescamente chamava «humanismo crítico» como podia chamar-lhe outra coisa. E a convicção de ser ele o único homem inteligente n'um paiz de estupidos enchera-o de uma filáucia ridícula, levando-o a pontificar ex-catedra e a impor as suas opiniões com uma embófia de brahamane senhor dos profundos mistérios do Rog-Veda (pág 175-176).

Há aqui algum despeito, mas o clima geral é bem disposto e dá-nos a sensação de déjà vu. Por exemplo, após a vitória da revolta, a tropa foi toda promovida dois postos. Resultado: em Lisboa passou a haver 10 000 sargentos e nenhum soldado...

Procurem. Este emprestaram-me, mas já o vi a 6€ e a 18…
(há várias edições. Esta é a mais interessante. Nas transcrições mantive a pontuação e a grafia do livro citado).
escrito por Carlos M. E. Lopes

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EX-CITAÇÕES * 148. escócias de outra vida

… Quem mais contribuiu para revigorar o nacionalismo escocês foi a desastrosa mrs. Thatcher, quando impôs à Escócia reformas de “liberalização económica”que, pelas suas nefastas consequências (nalgumas comunidades o desemprego atingiu 80%), não foram adoptadas no resto do Reino Unido…. 
… Enquanto que na Inglaterra as universidades têm vindo a ser transformadas em empresas comerciais (os alunos são agora “clientes” endividados), o ensino universitário escocês continua a ser implementado como um investimento público. E o Serviço Nacional de Saúde, que está a ser gradualmente privatizado na Inglaterra, continua a ser grátis na Escócia…. 
… O facto é que a Escócia tem conseguido assegurar a manutenção de benefícios sociais que estão a ser destruídos na Inglaterra à custa, em larga medida, da economia global do Reino Unido de que a Inglaterra é a parte dominante… 
… Oh, cínica Inglaterra! Como bem dizia o iracundo Junqueiro quando foi do Ultimato. Nesse tempo, o nosso sentimento nacionalista foi tão intenso que até quisemos comprar à Inglaterra um naviozito de guerra… para invadir a Inglaterra!... 
… Não sendo inglês nem escocês, mas residente nestas paragens há mais de meio século (e com uma confessada simpatia pela Escócia que aplaude os nossos futebolistas nos jogos contra a Inglaterra), o que eu gostaria é que houvesse maior autonomia da Escócia no contexto do Reino Unido e menor autonomia do Reino Unido no contexto duma União Europeia mais equitativa. Deixando o nacionalismo para os hinos e os jogos de futebol. ….
[Hélder Macedo, escritor, poeta]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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ESCRITARIA 2014


A Escritaria, em Penafiel, termina hoje. O programa está aqui.

escrito por ai.valhamedeus

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hoje é sábado 287.

Julgam-me mui sabedor.
E é tão grande o meu saber
que desconheço o valor
das quadras que sei fazer
[António Aleixo in Poetas e Prosadores Algarvios de Elviro Rocha Gomes, Algarve em Foco Editora, Faro, 1999, pág. 42]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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OS LIVROS E AS LIVRARIAS

Tenho por hábito abraçar causas perdidas. Cada qual nasce para o que nasce…

Tenho estado com alguma atenção ao que se passa no mundo livreiro. Um dia, por azar, tive a ousadia de dizer na Buchholz

(também vou a lugares últimas a finos), 
na apresentação de um livro, que o livro, como o conhecíamos, tinha os dias contados. Fui insultado pela minha amiga Cristina, gerente da loja.

Entretanto fecharam não sei quantas livrarias. Uma das últimas o Pátio de Letras em Faro, que recebeu inúmeros escritores e intelectuais e que não souberam ou ignoraram o “evento”. A Liliana merecia mais consideração. O Pátio de Letras era o verdadeiro Centro Cultural do Algarve
(cheguei a dizê-lo lá).
Entretanto havia fechado a Bertrand na Guia. E tantas outras. O fecho é inevitável e vai varrer ainda mais o país. Estou crente que que em breve a FNAC fará o mesmo…
Leio no El Pais
(dou-me a esse luxo, de vez em quando…) 
que uns “espertos” ibero-americanos se reuniram em Madrid para discutir “los libros y los lectores” (1 de octobre de 2014). E aí vem a lenga lenga do costume: “a indústria editorial e os governos fracassaram na hora de forjar novos leitores e novos planos de fomento da leitura”
(a tradução é minha e não dos “espertos” do aijesus).
A “coisa” expande-se por todo o mundo: a leitura tem descido. O aumento da leitura dos livros digitais não colmata a queda geral. Que fazer? Há que fazer?

escrito por Carlos M. E. Lopes

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 28


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ENTARDECER
Sol-posto ungindo o mar: incensos de ouro!

Recolhe funda a tarde em sonho e mágoa.
Surdina fluida: anda o silêncio a orar –
E há crepúsculos de asas e, na água,
O céu é mármore extático a cismar!

E nas faces marmóreas dos rochedos
Esboçam-se perfis,
- Cintilações,
Penumbra de segredos!

Ó painéis de nuvens sobre a terra,
Ogivas delirantes
Na água refratando…
Encheis de sombra o mar de espumas rasas,
Iniciando
A hora pânica das asas!

E, à meia luz da tarde,
Na areia requeimada,
São vultos sonolentos
As proas dos navios…

Ó tristeza dos balões
Iluminando,
Na água prateada,
Os pegos e baixios…

Dormentes constelações
Que, em fundos lacustres
E musgosos,
Pondes reverberações
Em nossos olhos ansiosos.

Ó tardes de aquático esplendor,
Descendo em meu olhar!

Num sonho de regresso,
Numa ânsia de voltar,
Em mim todo me esqueço
E fico-me a cismar.

A tarde é toda um sonho moribundo.
É já olor da cor que amorteceu.
O céu vive no mar: sono profundo.
A asa do rumor no ar adormeceu!
[Luís de Montalvor, in Antologia Poética]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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