TRUMP(A)

hoje é sábado 303. UM OUTRO SOL, UM OUTRO PÃO

Em vão acumulo. Em vão se acumula.
Abri-me ao sol e disse: Eis o sol
todos os dias
e cheguei a sentir o sol das veias.

Árvore! gritaste.

Nunca se te abriu o pão da mesa
um pão impo
uns olhos de mulher de água tranquila?
[Rosa. António Ramos, Horizonte Imediato, Dom Quixote, Lisboa, 1974, pág. 29]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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CAVACO ESTÁ MAL...


Ontem, na Culturgest, assisti ao exemplo acabado de um homem fora de tempo, do seu reinado.

Prestava-me para assistir a um concerto comemorativo dos 40 anos da universidade do Minho quando, eis se não, sou empurrado por diligente funcionária que me exigiu que me afastasse. Pelos flashs e holofotes entendi que era gente graúda que se aprestava a fazer a sua chegada. Era. Cavaco Silva e a sua Maria também iam ao concerto. Mas o que mais me impressionou foi o abandono a que foi votado tão ilustre personagem. Nada do habitual envolvimento de pessoas e atenções. Muito só, com ar de doente, entrou discreto, esteve discreto e saiu discreto. O fim do poder, mais do que a irrelevância dos seus consulados, explicarão este homem só...

O poder é lixado (ou a ausência dele…).
escrito por Carlos M. E. Lopes

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CUSTE O QUE CUSTAR

Este é o perfil político do lambe-botas que nunca mais deixa de nos desgovernar:

Trata-se dos troikos? Portugal vai cumprir, custe o que custar.



Trata-se da saúde/vida de pessoas? Isso tem limite de custos.


escrito por ai.valhamedeus

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O QUE É A DEMOCRACIA?


"Alemanha quer que Syriza recue nas promessas".

Pelos vistos, é geral a conceção da DEMOCRACIA como um regime onde as promessas eleitorais que estão na base da eleição de um(s) partido(s) não são para cumprir. Que RAIO DE DEMOCRACIA é a democracia desta gente?

escrito por ai.valhamedeus

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"E O JUIZ CARLOS ALEXANDRE QUE SE CUIDE..."


Regressamos à liberdade de expressão. Soares tem todo o direito de exprimir as suas ideias, defender os seus amigos e ter, sobre eles, as convicções que melhor se adequam ao seu ponto de vista. Atacar o sistema judicial, opinando, segundo o seu critério, de modo a desqualificar a sua actuação, lançando sobre ele o labéu da suspeição, só adensa o clima de perturbação do processo que, afinal, a prisão preventiva procurou acautelar, reforçando também a ideia de que os políticos estão a salvo de prestar contas à justiça, façam o que fizerem!

Retomar a velha máxima de um dirigente do partido que, a dada altura resolveu informar 'que quem se mete com o PS, leva', sendo infeliz
(por pretender substituir a força da lei pela lei da força), 
não só não se adequa à legítima separação de poderes, consagrada pela Constituição, como assume uma intolerável interferência no processo que apenas a justiça pode e deve resolver. Ameaçar um juiz a quem cabe instruir um processo, seja ele qual for, que, de resto, não decide sozinho
(tem o aval e a conformidade do Ministério Público), 
constitui um perigoso retrocesso democrático e uma desqualificação dos princípios e das finalidades que regulam as instituições. Cavalgar uma onda que, no limite, se destina a manipular e a provocar alarme público, que está longe de colher a adesão de tantos portugueses como Soares imagina, mais não faz do que transformar um caso de polícia num caso político. Um padrão de suspeição, tão elevado, que, além do mais é comum a outros agentes políticos, só se resolve com uma justiça eficiente e eficaz, nunca por pressões políticas, muito menos através de ameaças, que envolvem a integridade física e moral de quem decide, venham de onde vierem.

escrito por Jerónimo Costa

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 46

[Clique na imagem, para a ver maior]
HORIZONTE
Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa -
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstrata linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp´rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade.
 [Fernando Pessoa in Mensagem]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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VÍDEO DA SEXTA 217. "Meu amigo Nietzsche”


Meu Amigo Nietzsche, curta-metragem de Fáuston Silva. 
Um vídeo sensível que mostra a vida de um menino que é mudada radicalmente quando descobre um misterioso livro no lixão.
Fonte: [https://jfborges.wordpress.com/2014/12/13/meu-amigo-nietzsche-o-pensamento-filosofico-e-o-poder-da-leitura/]

escrito por Adriana Santos

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hoje é sábado 302. VOZ

Dormem os génios que povoam
a habitação dos sonhos,
dormem os símbolos e a dormir deponho-os
onde as coisas da vida não perdoam

Ainda bem que dorme tudo
o que limita o lume das areias,
como o silêncio preso nas cadeias
e o sossego das casas, ósseo e mudo.

Lá no fundo de tudo um mar parou:
e peixes como a luz ou detritos de fragas
apagam-se no fósforo das vagas
que uma respiração polar gelou

Carnosa e nuas vais surgindo, vida,
dessa água extinta, do instinto morto:
e às portas da verdade que suporto
chama a tua nudez, repercutida.
[Oliveira, Carlos, Trabalho Poético, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, pág. 85]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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TAMBÉM TU, BRUTUS?


Cavaco ainda é o presidente desta república e, por certo, passará à história como uma das figuras mais perniciosas da democracia portuguesa. Esteve em todas as situações em que o país e os portugueses foram, progressivamente, desapossados da sua soberania e dos seus bens. São conhecidas algumas das suas gafes, umas com a história, outras com a língua de Camões, outras (tantas!) com os factos, de onde sobressai a trapalhada da permuta de uma casa por um terreno, onde
(milagrosamente) 
apareceu outra casa!

É inadmissível, depois de saber que o BES estava na rota do Titanic, avisado por 2 vezes pelo próprio comandante - o então dono disto tudo - ainda assim, inebriado pelas especiarias do Oriente, veio tranquilizar-nos, desde a Coreia do Sul, sobre a salubridade do banco, ordenando, mesmo com os salva-vidas em ruptura, que a orquestra continuasse a entreter os náufragos. Chamar cavaco à AR, parece-me um 'conto de crianças', mesmo que vá com pulseira electrónica...

(A notícia, em 1ª p., é do JN de 30jan2015)

escrito por Jerónimo Costa

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UM MURRO NOS CORNOS... DA PROVA


Quanto se trata de (a)bater o inimigo (ou, se preferirem, o adversário), nem tudo vale.
  1. O ministro Crato é um (a)batedor de professores. Há provas suficientes disso  (e de que é (a)batedor do ensino português -- mas não é disso que trato agora).

    A última (que eu conheço) desse ministro: para defender a prova de avaliação docente (que já provou não ter qualidade avaliativa nenhuma) afirmou que "não faz sentido nenhum que um professor dê 20 erros de ortografia numa frase".

    O ministro mente. Que provas tenho de que o ministro mente? objetivas, nenhuma. Mas o ministro também não apresentou objetivamente nenhuma: atirou 20 erros, mas poderia ter atirado 40 ou 50: como poderemos verificar isso?
    Mais: não é razoável admitir que alguém dê 20 erros numa frase -- a não ser que o ministro (ou alguém por ele, certamente, que ele não deve ter posto olho em qualquer prova) identifique o final de uma frase pelo ponto final e a tal frase seja uma daquelas "frases" à Saramago com pontuação a perder vista...

    Mas admitamos, misericordiosamente, que até houve um professor que escreveu uma frase com 20 erros. Admitamos que houve dois ou três. Não é razoável admitir que o número de professores que deu 20 erros numa frase seja tão elevado que seja suficientemente significativo para o ministro o referir, como argumento, numa audição na Assembleia da República.
        
  2. O presidente do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE)  não se poupa nas críticas feitas ao docentes e a todos as pessoas que continuam a censurar a importância da Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC). Ao Diário de Notícias (DN), Hélder Rodrigues fala no “número considerável de chumbos”, mas que tal já não o surpreende, uma vez que a instituição que lidera tem, com frequência, contacto com documentos “enviados por docentes” que, diz, “mostram falhas gravíssimas de escrita e até do ponto de vista científico”.

    E prossegue dizendo que este problema “tem de ser tratado de forma clara e frontal” e que “é preciso acabar com a tradição portuguesa de que quando não se sabe fazer mais nada vai-se para o ensino”.

    Este Helder Rodrigues é parvo. Além de parvo (onde é que esse tipo foi buscar este raio de tradição portuguesa?), este Helder é agressivo. Mesmo usando palavras que parecem não o ser, a ideia é-o.
    Não se pode tirar, logicamente, a conclusão de que todos os que foram/vão para o ensino são gente que não sabe fazer mais nada; mas é essa a ideia que passa. Como professor, sinto-me tão agredido por este Helder que, ao nível da agressividade dele, me apetecia responder que é tradição portuguesa gente que não sabe fazer mais nada ir para presidente de uma merda qualquer; e que essa gente merecia um murro nos cornos.
  3. Para que quem está por fora disto tenha uma ideia do que está verdadeiramente em questão, faço saber que a questão da prova que teve mais insucesso (78,9%) era de escolha múltipla (segundo parece, foi na escolha múltipla que os professores que fizeram a prova mais tremeram): perguntava e apresentava como hipótese de resposta o seguinte:

    o selecionador nacional convocou 17 jogadores para o próximo jogo de futebol. Destes 17 jogadores, seis ficarão no banco como suplentes. Supondo que o selecionador pode escolher os seis suplentes sem qualquer critério que restrinja a sua escolha, podemos afirmar: (a) que o número de grupos diferentes de jogadores suplentes é inferior ao número de grupos diferentes de jogadores efetivos; (b) superior ao número de grupos diferentes de jogadores efetivos; (c) igual ao número de grupos diferentes de jogadores efetivos; (d) não se relaciona com o número de grupos diferentes de jogadores efetivos”.

    Digam-me agora que raio de interesse tem este tipo de questões para avaliar a qualidade de um professor de filosofia, de português, de história, de geografia, de...?
  4. Quanto se trata de (a)bater o inimigo (ou, se preferirem, o adversário), nem tudo vale.

escrito por ai.valhamedeus

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 45

[Clique na imagem, para a ver maior]
À BEIRA DA ÁGUA
Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.
 [Eugénio de Andrade, in Os Sulcos da Sede]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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OUTRA VEZ O FADO?!


Cavaco condecorou umas fadistas e uns fadistas -- separando os géneros, como agora se faz.

Cavaco Silva diz tê-lo feito porque o fado tem “um potencial económico de elevada relevância”.

A seguir, virá a música pimba -- num sentido lato que englobe música e músicos como Marco Paulo... e os Xutos e Pontapés
[a seguir... ou, pela relevância económica, deveria ter sido antes?]?
escrito por ai.valhamedeus

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hoje é sábado 301. NÃO COMPREENDEM NADA


Entrei no barbeiro e disse
Sossegado:
“Tenha a bondade, penteie-me as orelhas”.
O amável baeta logo ficou picado,
Esticou a cara até às sobrancelhas.
“Maluco!
Palhaço!” –
As palavras a saltar.
O insulto remexeu-se como um cacarejo,
E durante mu-u-u-ito tempo
Riu a cabeça de alguém,
Como um velho rabanete na multidão sem par.

(1913)

[Maiakovski, Eu Próprio. Poesia 1912-1916, vol 1, Editora Vento de Leste, Lisboa,1979, pág. 48]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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O PARTIDO LIVRE

A nossa esquerda vai de vento em popa. O Podemos, antes de ser formado, já tem uma dissidente, a Joana Amaral Dias saiu do BE e agora saiu do Podemos antes de este existir

(coisa difícil). 
O BE tem dado origem a grupinhos e grupelhos. Mas há um partido que dificilmente terá dissidentes: o Livre! Que se saiba, o Livre é formado por uma pessoa: o Rui Tavares. Convidado por Miguel Portas para integrar o BE nas europeias como independente, zangou-se com o Louçã, saiu do grupo, mas não de Deputado Europeu. Como se sabe, no nosso sistema eleitoral as eleições são uninominais… Partido unipessoal lhe chamou Louçã… e com razão. Entretanto, essa esquerda “diferente” está a pôr-se a jeito para integrar um futuro governo de António Costa e até, se calhar, deputado. Espero que venha a fazer parte da comissão parlamentar de ética. Temos garantias de rigor e isenção.

escrito por Carlos M. E. Lopes

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A FUNDAÇÃO MÁRIO SOARES

Mário Soares não é um político por quem tenha grande consideração. E isto mais pelo feitio, pela forma como sempre procurou estar na ribalta, atropelando quem se opusesse, jogando fora quem não lhe servisse. Não o critico pelo papel na descolonização porque, na altura, julgo não haver outra coisa a fazer. Dito isto…

Recebi, há dias, uma petição para que os subsídios à Fundação Mário Soares fossem cancelados. Os brutos que me contactaram não sabem o que é a Fundação, nem o que faz. Mas só o nome do patrono lhes causa calafrios. São as mesmas bestas que acham que o Parlamento deveria ser extinto

(para que serve aquela merda?) 
e que os partidos não deveriam existir. Ignorantes, alarves, merdosos, são os mesmos que acham que a educação e a memória do nosso património são uma perda de tempo. Não lhes passa pela cabeça que a actividade desenvolvida pela Fundação é culturalmente relevante e importantíssima para o nosso país e um facto de que nos deveríamos orgulhar.

escrito por Carlos M. E. Lopes

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OS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS

Qualquer aprendiz da nossa “social-democracia” encarrilou na vertente liberal. Ninguém se lembra, talvez, que Balsemão, nos anos 80, afirmou que “ser social-democrata, hoje, é ser liberal”. Milton Friedman e os Chicago Boys campearam…

Alguns jornalistas da nossa praça são ferozes liberais -- e há que cortar “gorduras” e diminuir o Estado.

Veio a público, por exemplo, que em Portugal, em 2011, o emprego público pesava 11% no emprego, quando a média da OCDE era de 15%. E desde 2011 temos perdido, cerca de 4% ao ano, tendo Portugal perdido 11% dos funcionários públicos de 2011 a 2014.

Quando fazemos alguma coisa, fazemos bem, punhefla

escrito por Carlos M. E. Lopes

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O XICO DA FORNICAÇÃO DOS COELHOS

Quem se excita todo/a com a progressividade do papa Xico tem cada vez mais dificuldade em fundamentar a sua tese. Depois de os infiéis que ultrajam os sentimentos religiosos levarem um soco no estômago, foi agora a vez de os que andam praí a fornificar sem jeito serem enfiados em bacanais dos coelhos fornicadores

(ou seja, no dos selvagens, porque, pelos vistos, os domésticos não fornicam assim... sem dó nem piedade).

Antes que alguém me acuse do contrário, declaro publicamente que reconheço a Sua Santidade (SS) o direito de achar que só devíamos fornicar uma vez por mês ou por ano ou por século. Fornicar com ou sem preservativo, com sida ou sem ela, um por cima e o outro por baixo ou o outro por cima e o um por baixo, a dois ou a três ou a nove,... ou o que SS entender.

Acho mesmo que SS tem o direito de condenar às chamas do inferno quem usar lingerie de determinadas cores -- o vermelho, por exemplo, que é uma cor satânica
[não é verdade que uma cuequinha vermelha cria apetites do caraças -- queria dizer, apetites de coelho?]
Acho mesmo que SS tem o direito de seguir o exemplo de outras religiões e condenar às chamas do inferno ou do purgatório
[não faz mal se já não existe purgatório ou se não há lá chamas. Reconheço-lhe o direito, nesse caso, de criar um. Um purgatório com chamas do tamanho que SS entender]
de condenar a essas penas, dizia eu, aqueles que bebam álcool ou comam carnes de porco.

Por mim, declaro publicamente, continuarei a fornicar com a frequência e a vitalidade que mo permitirem as forças que Deus entendeu ainda me conservar. Não sei se será como coelhos, que nunca vi coelhos fornicarem, como SS parece ter apreciado. Fornicarei como Deus ainda me permite.

E que Deus seja louvado!

escrito por ai.valhamedeus

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 44

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UM RIO TE ESPERA
Estás só, e é de noite,
na cidade aberta ao vento leste.
Há muita coisa que não sabes
e é já tarde para perguntares.
Mas tu já tens palavras que te bastem,
as últimas,
pálidas, pesadas, ó abandonado. 
Estás só
e ao teu encontro vem
a grande ponte sobre o rio.
Olhas a água onde passaram barcos,
escura, densa, rumorosa
de lírios ou pássaros noturnos. 
Por um momento esqueces
a cidade e o seu comércio de fantasmas,
a multidão atarefada em construir
pequenos ataúdes para o desejo,
a cidade onde cães devoram,
com extrema piedade,
crianças cintilantes
e despidas. 
Olhas o rio
como se fora o leito
da tua infância:
lembras-te da madressilva
no muro do quintal,
dos medronhos que colhias
e deitavas fora,
dos amigos a quem mandavas
palavras inocentes
que regressavam a sangrar,
lembras-te de tua mãe
que te esperava
com os olhos molhados de alegria. 
Olhas a água, a ponte,
os candeeiros,
e outra vez a água; 
a água;
água ou bosque,
sombra pura
nos grandes dias de verão. 
Estás só.
Desolado e só.
E é de noite.
 [Eugénio de Andrade]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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CAI O CARMO E A TRINDADE? CAI!


De repente - e compreende-se - com tanta desavença em torno do espírito santo, que por uma estranha metáfora, era uma espécie de illuminati dos papas, acabou (também) por tremer o Carmo. Mesmo nas nuvens
(e perto de Deus!?) 
o Papa Francisco acrescentou umas achas para a fogueira e, de um sopro, aragem que faz medrar os incêndios, resolveu, ali mesmo, no avião (?!) rever a teoria de (não) “dar a outra face” regressando a uma espécie de direito natural da força:
"se um grande amigo fala mal da minha mãe, ele pode esperar um soco, e isso é normal." 
Bela epifania para quem tem percorrido tempestades contrariando a ideia de que quem anda à chuva molha-se. Bastou uma hedionda matança, em Paris, no XI arrondissement, onde se cultiva a liberdade de expressão, através da sátira, para o mais alto dignitário dos Cristãos achar uma espúria comparação e disponibilizar o soco (a um amigo) para resolver a contenda. Certamente por se achar mais forte; sabendo-se mais fraco, quem sabe, era capaz de ir buscar a kalashnikov para acertar contas com o incauto.

Sei que a liberdade de expressão é assunto sério, sendo, por isso, um referencial da democracia. Há gente disposta a cercear a liberdade, não a sua, mas a dos outros. Todos (?!) sabemos como isto começa; Marine já deu o mote: referendo sobre a reintrodução da pena de morte
(O Charlie já a experimentou e o Papa ainda só vai no soco) 
e a revisão do Tratado de Schengen. Não saberemos como isto termina. Dizem os livros que passa pela censura, auto-censura, interrogatórios arbitrários, prisão e limitação, em nome da segurança, de um conjunto de liberdades.


Está desenhado o caminho e há muito que descansa nos cartoons, acenando-nos com o inevitável retrocesso civilizacional. Aliás, há muito que os islâmicos vêm reclamando da cruz na bandeira da Suíça e estes, nos produtos que querem exportar para os países islâmicos, já lhes fizeram a vontade: substituíram a cruz! Um dia ainda vamos ter que adoptar a Sharia…

escrito por Jerónimo Costa

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SANTANA E A PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

Ontem, no Público, a boa imprensa vem dizer que Santana Lopes é presidenciável.


Santana Lopes é uma anedota. Tal como Cavaco era. Este chegou lá, ninguém sabe porquê. O homem não prestou, não presta e não prestará. Em torno dele vegetou o Loureiro, o Oliveira e Costa e quejandos. Em torno do Santana vegetou ele próprio: incompetente, demitido por isso mesmo pelo insuspeito Sampaio.

Estaremos sujeitos a isto, mais uma vez?

escrito por Carlos M. E. Lopes

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