TRUMP(A)

hoje é sábado 304. ÁLCOOL

Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longamente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas de auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Descem-me na alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo -
Luto, estrebucho...Em vão! Silvo pra além...

Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de oiro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante -
Manhã tão forte que me anoiteceu.
[Carneiro, Mário de Sá, Poemas Escolhidos, Livraria Civilização, Porto, 1995, pág. 13]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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PEDRO COELHO E A GRÉCIA

Adaptando Shakespeare, sempre se dirá que um sabujo é um sabujo, é um sabujo…

Naqueles grupos rivais, que se defrontam nos bairros, é certo e sabido que, se um elemento isolado é apanhado por um grupo rival, o mais cobarde, canino e ordinário do grupo se atira ao outro para mostrar a sua “coragem” e fidelidade ao grupo. Não importa que o outro esteja sozinho, indefeso e desarmado. Aquele “corajoso” não perdoa ao “inimigo”.


Tal qual Pedro Passos Coelho com a Grécia. Lampeiro e “corajoso” lá se mostrou intransigente, canino, sabujo. Uma vergonha para o país.
Só faltava agora vir Cavaco dizer um conjunto de alarvidades sem nexo e mentindo descaradamente.

Adaptando Garrett em “A Sobrinha do Marquês”: e quisemos nós disto fazer gente?
escrito por Carlos M. E. Lopes

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MESMO QUE NASÇA DUAS VEZES...


É possível que Cavaco nada saiba sobre Ulisses e Zeus não o tenha bafejado com umas tintas de cultura clássica.

Atena não lhe entrou no goto e o estadista que foi Péricles, por desconhecimento, não lhe serve de exemplo.

Aristarco de Samos certamente não passará de uma incógnita, embora tenha sido o primeiro dos gregos a propor uma explicação heliocêntrica para substituir o geocavaquismo em que o Sr. Silva ainda se encontra.

Ptolomeu, Arquimedes, Pítagoras ou Tales, não passarão de ilustres desconhecidos.

Talvez tenha uma vaga ideia de Sócrates e, por mera associação, tenha ouvido falar de Platão
(por causa dos bravos...) 
e de Aristóteles.

Já imaginou dar uma volta no cavalo de Tróia, mas quem retira cantos aos Lusíadas, diz 'façarei' e 'cidadões', não tem estaleca para ocupar o selim; saberá o custo das coisas, até do que emprestámos aos gregos, mas nunca saberá o seu valor, mesmo que nasça duas vezes!

escrito por Jerónimo Costa

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SUA eXª O DE BELÉM


Sua ex.ª, o nosso inquilino em Belém, que, contra todas as expectativas
(e mesmo factos)
nada disse, na Coreia do Sul, sobre o BES, pelo menos que os coreanos tivessem entendido, apareceu hoje, num dia cinzento, a fazer declarações brilhantes:

Uma, contra o governo grego, cuja dívida vai sair dos bolsos dos contribuintes portugueses
(compreende-se melhor o agastamento de Coelho) 
e a outra, congratular-se com o pagamento antecipado de uma verba, em dívida
(para darmos o exemplo) 
ao FMI.

Sobre a Grécia, esqueceu-se das negociações em curso e do interesse que elas possam ter para Portugal; sobre a dívida, esqueceu-se de agradecer aos portugueses esbulhados e aos mercados
(oh, os mercados!), 
que têm permitido empréstimos a um juro irrecusável. Manobras eleitorais, noblesse oblige!

escrito por Jerónimo Costa

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 47

[Clique na imagem, para a ver maior]
TRAJETO
Na vertigem do oceano
vagueio
sou ave que com o seu voo
se embriaga
Atravesso o reverso do céu
e num instante
eleva-se o meu coração sem peso
Como a desamparada pluma
subo ao reino da inconstância
para alojar a palavra inquieta
Na distância que percorro
eu mudo de ser
permuto de existência
surpreendo os homens
na sua secreta obscuridade
transito por quartos
de cortinados desbotados
e nas calcinadas mãos
que esculpiram o mundo
estremeço como quem desabotoa
a primeira nudez de uma mulher
[Mia Couto in Raiz de Orvalho e outros poemas]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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"O LIXO" DE LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

O Expresso teve, há uns anos (poucos), alguns cronistas de eleição. Cito três que me agradavam sobremaneira: Nuno Brederode dos Santos, José Manuel dos Santos e Luís Fernando Veríssimo. Este último, quase tropecei nele. Estive em Porto Alegre e lá me disseram que era fácil encontrá-lo por perto do Centro Cultural dedicado a Mário Quintana, precisamente na rua onde fiquei. Mas fiquei-me pelas fotos na inauguração da FNAC…

Mas Veríssimo escreve crónicas tão boas que até irrita.

Já não sei onde li O Lixo, se foi lá se foi cá. Foi num jornal. Achei sublime de carinho, subtileza, enlevo. Não o encontrando, pedi a uma amiga brasileira que mo desencantasse. Vinte minutos depois, enviou-me o texto, com indicação onde o poderia encontrar (o livro) e onde poderia comprá-lo: Amazon de Inglaterra ou alemã, sendo que, aqui, em segunda mão…

Passo ao texto. Continua a fascinar-me…

O Lixo 
Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.
- Bom dia...
- Bom dia.
- A senhora é do 610.
- E o senhor do 612.
- É.
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
- Pois é...
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
- O meu quê?
- O seu lixo.
- Ah...
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
- Na verdade sou só eu.
- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
- Entendo.
- A senhora também...
- Me chame de você.
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...
- A senhora... Você não tem família?
- Tenho, mas não aqui.
- No Espírito Santo.
- Como é que você sabe?
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
- É. Mamãe escreve todas as semanas.
- Ela é professora?
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
- Pois é...
- No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
- É.
- Más notícias?
- Meu pai. Morreu.
- Sinto muito.
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
- Foi por isso que você recomeçou a fumar?
- Como é que você sabe?
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
- É verdade. Mas consegui parar outra vez.
- Eu, graças a Deus, nunca fumei.
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
- Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.
- Você brigou com o namorado, certo?
- Isso você também descobriu no lixo?
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
- É, chorei bastante, mas já passou.
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
- É que eu estou com um pouco de coriza.
- Ah.
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
- Namorada?
- Não.
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
- Você já está analisando o meu lixo!
- Não posso negar que o seu lixo me interessou.
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
- Não! Você viu meus poemas?
- Vi e gostei muito.
- Mas são muito ruins!
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
- Se eu soubesse que você ia ler...
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
- Acho que não. Lixo é domínio público.
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
- Ontem, no seu lixo...
- O quê?
- Me enganei, ou eram cascas de camarão?
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
- Eu adoro camarão.
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
- Jantar juntos?
- É.
- Não quero dar trabalho.
- Trabalho nenhum.
- Vai sujar a sua cozinha?
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.

- No seu lixo ou no meu?
escrito por Carlos M. E. Lopes

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CONSELHOS PARA ESTIMULAR O CÉREBRO


10 conselhos para estimular o cérebro: alimentação, exercício, aprender poesia, ouvir música…

Detalhes, n'O meu baú.

escrito por ai.valhamedeus

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hoje é sábado 303. UM OUTRO SOL, UM OUTRO PÃO

Em vão acumulo. Em vão se acumula.
Abri-me ao sol e disse: Eis o sol
todos os dias
e cheguei a sentir o sol das veias.

Árvore! gritaste.

Nunca se te abriu o pão da mesa
um pão impo
uns olhos de mulher de água tranquila?
[Rosa. António Ramos, Horizonte Imediato, Dom Quixote, Lisboa, 1974, pág. 29]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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CAVACO ESTÁ MAL...


Ontem, na Culturgest, assisti ao exemplo acabado de um homem fora de tempo, do seu reinado.

Prestava-me para assistir a um concerto comemorativo dos 40 anos da universidade do Minho quando, eis se não, sou empurrado por diligente funcionária que me exigiu que me afastasse. Pelos flashs e holofotes entendi que era gente graúda que se aprestava a fazer a sua chegada. Era. Cavaco Silva e a sua Maria também iam ao concerto. Mas o que mais me impressionou foi o abandono a que foi votado tão ilustre personagem. Nada do habitual envolvimento de pessoas e atenções. Muito só, com ar de doente, entrou discreto, esteve discreto e saiu discreto. O fim do poder, mais do que a irrelevância dos seus consulados, explicarão este homem só...

O poder é lixado (ou a ausência dele…).
escrito por Carlos M. E. Lopes

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CUSTE O QUE CUSTAR

Este é o perfil político do lambe-botas que nunca mais deixa de nos desgovernar:

Trata-se dos troikos? Portugal vai cumprir, custe o que custar.



Trata-se da saúde/vida de pessoas? Isso tem limite de custos.


escrito por ai.valhamedeus

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O QUE É A DEMOCRACIA?


"Alemanha quer que Syriza recue nas promessas".

Pelos vistos, é geral a conceção da DEMOCRACIA como um regime onde as promessas eleitorais que estão na base da eleição de um(s) partido(s) não são para cumprir. Que RAIO DE DEMOCRACIA é a democracia desta gente?

escrito por ai.valhamedeus

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"E O JUIZ CARLOS ALEXANDRE QUE SE CUIDE..."


Regressamos à liberdade de expressão. Soares tem todo o direito de exprimir as suas ideias, defender os seus amigos e ter, sobre eles, as convicções que melhor se adequam ao seu ponto de vista. Atacar o sistema judicial, opinando, segundo o seu critério, de modo a desqualificar a sua actuação, lançando sobre ele o labéu da suspeição, só adensa o clima de perturbação do processo que, afinal, a prisão preventiva procurou acautelar, reforçando também a ideia de que os políticos estão a salvo de prestar contas à justiça, façam o que fizerem!

Retomar a velha máxima de um dirigente do partido que, a dada altura resolveu informar 'que quem se mete com o PS, leva', sendo infeliz
(por pretender substituir a força da lei pela lei da força), 
não só não se adequa à legítima separação de poderes, consagrada pela Constituição, como assume uma intolerável interferência no processo que apenas a justiça pode e deve resolver. Ameaçar um juiz a quem cabe instruir um processo, seja ele qual for, que, de resto, não decide sozinho
(tem o aval e a conformidade do Ministério Público), 
constitui um perigoso retrocesso democrático e uma desqualificação dos princípios e das finalidades que regulam as instituições. Cavalgar uma onda que, no limite, se destina a manipular e a provocar alarme público, que está longe de colher a adesão de tantos portugueses como Soares imagina, mais não faz do que transformar um caso de polícia num caso político. Um padrão de suspeição, tão elevado, que, além do mais é comum a outros agentes políticos, só se resolve com uma justiça eficiente e eficaz, nunca por pressões políticas, muito menos através de ameaças, que envolvem a integridade física e moral de quem decide, venham de onde vierem.

escrito por Jerónimo Costa

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 46

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HORIZONTE
Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa -
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstrata linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp´rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade.
 [Fernando Pessoa in Mensagem]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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VÍDEO DA SEXTA 217. "Meu amigo Nietzsche”


Meu Amigo Nietzsche, curta-metragem de Fáuston Silva. 
Um vídeo sensível que mostra a vida de um menino que é mudada radicalmente quando descobre um misterioso livro no lixão.
Fonte: [https://jfborges.wordpress.com/2014/12/13/meu-amigo-nietzsche-o-pensamento-filosofico-e-o-poder-da-leitura/]

escrito por Adriana Santos

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hoje é sábado 302. VOZ

Dormem os génios que povoam
a habitação dos sonhos,
dormem os símbolos e a dormir deponho-os
onde as coisas da vida não perdoam

Ainda bem que dorme tudo
o que limita o lume das areias,
como o silêncio preso nas cadeias
e o sossego das casas, ósseo e mudo.

Lá no fundo de tudo um mar parou:
e peixes como a luz ou detritos de fragas
apagam-se no fósforo das vagas
que uma respiração polar gelou

Carnosa e nuas vais surgindo, vida,
dessa água extinta, do instinto morto:
e às portas da verdade que suporto
chama a tua nudez, repercutida.
[Oliveira, Carlos, Trabalho Poético, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, pág. 85]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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TAMBÉM TU, BRUTUS?


Cavaco ainda é o presidente desta república e, por certo, passará à história como uma das figuras mais perniciosas da democracia portuguesa. Esteve em todas as situações em que o país e os portugueses foram, progressivamente, desapossados da sua soberania e dos seus bens. São conhecidas algumas das suas gafes, umas com a história, outras com a língua de Camões, outras (tantas!) com os factos, de onde sobressai a trapalhada da permuta de uma casa por um terreno, onde
(milagrosamente) 
apareceu outra casa!

É inadmissível, depois de saber que o BES estava na rota do Titanic, avisado por 2 vezes pelo próprio comandante - o então dono disto tudo - ainda assim, inebriado pelas especiarias do Oriente, veio tranquilizar-nos, desde a Coreia do Sul, sobre a salubridade do banco, ordenando, mesmo com os salva-vidas em ruptura, que a orquestra continuasse a entreter os náufragos. Chamar cavaco à AR, parece-me um 'conto de crianças', mesmo que vá com pulseira electrónica...

(A notícia, em 1ª p., é do JN de 30jan2015)

escrito por Jerónimo Costa

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UM MURRO NOS CORNOS... DA PROVA


Quanto se trata de (a)bater o inimigo (ou, se preferirem, o adversário), nem tudo vale.
  1. O ministro Crato é um (a)batedor de professores. Há provas suficientes disso  (e de que é (a)batedor do ensino português -- mas não é disso que trato agora).

    A última (que eu conheço) desse ministro: para defender a prova de avaliação docente (que já provou não ter qualidade avaliativa nenhuma) afirmou que "não faz sentido nenhum que um professor dê 20 erros de ortografia numa frase".

    O ministro mente. Que provas tenho de que o ministro mente? objetivas, nenhuma. Mas o ministro também não apresentou objetivamente nenhuma: atirou 20 erros, mas poderia ter atirado 40 ou 50: como poderemos verificar isso?
    Mais: não é razoável admitir que alguém dê 20 erros numa frase -- a não ser que o ministro (ou alguém por ele, certamente, que ele não deve ter posto olho em qualquer prova) identifique o final de uma frase pelo ponto final e a tal frase seja uma daquelas "frases" à Saramago com pontuação a perder vista...

    Mas admitamos, misericordiosamente, que até houve um professor que escreveu uma frase com 20 erros. Admitamos que houve dois ou três. Não é razoável admitir que o número de professores que deu 20 erros numa frase seja tão elevado que seja suficientemente significativo para o ministro o referir, como argumento, numa audição na Assembleia da República.
        
  2. O presidente do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE)  não se poupa nas críticas feitas ao docentes e a todos as pessoas que continuam a censurar a importância da Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC). Ao Diário de Notícias (DN), Hélder Rodrigues fala no “número considerável de chumbos”, mas que tal já não o surpreende, uma vez que a instituição que lidera tem, com frequência, contacto com documentos “enviados por docentes” que, diz, “mostram falhas gravíssimas de escrita e até do ponto de vista científico”.

    E prossegue dizendo que este problema “tem de ser tratado de forma clara e frontal” e que “é preciso acabar com a tradição portuguesa de que quando não se sabe fazer mais nada vai-se para o ensino”.

    Este Helder Rodrigues é parvo. Além de parvo (onde é que esse tipo foi buscar este raio de tradição portuguesa?), este Helder é agressivo. Mesmo usando palavras que parecem não o ser, a ideia é-o.
    Não se pode tirar, logicamente, a conclusão de que todos os que foram/vão para o ensino são gente que não sabe fazer mais nada; mas é essa a ideia que passa. Como professor, sinto-me tão agredido por este Helder que, ao nível da agressividade dele, me apetecia responder que é tradição portuguesa gente que não sabe fazer mais nada ir para presidente de uma merda qualquer; e que essa gente merecia um murro nos cornos.
  3. Para que quem está por fora disto tenha uma ideia do que está verdadeiramente em questão, faço saber que a questão da prova que teve mais insucesso (78,9%) era de escolha múltipla (segundo parece, foi na escolha múltipla que os professores que fizeram a prova mais tremeram): perguntava e apresentava como hipótese de resposta o seguinte:

    o selecionador nacional convocou 17 jogadores para o próximo jogo de futebol. Destes 17 jogadores, seis ficarão no banco como suplentes. Supondo que o selecionador pode escolher os seis suplentes sem qualquer critério que restrinja a sua escolha, podemos afirmar: (a) que o número de grupos diferentes de jogadores suplentes é inferior ao número de grupos diferentes de jogadores efetivos; (b) superior ao número de grupos diferentes de jogadores efetivos; (c) igual ao número de grupos diferentes de jogadores efetivos; (d) não se relaciona com o número de grupos diferentes de jogadores efetivos”.

    Digam-me agora que raio de interesse tem este tipo de questões para avaliar a qualidade de um professor de filosofia, de português, de história, de geografia, de...?
  4. Quanto se trata de (a)bater o inimigo (ou, se preferirem, o adversário), nem tudo vale.

escrito por ai.valhamedeus

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 45

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À BEIRA DA ÁGUA
Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.
 [Eugénio de Andrade, in Os Sulcos da Sede]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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OUTRA VEZ O FADO?!


Cavaco condecorou umas fadistas e uns fadistas -- separando os géneros, como agora se faz.

Cavaco Silva diz tê-lo feito porque o fado tem “um potencial económico de elevada relevância”.

A seguir, virá a música pimba -- num sentido lato que englobe música e músicos como Marco Paulo... e os Xutos e Pontapés
[a seguir... ou, pela relevância económica, deveria ter sido antes?]?
escrito por ai.valhamedeus

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hoje é sábado 301. NÃO COMPREENDEM NADA


Entrei no barbeiro e disse
Sossegado:
“Tenha a bondade, penteie-me as orelhas”.
O amável baeta logo ficou picado,
Esticou a cara até às sobrancelhas.
“Maluco!
Palhaço!” –
As palavras a saltar.
O insulto remexeu-se como um cacarejo,
E durante mu-u-u-ito tempo
Riu a cabeça de alguém,
Como um velho rabanete na multidão sem par.

(1913)

[Maiakovski, Eu Próprio. Poesia 1912-1916, vol 1, Editora Vento de Leste, Lisboa,1979, pág. 48]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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