TRUMP(A)

hoje é sábado 305. ÀS VEZES TENHO IDEIAS FELIZES

Às vezes tenho ideias felizes,
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...

Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...
[Campos, Álvaro de, Poesias, Editorial Nova Ática, Lisboa, 2ª edição, 2007,  pág. 66]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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VOAR COM... COERÊNCIA


Dia 12 de Fevereiro, o Airbus da TAP, companhia que ainda não atingiu preço suficientemente competitivo para os mercados, que a querem baratinha, rumava, ao princípio da noite (19:45), de Bruxelas para Lisboa.

A bordo, Maria Luís, gestora de negócios da Alemanha, em Portugal, viajava com, pelo menos, dois assessores. Escolheu a classe económica; um simples gesto sem consequências económicas.

No mesmo voo, diz o CM (19/fev/2015), seguia António Costa que, apesar das dúvidas, continua a ser presidente da Câmara de Lisboa e, talvez para evitar encontros indesejáveis, viajou em classe executiva. É natural que isso também não tenha grande efeito económico, mas o gesto, certamente, há-de ter consequências políticas e os pés do sg do ps, qualquer dia, vão continuar a ressentir-se da pontaria apurada do dono.

escrito por Jerónimo Costa

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Ó DA GUARDA!


O sector da saúde - na Guarda - não pára de nos surpreender, e as luminárias que o gerem arriscam-se a rivalizar com os célebres 5 efes
(Forte, Farta, Fria, Fiel e Formosa) 
que, amiúde, servem para retratar a cidade.

Escreve o JN (15/fev/2015), que a Unidade Local de Saúde (ULS), da Guarda, preteriu juristas internos e, para o mesmo efeito, contratou a firma Carrachás & Associados, com sede em Lisboa! O facto, já de si estranho, por serem descartados os juristas internos e ‘por existir o risco efectivo de tal decisão comportar prejuízos para o interesse público’, tem mais um condimento que o torna digno de requintado descaramento e que as elites governamentais, de tanto vestirem o hábito, já não se importam de o exibir: não é que a mulher do sócio principal da firma – Carrachás & Associados – ocupava o lugar de assessora do Secretário da Saúde (na altura da decisão), sendo que, no actual momento, é (apenas) Secretária- Geral do Ministério da Economia?

Mas, não é tudo. A senhora é (também) vogal não permanente
(actuando como consoante?!)
na Comissão de Recrutamento para a Administração Pública e (pasme-se) integra o conselho de Prevenção de Corrupção. Deixem-me replicar e mostrar (talvez infundada) indignação: ‘Prevenção de Corrupção’?

Continuam a brincar connosco e, depois, o programa do Syriza é que tem a fama de ‘um conto de crianças’, e nós só empobrecemos porque andámos a viver acima das nossas possibilidades.

escrito por Jerónimo Costa

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 48

[Clique na imagem, para a ver maior]
BALADA DE SEMPRE
Espero a tua vinda 
a tua vinda, 
em dia de lua cheia. 
Debruço-me sobre a noite 
a ver a lua a crescer, a crescer... 
Espero o momento da chegada 
com os cansaços e os ardores de todas as chegadas... 
Rasgarás nuvens de ruas densas, 
Alagarás vielas de bêbados transformadores. 
Saltarás ribeiros, mares, relevos... 
- A tua alma não morre 
aos medos e às sombras!- 
Mas..., 
Enquanto deixo a janela aberta 
para entrares, 
o mar, 
aí além, 
sempre duvidoso, 
desenha interrogações na areia molhada...
[Fernando Namora in Relevos]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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LEIT(e)URAS [60] portugal -- a terra e o homem


Houve um tempo em que, no 10 de junho, se faziam coisas destas: editar uma antologia de textos de escritores do sec. XX. Primeiro-ministro era Mota Pinto e o Presidente das Comemorações, suponho que José de Azeredo Perdigão, um dos (muitos) viseenses ilustres.

A edição destinava-se a uso “das escolas onde haja ensino de português e de Literatura Portuguesa”, como se diz lá. A edição foi de 210 000 exemplares. Uma loucura nessa altura e agora.

O livro inclui textos de 30 autores portugueses, do norte a sul, de Carlos Malheiro Dias a Torga… e falam de Portugal.

O antologiador foi David Mourão-Ferreira de quem, um dia, um ilustre prof. da Universidade do Algarve me disse:” O David Mourão-Ferreira? nem o doutoramento tem…” Pois não. Mas sabia mais de literatura do que muitos Prof. Doutores juntos. Os cevados e asininos são assim… o ter é mais importante que o ser…

Não vou dizer que este tipo de trabalhos não se farão, não digo isso. Mas, quando a aridez aperta, não é crível que isto (ou outra coisa semelhante) volte a acontecer tão cedo…

escrito por Carlos M. E. Lopes

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ZOOM [96] - corinne


Calma! calma! não é o que estão a pensar
("este gajo só pensa naquilo!").
O que me chamou a atenção na capa desta revista é CORINNA, a amiga do rei de Espanha. Espanha, o país aonde chegou sem património e de onde saiu com 30 milhões dele, 10 anos depois, exercendo umas atividades que ninguém sabe quais foram.

Há quem clame pela noblesse das monarquias, que as torna superiores às repúblicas. Cá está um exemplo...

escrito por ai.valhamedeus

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CAVACO, VISTO DE BAIXO, PARECE UM GIGANTE!


Acabou o estado de graça que levou muitos líderes a França
(a uma rua de Paris, com perímetro de segurança) 
para uma encenação, imagine-se, apenas para serem 'Charlie'!

A semana, que ontem terminou, teve vários momentos hilariantes que começaram dentro de portas e acabaram um pouco mais longe.
  1. Cavaco Silva - mesmo na qualidade de PR emérito - de vez em quando, aparece. Fê-lo agora, a propósito do congresso do Milho, algures na Terra do Nunca. Aproveitou o cereal para sustentar que aí residia o maná do nosso desenvolvimento e, entrementes, ocorreu-lhe falar da Grécia, talvez para espantar os demónios que o BPN, o BES e outros submersíveis objectos instalaram em Belém. E o que disse foi comovente: emprestámos aos gregos uma 'pipa de massa' e os contribuintes - que até lhe subsidiaram umas acções, que teve no BPN -, arriscam-se a mais uns escusados sacrifícios para que os gregos flutuem. Certamente não sairá do Pavilhão do Atlântico, da vivenda da Coelha, das magras reformas que recebe, da suspensão das obras no convento, onde se vai recolher, ou do irrisório pecúlio, colocado à sua disposição, para manter uma coluna de assessores, um sem número de viagens, veículos topo de gama e motoristas a perder de vista, assunto em que rivaliza com o executivo, num frenesim que pede meças a qualquer Estado economicamente desembaraçado. Passos Coelho, que faz de primeiro-ministro e não tem mão disponível (nem a esquerda) para cumprimentar o seu homólogo grego, tinha dito antes, ou durante, numa daquelas mentiras, que a imprensa logo desmentiu, que tínhamos sido o país que mais dinheiro emprestara a Creta e, espartanos como somos, iríamos ao Peloponeso (de submarino) acertar contas com Atenas.
  2. Mais adiante, pela Europa do capital, farta de (se) ajudar (com) o Sul, todos os dias o governo grego recuava (e continua a recuar), a ponto de, a todo o momento, se esperar que se despenhe do alto do colosso de Rodes, afogando-se no mar Egeu. A Espanha e Portugal, numa clara missão de lebres, capazes de entusiasmar os caçadores de troféus, têm sido os países que mais fazem recuar a Grécia, a ponto de Varoufakis (sim o do cachecol – antigo – que entusiasmou Lagarde), já ter esclarecido P. Coelho que os ‘Contos de Criança trazem sempre esperança’, mas burro velho não aprende línguas, daí que o próprio Primeiro-ministro Tsipras tenha reforçado a ideia, com mais clareza, avisando que ‘o povo não perdoa o desprezo e a mentira’, disciplinas em que espanhóis e portugueses (que mandam) são doutorados por Berlim e Bruxelas.
  3. Cá e lá, o epílogo conta-se através de um desenho. Não é que um jornal grego resolveu fazer humor com o suserano das finanças alemãs? A Torre de Pisa inclinou perigosamente, O Big-ben deixou de acertar nas horas, o muro de Berlim, ainda há pouco derrubado, mostrou sinais de se querer erguer por si e a Torre de Belém deu mostras de se ir embora rumo ao mar alto. Loucuras! De repente, um 'boche' fardado, parecido com Wolfgang Schäuble, isto porque o governo grego está sempre a ‘recuar’, aparecia a fazer ameaças e, claro, todos deixaram de ser 'Charlie' e não se vislumbra sequer um sintoma de perdão. Mundo triste!
escrito por Jerónimo Costa

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"PALERMAS DE TODO O MUNDO, UNI-VOS!"

Tenho ouvido e lido um conjunto de disparates por essas redes fora. O mais frequente é dos que alinham pela batuta do sabujo do Coelho e vá de zurzir na Grécia, sem terem a mais piquena ideia

(como diz Ferreira Leite) 
do que falam. Aliás como o próprio e o contabilista de Boliqueime.

Toda a gente sabe de economia e até já ouvi um dizer no café que, dinheiro dele, não vai para a Grécia… Ninguém ouviu o que o Syriza disse, seguem aquela máxima: “para saber que é merda, basta saber de onde sai”.

Depois de uma quase unanimidade de repúdio das propostas da Grécia, eis que algumas brechas, insuspeitas, vão surgindo. Desde logo, et pour cause, do Obama que já se manifestou contra a austeridade grega, com os olhos postos a leste… Agora vem a voz insuspeita de Joseph Stiglitz dizer isto:
“…a situação atual da Grécia, incluindo a enorme subida da rácio da dívida, é principalmente devida aos equivocados programas da troika que lhe foram impingidos….. não é a reestruturação da dívida, mas a sua ausência, que é imoral”. 
Sobre as eleições na Grécia Stilitz diz
“eleições democráticas raramente dão uma mensagem tão clara como a que a Grécia deu. Se a Europa disser não à exigência dos eleitores gregos relativamente a uma mudança de rumo, estará a dizer que a democracia não tem importância, pelo menos no que diz respeito à economia…”. 
(Expresso, suplemento de economia, pág. 30 de 14/2/2015).

Entretanto parece que Coelho já emendou a mão e o Costa continua num nim. Aliás, Costa vai ser a maior desilusão do século XXI. Vai uma aposta?

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 304. ÁLCOOL

Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longamente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas de auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Descem-me na alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo -
Luto, estrebucho...Em vão! Silvo pra além...

Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de oiro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante -
Manhã tão forte que me anoiteceu.
[Carneiro, Mário de Sá, Poemas Escolhidos, Livraria Civilização, Porto, 1995, pág. 13]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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PEDRO COELHO E A GRÉCIA

Adaptando Shakespeare, sempre se dirá que um sabujo é um sabujo, é um sabujo…

Naqueles grupos rivais, que se defrontam nos bairros, é certo e sabido que, se um elemento isolado é apanhado por um grupo rival, o mais cobarde, canino e ordinário do grupo se atira ao outro para mostrar a sua “coragem” e fidelidade ao grupo. Não importa que o outro esteja sozinho, indefeso e desarmado. Aquele “corajoso” não perdoa ao “inimigo”.


Tal qual Pedro Passos Coelho com a Grécia. Lampeiro e “corajoso” lá se mostrou intransigente, canino, sabujo. Uma vergonha para o país.
Só faltava agora vir Cavaco dizer um conjunto de alarvidades sem nexo e mentindo descaradamente.

Adaptando Garrett em “A Sobrinha do Marquês”: e quisemos nós disto fazer gente?
escrito por Carlos M. E. Lopes

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MESMO QUE NASÇA DUAS VEZES...


É possível que Cavaco nada saiba sobre Ulisses e Zeus não o tenha bafejado com umas tintas de cultura clássica.

Atena não lhe entrou no goto e o estadista que foi Péricles, por desconhecimento, não lhe serve de exemplo.

Aristarco de Samos certamente não passará de uma incógnita, embora tenha sido o primeiro dos gregos a propor uma explicação heliocêntrica para substituir o geocavaquismo em que o Sr. Silva ainda se encontra.

Ptolomeu, Arquimedes, Pítagoras ou Tales, não passarão de ilustres desconhecidos.

Talvez tenha uma vaga ideia de Sócrates e, por mera associação, tenha ouvido falar de Platão
(por causa dos bravos...) 
e de Aristóteles.

Já imaginou dar uma volta no cavalo de Tróia, mas quem retira cantos aos Lusíadas, diz 'façarei' e 'cidadões', não tem estaleca para ocupar o selim; saberá o custo das coisas, até do que emprestámos aos gregos, mas nunca saberá o seu valor, mesmo que nasça duas vezes!

escrito por Jerónimo Costa

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SUA eXª O DE BELÉM


Sua ex.ª, o nosso inquilino em Belém, que, contra todas as expectativas
(e mesmo factos)
nada disse, na Coreia do Sul, sobre o BES, pelo menos que os coreanos tivessem entendido, apareceu hoje, num dia cinzento, a fazer declarações brilhantes:

Uma, contra o governo grego, cuja dívida vai sair dos bolsos dos contribuintes portugueses
(compreende-se melhor o agastamento de Coelho) 
e a outra, congratular-se com o pagamento antecipado de uma verba, em dívida
(para darmos o exemplo) 
ao FMI.

Sobre a Grécia, esqueceu-se das negociações em curso e do interesse que elas possam ter para Portugal; sobre a dívida, esqueceu-se de agradecer aos portugueses esbulhados e aos mercados
(oh, os mercados!), 
que têm permitido empréstimos a um juro irrecusável. Manobras eleitorais, noblesse oblige!

escrito por Jerónimo Costa

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 47

[Clique na imagem, para a ver maior]
TRAJETO
Na vertigem do oceano
vagueio
sou ave que com o seu voo
se embriaga
Atravesso o reverso do céu
e num instante
eleva-se o meu coração sem peso
Como a desamparada pluma
subo ao reino da inconstância
para alojar a palavra inquieta
Na distância que percorro
eu mudo de ser
permuto de existência
surpreendo os homens
na sua secreta obscuridade
transito por quartos
de cortinados desbotados
e nas calcinadas mãos
que esculpiram o mundo
estremeço como quem desabotoa
a primeira nudez de uma mulher
[Mia Couto in Raiz de Orvalho e outros poemas]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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"O LIXO" DE LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

O Expresso teve, há uns anos (poucos), alguns cronistas de eleição. Cito três que me agradavam sobremaneira: Nuno Brederode dos Santos, José Manuel dos Santos e Luís Fernando Veríssimo. Este último, quase tropecei nele. Estive em Porto Alegre e lá me disseram que era fácil encontrá-lo por perto do Centro Cultural dedicado a Mário Quintana, precisamente na rua onde fiquei. Mas fiquei-me pelas fotos na inauguração da FNAC…

Mas Veríssimo escreve crónicas tão boas que até irrita.

Já não sei onde li O Lixo, se foi lá se foi cá. Foi num jornal. Achei sublime de carinho, subtileza, enlevo. Não o encontrando, pedi a uma amiga brasileira que mo desencantasse. Vinte minutos depois, enviou-me o texto, com indicação onde o poderia encontrar (o livro) e onde poderia comprá-lo: Amazon de Inglaterra ou alemã, sendo que, aqui, em segunda mão…

Passo ao texto. Continua a fascinar-me…

O Lixo 
Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.
- Bom dia...
- Bom dia.
- A senhora é do 610.
- E o senhor do 612.
- É.
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
- Pois é...
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
- O meu quê?
- O seu lixo.
- Ah...
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
- Na verdade sou só eu.
- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
- Entendo.
- A senhora também...
- Me chame de você.
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...
- A senhora... Você não tem família?
- Tenho, mas não aqui.
- No Espírito Santo.
- Como é que você sabe?
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
- É. Mamãe escreve todas as semanas.
- Ela é professora?
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
- Pois é...
- No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
- É.
- Más notícias?
- Meu pai. Morreu.
- Sinto muito.
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
- Foi por isso que você recomeçou a fumar?
- Como é que você sabe?
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
- É verdade. Mas consegui parar outra vez.
- Eu, graças a Deus, nunca fumei.
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
- Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.
- Você brigou com o namorado, certo?
- Isso você também descobriu no lixo?
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
- É, chorei bastante, mas já passou.
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
- É que eu estou com um pouco de coriza.
- Ah.
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
- Namorada?
- Não.
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
- Você já está analisando o meu lixo!
- Não posso negar que o seu lixo me interessou.
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
- Não! Você viu meus poemas?
- Vi e gostei muito.
- Mas são muito ruins!
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
- Se eu soubesse que você ia ler...
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
- Acho que não. Lixo é domínio público.
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
- Ontem, no seu lixo...
- O quê?
- Me enganei, ou eram cascas de camarão?
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
- Eu adoro camarão.
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
- Jantar juntos?
- É.
- Não quero dar trabalho.
- Trabalho nenhum.
- Vai sujar a sua cozinha?
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.

- No seu lixo ou no meu?
escrito por Carlos M. E. Lopes

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CONSELHOS PARA ESTIMULAR O CÉREBRO


10 conselhos para estimular o cérebro: alimentação, exercício, aprender poesia, ouvir música…

Detalhes, n'O meu baú.

escrito por ai.valhamedeus

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hoje é sábado 303. UM OUTRO SOL, UM OUTRO PÃO

Em vão acumulo. Em vão se acumula.
Abri-me ao sol e disse: Eis o sol
todos os dias
e cheguei a sentir o sol das veias.

Árvore! gritaste.

Nunca se te abriu o pão da mesa
um pão impo
uns olhos de mulher de água tranquila?
[Rosa. António Ramos, Horizonte Imediato, Dom Quixote, Lisboa, 1974, pág. 29]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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CAVACO ESTÁ MAL...


Ontem, na Culturgest, assisti ao exemplo acabado de um homem fora de tempo, do seu reinado.

Prestava-me para assistir a um concerto comemorativo dos 40 anos da universidade do Minho quando, eis se não, sou empurrado por diligente funcionária que me exigiu que me afastasse. Pelos flashs e holofotes entendi que era gente graúda que se aprestava a fazer a sua chegada. Era. Cavaco Silva e a sua Maria também iam ao concerto. Mas o que mais me impressionou foi o abandono a que foi votado tão ilustre personagem. Nada do habitual envolvimento de pessoas e atenções. Muito só, com ar de doente, entrou discreto, esteve discreto e saiu discreto. O fim do poder, mais do que a irrelevância dos seus consulados, explicarão este homem só...

O poder é lixado (ou a ausência dele…).
escrito por Carlos M. E. Lopes

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CUSTE O QUE CUSTAR

Este é o perfil político do lambe-botas que nunca mais deixa de nos desgovernar:

Trata-se dos troikos? Portugal vai cumprir, custe o que custar.



Trata-se da saúde/vida de pessoas? Isso tem limite de custos.


escrito por ai.valhamedeus

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O QUE É A DEMOCRACIA?


"Alemanha quer que Syriza recue nas promessas".

Pelos vistos, é geral a conceção da DEMOCRACIA como um regime onde as promessas eleitorais que estão na base da eleição de um(s) partido(s) não são para cumprir. Que RAIO DE DEMOCRACIA é a democracia desta gente?

escrito por ai.valhamedeus

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"E O JUIZ CARLOS ALEXANDRE QUE SE CUIDE..."


Regressamos à liberdade de expressão. Soares tem todo o direito de exprimir as suas ideias, defender os seus amigos e ter, sobre eles, as convicções que melhor se adequam ao seu ponto de vista. Atacar o sistema judicial, opinando, segundo o seu critério, de modo a desqualificar a sua actuação, lançando sobre ele o labéu da suspeição, só adensa o clima de perturbação do processo que, afinal, a prisão preventiva procurou acautelar, reforçando também a ideia de que os políticos estão a salvo de prestar contas à justiça, façam o que fizerem!

Retomar a velha máxima de um dirigente do partido que, a dada altura resolveu informar 'que quem se mete com o PS, leva', sendo infeliz
(por pretender substituir a força da lei pela lei da força), 
não só não se adequa à legítima separação de poderes, consagrada pela Constituição, como assume uma intolerável interferência no processo que apenas a justiça pode e deve resolver. Ameaçar um juiz a quem cabe instruir um processo, seja ele qual for, que, de resto, não decide sozinho
(tem o aval e a conformidade do Ministério Público), 
constitui um perigoso retrocesso democrático e uma desqualificação dos princípios e das finalidades que regulam as instituições. Cavalgar uma onda que, no limite, se destina a manipular e a provocar alarme público, que está longe de colher a adesão de tantos portugueses como Soares imagina, mais não faz do que transformar um caso de polícia num caso político. Um padrão de suspeição, tão elevado, que, além do mais é comum a outros agentes políticos, só se resolve com uma justiça eficiente e eficaz, nunca por pressões políticas, muito menos através de ameaças, que envolvem a integridade física e moral de quem decide, venham de onde vierem.

escrito por Jerónimo Costa

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