TRUMP(A)

E ESTA, HEIN!... 25

O ACORDO HORTOGRÁFICO

De acordo com um email que corre na Net, este (des)acordo ortográfico é muito bom. Senão, vejamos:

antigamente, quando alguém se punha na sorna e não queria trabalhar, quer fosse Dia Santo, quer o patrão se tivesse ausentado da loja, ou ambas as coisas, vinha sempre o diabo de um desmancha prazeres que vociferava. Para ser ouvido, claro, no meio do regabofe: Alto e pára o baile!

Agora, neste novo regime de ortografia, imposto, a coisa fica muito, mas muito, mais simpática: na mesma situação, vocifera-se assim:
Alto e para o baile!

Portanto, as pessoas, além de terem feito cera, ainda são convidadas para deixarem tudo e irem para o baile. 

E digam lá se tenho ou não tenho razão?
E expliquem-me lá por que são contra o aborto? Perdão, Acordo.

(Texto livremente adaptado)

escrito por Gabriela Correia, Faro

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hoje é sábado 319. DOBRADA À MODA DO PORTO

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo ...

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

[Campos, Álvaro de, Poesia, edição Teresa Rita Lopes, Assírio & Alvim, 2002, pág. 510]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 62

[Clique na imagem, para a ver maior]
NOITE APRESSADA
Era uma noite apressada 
depois de um dia tão lento. 
Era uma rosa encarnada 
aberta nesse momento. 
Era uma boca fechada 
sob a mordaça de um lenço. 
Era afinal quase nada, 
e tudo parecia imenso! 

Imensa, a casa perdida 
no meio do vendaval; 
imensa, a linha da vida 
no seu desenho mortal; 
imensa, na despedida, 
a certeza do final. 

Era uma haste inclinada 
sob o capricho do vento. 
Era a minh'alma, dobrada, 
dentro do teu pensamento. 
Era uma igreja assaltada, 
mas que cheirava a incenso. 
Era afinal quase nada, 
e tudo parecia imenso! 

Imensa, a luz proibida 
no centro da catedral; 
imensa, a voz diluída 
além do bem e do mal; 
imensa, por toda a vida, 
uma descrença total! 
[David Mourão-Ferreira, in À Guitarra e à Viola]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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FANTASIA CARMEN

MUSICALMENTE...

...regresso, hoje, como os "criminosos", a um dos locais do crime aonde regresso frequentemente: a ópera CARMEN de Bizet. E estou convencido de que não sou o único "criminoso": quem, para dar apenas um exemplo, não conhece "isto"?


Talvez menos conhecida, mas não menos contagiante, é a Fantasía Carmen, Op. 25, de Pablo Sarasate. Uma fantasia para violino e orquestra, sobre temas da Carmen, a original, a de Georges Bizet.

No vídeo seguinte, no violino está Gil Shaham -- e, na direção da orquestra, o saudoso Claudio Abbado:


E termino com umas "brincadeiras" do grande pianista Horowitz...


...e umas leituritas:
escrito por ai.valhamedeus

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hoje é sábado 318. NO PAÍS

no  país  no  país  no  país  onde  os  homens
são só até ao joelho
e  o  joelho  que  bom é  só até à ilharga
conto os meus dias tangerinas brancas
e vejo a noite Cadillac obsceno
a rondar os meus dias tangerinas brancas
para um passeio na estrada Cadillac obsceno

e  no  país  no  país  e  no  país  país
onde as lindas lindas raparigas são só até ao pescoço
e o pescoço que bom é só até ao artelho
ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,
chega a atingir o cérebro e as flores da cabeça,
recordo os meus amores liames indestrutíveis
e vejo uma panóplia cidadã do mundo
a dormir nos meus braços liames indestrutíveis
para que eu escreva com ela, só até à ilharga,
a grande história de amor só até ao pescoço

e  no  pais  no  pais  que  engraçado  no  pais
onde o poeta o poeta é só até à plume
e a plume que bom é só até ao fantasma
ao passo que o fantasma - ora ai está -
não é outro senão a divina criança (prometida)
uso os meus olhos grandes bons e abertos
e vejo a noite (on ne passe pas)

diz que grandeza de alma. Honestos porque
Calafetagem por motivo de obras.
relativamente queda de água
e já agora há muito não é doutra maneira
no pais onde os homens são só até ao joelho
e o joelho que bom está tão barato
[Cesariny, Uma grande Razão – Os Poemas maiores, Assírio & Alvim, 2007, pág. 31-32]
escrito por Carlos M. E. Lopes

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UM CURRÍCULO INVEJÁVEL

Maria José Castelo Branco

(que eu não conhecia) 
é deputada do PSD e, um dia destes, resolveu aceitar ir, ou fazer-se convidada do programa Ciência Viva. Como é geóloga de formação, com estágio, eventualmente em minas e armadilhas, entendeu afiançar a um público jovem que, apenas, com seis anos fez a sua primeira experiência científica e resolveu, sem um mínimo de pudor, distrair a assistência com a experimentação precoce, que a poderia ter levado, mesmo enquanto criança, a cumprir alguns exercícios subjacentes ao respeito pela vida, evitando sofrimento desnecessário nos animais humanos e não-humanos. O que fez a Srª deputada, enquanto criança?

Pegou no gato da sua professora, diz ela, trepou ao 3° andar e, sem pestanejar, atirou-o para se certificar que caía de pé.

E o que faz agora a Srª deputada? Sem um leve rubor, conta o sucedido, de que parece orgulhar-se, e chama-lhe experiência científica!

Com um ministro Crato e outras luminárias como a Castelo Branco, não admira que um dos manuais de matemática, talvez inspirado nos dotes científicos de tal representante dos portugueses(?), resolvesse repetir a (des)graça do gato atirado, mas revestindo a forma de um problema!

É provável que a loucura seja um elemento crucial do currículo para o futuro e, como preparação, as experiências seguem com gatos atirados. Porque não experimentam com as suas próprias pessoas? Dariam grande contributo à ciência e ao país; pelo menos, não atrapalhavam!

Fica aqui o rosto da sra deputada, antes que todos os gatos sejam pardos e... as leis que (penosamente) elaboram o confirmem.

escrito por Jerónimo Costa

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BERDAMERDA!


Perguntada sobre que cortes nas pensões pretende o Governo fazer, a ministra das Finanças respondeu: falamos depois das legislativas.

Sabe-se "apenas" que o Governo pretende que o desenho da reforma das pensões traga poupanças de 600 milhões de euros.

...e quanto me custa pensar que há quem vote nestes éfedepês!...

escrito por ai.valhamedeus

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 61

[Clique na imagem, para a ver maior]
E TUDO ERA POSSÍVEL
Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido 
Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido 
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer 
Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer
[Ruy Belo, in Homem de Palavra[s]]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ACORDISTAS CONTRA ANTI-ACORDISTAS


Nesta luta acesa entre os acordistas e os anti-acordistas
(a fogueira está a desacender, à medida que nos afastamos de datas como a entrada em vigor definitivo do dito),
há algumas conclusões que eu, polemicamente, tiro. Por exemplo,
  • os anti-acordistas são mais aguerridos do que os acordistas;
  • os anti-acordistas são mais incendiários do que os acordistas. Os argumentos que esgrimem, com frequência, balanceiam-se entre a ignorância arrogante (o caso do conhecido juiz cagado de fato malcheiroso é apenas o mais mediático) e os clamores emotivamente sonoramente ampliados.
 Deste último grupo fazem parte, por exemplo, José Pacheco Pereira. No texto Os apátridas da língua que nos governam, escreve que
Uma geração de apátridas da língua, todos muito destros em declamar que a “a nossa pátria é a língua portuguesa”, minimizam a nossa identidade e a nossa liberdade. É como se estivéssemos condenados a escrever como se urrássemos em vez de falar.
"[...] como se estivéssemos condenados a escrever como se urrássemos em vez de falar"?! valha-o deus!

escrito por ai.valhamedeus

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hoje é sábado 317. PROCURO-TE

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.
[Andrade, Eugénio, As Palavras Interditas, Até Amanhã, Assírio & alvim, s/l, 2012, pág. 33-34]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 60

[Clique na imagem, para a ver maior]
JUNTO ÀS MARGENS DE UM RIO 
Junto às margens de um rio docemente
Com meus suspiros altercando,
A viva apreensão ia pintando
Passadas glórias no cristal luzente. 
Mas quando nesta ideia mais contente
O coração se estava recreando,
Despenhou-se do peito o gosto brando,
Envolto com a rápida corrente. 
Lá vão parar meus gostos no Oceano, 
Ficando inanimado o peito frio,
Que o recreio buscou só por seu dano. 
Acabou-se o contente desvario,
E meus olhos saudosos do engano
Quase querem formar um novo rio.
[Maria Teresa Horta, in As Luzes de Leonor]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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hoje é sábado 316. MÍSEROS, OS CHACAIS

Antílope no cume
de um árido monte.

E em seu torno,
míseros, os chacais

As ossadas, fulgentes
ao nascer do dia
[Osório, António, Antologia Poética, Quetzal Editores, Lisboa, 1994, pág. 184]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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VÍDEO DA SEXTA 223. "a canção do mar"

A Canção do Mar, realizado por Tomm More (autor de O Segredo de Kells), é um filme inspirado nas figuras mitológicas Selkies, que fazem parte do folclore irlandês.

O Segredo de Kells


Fonte: [http://www.karmafilms.es/lacanciondelmar/la-pelicula.html]

escrito por Adriana Santos

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ZOOM [99] - subversão da ordem visual

[Francesca Woodman, 1977-78]

Até 31 de maio, a Kunsthalle de Hamburgo expõe 160 criações de mulheres, dos últimos quarenta anos. Uma mostra com a ênfase na intencionalidade política da plástica feminista que subverteu de modo definitivo a ordem visual do mundo.

escrito por ai.valhamedeus

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 59

[Clique na imagem, para a ver maior]
PERFUME DE ROSA
Quem bebe, rosa, o perfume
Que de teu seio respira?
Um anjo, um silfo? ou que nume
Com esse aroma delira? 
Qual é o deus que, namorado,
De seu trono te ajoelha,
E esse néctar encantado
Bebe oculto, humilde abelha? 
- Ninguém? - Mentiste: essa frente
Em languidez inclinada,
Quem ta pôs assim pendente?
Dize, rosa namorada. 
E a cor de púrpura viva
Como assim te desmaiou?
e essa palidez lasciva
Nas folhas quem ta pintou? 
Os espinhos que tão duros
Tinhas na rama lustrosa,
Com que magos esconjuros
Tos desarmam, ó rosa? 
E porquê, na hástea sentida
Tremes tanto ao pôr-do-sol?
Porque escutas tão rendida
O canto do rouxinol? 
Que eu não ouvi um suspiro
Sussurrar-te na folhagem?
Nas águas desse retiro
Não espreitei a tua imagem? 
Não a vi aflita, ansiada...
- Era de prazer ou dor? -
Mentiste, rosa, és amada,
E também tu amas, flor. 
Mas ai! se não for um nume
O que em teu seio delira,
Há de matá-lo o perfume
Que nesse aroma respira.
[Almeida Garrett, in Folhas Caídas]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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CAUTELA, PEREGRINOS!


Ouço as cautelas recomendadas aos peregrinos de Fátima e chego à conclusão de que este país está cheio de incréus.

Parece que já ninguém confia na proteção divina nem na guarda da Virgem de Fátima, para quem os peregrinos caminham.

...e alembra-me a canção:
Pára-raios nas Igrejas
É para mostrar aos ateus
Que os crentes quando troveja
Não têm confiança em Deus.
escrito por ai.valhamedeus

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DIA DA MÃE

Hoje o dia esteve mais ou menos carrancudo; pelo menos aqui a Sul. No Dia do Trabalhador fez uma temperatura de se lhe tirar o chapéu, mas hoje, dia Da Mãe, o São Pedro, que não deve ter tido mãe, já que era Santo, não esteve pelos ajustes e zás: tomem lá que é para não se habituarem ao sol e à praia, todos os dias. Ainda por cima, nós aqui no Céu não temos praia!

Mas como alguém disse um dia que o Natal “é quando um homem quiser”, também o Dia da Mãe pode ser “quando uma filha quiser”. E foi o que fez a minha. Assim, comemorámos ontem este dia, pois então.

O pior é razão para tal facto: é que ela trabalha aos Domingos, Feriados, e quando “a patroa quiser”. E viva o velho, que tem emprego, dizem-me algumas pessoas que habitam este país (des)governado, conformadas.

Efectivamente, tem. E que emprego! Eu é que me não conformo, ao vê-la esforçar-se, orgulhosa das belas notas e do seu percurso académico, recebendo ao fim do mês a mísera quantia de 449 euros, que é o que resta do ordenado mínimo, depois dos devidos descontos. E viva o velho!

De onde terá vindo esta expressão? Só espero que este velho não seja aquele em quem estou a pensar. E estou igualmente a pensar noutra personagem que mal aflorou a Universidade, ascendendo, e acedendo, não obstante, a um lugar ao sol.

Como pode uma mãe, amargurada, comemorar seja o que for, nestas circunstâncias? Apetece é ir prantar-se junto a certos locais, em protesto. E fazer greve de fome. Para grandes males, grandes remédios.

Eu sei que não sou a única com motivos de queixa. Ora, com o mal dos outros podemos nós todos bem.

E no Dia da Mãe, que forma melhor de desabafo existe, do que o emprego de vários AFORISMOS? Digam lá!

escrito por Gabriela Correia, Faro

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LEIT(e)URAS [62] viver pela liberdade

Viver pela Liberdade – Maria Antónia Palla

Li o livro de Maria Antónia Palla, Viver pela Liberdade, e fica-me uma sensação de vazio. Nunca chegamos a saber que liberdade
(claro que sabemos que é a liberdade também defendida pelo filho, o António Costa), 
mas há uma sensação de ausência clara. Acho bem que seja omissa às circunstâncias dos seus casamentos e trate sobretudo da sua atividade profissional. É um livro sóbrio, mas pouco interessante.

No entanto, a biografada dá-nos uma ideia das circunstâncias da sua vida, da sua luta por ser independente, do seu trabalho. Não haver liberdade sem independência económica, ensinou-lhe o avô, do Seixal, com mais luzes de política do que a neta, pois deve ter ouvido dizer de Lenine isso mesmo. Já Jacques Brel, que ela entrevistou em Paris, lhe disse “liberdade é ter o direito de se enganar”.

O livro é nitidamente escrito a quatro mãos, entre a Maria Antónia Palla e a Patrícia Reis. Mas quem é responsável pela frase “de Santa Apolónia a Austerlitz, com transbordo em Irún, porque a largura das linhas entre a Península Ibéria e França não eram as mesmas” (pág. 57)? Não eram a mesma largura??? Mais à frente também leio que “Dei comigo a imaginar as conversas que teríamos mas tarde, os passeios, as viagens que poderiam fazer juntos….” (pág. 225). Na primeira parte, parece a Maria Antónia a falar, na segunda parte parece a Patrícia Reis. Estarei enganado?

A sua experiência na Jamba nada esclarece. Dizer que as cartas dirigidas (e publicadas) sobre a colaboração entre a PIDE e a Unita são falsas, sem mais nada, não abona a favor do rigor da jornalista.

Talvez o seu empenhamento no movimento feminista devesse ter sido mais desenvolvido. Mas, que se espera de uma PS?

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 315. IDEAL

Aquela, que eu adoro, não é feita
De lírios nem de rosas purpurinas,
Não tem as formas languidas, divinas
Da antiga Vénus de cintura estreita...

Não é a Circe, cuja mão suspeita
Compõe filtros mortaes entre ruinas,
Nem a Amazona, que se agarra ás crinas
D'um corcel e combate satisfeita...

A mim mesmo pergunto, e não atino
Com o nome que dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino...

É como uma miragem, que entrevejo,
Ideal, que nasceu na solidão,
Nuvem, sonho impalpável do Desejo...
[Quental, Antero, Sonetos, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, 1984, 7ª edição, pág. 27]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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VÍDEO DA SEXTA 222. "maio, nosso maio"


História dos primeiros movimentos de protestos/manifestos precursores do 1º de Maio.

escrito por Adriana Santos

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 58

[Clique na imagem, para a ver maior]
TABACARIA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. 
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. 
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro. 
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
[Álvaro de Campos (excerto)]
foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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OS LIVROS, SEMPRE OS LIVROS...

A anarquia reinante nos meus bocados de biblioteca é de arrepiar. Cinco mudanças de casa em meia dúzia de anos geraram um desnorte geral, aliado a uma desorganização sistémica. Posso encontrar Dickens ao lado de Direito Romano, Hasek ao lado de Platão, Cunhal ao lado de Nuno Bragança, Carlos Fiolhais em namoro com Júlio César. Uma confusão só comparável com a cabeça do dono…

Mas os livros são uma paixão. Levar horas à procura de um título que não se sabe onde está, olhar as lombadas, folheá-los e …lê-los (não tanto como o desejo quer…).

Uma livraria em Saint Germain, em Paris, ao lado do Café de Flore, fascinou-me. Não muito grande, mas bem arrumadinha, à entrada, à esquerda, lá estava a biblioteca da Plêiade. Admirável coleção, lindas lombadas, encadernação de esmero. Foi o pai de André Schiffrin, um editor, que a criou.

Papeis pintados com tinta, como dizia Pessoa, a escrita (e o livro) é o maior invento do homem, a par da roda.

Há forma mais feliz de passar umas horas do que lendo, no silêncio absoluto, um livro, passando por terras, dialogando com pessoas tão longínquas, assistir a diálogos incríveis, batalhas medonhas, acompanhar histórias de amor sublimes? Mas pode-se ler num café, num jardim, num transporte, num estádio de futebol. Em qualquer lado e a qualquer hora. Uma beleza sem fim.


Gostaria de deixar a minha biblioteca, sem valor bibliográfico, é certo, mas com carradas de livros que poderão ser úteis a quem ainda tem avidez pela leitura. Não concordo com o Pepe Carvalho que acendia a lareira com os livros da sua biblioteca. Não, isso não, mas o Pepe é uma personagem admirável. E se ele percebe de cozinha, de vinhos e de livros…

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 314. DESESPERANÇA

Vai-te na asa negra da desgraça,
pensamento de amor, sombra duma hora,
que abracei com delírio, vai-te embora,
como nuvem que o vento impele ... e passa.

Que arrojemos de nós quem mais se abraça,
com mais ânsia, à nossa alma! E quem devora
desta alma o sangue, com que mais vigora,
como amigo comunge à mesma taça!

Que seja sonho apenas a esperança,
enquanto a dor eternamente assiste,
e só engane a desventura!

Se em silêncio sofrer vingança!...
Envolver-te em ti mesma, ó alma triste,
talvez sem esperança haja ventura!

[Quental, Antero, Sonetos, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, 1984, 7ª edição, pág. 24]
escrito por Carlos M. E. Lopes

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VÍDEO DA SEXTA.221."Defender a liberdade"

Abril...  SEMPRE!


escrito por Adriana Santos

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ZOOM [98] - coligação das rosas


escrito por ai.valhamedeus

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QUE MERDA É ESTA?


Em vésperas do 24 de abril, anuncia-se um projeto que inclui a possibilidade de voltar o "exame prévio" (da cobertura jornalística de eleições).

Temos aí a pide oficializada pelos partidos do chamado arco da governação?

Que isto não cheira muito bem, não cheira...

escrito por ai.valhamedeus

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 57

[Clique na imagem, para a ver maior]
A CIDADE
A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar. 
A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.
[José Carlos Ary dos Santos]

(poema musicado por José Afonso)


foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ZOOM [97] - viagem para portugal


escrito por Gabriela Correia, Faro

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hoje é sábado 313. DAQUI A UNS TEMPOS...

daqui a uns tempos acho que vou arvoar
através dos temas ar e fogo,
a mim já me foram contando umas histórias que me deixaram meio louco furioso:
um bando de bêbados entrou num velório e pôs-se à bofetada no morto,
e riram-se todos muitíssimo,
que lavre então a loucura, disse eu, e toda a gente se ria,
até a família,
tudo tão contra a criatura ali parada em tudo,
equânime, nenhuma, contudo, bem, talvez, quem sabe?
talvez se lhe devesse a honra de uma pergunta imóvel, uma nova inclinação de cabeça
— à bofetada! —
fiquei passado mas, pensando durante duas insónias seguidas,
pedi:
metam-me, mal comece a arvoar,
directo, roupas e tudo, no fogo,
e quem sabe?
talvez assim as mãos violentas se não atrevam por causa da abrasadura,
porém enquanto vim por aqui linhas abaixo:
ora, estou-me nas tintas:
pior que apanhar bofetadas depois de morto é apanhá-las vivo ainda,
e se me entram portas adentro!
¿Eli, Eli?
um tipo de oitentas está fodido,
morto ou vivo,
e os truques: não batam mais no velhinho,
olhem que eu chamo a polícia, etc. — já não faíscam nas abóbadas do mundo:
vou comprar uma pistola,
ou mato-os a eles ou mato-me a mim mesmo,
para resgatar uns poemas que tenho ali na gaveta,
nunca pensei viver tanto, e sempre e tanto
no meio de medos e pesadelos e poemas inacabados,
e sem ter lido todos os livros que, de intuição, teria lido e relido, e treslido num alumbramento,
e é pior que bofetadas, vivo ou morto,
pior que o mundo,
e o pior de tudo é mesmo não ter escrito o poema soberbo acerca do fim da inocência,
da aguda urgência do mal:
em todos os sítios de todos os dias pela idade fora como uma ferida,
arvoar para o nada de nada se faz favor, e muito, e o mais depressa impossível,
e com menos anos, mais nu, mais lavado de biografia e de estudos
da puta que os pariu
[Helder, Herberto, Servidões, Assírio & Alvim, s/l, 2013, pág. 106-108]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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E ESTA, HEIN!... 24

Singapura é a cidade mais cara do mundo, superando Tóquio e Paris, segundo o estudo da Economic Intelligence Unit. Mas, o país mais caro de todos é uma incógnita nação chamada Aeroporto Internacional.
[Manuel Halpern]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 56

[Clique na imagem, para a ver maior]
NOCHE DE VERANO
Pulsas, palpas el cuerpo de la noche,
verano que te bañas en los ríos,
soplo en el que se ahogan las estrellas,
aliento de una boca,
de unos labios de tierra.

Tierra de labios, boca
donde un infierno agónico jadea,
labios en donde el cielo llueve
y el agua canta y nacen paraísos.

Se incendia el árbol de la noche
y sus astillas son estrellas,
son pupilas, son pájaros.
Fluyen ríos sonámbulos.
Lenguas de sal incandescente
contra una playa oscura.

Todo respira, vive, fluye:
la luz en su temblor,
el ojo en el espacio,
el corazón en su latido,
la noche en su infinito.

Un nacimiento oscuro, sin orillas,
nace en la noche de verano,
en tu pupila nace todo el cielo.
[Octavio Paz]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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"SPIN DOCTOR" DE CAVACO NÃO GOSTA DE NÓVOA

'Spin doctor' de Cavaco não gosta de Sampaio da Nóvoa e usa a mentira para o denegrir!

Sampaio da Nóvoa: estão aí as tentativas de assassinato de carácter do homem que, durante dois mandatos consecutivos, exerceu, com toda a dignidade e bom senso, o cargo de Reitor da Universidade de Lisboa.


Taborda da Gama tentou denegrir - injustamente - a sua imagem nas páginas do DN.
Porquê?

Em artigo com data de 10.04.2015, publicado no 'Luta Popular' (PCTP|MRPP), Arnaldo Matos desmente João Taborda da Gama (filho de Jaime Gama e assessor político de Cavaco).

Filho do Gama é Mentiroso como o Pai…
Publicado em 10.04.2015

Na edição do jornal Diário de Notícias de ontem, um tal João Taborda da Gama ocupa uma página inteira do periódico para tecer um longo e despropositado elogio ao já falecido Dr. Saldanha Sanches, homem que passou por diversos partidos de esquerda – PCP, MRPP, UDP e PS, entre outros – e acabou dando aulas de Fiscal nas cadeiras do fascista Martinez, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. 
Ninguém contesta o direito de Taborda da Gama a elogiar, sempre e quando o entender, o seu antigo e saudoso professor de Direito Fiscal e de tecer por ele os maiores encómios e os mais rasgados elogios, sabendo-se todavia, como efectivamente se sabe, que não há neste mundo nenhum defunto que, ao partir-se, não tenha a honra de ter deixado atrás de si, em simultâneo e em paralelo, tanto uma grande fileira de amigos quanto uma idêntica coreia de adversários.
Ora, depois de santificar e turibular o Sanches, confessa então o Taborda da Gama aquilo a que realmente vem, com elogios tão despropositados quando irremediavelmente tardios: vem acusar António Sampaio da Nóvoa, putativo candidato presidencial do Partido Socialista em 2016, de ter presidido ao júri académico que chumbou Saldanha Sanches no exame das provas de agregação para professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. 
Diz assim o Taborda, no passo final em que espeta a faca nas costas do Doutor Sampaio da Nóvoa: 
Em finais de junho de 2007, Saldanha Sanches apresentou-se a provas de agregação na Universidade de Lisboa. A composição do júri não deixava dúvidas sobre o que se ia julgar, não era o seu currículo académico nem as suas obras, ambos irrepreensíveis - era a sua liberdade. Talvez devesse ter ficado em casa, ir passar uma semana à Suíça, tão agradável no início do verão. Mas Saldanha Sanches não fugia. Chumbaram-no. De forma vil. Nos júris académicos, como nos países, há um presidente, alguém cimeiro que normalmente não deve intervir, só apenas em casos-limite, para impedir a injustiça. Alguém que tem de ter coragem para repor a ordem justa das coisas, sempre que esta falte. Uma espinha dorsal e moral sobressalente, de reserva. O júri que reprovou José Luís Saldanha Sanches tinha António Sampaio da Nóvoa como presidente.

Como se vê, Taborda da Gama responsabiliza António Sampaio da Nóvoa pelo chumbo de Saldanha Sanches. Taborda é, por isso, um mentiroso compulsivo. Deixo aqui escarrapachada a constituição do júri que, em 28 de Junho de 2007, chumbou Sanches nas provas para professor agregado da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. 
• Jorge Braga de Macedo,• Diogo Leite Campos,• Marcelo Rebelo de Sousa,• Jorge Miranda,• António Menezes Cordeiro,• Fausto de Quadros,• Paulo Otero,• Eduardo Paz Ferreira,• Miguel Teixeira de Sousa.
No regime em vigor na altura, a votação era secreta e fazia-se por bolas pretas e bolas brancas, tendo Sanches chumbado por seis pretas contra três brancas. António Sampaio da Nóvoa, então reitor da universidade, foi, por inerência, presidente do júri do exame de agregação, mas não votou, porquanto, segundo a lei em vigor à época, o presidente do júri só podia votar em caso de empate, a menos que fosse professor da disciplina de que se estava a prestar provas, o que não era o caso. O ex-reitor fez a sua carreira na área da educação e não tinha qualquer ligação ao Direito.
António Sampaio da Nóvoa não tem pois nenhuma responsabilidade no chumbo de Sanches, visto que não votou nem teria voto na matéria. 
Tudo isto são normas que Taborda da Gama tem obrigação de conhecer, antes de se pôr a insultar Nóvoa. 
Mas porquê o insulto de Taborda a Nóvoa? 
Taborda é daqueles escribas opinativos que não faz declaração prévia de interesses, pois oculta nas páginas do Diário de Notícias que é filho de Jaime Gama, e que pai e filho alimentam a esperança de que o mais velho dos dois venha a ser brevemente candidato do PS às eleições presidenciais de 2016. 
E seria também bom que quando escreve nos jornais, Taborda da Gama não se esquecesse de referir que, desde 2011, é consultor de assessoria para assuntos políticos do Cavaco de Boliqueime. 
Fará a mentira parte do ADN dos Gama? É que, em 1968, o paizinho de Taborda, presidindo a uma reunião magna de estudantes na velha cantina da Cidade Universitária, escondeu no bolso a proposta de uma manifestação contra o fascismo, afirmando a pés juntos que não teria dado entrada na mesa e que nunca a vira. 
Até que Danilo Matos, então estudante de engenharia do Instituto Superior Técnico, atravessou toda a sala em três ou quatro saltos, trepou para a mesa, agarrou Gama pelos colarinhos e, à vista de milhares de estudantes, tirou-lhe do bolso do casaco a proposta que o futuro paizinho do Taborda escondera à assembleia. 
Claro: o Gama foi corrido, a proposta foi votada, a manifestação fez-se e foi um enorme sucesso político! 
Um rico património genético de aldrabões, estes Gamas!
[Arnaldo Matos]

escrito por Jerónimo Costa

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RICARDO SALGADO. MELHORES DIAS VIRÃO

Em 1974 instaurou-se uma ditadura comunista em Portugal. Um tenebroso Conselho da Revolução, uma Constituição marxista e um governo soviético.

Em março de 1975 inicia-se o PREC, patriotas são presos em Caxias e depois exilados no Brasil para onde foram miseráveis, sem um tostão no bolso.

Extinto o conselho da revolução, revista a Constituição, o país entrou nos eixos. A iniciativa privada iria desabrochar, o governo, sobretudo através de Cavaco Silva, um patriota e homem de visão, iria trilhar caminhos de sucesso.

Regressados a Portugal, de onde partiram sem um tostão, os nossos empreendedores reiniciaram a sua atividade produtiva. O país estava livre da escumalha comunista, o Conselho da Revolução foram eliminado e a Constituição, em sucessivas revisões, iria permitir mostrar como se enriquece o país.

Face a condições ideais, com alguns escolhos nas leis laborais, os nossos empreendedores iriam trilhar a senda do êxito. Estávamos perto dos tigres asiáticos e longe da velha Europa do Estado Social.


De repente, as coisas começam a falhar. BPN, BPP, BCP, BES, o sustentáculo do sistema financeiro ruiu. A coisa estava feia. Não havendo Conselho da Revolução, nem Eanes, nem Constituição, nem governo comunista, de quem será a culpa?

Estou em crer que os nossos empreendedores irão renascer, qual fénix, e irão mostrar por que razão o sistema que defendem é o mais salutar, justo e progressista dos sistemas.

Ricardo Salgado, Oliveira e Costa e os outros saberão encontrar o caminho de regresso. Tudo menos pôr em causa o sistema…
escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 312. SÓ QUANDO LADRA...

só quando ladra na garganta, sofreado, curto, cortado,
a um sopro do surto,
riscado nas gengivas,
intrínseco em suas músicas ou
intransitivo:
poema perfeito prometido que não nunca
[Helder, Herberto, Servidões, Assírio & Alvim, s/l, 2013, pág. 69]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 55

[Clique na imagem, para a ver maior]
NO MEU JARDIM
No meu jardim aberto ao sol da vida,
Faltavas tu, humana flor da infância
Que não tive... 
E o que revive
Agora
À volta da candura
Do teu rosto! 
O recuado Agosto
Em que nasci
Parece o recomeço
Doutro destino: 
Este, de ser menino
Ao pé de ti...
[MIGUEL TORGA, in Diário VIII (1959)]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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hoje é sábado 311. HOJE QUE EU ESTAVA CONFORME

hoje que eu estava conforme ao dia fundo,
fui-me a reler alguns dos meus poemas,
e então caí abaixo de mim mesmo,
e era só o que faltava:
sáfara, safra
- nem as mãos me serviam,
nem a dor escrita e lida me serve para nada
[Helder, Herberto, Servidões, Assírio & Alvim, s/l, 2013, pág. 64]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 54

[Clique na imagem, para a ver maior]
EQUINÓCIO DA PRIMAVERA
É o tempo de os pequenos ventos 
começarem a contornar as árvores 
num longo arrepio diurno 
A claridade ondula, desdobra-se, esfia-se 
e logo se esfiapa espalhando as sementes
num curto silvo áspero e vertiginoso 
Equinócio da Primavera 
reconhecem os amantes 
Encostados em longas 
almofadas dormentes 
Saindo da penumbra a raposa lambe o sol
com a sua língua de prata a detectar
o sabor dolente das chuvas fracas e recentes 
Reconhecendo os novos odores almiscarados e o seu
pêlo ruivo possui o tom da chama acre pontilhando
de ocre as clareiras das matas ávidas de seiva 
Equinócio da Primavera lembram-se os amantes
enquanto mergulham nas frias águas dos lagos 
que devagar se libertam dos gelos 
Ao longe renascem os ruídos que se reconhecem
a si mesmos e onde já dançam as asas fulvas e os 
raios de uma luz esgarçada, enquanto nos montes 
Por entre a folhagem incipiente e nos silvados 
surgem os bagos, as bagas e os caules timidos
assustados, das longas flores oscilantes e lívidas 
Equinócio da Primavera sabem os amantes 
Escutando os corpos inquietos e deitados 
nas grandes pedras macias ainda frias 
Quem são os animais que correm
com os lobos nas florestas
adivinhando a lua pelas frestas das árvores? 
Tal como as águias, as constelações cintilantes
ao longo das noites tépidas 
têm um imenso olhar que a si mesmo se despe 
Equinócio da Primavera
murmuram os amantes 
No momento exacto em que 
o sol cruza o equador celeste
[Maria Teresa Horta]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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PÁSCOA DE 2015

Naquele tempo levantou-se o Primeiro-ministro e, a pensar nas próximas eleições, perguntou ao Povo:

– És tu o detentor do poder democrático?

– Sim, eu sou – respondeu o Povo.

O Primeiro-ministro olhou para o seu Conselho e disse:

– Ouvistes o mesmo que eu ouvi. Não necessitamos mais provas.

E com ar de quem respeita com o máximo respeito os tribunais Supremo e Constitucional, sentenciou respeitosamente:

– O Povo é réu de norte.

E desde essa hora começaram a castigar o povo. Aumentaram-lhe os impostos, tiraram-lhe o emprego; baixaram-lhe os salários e cortaram-lhe as pensões; fecharam escolas e eliminaram centros de investigação; desenharam provas que nem o ministro passaria e avaliações em que chumbariam os avaliadores, para despedirem os professores; fecharam Centros de saúde e maternidades; eliminaram valências nos hospitais e mandaram os médicos para a reforma; os novos licenciados foram empurrados para a emigração. E tudo para que o Povo dobrasse a cerviz.

Ao aproximarem-se as eleições, era costume nessa colónia do Império Europeu que o governo soltasse um criminoso.

Reuniu-se o Conselho de Ministros para decidirem se libertavam o Povo ou a Troika.

Uma ministra gritou esganiçada imitando o sotaque alemão:

– A Troika, a Troika.

O Primeiro-ministro ainda disse com aquele seu ar de «quem raio me meteu nisto»:

– Mas já castigamos o Povo severamente.

E logo um  ministro, com voz engolada:

– O Povo andou demasiado tempo a viver acima das suas posses.

Outro ministro – que era administrador de oito companhias antes de fazer parte do Conselho – acrescentou num tom muito peidogógico:

– Se o Povo se não se tivesse armado em parvo ao participar em greves e manifestações para exigir aumento de salário e créditos para comprar casas, não tínhamos agora as empresas e os bancos a fechar.

O Primeiro-ministro, agora com ar de «eu pensava que era opção», decretou:

– Soltem a Troika e crucifiquem o Povo.

Puseram então uma coroa de espinhos na cabeça do Povo e nomearam uma comissão – de banqueiros e beneficiários de luvas – para organizarem una grande recepção à Troika.

A oposição achou que já era demais e perguntou a meia-voz, no Parlamento:

– Quem é que recebeu luvas de submarinos e bancos?

O Espírito Santo tronou das alturas:

– Eu não.

Um senhor, com a boca cheia de baba, disse entre dentes:

– Tenho mais problemas de memória que um doente de Alzheimer na quarta etapa.

Entre doces costas e salgadas barrigas, todos foram negando e negando até que à trigésima negação… o galo cantou.

Às três horas de uma sexta-feira – para não estragar o fim de semana – crucificaram o Povo.

Ao terceiro dia, depois das férias, celebraram a sua própria festa pascal. O imperadorzito da colónia condecorou os banqueiros e desmemoriados CEO’s e elogiou a Troika. O Primeiro-ministro lavou as mãos – gesto a que já estava habituado – e anunciou que seria candidato de novo.

A Festa terminou com um jogo – muito popular noutro império – que consistia em buscar ovos na barriga de um coelhinho.

À saída, os jornalistas, microfone em riste, gritavam:

– Que tal a festa?

E cada ministro, á porta do Mercedes, olhava para o céu enquanto o motorista tratava de fechar a porta, e cantarolava:

– Ale…luia, ale...lu…ia, aleeeeluuuuuuiaaaaa.

escrito por José Alberto, Porto Rico

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hoje é sábado 310. LÚBRICA

Mandaste-me dizer,
No teu bilhete ardente,
Que hás-de por mim morrer,
Morrer muito contente.

Lançaste no papel
As mais lascivas frases;
A carta era um painel
De cenas de rapazes!

Ó cálida mulher,
Teus dedos delicados
Traçaram do prazer
Os quadros depravados!

Contudo, um teu olhar
É muito mais fogoso,
Que a febre epistolar
Do teu bilhete ansioso:

Do teu rostinho oval
Os olhos tão nefandos
Traduzem menos mal
Os vícios execrandos.

Teus olhos sensuais
Libidinosa Marta,
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.

As grandes comoções
Tu, neles, sempre espelhas;
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas...

Teus olhos imorais,
Mulher, que me dissecas,
Teus olhos dizem mais,
Que muitas bibliotecas!
[Verde, Cesário, O Livro de Cesário Verde, Edições Ática, Lisboa, 1992, pág.179]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 53

[Clique na imagem, para a ver maior]
COMO LA HIEDRA
Ni alas en la niebla,
ni claridad en los ojos de mis ojos,
ni tu mirada que se sabía
entre el crepúsculo y el alba. 
Han venido las nubes,
su humedad me impregna los labios
como si fuese aquella alborada
que tienen tus besos lejanos
en días de nocturnos nupciales
mientras el cielo pinta gorriones
en el paisaje melancólico de la tarde. 
El viento que ahora acaricia mi cabello
es tu mano de seda,
es la llave de horizontes inmensos
donde los cerezos y la flor del almendro
me presagian a ti, cuando imploro alcanzar la llama. 
Poco a poco me quedo como la hiedra,
colgado y creciendo en tus paredes encaladas,
en la íntima sensación de tenerte cerca
grabada para siempre en el alma.
[Carlos  Gargallo]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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PORTUGAL COM OS COFRES CHEIOS?


Ouvi a ministra dizer que Portugal tem os cofres cheios e, assim, está preparado para aguentar qualquer catástrofe.

Fui aluno de finanças públicas. Uma regra fundamental na feitura do Orçamento Geral do Estado
(perdeu entretanto o geral…) 
é a de que  o Estado via as necessidades do país e, depois, iria procurar as receitas de que necessitaria para cobrir as despesas. E aí ensinou-me
(ou teria ouvido mal?) 
o Dr. Carlos Ferreira, ao tempo presidente da ANA e depois presidente do BCP, que Salazar teria não só aumentado os impostos, como feito uma habilidade na apresentação do OE. Ao tempo, as despesas seriam cobertas com as receitas, mais os empréstimos (o défice). Mal chegou ao poder, Salazar teria adotado uma forma nova: desdobrava as despesas em ordinárias e extraordinárias. As primeiras destinavam-se ao pagamento ordinário da máquina do Estado
(ordenados, reparações, conservações), 
as segundas, investimentos
(barragem, escola, hospital, estrada..). 
Tais despesas eram suportadas pelos impostos e outras receitas do Estado; as ordinárias, e as extraordinárias, com empréstimos. Acabou com o défice de um ano para o outro. Bem berrava Afonso Costa em Paris que Salazar estava a enganar o povo. Debalde.

Agora vem a ministra dizer que os cofres estão cheios. Ora, se estão cheios, tal deve-se a ter arrecadado impostos a mais. Isto é, ao contrário do que diz a teoria, o Estado arrecadou mais impostos do que devia. Ou então é petulância da senhora ministra. Em ambos os casos é grave.

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 309. ROTINA

A David Mourão-Ferreira

No entanto, aqui, no meio da cidade
(Grande, tão grande!) aquela rua existe,
Anónima, talvez, como a verdade
E bela como tudo quanto é triste.

As casas não são muitas. O quintal
Ostenta o luxo, apenas, de uma grade.
Na esquina, as letras dizem sobre a cal:
Rua da Paz ou Rua da Saudade.

Certo dia, em Paris, pensei na rua
Onde, afinal, mais tarde vim morar.
Foi como lembrasse a própria Lua
Ou mesmo um barco, ao longe, no alto-mar…

E é dessa solidão que necessito,
Estúpida, sem dúvida infeliz.
Silêncio imóvel, traduzindo o grito
Que me condena a amar o meu país!
[Mello, Pedro Homem de, Poesias Escolhidas, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa 1983, pág. 275]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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VÍDEO DA SEXTA 220. "as asas do vento"

O último filme de Hayao Miyazaki é um belíssimo elogio do artesanato dobrado de melodrama poético.
Fonte: [http://www.publico.pt/multimedia/video/345667serviceas-asas-do-vento-trailer-legendado-em-portugues640x350-1936221001]

escrito por Adriana Santos

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 52

[Clique na imagem, para a ver maior]
PROMESSA DE UMA NOITE
cruzo as mãos
sobre as montanhas
um rio esvai-se 
ao fogo do gesto
que inflamo 
a lua eleva-se
na tua fronte
enquanto tacteias a pedra
até ser flor 
 [Mia Couto, Raiz de orvalho e outros poemas]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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O CHEIRO DE JOÃO ARAÚJO


João Araújo, o mais mediático dos advogados de José Sócrates, sugeriu a uma jornalista do Correio da Manhã que “tomasse mais banho” porque “cheira mal”.

A jornalista, Tânia Laranjo, e o próprio jornal vão apresentar uma queixa-crime ao Ministério Público contra o advogado. Não percebo porquê
[se é só por isto... ou mesmo por afirmações como “Esta gajada mete-me nojo”].
Se um gajo tem a impressão olfativa de que alguém lhe cheira mal... poderá ser condenado por isso?

Ainda há pouco, o advogado esteve na TVI, no Jornal das 20h, onde está com alguma recorrência. Olhei aquele figura de homem todo cheio de sede, tremelicouco sem conseguir articular ideias, visivelmente inseguro das respostas taralhoucas que dava ao jornalista... e aquilo cheirou-me nojentamente a álcool. Tanto que... fedia. Mas cheirou mesmo, juro. Serei condenado por tornar público tal cheiro?

escrito por ai.valhamedeus

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LEIT(e)URAS [61] portugal -- a matemática em portugal

Comecei um hábito que durou pouco tempo: apontar os livros que ia comprando - a data, o título, o autor, o preço e o local. Durou dois anos e aborreceu-me por não conseguir apontar sempre. Mas revisitada a página (que guardei no Dropbox para poder sempre ter acesso), tive vontade de recomeçar. É que fui encontrar um livro, sobre o ensino da matemática, que deverá responder a um problema.

Eu tinha lido que o ensino em Portugal tinha ficado todo esfrangalhado com a expulsão dos jesuítas. E penso que deve ter sido naquele livro que tal referência foi encontrada, a par de vasta citação do livro sobre o ensino em Portugal de Rómulo de Carvalho. E tanto mais esse livro era importante que, citando-o, fui desautorizado pelo meu amigo Rosa Mendes que, como devem calcular os que o conheceram, não foi meigo na adjetivação… gastei os 3,15 da praxe dos livrinhos da Fundação Francisco Manuel dos Santos

(o Pingo Doce, só por esta coleção, deveria merecer a nossa condescendência…) 
e ofereci-o ao referido Prof.. Mais tarde veio dizer-me que, afinal, não conhecia o livro… Entretanto o Rosa Mendes finou-se e eu fiquei sem saber a quem recorrer para saber o título. Encontrei-o agora e recomendo-o.

O título é Matemática em Portugal – uma questão de educação, de Jorge Buescu, foi publicado pela Fundação em maio de 2012. São 95 págs. que se leem num ápice…Vale a pena, ainda que em matéria de recomendações eu fique muito a desejar. Uma vez recomendei o livro de um certo Crato sobre eduquês… sim, esse freguês.

escrito por Carlos M. E. Lopes

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hoje é sábado 308. A PROFISSÃO DOMINANTE

Meu Deus como eu sou paraliterário
à quinta-feira véspera do jornal
nadando em papel como num aquário
ejectando a minha bolha pontual

de prosa tirada do receituário
onde aprendi o cozido nacional
do boçal fingindo o lapidário
- fora algum deslize gramatical -

receio que me chamem extraordinário
quando esta é uma prática trivial
roçando mesmo o parasitário
meu Deus dá-me a tua ajuda semanal.
[Pacheco, Fernando Assis, A Musa Irregular, Hiena Editora, Lisboa, 1991, pág. 125]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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VÍDEO DA SEXTA 219. Granny


Um animação sobre quando a rua era cenário de interação social e as pessoas mantinham seu interesse voltado para o que acontecia além de seus “próprios umbigos”. 
Deliciosamente nostálgico!
Granny (ბებო) é uma animação do diretor Sandro Katamashvili.
Fonte: [http://www.contioutra.com/uma-animacao-sobre-quando-o-nosso-tempo-tinha-mais-valor-deliciosamente-nostalgico/]

escrito por Adriana Santos

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SIMBA PARA O PANTEÃO, JÁ!


Simba é um cão de Monsanto. É, não -- era: Simba foi morto a tiro, parece que por um vizinho.

Isto transformou-se num caso de indignação nacional -- e parece que mesmo internacional. As tevês fazem do caso notícia, as redes sociais estão inundadas de lágrimas... e já está online uma petição pública que pede «justiça à morte do Simba».

Os donos do animal morto e exumado querem que ele seja um símbolo nacional. E o Ai Jesus! associa-se à tragédia. Não só apoio a reivindicação da transformação do Simba em símbolo nacional -- já! -- como lanço a ideia de uma petição a favor de que o Simba vá para o Panteão -- já!
[afinal... depois de alguns animais humanos terem ido para lá, o que é que impede que qualquer animal não humano também tenha o direito de ir?].
escrito por ai.valhamedeus

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ZOOM [97] - feminismo


Do melhor "feminismo" que tenho visto (digo eu, que acho o feminismo uma treta).

escrito por ai.valhamedeus

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 51

[Clique na imagem, para a ver maior]
TENGO UNA PEQUEÑA FLOR
POEMA III
Tengo una pequeña flor 
nacida sin darme cuenta 
en medio del corazón. 
En la tierra de la sangre 
se abonó su resplandor. 
Es delicada y se muere 
sin cuidados y sin mimos. 
Requiere mucha atención 
contra el calor del verano, 
contra el frío del invierno, 
contra el cruel desengaño 
que le causa tanto daño 
con el paso de los años. 
Florece en la primavera, 
se marchita en el verano 
y en el invierno se muere,
si no la cuida mi mano. 
¡Se mantiene de ilusión! 
Con el agua del amor 
Echa flores de pasión 
y se alegra en la ventana, 
cuando la acaricia el sol. 
¡Es todo lo que yo tengo! 
No sé cómo sucedió. 
Me creció, sin darme cuenta, 
En medio del corazón.
[Carlos Etxeba]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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SOU MAIS FELIZ DO QUE O PASSOS COELHO

O troiko Passos Coelho é um coitadito: pode pagar ou não o que deve, que nem a Segurança Social lhe liga peva. Mas a mim, não: basta eu atrasar-me uns diitas no pagamento -- e logo aproveitam o pretexto

(puro pretexto, nada mais, para a vontade de me escreverem) 
para me enviarem uma cartinha com a lembrança da dívida acrescida de uns acrescentos.



Até o SMAS de Viseu
(agora, com o novo nome de Águas de Viseu),
para fazer jus ao slogan publicitário de que, em Viseu, é tão fácil pagar a água como bebê-la. E é, como se prova a seguir.

Recebi uma carta daqueles serviços, informando-me do não pagamento da última fatura da água. Há anos que pago a água por débito bancário direto; a razão do não pagamento deve ter sido causado pela troca de banco. Confusão de não sei quem -- mas isso, aqui, não interessa. O interessante é que
  • a carta tem data de 25/fevereiro último;
  • recebi-a, hoje, 10 de março;
  • nela sou avisado de que tenho que liquidar a minha dívida até às 17 horas do dia de hoje;
  • ao valor da fatura acrescem juros de mora e o valor da tarifa de restabelecimento.
Confesso, publicamente: sou um felizardo. 
  • Por felicidade, recebi a carta às 11.30h da manhã (fosse eu infeliz, e recebê-la-ia no dia seguinte).
  • Por felicidade, foi-me possível ir à tesouraria liquidar o que me disseram que havia para liquidar.
  • Por felicidade (deles), paguei o restabelecimento de uma ligação que não foi cortada, no valor de mais de 5€.
  • Por felicidade (deles), paguei juros de mora de quase 10% ao mês.
  • Por felicidade, foi tão fácil pagar como beber a água: até aceitaram o pagamento por multibanco.
Digam-me lá, agora: sou ou não mais feliz do que o troiko do Passos?

Nota final: e porquê tanta felicidade? Porque os smas de Viseu têm uns serviços usufruidentos. Cito, daqui:
Temos serviços que poderá usufruir on-line em vez deslocar-se ao nosso balcão.
escrito por ai.valhamedeus

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E ESTA, HEIN!... 23


Boas notícias em ano eleitoral: tal como aconteceu com o primeiro-ministro e o dinheiro que ele devia à Segurança Social, todos os contribuintes deixam de pagar impostos, contribuições, multas, coimas ou taxas até receberem um telefonema de um jornalista do PÚBLICO a perguntar pelo tutu em falta.

Passos Coelho volta a fazer jurisprudência, depois da Tecnoforma, e está na origem de mais uma medida que beneficia todos os portugueses, incluindo os amnésicos, os caloteiros, os ignorantes e os sonsos.

escrito por Gabriela Correia, Faro

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CARTÃO DE CIDADÃO -- DIA DA MULHER

Na vida perde-se muito, e ganha-se outro tanto, talvez.

Perde-se a paciência, as mais das vezes; perdem-se amigos, entes queridos, e menos queridos. Perde-se tempo. E como!

Perde-se, enfim, o cabelo, os dentes, a elasticidade dos membros, ou mesmo algum deles. Perde-se, hélas, a juventude.

Mas perder um dos nomes por culpa da informatização e da aposentadoria, isso é que não!

Pois foi o que me aconteceu, quando me dirigi à Loja do Cidadão, para renovar o meu BI e adquirir, finalmente, o tão esperado CC. Ser do sexo feminino e ter um Cartão de Cidadão, tratado e adquirido na Loja do Cidadão, já de si é deprimente; mas ter de esperar umas duas horas pelo resultado do telefonema para a Conservatória do Registo. onde abri, pela vez primeira, os olhos para a vida, a fim de verificarem o erro na informatização dos dados, que levou ao extravio. ou pura eliminação do meu último apelido, e reporem, literalmente, a legalidade, já ultrapassava o razoável.

Por último, last but not least, enfrentar aquele olho da máquina, que nos trespassa a alma e nos tira o retrato, sem qualquer acerto estético, fazendo-nos ter saudades das poses estudadas que os antigos fotógrafos nos aconselhavam “para ficarmos bem na fotografia”, é humilhante, que vos digo eu.

E lá vem depois o resultado arrelampado da operação, apesar da paciência infinita da funcionária, que me fez três “takes”, e ainda sugeriu que suspendêssemos a operação e a transferíssemos para o dia seguinte, ante o meu olhar horrorizado e os meus protestos: não me reconheço, pareço uma velha! Quem puser os olhos nos passaportes ou no CC portugueses vai achar que somos todos feios em Portugal, concluí. Amavelmente, informou-me não ser eu a única pessoa a protestar e a recusar-se a aceitar tal despautério. Das máquinas, claro!

Mudámos de máquina, à procura de outra mais benevolente para com a candidata a Cláudia Schiffer. Qual quê? Tudo igual.

Derrotada, desisti e acabei por escolher a que me pareceu menos má.

Compreendi, então, o porquê de uma longa fila de gente à espera, entupindo os serviços. Nessa tarde até um guarda-chuva foi utilizado para a fotografia sair, visto a luz excessiva da janela próxima estar a interferir em operação tão delicada, disse-me a minha interlocutora. Estava, assim, explicada a presença de tão inusitado objecto, o qual eu atribuíra à época carnavalesca que se aproximava.

E um pensamento rápido atravessou-me o espírito: a quem terão encomendado os nossos governantes tais máquinas? Só por tal encomenda já mereceriam estar na prisão...

Agora, dizem-me, tenho de guardar durante 5 anos, os códigos do cartão, testemunhas silenciosas dum parto tão atribulado.

-- É a modernidade! Em nome da segurança!

Pois, pensemos nos acontecimentos dos últimos meses, e descansemos: Espero que não em paz, como as suas vítimas.

escrito por Gabriela Correia, Faro

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hoje é sábado 307. GENÉRICO

E tu, meu pai? Adivinho esses vidrilhos
das lágrimas quebrando
um a um na boca triste mas
por dentro, para que digamos
mais tarde, sem invenção escusada:
o pai não chorou.

Eu soube das tuas fúrias
mordendo-se em silêncio,
ou de como te pões
às vezes tão de cinza.
O barco, o barco. Ficaremos
ainda estes minutos quantos.
Do que quiseres. E como quiseres.
Fala. Mas nada de telegramas
para depois da barra
- posso não os abrir,
juro que posso.
Se eu fosse um amigo, se estivesses
em frente dum copo.
Custava menos. Assim
deslizas a unha
pelo tecido da farda, inútil
dedo terno com os olhos longe.
O pai, que não chorou, tremia
de modo imperceptível.

Lembro-me da bebedeira
em Alpedrinha, na estalagem,
com o Luís Melo
subitamente velho.
«Tramados, pá, tramados.»
O carro falha, são as velas
os platinados sujos
«a puta que os pariu» (Luís).

Um último aceno só vinho
para estas adolescentes
ao balcão do bar e depois e depois?

Mas o pai não chora.
Segura-me pelo braço, não chora.
Eis o filho
dos anos meus incorruptíveis.
Nasceria de uma pedra.
Longe do mundo é que ele nasceu.
E não mo tireis nunca
ó cegos capitães!

Meia hora antes o pai
filmou o Tejo, as tropas.
Era um barco, um barco onde ele ia.
Era um barco cheio.
[Pacheco, Fernando Assis, A Musa Irregular, Hiena Editora, Lisboa, 1991, pág. 75]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 50

[Clique na imagem, para a ver maior]
OUTONAL
Caem as folhas mortas sobre o lago;
Na penumbra outonal, não sei quem tece
As rendas do silêncio… Olha, anoitece!
- Brumas longínquas do País do Vago…

Veludos a ondear… Mistério mago…
Encantamento… A hora que não esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a bênção dum afago…

Outono dos crepúsculos doirados,
De púrpuras, damascos e brocados!
- Vestes a terra inteira de esplendor!

Outono das tardinhas silenciosas,
Das magníficas noites voluptuosas
Em que eu soluço a delirar de amor…
[Florbela Espanca, «Charneca em Flor», in Poesia Completa]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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DOENÇAS PREOCUPANTES PARA QUEM LIDA COM DINHEIROS

Gestores e políticos, não sei se a ordem é esta, sofrem de amnésia selectiva.

Alguns, mesmo jovens, quando lidam com dinheiros, fundamentalmente públicos, manifestam tal índice de esquecimento que chega a ser confrangedor seguir os seus depoimentos sobre a matéria. A cura, ou o seu progressivo tratamento, impõe um natural afastamento de bens públicos, ou privados não regulados. Contudo, a medicação, por ser dispendiosa, disse o primeiro ministro, que sofre de uma galopante variável da doença: vamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance, mas não custe o que custar!

As perspectivas, com os cortes generalizados na saúde e na educação, áreas preventivas da doença, já colocaram o dr. Macedo

(que conferenciou, previamente, com o seu colega das finanças da Grécia) 
a negociar, com dureza, com os laboratórios detentores da patente.



A expressão do dr. Coelho, na foto, mostra já um claro indício da manifestação da doença, que afecta também a capacidade de raciocínio do ministro da Segurança Social. Foram já observados, após o almoço, indícios preocupantes no ministro da economia; os casos que levantam mais preocupação, por esta ordem, ou pela inversa, por serem crónicos, são os de Crato e de Portas. Maria Albuquerque sofre de grave afectação, mas o seu amigo Schauble tem-lhe segredado caminhos alternativos para disfarçar a maleita.

A conclusão parece óbvia: este governo funciona (tão) mal, que o prazo de validade já nem sequer é legível no rótulo!

escrito por Jerónimo Costa

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DE COMO DEUS NÃO DORME E...

Charlie Hebdo
De como Deus não dorme e… persegue o(s) Hollande(s)
… (Estamos) de volta


Ainda antes da edição que marca o regresso do Charlie Hebdo a uma normalidade – impossível – e após uma espécie de hors-série, elaborado pelos sobreviventes, Slavoj Žižek, num pequeno, mas industrioso, ensaio de oitenta páginas haveria de molhar a pena na ironia indagante para nos perguntar, logo na capa, se ‘O Islão é Charlie?’, acrescentando-lhe um pequeno apontamento (sério) em que promete fazer ‘Considerações Blasfemas sobre o Islão e a Modernidade.’

Slavoj assume, desde logo, uma declaração de interesses:
‘Embora eu seja um ateu convicto, julgo que esta obscenidade foi demais, mesmo para Deus, que se sentiu obrigado a intervir com outra obscenidade digna do espírito de Charlie Hebdo: no momento em que o presidente François Hollande abraçava Patrick Pelloux, médico e colunista do Charlie Hebdo, em frente das instalações do jornal, um pássaro defecou no ombro direito de Hollande, obrigando a equipa do jornal a tentar controlar o riso – uma resposta verdadeiramente divina do Real àquele ritual repugnante.’
escrito por Jerónimo Costa

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hoje é sábado 306. NÃO SÓ QUEM NOS ODEIA OU NOS INVEJA

Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido
De afectos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos deuses.
[Reis, Ricardo, Odes, Edições Ática, 1987, pág.126]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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VÍDEO DA SEXTA 218. "La Luna"


As curtas-metragens que antecedem os filmes da Pixar são usualmente maravilhosas. 'La Luna', que antecedeu a projecção de 'Brave', mantém a mesma qualidade e beleza das anteriores.

Fonte: [http://tvprime.pt]

escrito Adriana Santos

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SANTANA BRINCA ÀS PRESIDENCIAIS


A notícia... bem... a "notícia" é de 27 de fevereiro. Mas de 2004. Mas do Inimigo Público. Portanto e de acordo com a "divisa" daquele suplemento, se não aconteceu, podia ter acontecido. Ou será que tem estado acontecer, 11 anos depois?

escrito por ai.valhamedeus

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 49

[Clique na imagem, para a ver maior]
NOCTURNO
Por una vez existe el cielo innecesario.
Nadie averigua acerca de mi corazón
Ni de mi salud milagrosa y cordial,
Porque es de noche, manantial de la noche,
Viento de la noche, viento olvido,
Porque es de noche entre silencio y uñas
Y quedo desalmado como un reloj lento. 
Húmeda oscuridad desgarradora,
Oscuridad sin adivinaciones,
Con solamente un grito que se quiebra a lo lejos,
Y a lo lejos se cansa y me abandona. 
Ella sabe qué palabras podrían decirse
Cuando se extinguen todos los presagios
Y el insomnio trae iras melancólicas
Acerca del porvenir y otras angustias. 
Pero no dice nada, no las suelta.
Entonces miro en lo oscuro llorando,
Y me envuelvo otra vez en mi noche
Como en una cortina pegajosa
Que nadie nunca nadie nunca corre. 
Por el aire invisible baja una luna dulce,
Hasta el sueño por el aire invisible.
Estoy solo como con mi infancia de alertas,
Con mis corrientes espejismos de Dios
Y calles que me empujan inexplicablemente
Hacia un remoto mar de miedos. 
Estoy solo como una estatua destruida,
Como un muelle sin olas, como una simple cosa
Que no tuviera el hábito de la respiración
Ni el deber del descanso ni otras muertes en cierne,
Solo en la anegada cuenca del desamparo
Junto a ausencias que nunca retroceden.
Naturalmente, ella
Conoce qué palabras podrían decirse,
Pero no dice nada,
Pero no dice nada irremediable.
[Mario Benedetti]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ZOOM [97] - o país está melhor



escrito por Gabriela Correia, Faro

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PASSOS COELHO TEM (SEMPRE) RAZÃO

No mês passado, a seguir à vitória do Syriza, Passos Coelho considerou, em declarações públicas, que as ideias do partido que lidera o novo governo grego são contos de criança.


No seu estilo de pessoa bem educada, o ministro das finanças grego concordou com Passos: "os contos de crianças trazem sempre esperança".

Hoje, o presidente do Eurogrupo garantiu que o governo grego assumiu um compromisso sério. Mais uma personalidade dos holofotes internacionais a dar razão ao senhor dos Passos: afinal... os contos de criança não são coisa séria?

escrito por ai.valhamedeus

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