Um
texto, argumentativamente medíocre, de Helena Matos (HM), no
Observador, gerou um grande número de comentários. Grande, talvez porque o tema é o tema quente do momento (o referendo na Grécia, claro); e/ou porque, não tendo qualquer interesse argumentativo, está no entanto escrito em estilo emotivo (para não usar adjetivo mais "forte").
Os comentários, apesar de muitos, são também esmagadoramente sem interesse, tanto de um lado como do outro da barricada, porque adotam o estilo helenístico-matosista. Mas há exceções. E boas.
A primeira exceção mostra o ponto fraco do texto (numa perspetiva argumentativa): dito por palavras minhas, faz lembrar aquelas anedotas onde Samora Machel é/era o protagonista principal, sendo que poderia ser substituído por um qualquer de outras milhentas personagens. HM, concretamente, escreve isto sobre os atuais governantes gregos:
A coisa começou mais ou menos assim: eles têm tanta graça. Porque não usam gravata. Porque usam rabo de cavalo. Porque rapam o cabelo. Porque andam de bicicleta. Porque andam de mota. Porque andam de metro. Porque andam. Porque são aplaudidos nas marchas do negócio do politicamente correcto. Porque passam dos restaurantes mais in para os colectivos de okupas. Porque para lá dos seus círculos só vêem roubalheira, negociatas, interesses.
O comentador João Antunes contrapõe um texto com a mesma "estrutura", mas aplicado a outras personagens (quem são, quem são?):
E é mais ou menos assim: eles não têm nenhuma graça. Aquele ar formal e sério de quem não gosta de ser posto em causa. Sempre vestidos de fardas sociais, sem cores vivas, tudo muito cinzento e pálido. Cabelos todos cortadinhos a régua e esquadro, com penteados perfeitos e riscos sem curvas. Andam de carros pretos ou cinzas, de gama alta e estofados a couro. Isso de andar de transportes públicos é para os pobres que cheiram mal. Raramente são aplaudidos, pois os seus discursos não têm sal, são monocórdicos, monótonos, repetindo as fórmulas aprendidas nas universidades de renome, sustentando a sua credibilidade nos seus múltiplos diplomas e mestrados que fizeram… tudo com muito mofo e pouca vitalidade. Nada de ideias novas, que isso requer inteligência e sabedoria. Vão sempre aos mesmos restaurantes e sentam-se sempre nas mesmas mesas. O empregado já os serve de olhos vendados e quando chegam o prato já está na mesa porque pedem sempre o mesmo. Nada de novo. Porque para lá dos seus círculos só vêem…nada, pois claro.
No meio dos comentários, um comentador pergunta, ironicamente, a um outro se é contra mais empréstimos aos gregos. A resposta do segundo, Pedro Pinheiro Augusto, mostra a "complexidade" dos "empréstimos" europeus:
Sou contra muita coisa.Em primeiro lugar, sou contra um sistema que permite ser transferida dívida de risco de privados para o público. No momento que a troika interveio na Grécia você, tal como eu, foi chamado a assumir dívida grega que era de bancos alemães e franceses. Foi peculato. Entendo que quem emprestou mal deve arcar com as consequências, seja um banco seja um estado, uma vez que se cobra juros que, supostamente, reflectem os riscos do empréstimo.Em segundo segundo lugar, sou contra a escravidão sob qualquer forma. Entendo que a actuação da troika visou escravizar o devedor, de maneira a obrigá-lo a agir contra os seus interesses, usando a dívida coercivamente.Em terceito lugar, sou contra o vazio ideológico da política em geral e das povoações em particular. O vazio ideológico leva à ditadura do poder vigente. Isso é fascismo.Ou seja, não sou contra mais empréstimos, desde que sejam responsáveis e desde que se insiram num plano de reformas estruturais e de crescimento económico que a Grécia precisa desperadamente (tal como Portugal) cuja responsabilidade não pode ser de mais ninguém senão do governo grego, devendo os credores submeter a exequibilidade do plano a avaliação por um painel isento e depois acompanhar a sua execução. A dívida deve ser renegociada de maneira a ser sustentável e apuradas responsabilidades de todas as partes sobre o seu montante total e respectivas partes, principalmente sobre as perdas registadas. Mais poderia dizer, mas para bom entendedor boa palavra basta. É assim que se trabalha.
escrito por
ai.valhamedeus
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