TRUMP(A)

hoje é sábado 327. LIVREIRO DA ESPERANÇA

Há homens que são capazes 
de uma flor onde 
as flores não nascem. 
Outros abrem velhas portas 
em velhas casas fechadas há muito. 
Outros ainda despedaçam muros 
acendem nas praças uma rosa de fogo. 
Tu vendes livros quer dizer 
entregas a cada homem 
teu coração dentro de cada livro. 
[Alegre, Manuel, Praça da Canção, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1979 (edição de Bolso), pág. 57]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 76

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MAR
I
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.

[Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 75

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Únicamente el río conoce tu secreto,
ese secreto tuyo que es el secreto mío.
El río es un hombre de corazón inquieto
pero el amor se aleja como el agua del río.

Únicamente el río nos vio por la vereda,
y el rumor de sus aguas era como un reproche.
Tu piel era más blanca bajo la magra seda,
como el deslumbramiento de la nieve en la noche.

No importa que huya el agua como un amor de un día;
mi amor, igual que el río, se quedará aunque huya.
Únicamente el río supo que fuiste mía,
para que mí alma fuera profundamente tuya.

El río es como un viaje para el sueño del hombre,
el hombre, es como el río, un gran dolor en viaje.
Únicamente el río te oyó decir mí nombre
cuando las hojas secas decoraron tu traje.

Sí. El río es como un hombre de corazón inquieto
que va encendiendo hogueras y se muere de frío.
Únicamente el río conoce tu secreto.
Únicamente el río.
[José Ángel Buesa]
Esta é a quarta de uma série de ilustrações em torno do tema água. A terceira está aqui.
foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 74

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LEVE, BREVE, SUAVE
Leve, breve, suave
Um canto de ave
Sobe no ar com que principia
O dia.
Escuto e passou...
Parece que foi só porque escutei
Que parou.
Nunca, nunca, em nada,
Raie a madrugada,
Ou ‘splenda o dia, ou doire no declive,
Tive
Prazer a durar
Mais do que o nada, a perda, antes de eu o ir
Gozar.
[Fernando Pessoa Ortónimo, in Cancioneiro]
Esta é a terceira de uma série de ilustrações em torno do tema água. A segunda está aqui; a quarta, aqui.
foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 73

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IV
Desde a orla do mar
Onde tudo começou intacto no primeiro dia de mim
Desde a orla do mar
Onde vi na areia as pegadas triangulares das gaivotas
Enquanto o céu cego de luz bebia o ângulo do seu voo
Onde amei com êxtase a cor o peso e a forma necessária das conchas
Onde vi desabar ininterruptamente a arquitetura das ondas
E nadei de olhos abertos na transparência das águas
Para reconhecer a anémona a rocha o búzio a medusa
Para fundar no sal e na pedra o eixo reto
Da construção possível 
Desde a sombra do bosque
Onde se ergueu o espanto e o não-nome da primeira noite
E onde aceitei em meu ser o eco e a dança da consciência múltipla 
Desde a sombra do bosque desde a orla do mar 
Caminhei para Delphos
Porque acreditei que o mundo era sagrado
E tinha um centro
Que duas águias definem no bronze de um voo imóvel e pesado 
Porém quando cheguei o palácio jazia disperso e destruído
As águias tinham-se ocultado no lugar da sombra mais antiga
A língua torceu-se na boca da Sibila
A água que primeiro eu escutei já não se ouvia
Só Antinoos mostrou seu corpo assombrado
Seu noturno meio-dia.
[Sophia de Mello Breyner Andresen, in Dual]
Esta é a segunda de uma série de ilustrações em torno do tema água. A primeira está aqui; a terceira, aqui.
foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 72

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VIAGEM
Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé do marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar…
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura…
Mas corto as ondas sem desanimar,
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.
[Miguel Torga]
Esta é a primeira de uma série de ilustrações em torno do tema água. A segunda está aqui.
foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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VÍDEO DA SEXTA 228. "Ossudo"


A história de "Ossudo" é inspirado no conto "Ossos", de Mia Couto. O enredo desenrola-se numa cidade algures em África e apresenta-nos a peculiar história de Marlisa e Ossudo, duas figuras desamparadas e alvo de troça do resto da sociedade. Marlisa é uma jovem ingénua, apelidada de atrasadinha, Ossudo é um indivíduo cujos ossos transformaram-se em carne e a sua carne transforma-se em ossos. Estes dois apaixonam-se no meio de um cenário improvável e procuram no amor um antídoto à miséria humana.
OSSUDO [2007]
Direcção: Júlio Alves
Produção: Júlio Alves
Argumento: Júlio Alves – Wilson Siqueira

Fonte: [http://bogiecinema.blogspot.pt]

escrito por Adriana Santos

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E ESTA, HEIN!... 27

A crise e o medo constituem o horizonte inultrapassável da governação capitalista neoliberal. Não sairemos da crise (…) simplesmente porque a crise é o modelo de governo do capitalismo contemporâneo. 
[Maurizio Lazzarato, in Gouverner par la dette]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 71

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NÓS SOMOS
Como uma pequena lâmpada subsiste 
e marcha no vento, nestes dias, 
na vereda das noites, sob as pálpebras do tempo. 

Caminhamos, um país sussurra, 
dificilmente nas calçadas, nos quartos, 
um país puro existe, homens escuros, 
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro, 
uma terra existe nesta terra, 
nós somos, existimos 

Como uma pequena gota às vezes no vazio, 
como alguém só no mar, caminhando esquecidos, 
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados, 
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento, 
uma pálida lâmpada ao fundo do corredor, 
uma frescura de nada, nos cabelos nos olhos, 
uma voz num portal e a manhã é de sol, 
nós somos, existimos. 

Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho, 
uma carta que segue, um bom dia que chega, 
hoje, amanhã, ainda, a vida continua, 
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia, 
nas mãos que se dão, nos punhos torturados, 
nas frontes que persistem, 
nós somos, 
existimos. 
[António Ramos Rosa, in Sobre o rosto da terra, 1961]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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hoje é sábado 326. EIS QUE

Eis que o mundo de ti cai abolido
E tu ficas sozinho e muito longe
Com dois búzios do mar sobre os ouvidos
Ouvindo, só para ti, uma canção
Assim as flores de dentro para fora
Se queimam sob o halo dos perfumes
E voltam para nós os olhos cegos
Estrangeiras a tudo no sabor
Duma substância angélica e terrível.
[Andresen, Sophia de Mello Breyner, Obra Poética I, Caminho, s/l(Lisboa), (2ª edição),, 1991, pág. 177]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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VÍDEO DA SEXTA 227. "Mais Valia"


O protagonista do filme é um macaco, que tal como vários seres humanos vê-se na encruzilhada de estar há vários anos a exercer uma profissão com a qual não se identifica. Este procura refúgio na música, e na janela do escritório que o transporta para os seus sonhos, enquanto se questiona se valerá a pena ficar preso a uma vida desmotivante.
Direção: Marco Túlio Ramos Vieira
Técnica: Animação 2D
Ano: 2011

Fonte: [http://bogiecinema.blogspot.pt]

escrito por Adriana Santos

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 70

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VEM, NOITE ANTIQUÍSSIMA E IDÊNTICA
Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio. Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.


Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas.
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo.
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora.
Na distância subitamente impossível de percorrer.
(…)

Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma.
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.

(…)

Vem, Noite silenciosa e extática,
Vem envolver na noite manto branco
O meu coração...
Serenamente como uma brisa na tarde leve,
Tranquilamente com um gesto materno afagando.
Com as estrelas luzindo nas tuas mãos
E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.
Todos os sons soam de outra maneira
Quando tu vens.
Quando tu entras baixam todas as vozes,
Ninguém te vê entrar.
Ninguém sabe quando entraste,
Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
Que tudo perde as arestas e as cores,
E que no alto céu ainda claramente azul
Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem,

A lua começa a ser real.
[Álvaro de Campos, 30-6-1914]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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hoje é sábado 325. VIVER SEMPRE TAMBÉM CANSA

Viver sempre também cansa! 
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada. 
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes. 
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua. 
Tudo é igual, mecânico e exacto. 
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação. 
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida... 
E obrigam-me a viver até à Morte! 
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo? 
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte. 
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela." 
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...
[Ferreira, José Gomes, Poeta Militante, 1 volume, Moraes Editores, Lisboa, 1977, pág. 15]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 69

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Vamos ressuscitados, colher flores! 
Flores de giesta e tojo, oiro sem preço... 
Vamos àquele cabeço 
Engrinaldar a esperança! 
Temos a Primavera na lembrança; 
Temos calor no corpo entorpecido; 
Vamos! Depressa! 
A vida recomeça! 
A seiva acorda, nada está perdido!
[Miguel Torga, S. Martinho de Anta, 2 abril 1961]

foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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hoje é sábado 324. OS PAPELOTES

Nunca choraremos bastante
termos querido ser belas
à viva força
eu quis ser bela
e julguei que para ser bela
bastava usar canudos
pedi para me fazerem canudos
com um ferro de frisar e papelotes
puxaram-me muito pelos cabelos
eu gritei
disseram-me para ser bela
é preciso sofrer
depois o cabelo queimou-se
não voltou a crescer
tive de passar a andar com uma peruca
para ser bela é preciso sofrer
mas sofrer não nos faz forçosamente belas
um sofrimento não implica como consequência
uma recompensa
uma dor de dentes pode comover a nossa mãe
que para nos consolar sem saber de quê
nos dá um rebuçado
mas o rebuçado ainda nos faz doer mais os dentes
a consequência de um sofrimento
pode ser outro sofrimento
a causa é posterior ao efeito
o motivo do sofrimento é uma das consequências
do sofrimento
os papelotes são uma consequência da peruca
[Lopes, Adília, Caras Baratas (antologia), Relógio D´Água, Lisboa, 2004, pág.71]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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NOVAS DO BURGO E DO REINO

2. Quem mais/menos trabalha no reino?
Os que menos,... hão de ser os portugueses?! ou os gregos?! Ou nem uns nem outros?!  A Forbes é que sabe.

3. É a piadinha do príncipe-mor do reino.
  • Aprecio especialmente o humor deste príncipe da cadeira de rodas.
  • Proponho até que comecemos a fazer piadas seguindo-lhe o estilo. Eu já lhe enviei uma: "corre lá, aleijadinho! vê lá se me caças!"
4. O Inimigo Público revela: Passos confessa que se sentiu ‘à beira do abismo’.
  • O que mais me dana é que, de entre os 10 milhões de portugueses (incluindo os que seguiram o seu conselho de emigrar), nenhum foi capaz de dar uma ajudinha. um empurrãozinho.
escrito por ai.valhamedeus

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VÍDEO DA SEXTA 226. "Vincent"


"Vincent"e uma curta-metragem elaborada em stop-motion, escrita e realizada pelo prestigiado Tim Burton ("Frankenweenie"). A curta foi lançada originalmente em 1982.
escrito por Adriana Santos

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ILUSTRAÇÕES... DE UM OUTRO SENTIR * 68

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ODE MARÍTIMA
(…)
Parte-se em mim qualquer coisa. O vermelho anoiteceu. 
Senti demais para poder continuar a sentir. 
Esgotou-se-me a alma, ficou só um eco dentro de mim. 
Decresce sensivelmente a velocidade do volante. 
Tiram-me um pouco as mãos dos olhos os meus sonhos. 
Dentro de mim há um só vácuo, um deserto, um mar noturno. 
E logo que sinto que há um mar noturno dentro de mim, 
Sabe dos longes dele, nasce do seu silêncio, 
Outra vez, outra vez o vasto grito antiquíssimo. 
De repente, como um relâmpago de som, que não faz barulho mas ternura, 

Subitamente abrangendo todo o horizonte marítimo 
Húmido e sombrio marulho humano noturno, 
Voz de sereia longínqua chorando, chamando, 
Vem do fundo do Longe, do fundo do Mar, da alma dos Abismos, 
E à tona dele, como algas, boiam meus sonhos desfeitos...  
(…)
[Álvaro de Campos, Ode Marítima (excerto)]
[esta é a quinta de cinco ilustrações (de excertos) de Ode Marítima. A quarta está aqui].
foto, de ai.valhamedeus; escolha do poema, de Ana Paula Menezes.

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VITORINO SOMA E SEGUE

Notícia, aqui (para que se não pense que é invenção minha)

escrito por ai.valhamedeus

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na rede [36] A ARGUMENTAÇÃO É GREGA


Um texto, argumentativamente medíocre, de Helena Matos (HM), no Observador, gerou um grande número de comentários. Grande, talvez porque o tema é o tema quente do momento (o referendo na Grécia, claro); e/ou porque, não tendo qualquer interesse argumentativo, está no entanto escrito em estilo emotivo (para não usar adjetivo mais "forte").

Os comentários, apesar de muitos, são também esmagadoramente sem interesse, tanto de um lado como do outro da barricada, porque adotam o estilo helenístico-matosista. Mas há exceções. E boas.

A primeira exceção mostra o ponto fraco do texto (numa perspetiva argumentativa): dito por palavras minhas, faz lembrar aquelas anedotas onde Samora Machel é/era o protagonista principal, sendo que poderia ser substituído por um qualquer de outras milhentas personagens. HM, concretamente, escreve isto sobre os atuais governantes gregos:
A coisa começou mais ou menos assim: eles têm tanta graça. Porque não usam gravata. Porque usam rabo de cavalo. Porque rapam o cabelo. Porque andam de bicicleta. Porque andam de mota. Porque andam de metro. Porque andam. Porque são aplaudidos nas marchas do negócio do politicamente correcto. Porque passam dos restaurantes mais in para os colectivos de okupas. Porque para lá dos seus círculos só vêem roubalheira, negociatas, interesses.

O comentador João Antunes contrapõe um texto com a mesma "estrutura", mas aplicado a outras personagens (quem são, quem são?):
E é mais ou menos assim: eles não têm nenhuma graça. Aquele ar formal e sério de quem não gosta de ser posto em causa. Sempre vestidos de fardas sociais, sem cores vivas, tudo muito cinzento e pálido. Cabelos todos cortadinhos a régua e esquadro, com penteados perfeitos e riscos sem curvas. Andam de carros pretos ou cinzas, de gama alta e estofados a couro. Isso de andar de transportes públicos é para os pobres que cheiram mal. Raramente são aplaudidos, pois os seus discursos não têm sal, são monocórdicos, monótonos, repetindo as fórmulas aprendidas nas universidades de renome, sustentando a sua credibilidade nos seus múltiplos diplomas e mestrados que fizeram… tudo com muito mofo e pouca vitalidade. Nada de ideias novas, que isso requer inteligência e sabedoria. Vão sempre aos mesmos restaurantes e sentam-se sempre nas mesmas mesas. O empregado já os serve de olhos vendados e quando chegam o prato já está na mesa porque pedem sempre o mesmo. Nada de novo. Porque para lá dos seus círculos só vêem…nada, pois claro.
No meio dos comentários, um comentador pergunta, ironicamente, a um outro se é contra mais empréstimos aos gregos. A resposta do segundo, Pedro Pinheiro Augusto, mostra a "complexidade" dos "empréstimos" europeus:

Sou contra muita coisa.Em primeiro lugar, sou contra um sistema que permite ser transferida dívida de risco de privados para o público. No momento que a troika interveio na Grécia você, tal como eu, foi chamado a assumir dívida grega que era de bancos alemães e franceses. Foi peculato. Entendo que quem emprestou mal deve arcar com as consequências, seja um banco seja um estado, uma vez que se cobra juros que, supostamente, reflectem os riscos do empréstimo.Em segundo segundo lugar, sou contra a escravidão sob qualquer forma. Entendo que a actuação da troika visou escravizar o devedor, de maneira a obrigá-lo a agir contra os seus interesses, usando a dívida coercivamente.Em terceito lugar, sou contra o vazio ideológico da política em geral e das povoações em particular. O vazio ideológico leva à ditadura do poder vigente. Isso é fascismo.Ou seja, não sou contra mais empréstimos, desde que sejam responsáveis e desde que se insiram num plano de reformas estruturais e de crescimento económico que a Grécia precisa desperadamente (tal como Portugal) cuja responsabilidade não pode ser de mais ninguém senão do governo grego, devendo os credores submeter a exequibilidade do plano a avaliação por um painel isento e depois acompanhar a sua execução. A dívida deve ser renegociada de maneira a ser sustentável e apuradas responsabilidades de todas as partes sobre o seu montante total e respectivas partes, principalmente sobre as perdas registadas. Mais poderia dizer, mas para bom entendedor boa palavra basta. É assim que se trabalha.
escrito por ai.valhamedeus

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