Roger Scruton, filósofo britânico conservador, mesmo ele reconhece ser
“invulgar ser um intelectual conservador”.Daí o seu interesse. Vivo, inteligente, perspicaz. Este livro faz pensar.
escrito por Carlos M. E. Lopes LEIA O RESTANTE >>
“invulgar ser um intelectual conservador”.Daí o seu interesse. Vivo, inteligente, perspicaz. Este livro faz pensar.
Olhando para o resto provável do caminho que nos resta, somos sobressaltados com o pouco que temos por percorrer e o muito que ficou por fazer.
Acho pesporrência dizer-se que, se voltasse atrás, faria tudo na mesma. Acho que não é verdade. Se voltássemos, faríamos tudo diferente. Mas depois estávamos agora a dizer provavelmente o mesmo: tanta coisa por fazer e tão pouco tempo… Gostava de saber por que o sonho é sempre maior que a realidade… seria bom, chegar ao fim e poder dizer: missão cumprida! Mas não, chegamos ao fim e queremos sempre um pouco mais. A sabedoria será sabermos que chegamos ao fim e nada mais há a fazer? Ou não há sabedoria nenhuma e as coisas são assim, simplesmente?
escrito por Carlos M. E. Lopes
No Cabaré Verde
Cinco da tarde
Nos últimos oito dias, desfizera os sapatos
Nas pedras do caminho. Entrava em Charleroi.
- No Cabaré Verde: mandei vir umas torradas
Com manteiga e presunto, não muito quente.
Radiante, estiquei as pernas por baixo da mesa
Verde: contemplei os motivos demasiado ingénuos
Da tapeçaria – E foi um encanto quando
A criada, de enormes mamas e olho vivo,
- Àquela não é um beijo que a assusta! –
Risonha, me trouxe as torradas com manteiga
E presunto morno numa travessa colorida,
Um presunto rosa perfumado com um dente
D´alho – e me encheu a caneca imensa com uma espuma
Que um raio de sol extemporâneo dourava.
Há mais de cinquenta anos, fui a França. O meu avô materno tinha para lá ido em 1926. Ao nos cruzarmos com uma roulotte, o meu avô disse: "sabes quem é?". Face à minha ignorância, acrescentou: "ciganos".
Portugal perto do podium. Estamos quase na medalha de bronze. Força Portugal!
EL PAÍS - La electricidad en los hogares españoles es la quinta más cara de Europa
Se a Venezuela fosse uma democracia, os EUA vender-lhe-iam 8 mil milhões em armamento e a coisa funcionava. Mas como a Venezuela é dirigida por um maluco, que se recusa a oferecer o petróleo à Mobil e Exxon, não pode ser tolerada, como a Arábia Saudita, uma democracia moderna e pujante.
A mendicidade e o roubo ajudam a garantir uma distribuição mais igual dos recursos
[Walter Scheidel. A Violência e a História da Desigualdade, Edições 70, Lisboa, 2017, pág. 59]Eis, pois, que foi desvendado o grande mistério do século XXI. Pedro Passos Coelho, ao espalhar a mendicidade entre os portugueses, e o Ricardo Salgado, ao roubar desmedidamente, vêm-se a revelar perigosos esquerdistas, promotores da igualdade. Quem diria?
Quem nunca assistiu à violência policial ou não a sentiu na pele é que pode brincar com isto.
O TELEGRAM Messenger já foi uma das minhas aplicações de comunicação favoritas.
Parece que foi-o (é?) também entre membros do "Daesh": por exemplo, foi através do Telegram que o “Daesh” reivindicou os ataques de Paris, o atentado que motivou a queda do avião russo na península do Sinai, no Egito, ou o ataque em Nice.
A campanha eleitoral (e as eleições) na Catalunha decorre(ra)m com
Não sei se toda a gente tem os seus rituais; eu tenho. Um deles, há já muitos anos, é, em meados de agosto, comprar a EP e o programa da Festa do Avante e O Militante (a revista de "Reflexão e Prática" do PCP).
Compro O Militante, na esperança, até agora vã, de encontrar uma revista com uma perspetiva de análise teórica dissonante (da pasmaceira das publicações portuguesas), mas arejada. Infelizmente, continua a ser muito uma publicação de catequese (de santinhos e catecismo).
Que fique claro: não espero (nem desejo) que a perspetiva de análise seja diferente (digamos, simplificadamente, que deixe de ser marxista-leninista); mas gostava de ler uma revista arejada nos temas, nas ilustrações, na própria mancha da página...
Tenho alguns amigos monárquicos, que em comum têm o defenderem a monarquia com duas relevantes razões:
Apesar das críticas às mais recentes alterações ortográficas, penso que estas não foram tão longe quanto podiam e deviam ter ido. (Até porque, prevendo-se que são inevitáveis as reações por inércia, reações por reações, melhor teria sido que se poupassem reações a alterações futuras).
Designadamente, penso que se poderia e deveria ter ido mais longe na normalização da transcrição fonética, através de normas que fossem tão gerais quanto possível, ainda que isso implicasse a eliminação de vogais/consoantes desnecessárias.
Por exemplo, não faz sentido distinguir ortograficamente palavras que se pronunciam do mesmo modo, como é o caso de “cozer” e “coser” ou “assento” e “acento” ou “conselho” e “concelho”... ou todas as palavras homófonas.
Poder-se-á objetar que são coisas diferentes; mas, ao pronunciá-las, as diferenças reconhecem-se pelo contexto – o que também se pode fazer nas frases escritas. Aliás, há já imensas palavras em que isso acontece, como com a palavra “banco” (o banco de sentar ou o banco que um dia destes teremos que resgatar) e “amo” (verbo e substantivo) e “são” (saudável e verbo ser)… e todas as palavras homónimas.
Há quem ache que o flamenco é de esquerda e os flamencos, de direita.
Perguntado sobre o assunto, o cantor de flamenco Enrique Morente respondeu, ironicamente:
'Somos de donde más nos convenga. Que viene la izquierda, para la izquierda; que viene la derecha, para la derecha; el centro, para el centro... Menos para atrás, para cualquier lado'.Este mesmo Morente, em concerto após o assassinato de Carrero Blanco, interpretou um fandango, adaptando a letra... à ocasião. O original (de José Cepero, dedicado a uma mulher) diz:
"yo no me quito en mi vida el sombreroE a adaptação (que valeu a Enrique ser incomodado pela polícia e uma multa de 100.000 pesetas):
pa ese coche funeral
que la mujer que va dentro
a mí me ha hecho de pasar
los más terribles tormentos".
"yo no me quito en mi vida el sombrero
pa ese coche funeral
que la persona que va dentro
a mí me ha hecho de pasar
los más terribles tormentos".
(terá sido por ser ataque a cristãos?).Só falta saber como (e contra quem) é que o Presidente da República vai exteriorizar esse ódio.
Fugindo um pouco aos temas do momento que vivemos, neste país ridente, vamos debruçar-nos sobre outro tema candente, que se tornou numa “praga”: a utilização sistemática e sem critério do diminutivo. Mas apenas com acrescento do sufixo -inho ao vocábulo original. Tout court!
Há pragas piores, dir-me-eis! Pois há.
Vejamos então! Saiam à rua e comecem a tomar nota da quantidade dos novos vocábulos, assim formados, digamos, ao longo de uma hora. Verificarão que não há chafarica, estabelecimento comercial, loja de cidadão, restaurante, café, refeitório que se preze, onde, a par de um sorriso (perdão, sorrisinho), os receberão com pelo menos um -inho, ao qual não conseguem fugir. Pois a todos os nomes constantes do dicionário do cliente, bem como do de quem vos atender se acrescentou um -inho: vai desejar um cafezinho, um saquinho, uma sopinha, uma aguinha, um talãozinho, um geladinho, uma facturinha, a continha? E por aí adiante.
Quando Jesus tomou o vinagre, disse «está cumprido» e, inclinando a cabeça, entregou o espírito.[Evangelho Segundo João, trad. Frederico Lourenço]
A POESIA VAI ACABAR
A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar?

Não há Vagas
O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
- porque o poema, senhores,
está fechado:
"não há vagas"
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,[Ferreira Gullar, in 'Antologia Poética']
não fede
nem cheira
AURORA
[Adolfo Casais Monteiro, in 'Voo Sem Pássaro Dentro']A poesia não é voz - é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:
voo sem pássaro dentro.
...TRES COSAS hay en la vida... que a embelezam: música... vinho e mulheres.escrito por ai.valhamedeus LEIA O RESTANTE >>
VERSOS
[Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"]Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma...
Versos!... Sei lá! Um verso é o teu olhar,
Um verso é o teu sorriso e os de Dante
Eram o teu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!
Meus versos!... Sei eu lá também que são...
Sei lá! Sei lá!... Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez...
Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês...
COMO DIZER POESIA
Tomemos a palavra borboleta. Para usar esta palavra não é preciso fazer com que a voz pese menos de um grama nem dotá-la de asinhas poeirentas. Não é preciso inventar um dia de sol nem um campo de narcisos. Não é preciso estar-se apaixonado, nem estar-se apaixonado por borboletas. A palavra borboleta não é uma borboleta real. Existe a palavra e existe a borboleta. Se confundires estas duas coisas darás razão a quem queira rir-se de ti. Não atribuas grande importância à palavra. Estarás a tentar insinuar que amas as borboletas de uma forma mais perfeita do que qualquer outra pessoa, ou que compreendes a sua natureza? A palavra borboleta não passa de informação. Não é uma oportunidade para pairares, levitares, aliares-te às flores, simbolizares a beleza e a fragilidade, nem de modo nenhum personificares uma borboleta. Não representes palavras. Nunca representes palavras. Nunca tentes tirar os pés do chão ao falares de voar. Nunca feches os olhos, tombando a cabeça para um dos lados, ao falares da morte. Não fixes em mim os teus olhos ardentes ao falares de amor. Se quiseres impressionar-me ao falares de amor mete a mão no bolso ou por baixo do vestido e toca-te. Se a ambição e a sede de aplausos te levaram a falar de amor deverás aprender a fazê-lo sem te envergonhares a ti mesmo nem às tuas fontes.
Qual é a expressão exigida pela nossa época? A época não exige expressão nenhuma. Já vimos fotografias de mães asiáticas enlutadas. Não estamos interessados na agonia dos teus órgãos remexidos. Não há nada que possas estampar no teu rosto que se equipare ao horror desta época. Nem sequer tentes. Apenas te sujeitarás ao desdém daqueles que sentiram profundamente as coisas. Já assistimos a películas de seres humanos em pontos extremos de dor e desenraizamento. Toda a gente sabe que andas a comer bem e que estás até a ser pago para estares aí em cima. Estás a atuar diante de pessoas que passaram por uma catástrofe. Tal facto deverá tornar-te bastante discreto. Diz as palavras, transmite a informação, chega-te para o lado. Toda a gente sabe que estás a sofrer. Não poderás contar à plateia tudo o que sabes sobre o amor a cada verso de amor que disseres. Chega-te para o lado e as pessoas saberão o que tu sabes por já o saberes. Nada tens para lhes ensinar. Tu não és mais belo do que elas. Não és mais sábio. Não lhes grites. Não forces uma penetração a seco. É mau sexo. Se revelares o contorno dos teus genitais, então cumpre o que prometes. E lembra-te que as pessoas não desejam propriamente um acrobata na cama. De que é que nós precisamos? De estar perto do homem natural, de estar perto da mulher natural. Não finjas que és um cantor adorado com um público vasto e leal que tem vindo a acompanhar os altos e baixos da tua vida até ao momento presente. As bombas, os lança-chamas e essas merdas todas não destruíram apenas árvores e aldeias. Destruíram igualmente o palco. Achaste que a tua profissão escaparia à destruição geral? Já não há palco. Já não há ribalta. Tu estás no meio das pessoas. Portanto, sê modesto. Diz as palavras, transmite a informação, chega-te para o lado. Fica a sós. Fica no teu canto. Não te insinues.
Trata-se de uma paisagem interior. É por dentro. É privado. Respeita a privacidade do texto. Estas obras foram escritas em silêncio. A coragem da atuação é dizê-las. A disciplina da atuação é não as violar. Deixa que o público sinta o teu amor pela privacidade ainda que não haja privacidade. Sejam boas putas. O poema não é um slogan. Não poderá publicitar-te. Não poderá promover a tua reputação de seres sensível. Tu não és um garanhão. Tu não és uma mulher fatal. Toda essa treta relacionada com os bandidos do amor. Vocês são estudantes da disciplina. Não representes as palavras. As palavras morrem se as representares, murcham, e a única coisa que sobrará será a tua ambição.
Diz as palavras com a exata precisão com que verificas uma lista de roupa suja. Não te comovas com a blusa de renda. Não fiques de pau feito ao dizer cuecas. Não te arrepies todo só por causa da toalha. Os lençóis não deverão suscitar à volta dos olhos uma expressão sonhadora. Não é preciso chorar agarrado a um lenço. As meias não estão lá para te recordar viagens estranhas e longínquas. É só a tua roupa suja. São só as tuas peças de roupa. Não espreites através delas. Veste-as.
O poema não é senão informação. É a Constituição do país interior. Se o declamares e deres cabo dele com nobres intenções, então não serás melhor do que os políticos que desprezas. Não passarás de uma pessoa a agitar uma bandeira e a realizar o apelo mais reles a uma espécie de patriotismo emocional. Pensa nas palavras como sendo ciência e não arte. Elas são um relatório. Tu estás a falar num encontro do Clube de Exploradores da National Geographic. As pessoas que tens à tua frente conhecem todos os riscos do montanhismo. Honram-te partindo desse princípio. Se lhes esfregares isso na cara, será um insulto à sua hospitalidade. Fala-lhes da altura da montanha, do equipamento que usaste, sê rigoroso em relação às superfícies e ao tempo que demoraste a escalá-la. Não manipules o público à caça de bocas abertas e suspiros. Se mereceres as bocas abertas e os suspiros, isso não se deverá à avaliação que fizeres do acontecimento, mas à que o público fizer. Resultará da estatística e não do tremer da tua voz nem das tuas mãos a cortar o ar. Resultará dos dados e da discreta organização da tua presença.
[Leonard Cohen. Tradução de Vasco Gato. O texto pode ser ouvido (em inglês, com tradução para português), aqui: https://www.youtube.com/watch?v=IvXn4P9Kj2YEvita os floreados. Não tenhas medo da fraqueza. Não tenhas vergonha do cansaço. O cansaço dá-te bom ar. O ar de quem seria capaz de nunca mais parar. Agora, entrega-te aos meus braços. Tu és a imagem da minha beleza.
O POEMA
[Natália Correia, in Poemas (1955)]
O poema não é o canto
que do grilo para a rosa cresce.
O poema é o grilo
é a rosa
e é aquilo que cresce.
É o pensamento que exclui
uma determinação
na fonte donde ele flui
e naquilo que descreve.
O poema é o que no homem
para lá do homem se atreve.
Os acontecimentos são pedras
e a poesia transcendê-las
na já longínqua noção
de descrevê-las.
E essa própria noção é só
uma saudade que se desvanece
na poesia. Pura intenção
de cantar o que não conhece.
TU ÉS EM MIM PROFUNDA PRIMAVERA[Pablo Neruda, in Os Versos do Capitão]
O sabor da tua boca e a cor da tua pele,
pele, boca, fruta minha destes dias velozes,
diz-me, sempre estiveram contigo
por anos e viagens e por luas e sóis
e terra e pranto e chuva e alegria,
ou só agora, só agora
brotam das tuas raízes
como a água que à terra seca traz
germinações de mim desconhecidas
ou aos lábios do cântaro esquecido
na água chega o sabor da terra?
Não sei, não mo digas, tu não sabes.
Ninguém sabe estas coisas.
Mas, aproximando os meus sentidos todos
da luz da tua pele, desapareces,
fundes-te como o ácido
aroma dum fruto
e o calor dum caminho,
o cheiro do milho debulhado,
a madressilva da tarde pura,
os nomes da terra poeirenta,
o infinito perfume da pátria:
magnólia e matagal, sangue e farinha,
galope de cavalos,
a lua poeirenta das aldeias,
o pão recém-nascido:
ai, tudo o que há na tua pele volta à minha boca,
volta ao meu coração, volta ao meu corpo,
e volto a ser contigo a terra que tu és:
tu és em mim profunda primavera:
volto a saber em ti como germino.
Deus abandonou-me.escrito por ai.valhamedeus LEIA O RESTANTE >>
(Aconteceu a mais alguém?)
Não me surpreende:
Se até o seu filho bem amado Ele abandonou, Por que não o faria a mim, Que não lhe sou nada?!
“o trabalho temporário é um elemento indicador da dinamização da atividade económica em todos os países”.[Vitalino Canas, provedor do trabalhador temporário]
O senhor “Ai, aguenta, aguenta!” não aguentou.[in Expresso Curto]