Palestina livre!

LEIT(e)URAS [65] A Passo de Caranguejo de Umberto Eco

(O assunto é complexo e não consegui explicá-lo num texto mais curto. Desculpem-me)


Desta vez coloco o título do livro antes do nome do autor, precisamente porque é a obra específica que quero destacar. O autor é muito conhecido, embora as suas obras mais populares não nos revelem a grandeza da sua dimensão intelectual.

Umberto Eco começou a sua carreira como filósofo interessado no pensamento medieval – São Tomás de Aquino, especialmente – mas cedo alargou os seus horizontes de estudo a uma vasta área das Ciências Humanas, que não deixou para trás a História.

E eu insisto nesta tecla da História, porque ela ocupou uma grande parte do seu trabalho – publicou uma monumental História da Idade Média em quatro volumes – permitindo-lhe um vasto conhecimento do Ser Humano, com uma perspectiva diacrónica mais ou menos longa.

Aliás, eu penso que essa é a grande vantagem da História, em relação a outras ciências humanas que procuram explicar relações políticas, conflitos e jogos de poder, sem terem em conta essa dimensão.

Umberto Eco foi efectivamente um intelectual de elevada craveira, que juntou ao conhecimento histórico um treino de reflexão filosófica e uma profunda compreensão das mentalidades e da cultura, que o aproximou do que entendo por essência da natureza humana. 

Algo que tem, simultaneamente, um carácter persistente e dinâmico, como o mostra a História, e que nos permite chegar a uma vertente muito mais rica e interessante dos fenómenos humanos.

Mais rica, sobretudo, do que a que produzem algumas ciências emergentes, como a Ciência Política, as Relações Internacionais ou a Geoestratégia; que, a meu ver, se conformam com processos, fundamentalmente, descritivos e assentes em fontes demasiado voláteis.

Mas voltemos ao livro de Umberto Eco, cujo título – A Passo de Caranguejo – é uma metáfora que nos sugere algo cujo desenvolvimento não teve um sentido de progresso crescente. Fenómenos que seguiram linhas transviadas, para os lados ou para trás.

Trata-se de um conjunto de artigos escritos entre 2000 e 2005, período em que decorreram acontecimentos como o 11 de Setembro, as guerras no Afeganistão e no Iraque, o Kosovo e a ascensão de Berlusconi.

Assuntos que despertaram a sua atenção com maior intensidade e que procurou compreender para além do aparato noticioso comum, levando-o a uma reflexão mais cuidada que resultou numa conferência ou na escrita de um artigo.

O primeiro desses trabalhos recebeu o título de “Algumas Reflexões sobre a Guerra e a Paz”. Nada mais oportuno para uma nova leitura no momento que estamos a viver, certos de que encontramos nele qualquer coisa que vai além da espuma destes dias violentos.

O autor define, neste trabalho, um percurso de certas características da guerra que lhe permitiram classificar os conflitos em Paleoguerras e Neoguerras, nas quais as primeiras são todas as que ocorreram até à Segunda Guerra Mundial, ou até à Guerra Fria, que considerou distinta.

Caracterizou-a como um clima de tensão latente entre os dois grandes blocos militares do século XX, sem que houvesse um confronto directo entre eles, mas com múltiplos conflitos periféricos, apoiados por um bloco ou outro.

Finalmente chegámos a uma nova forma de conflito – que designou por Neoguerra – onde incluiu todas aquelas que tiveram lugar depois da queda do Muro de Berlim, como as guerras do Golfo, do Afeganistão, etc.

O que as distingue, de facto, na perspectiva de Umberto Eco?... Vou tentar explicar, mas antes devo fazer uma consideração adicional.

Eu sei que os estrategistas e os estudiosos de geopolítica têm outras designações e classificações para a evolução das formas de conflito, mas o que aqui está em causa é a forma como o autor tratou o assunto, porque a sua análise tem aspectos diferentes do que é comum considerar.

Começando pelas Paleoguerras, que decorreram durante muitos séculos, diz o autor que começavam com o objectivo inequívoco de “derrotar o adversário, de modo a extrair um benefício da sua derrota”.

Nestas guerras era muito claro quem era o inimigo e onde se encontrava, de modo que os choques entre forças davam-se em territórios conhecidos e terminavam com uma vitória e uma derrota. Uma derrota consubstanciada numa rendição e na sujeição da vontade adversária.

A Guerra Fria foi um equilíbrio de terror, guardado pelo medo do nuclear. Mas esse equilíbrio “permitia ou chegava mesmo a tornar indispensáveis formas de Paleoguerra marginais”, como sucedeu no Vietname, no Médio Oriente ou em estados africanos.

A queda do bloco soviético, contudo, acabou com os pressupostos da Guerra Fria, mas fez emergir todos os problemas que eram a razão de ser das ditas guerras marginais. 

Isso deu origem a outras tantas guerras – hoje percebemos bem que tiveram uma gravidade diferente umas das outras – que tendiam agora para a forma da Paleoguerra, mas com características muito diferentes.

Já não se desenrolavam em duas frentes distintas, foram invadidas pelos meios de comunicação social e tiveram um impacto global, com efeitos nas políticas domésticas. A identidade do inimigo passou a ser incerta e os confrontos deixaram de ser frontais.

Chama-lhe Umberto Eco Neoguerra, sobre a qual nos diz muito mais do que consigo reproduzir aqui, realçando, contudo, uma das suas características: as Neoguerras nem sempre terminam com um vencedor e um derrotado, sucedendo, com frequência, que ambos perderam a guerra.

Para além disto, a Neoguerra transformou-se num produto mediático, onde a destruição e a morte está em contradição com os objectivos – ou com o negócio – dos media, que procuram vender felicidade e não dor.

Na verdade o público exige-lhes espectáculo – digo eu – e hoje em dia esse espectáculo pode ser construído com a dor dos outros. O problema é que isso não é suportável (ou sustentável) por longos períodos, o que obriga a que as guerras sejam curtas, apesar de intermináveis.

Não é necessariamente uma contradição o que acabo de dizer. Se o conflito violento (mediático) se esgota, não se esgota a incerteza do desequilíbrio constante e ameaçador, que nos mantém a todos numa espera permanente. Não da paz, mas do novo recomeço, do novo horror.

Enquanto escrevia este texto, procurando sintetizar a ideia de Umberto Eco, ia-me lembrando da guerra da Ucrânia e da forma como escapa a algumas destas concepções, parecendo estar muito mais próxima de uma Paleoguerra.

Noutra altura (talvez) possa falar do conflito da Ucrânia, mas convido-vos agora a pensar no que se está a passar no Médio Oriente e nas urgências de alguns dos contendores, por razões diversas, mas todas elas com um elemento comum: a força mediática do conflito e os efeitos que terá nas políticas domésticas (no Irão não há internet) e no espectáculo. 

Deixo-vos com um convite para que leiam a obra A Passo de Caranguejo e com uma pergunta: este conflito terá vencedores?... Verdadeiros vencedores?...

escrito por Jorge Matos

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DEUS ÀS VEZES DORME (ou a explicação é outra)

 

[Imagem copiada daqui]

No dia 1 de novembro de 1755, um dos mais violentos terramotos registados na Europa, seguido de um tsunami e vários incêndios, devastou Lisboa e grande parte do sul do país. 

Fala-se em 30 a 40 mil pessoas mortas. Porquê tantas?

O sismo ocorreu por volta das 9h30 da manhã, no Dia de Todos os Santos; além de outros edifícios, as igrejas colapsaram -- as igrejas que estavam cheias de gente a rezar. 

...a rezar a um Deus que se marimbou. Ou, se é ele quem controla isto, autorizou (ou ordenou?) a tragédia. Em qualquer caso, um Deus... como lhe chamaremos? Sádico, no mínimo.

escrito por ai.valhamedeus

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PORQUE HOJE É DOMINGO... * 23 [A Dios rogando y con el mazo dando]

 

[A Dios rogando y con el mazo dando]

Os hinos nacionais que conheço (português incluído) são estúpidos, por várias razões que me abstenho de enunciar.

O do México, por exemplo, diz que o país foi criação do dedo de Deus, uma criação misturada (como em tantos outros hinos) com violência (ou apelo à marcha contra canhões). Aconteceu que, um dia, estava Deus a ouvir o dito hino e conversou com os querubins e serafins que o rodeavam. Juan Miguel Zunzunegui registou a conversa em La tiranía de las ideas. Transcrevo um pedaço do relato:

Deus, que na verdade nunca foi muito sério, mas sim travesso e brincalhão, estava muito circunspecto. Ele ouvia o hino nacional mexicano e não estava nada contente com as calúnias que essa ode à violência fazia sobre a sua divina pessoa.

— Que diabos é isso de que o destino deles foi escrito pelo dedo de Deus? Eu não tenho nada a ver com isso, nem sequer tenho dedos. E já estaria na hora de pararem de me pedir para fazer tudo por vocês e, ainda por cima, me empurrarem o destino deles.

Isso aconteceu numa audiência em que dois anjos o interrogavam sobre o mau tratamento que ele dava a esse canto do planeta chamado México, que por mais que se esforçasse não conseguia sair da miséria, e que, em contrapartida, ele tinha sido tão generoso com aquele outro canto, um pouco mais ao norte, conhecido como Estados Unidos, onde aparentemente tudo dava certo.

— Pois... a mim, que me levem para o inferno se eu tiver algo que ver com todo esse assunto.

— Bem — respondeu um dos querubins —, ambos os povos afirmam que Tu inventaste os seus países.

— Sim — acrescentou o outro —, os mexicanos afirmam que escreves o seu destino, rezam muito para ti o tempo todo, dizem que gostas que sejam pobres e que por isso irão para o céu, e não param de dizer coisas como: «Se Deus quiser», «Que seja o que Deus quiser», ou consolam-se argumentando: «Já estava no destino». Estão convencidos de que tudo é culpa tua.

— Sim, claro — respondeu o Senhor (que, se é criador, certamente é Senhora, mas concordaremos em chamá-lo de Senhor para não confundir) —, eles também passam o tempo dizendo que Me imploram e batem com o malho, mas só imploram e nunca batem com o malho (*); ou que Eu ajudo quem madruga, quando quem madruga está se ajudando sozinho. Além disso, prestem atenção, nunca rezam para Mim, mas para onze mil versões diferentes de supostos santos e virgens.

(*) referência à expressão castellhana "A Dios rogando y con el mazo dando" [equivalente ao português "A Deus rogando e com o malho dando"], cujo significado está explicado aqui

escrito por ai.valhamedeus

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TEMPO MUSICAL

Acabou de ser publicado o episódio número 50 do podcast Clássica Mente. Tema: o tempo musical

O tempo é invisível: passa sem que o possamos agarrar. Na música, porém, ele torna-se, digamos… palpável: sente-se num ritmo, num compasso, numa duração. O tempo é a matéria-prima da música — sem tempo, não há som organizado, não há vida musical.

Neste episódio, ouvimos como a música transforma o tempo em experiência.

Porque a música ensina-nos a escutar o tempo. A saboreá-lo, a habitá-lo. Se a vida é feita de instantes que passam, a música mostra-nos que cada instante pode ser eterno. Talvez por isso a música seja tão próxima de nós: porque dá forma ao mistério do tempo. 

Está aqui: https://omeubau.net/tempo-musical/

escrito por ai.valhamedeus

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PORQUE HOJE É DOMINGO... * 22 [as quatro mulheres de deus]

 

escrito por ai.valhamedeus

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PORQUE HOJE É DOMINGO... * 21 [Titivillus]

 

Os livros eram importantes na Idade Média, não pelo conteúdo, mas pelo alto valor comercial que possuíam. O papel e a tinta eram itens caros -- e ainda era preciso o trabalho de um copista, geralmente monge, que trabalhava copiando os livros e criando novos exemplares. A maior parte dos livros do período medieval era religioso, como a bíblia e orientações da Igreja Católica. Quando um monge cometia um erro na sua cópia, ele sabia o culpado: o Titivillus.

O Titivillus era um demónio responsável por fazer os monges copistas errarem a escrita sagrada, além de ser o responsável por erros de leitura, má dicção e cochichar durante a missa. Foi citado pela primeira vez no Tractatus de Penitentia, de 1285, escrito por John Galensis. Durante a Idade Média, o Titivillus foi retratado em quadros, livros e até em dicionários. O aparecimento mais notável aconteceu no livro The Myroure of Oure Ladye, do século XV, onde na página 54, Titivillus “assumiu o controlo” da escrita, apresenta-se e diz quais são os seus objetivos, obviamente, cometendo vários erros gramaticais.
 

 escrito por ai.valhamedeus

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BOLACHAS DE CHOCOLATE LEIBNIZ

Existe uma ligação -- isto é mesmo verdade -- entre o grande filósofo e as igualmente excelentes bolachas de chocolate. Quando os fabricantes destas bolachas, cujo apelido era Bahlsen e cuja fábrica se situava em Hanover, procuraram o nome de um habitante da cidade que fosse famoso e que pudessem utilizar na caixa, a sua primeira escolha foi Leibniz".

(Lesley Levene. Filosofia para pessoas com pressa)

escrito por ai.valhamedeus

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UMA SEITA CANIBAL

Inicialmente, os romanos toleravam o cristianismo como uma seita judaica. A partir do século I, começaram a ver os cristãos como um grupo separado e perigoso. Os cristãos recusavam-se a prestar culto ao imperador romano como um deus e recusavam-se a adorar os deuses romanos, fanaticamente considerando o seu Deus o único verdadeiro.
Como resultado, os cristãos eram frequentemente acusados de crimes como ateísmo, incesto... 

...e canibalismo. E com razão. Segundo os próprios (católicos), na Eucaristia, depois de o sacerdote consagrar o pão e o vinho — "que são transubstanciados no Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Cristo —, neste momento, Nosso Senhor está inteiramente presente. Nem pão nem vinho permanecem". 

O convite é sempre o mesmo: "tomai e comei" (o meu corpo); "tomai e bebei" (o meu sangue). 

 escrito por ai.valhamedeus

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