(Winslow Homer - 1836-1910)
Winslow Homer (1836-1910) foi um artista norte-americano, nascido em Boston, no seio de uma família tradicional da Nova Inglaterra. Era ainda muito novo quando os seus pais se mudaram para uma aldeia rural, na região de Cambridge (Massachusetts), onde foi uma criança feliz, que começou a desenhar muito cedo, encorajado (provavelmente) pela mãe, que era pintora.
A sua vida esteve sempre ligada às artes gráficas, trabalhando como desenhador e gravador, até conseguir montar o seu próprio atelier, onde produziu excelentes trabalhos usando, sobretudo, a aguarela e o óleo. Aliás foi na aguarela que (a meu ver) mais se distinguiu, com muitos temas ligados ao mar, à vida marítima. Mas, como quase todos os artistas, foi obrigado a partilhar o seu talento (e a formação técnica) com o trabalho gráfico e o desenho para jornais e revistas que lhe pagavam. Foi na condição de desenhador do jornal Harper’s Weekly que acompanhou uma parte da Guerra Civil Americana, deslocado na frente de batalha.
Mas também teve ocasião de viajar pela Europa, nomeadamente pela Grã-Bretanha e França, onde contactou com as mais importantes correntes estéticas que fervilhavam no Velho Continente. Uma vida muito rica, com experiências muito intensas, mas nada disso lhe apagou uma fixação pela natureza, adquirida na infância. Não fosse a riqueza da sua paleta cromática, marcada por cores vivas e intensos contrastes, e diríamos que era no naturalismo ou no realismo que tinha encontrado a sua referência estética. Talvez o tenham colocado numa dessas gavetas.
Mas eu olho para este quadro, pintado em 1878 (The Houghton Farm, New York), e os seus coloridos fazem-me lembrar as obras de Édouard Manet, encontrando muitos traços próprios do mundo artístico europeu da segunda metade do século XIX. Mas não foram estes os factores que me prenderam na observação desta aguarela, nem é para aí que quero levar o meu olhar. Para além do adágio das cores, olhar para este quadro foi como uma visão dos tempos atrás de tempos que são sempre tempos de ternura.
A pintura é para ser observada com um olhar demorado, até que ela nos leve ao seu próprio mundo. E quando dele nos aproximamos, os detalhes devem ser degustados devagarinho, como se se tratasse de um licor. As sensações colhidas pelo olhar são bebericadas suavemente, fazendo-nos entrar, a pouco e pouco, na poesia da obra, até a vivermos como um sonho nosso, cada vez mais delicioso.
E assim aconteceu com este quadro, a que Winslow Homer chamou On The Stile (no degrau). Sim, o que vejo é uma pequena escada que dois jovens usam para passar de uma lado para o outro de um limite… de um limite… mas, a partir daí, o olhar foi deambulando pela história, deixando os grilos cantar, deixando-nos adivinhar as sombras do Parnaso onde descansam todos os amores eternos, como os meus. E veio a brisa da tarde nos campos de mirtilos trazendo o murmúrio de um riacho, um cheiro de alecrim, um sol que acena a sua despedida, uma neblina que anuncia a sua chegada, uma hora de emoções a haver… Vão-se calando os grilos.
Este quadro foi pintado numa quinta, no interior do estado de Nova Iorque, mas traz todas as recordações dos campos da infância do pintor. Uma nostalgia que veio como uma carícia do tempo, para nos lembrar que houve tempos em que não havia tempo e as horas não passavam. Quando as mãos se entrelaçavam e os pés podiam mergulhar-se na frescura da água que rega, apenas para sentir o sabor da terra, ouvir vento, o sol, o cair da tarde… Era isso o amor.
escrito por Jorge Matos
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