(Telemaco Signorini)
Herdei de um grande amigo e professor uma área de estudo que nunca mais deixará de ser a minha paixão. Refiro-me à História Marítima.
É bem verdade que tudo começou com a História dos Descobrimentos, numa época em que o seu estudo era generalizado e muito popular. Entrei trazendo comigo o conhecimento da náutica, da navegação e da vela. Sobretudo a vela.
Com a ajuda desse meu professor e amigo, fui descobrindo que História Marítima não era a mesma coisa que História dos Descobrimentos. Na sua definição as coisas são claras, mas muito secas. As definições simplificam demasiado e nem sempre facilitam a compreensão. Vejamos, então: História Marítima é toda a história da utilização do mar pelos seres humanos, ao longo do tempo.
Evidentemente que os conceitos não se confundem, mas, no ambiente académico português, não é nada fácil descolar uma coisa da outra, e o efeito é desastroso, porque a História dos Descobrimentos tem muitos estigmas e feridas no seu corpo. Em primeiro lugar foi instrumento de um certo tipo de nacionalismo português que ainda hoje vai e vem, em ondas de matizes diversos. É verdade. Apesar do esforço de alguns historiadores honestos ele volta sempre carregado de palavras que são como armas de arremesso e propaganda. Quase todos eles muito deslocados da História em si.
Para além disso, os estudantes (se calhar o público em geral) cansou-se da História dos Descobrimentos. Não lhe apetece voltar a discutir o Infante D. Henrique, a Viagem de Vasco da Gama, ou as conquistas de Afonso de Albuquerque. Assuntos aliás, sobre os quais se tem reflectido pouco e papagueado muito, transformando os discursos em melopeias fastidiosas.
Olhemos, pois, para este quadro de Telémaco Signorini onde se vê a aldeia de Riomaggiori, na costa da Ligúria, um pouco a leste de Génova. Quando a vejo, assim, como a pintou Signorini, com este amontoado de casas que formam uma arriba sobre o mar, não consigo deixar de imaginar uma vida marítima. Penso em gente que se habituou ao cheiro da maresia, que acorda com o ruído das ondas, que tem nos lábios um sabor intenso a sal e a pele enrugada pelo vento.
Lembro-me de como a Europa foi transportada às costas de Zeus (touro) pelo mar, até Creta, onde teve a sua descendência. Sim, a Europa foi roubada à Ásia e transportada para o mar a quem passou a pertencer. Mas a minha imaginação não pára por aí e continua para outras histórias, tão fantásticas como aquelas que os gregos contaram sobre os seus deuses mediterrânicos. Continuo a olhar para quadro, mas os meus olhos vão mais além e agora vêem embarcações que passam e lenços que acenam das janelas.
Deixo-me entrar numa hora marítima, que não é igual à de Álvaro Campos.
Devagarinho, volto para a praia de Riomaggiori. Desembarco de um escaler e vou subindo os degraus, procuro amores, procuro a vida… Ter-me-ei cansado de partir?...
Sim, cansei-me!... Agora quero chegar, quero voltar, quero regressar e continuar a ser. Vou escrever histórias de marinheiros. Vou contar-vos dos vendavais terríveis, com ondas que tapavam a lua. Vou dizer-vos que há frios que nos deixam gelados, por dentro e por fora. Que há fogos de San’Telmo que rugem ao meio dia. Que há saudades que nunca acabam… Vou contar-vos tudo e muito mais, porque assim mesmo são os marinheiros de todo o mundo.
Mas antes vou subir pelo varadouro e procurar o caminho de uma janela, onde possa ficar a olhar para o mar. Só mais um pouco… um bocadinho… Espera por mim!... Não, não esperes por mim. Vem até aqui à janela, abraça-me e olha comigo para o mar. Não digas nada. Riomaggiori é eterno e pode esperar.
Estão a ver o que é a História Marítima?... Não, não é o mesmo que História dos Descobrimentos.









