Palestina livre!

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POIS!... [estórias exemplares] -35- carnavais, câes (e) sem abrigo

Nesta quadra carnavalesca em que por detrás de uma máscara, seja ela artesanal ou alugada, mesmo comprada, tudo (ou quase tudo) é permitido, o povoléu vem para a rua dar largas a piadas ao establishment, e não só. Ou simplesmente “brincar ao Carnaval” -- com maiúscula ordena o meu computador -- por tradição, pois nesta época ninguém “leva a mal”. E o que se pode dizer e fazer atrás de uma máscara, Santo Deus!

Por acaso, este ano, o tempo de todas as tolices, mais ou menos toleradas pelos mais sisudos, coincidiu com o Dia dos Namorados. O que até nem destoa, já que aos namorados tudo se perdoa e, afinal, eles nem são de fiar, como dizia o Solnado! Ou eram os Noivos? Tanto faz.

O que eu quero dizer, é que este ano o São Pedro não se mostrou nada folião. Muito ao invés, esteve carrancudo, enviando chuva para amainar os ardores do Carnaval em tempo de crise.

Porém, os foliões não se deixaram intimidar e resistiram com galhardia! Um tanto molhada.

Em tempo de guerra não se limpam armas, há que usar a imaginação e, vai daí, os trajes chegaram aos legumes que, verdejantes, cobriam e protegiam da intempérie uma foliona a anos-luz dos seus verdes anos, como se viu em reportagem alargada e obrigatória para ocupar tempo de antena a preço de saldo, e para encher chouriços. Mas deve-se dar voz ao povo, não é? Voz do povo, voz de Deus! Diz o ditado. Pois!

Longe das objectivas dos repórteres encartados, e dos cortejos dos Carnavais mais portugueses de Portugal
(que são cada vez mais),
cheios de gente despida para enregelar, um lulu todo branquela, tipo espanador, sapatinhos azuis a condizer com a sobrepeliz de padrão escocês, trotava atrás da dona, todo ufano, numa rua da (já?) capital do Algarve. Indiferente à chuva e ao rafeiro enrolado num trapo encardido, de proveniência mais que duvidosa, ao colo do dono, de barba hirsuta e olhar perdido, sentado estrategicamente, deve ter pensado ele, à porta de um supermercado. Com a boina em frente vazia de magros cêntimos.

Enquadrados, cão e dono, por lojas de chineses cheias de clientes a tentar a compra de máscaras de última hora ao preço da chuva!

[Faro, 3ª Feira de Carnaval]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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POIS!... [estórias exemplares] -34- dia de compras em três andamentos

ACTO I
CENA 1

Personagens: 2 ciganas (ok, reformulo: 2 mulheres de etnia cigana), um transeunte sem papas na língua, público afadigado, em geral.

Cenário: Espaço exterior à Padaria.

Vêem-se 2 ciganas encostadas aos carros que ocupam ininterruptamente grande parte do passeio ostentando mossas, próprias da sobrelotação e do uso para o qual não foram pensados. Uma das mulheres, de meia-idade, vestida segundo a tradição; a Mãe, presume-se. A outra, jovem adolescente, vestida “à ocidental”; a Filha, mais do que certo. Grande altercação entre as duas, segundo a tradição para ambas. Nos intervalos da altercação a Mãe chama a atenção de quem passa para os preciosos morangos e outros produtos hortícolas que se encontram em caixas, ocupando o passeio, felizmente largo, numa coexistência difícil, mas pacífica.

Transeunte: (olhando para todos em geral e ninguém em particular, sempre a caminhar, já fora do alcance dos ouvidos das 2 mulheres e, sobretudo, dos do marido recém-chegado à cena). Pois é, agora os ciganos viraram agricultores. Têm cá umas terras que só visto! (Pausa, sempre em andamento). Isto ninguém vê…

Os transeuntes, em marcha apressada, não reagem. Quer-me cá parecer que ele também não estaria à espera que lhe pegassem na deixa.

CENA 2

Personagens: 2 compradoras na bicha para o pão. A menina da caixa registadora. Outra empregada

Cenário: Interior da Padaria asséptica
_ Qualquer dia só temos cá disto!
_ Como? pergunta a outra, parecendo um pouco surda pelo modo como se inclinava para ouvir.
_ Gente desta, malcriada. Não ouviu os palavrões?
_ O pior é que eu conheço gente com curso que é igual, ou pior. Andam na escola e não aprendem nada. Nem boas maneiras.
_ Isso já vem de casa. Os professores já não têm mão neles. No meu tempo não era assim…
Paguei a conta e saí, perdendo o resto dos argumentos

ACTO II

CENA 1

Cenário: Mercado Municipal; final das escadas que levam à Loja do Cidadão

Personagens: Uma meia dúzia de jovens, e menos jovens, funcionárias da dita loja, de lenço ao pescoço todas elas, parecendo escuteiras já em fim de época e de saída para o fim-de-semana, quiçá. Ou para o almoço. Será porque a loja se destina a ajudar os outros que elas usam lenço à laia de escuteiras? Quero dizer, elas! Não a loja.

Não pude impedir-me de lhes reparar nos pés: sapatos com salto médio, mais alto, e menos alto. Uma delas calçava mesmo umas sandálias de salto muito alto, mas com cunha.

Será que com cunha já se pode usar o salto muito alto? Dessas e das outras…

ACTO III

CENA 1

Cenário: Interior da frutaria com fruta e legumes das duas nacionalidades ibéricas, e de várias procedências.

Personagens: Jovem empregado, filho do dono, outra empregada, o dono afadigado a repor frutas e hortaliças nas prateleiras desfalcadas. Narradora. Compradoras retardatárias, como a narradora.

_ Quer saco? Pergunta decorada, creio, e fartamente repetida e, portanto, automatizada à força de ser repetida. Por que é que os alunos não fazem o mesmo?
_ Não, obrigada, trouxe comigo! Pensei com os meus botões por que razão me fazia ele tal pergunta se eu estava de cesto em cima do balcão à espera que ele pesasse e fizesse a conta, para eu acomodar tudo dentro do dito?!
_ Ah, mas as nossas são melhores. E mais baratas, ainda por cima! exclamou lá do fundo uma voz. Referia-se a umas nêsperas gradas, muito maiores do que as portuguesas. Eu já tinha enfiado para o saco as espanholas por me parecerem bem apetecíveis.

Comprovei ao almoço o que a freguesa patriótica tinha asseverado. Bem feita! Quem me manda a mim ser iberista e pluriculturalista?

Já deveria saber que de Espanha nem bons ventos, nem bons casamentos! Acrescento à lista: nem nêsperas!

escrito por Gabriela Correia, Faro

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POIS!... [estórias exemplares] -33- 372 euros por dia

Não teve que se sentar à mesa nem esperar para contar esta estória. O jornalista chegou solícito, com muitos agradecimentos na manga e na boca. E era uma estória de trabalho e mais trabalho, uma trabalheira, tudo por amor a Deus e ao próximo.

O actual membro do Conselho Económico e Social teve que se sujeitar a estar durante anos e anos em cinco ou seis posições de poder ao mesmo tempo para salvar o país e uma parte importante da humanidade
[a portuguesa].
Por isso hoje, o Padre Vítor Melícias, OFM deve ser dos ex mais ex do país
[e com a globalização, até talvez da Europa].
Ex-Comissário para Timor Leste, ex-presidente do Montepio Geral, ex-da Misericórdia de Lisboa, ex-do Serviço Nacional de Bombeiro, ex-confessor de Guterres, ex-presença badalada em coisas de futebol e membro vitalício de outros orgasmos
[penso que alguém quis dizer e escrever organismos. Devemos ser comprensivos, porque nestes temposde crise todos estamos mais sujeitos a falhas semânticas que a orgasmos].
Este pobre trabalhador recebe, para o seu sustento
[todos os seres humanos têm direito à vida, incluindo os pobres irmãos de São Francisco de Assis]
372 euros por dia. É com esta «pensão aceitável»
[que aceita com humildade, porque «não é rico»]
que tem que se alimentar, vestir, pagar água e luz, telefone, telemóvel, transportes e umas coisitas mais. Uma autêntica desgraça. Ninguém o vê entrar numa tasca a comer um almocinho social por 4 euros porque a vida está mesmo muito má.

[Este exemplar de estória é remake de um outro: POIS!... [estórias exemplares] -32- 13 euros por dia].

escrito por José Alberto, Porto Rico

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POIS!... [estórias exemplares] -32- 13 euros por dia

Sentou-se, depois de pedir licença à mulher que já estava à mesa a acabar o bacalhau à Gomes de Sá.

-- Olhe que eu gosto muito do respeitinho -- esclareceu, antes que houvesse ideias. E a conversa derivou para uma lista de doenças sem fim, alimentada de ambos os lados contrários da mesa.

Já a mulher bebia o chá, depois de ter recusado a sugestão de sobremesa, quando ele abriu a boca a um saco plástico:

-- Tenho aqui mais de 100 euros, só de bilhetes de carreira. Vossemecê apanha a carreira ao pé de casa? Eu tenho que andar 3 quilómetros a pé até à paragem.

E informou que estava de baixa.

-- O médico queria que eu trabalhasse, mas eu não posso de maneira nenhuma. -- Mostrou a mão esquerda inchada. -- Eu perguntei-lhe: "o senhor doutor conseguia alevantar caixas cheias de garrafas de azeite cheias com uma mão assim?"

A mulher abanou repetida e solidariamente a cabeça, num movimento acompanhado pelo lamento de valha-nos Nosso Senhor!

Ele olhou-me, quando pedi um café curto. Mas foi à mulher que confidenciou:

-- Sabe quanto estou a ganhar por dia assim de baixa? Treuze euros. Ganho treuze euros por dia.

Lá pelo meio das confidências, fiquei a saber que, quando vinha ao médico, passava naquela tasca para comer uma bifana e beber um copo. Pagava 4 euros, acrescentou. Hoje não comeu nada: cumprimentou e saiu, justificando-se com a hora da consulta:

-- O senhor doutor já lá deve 'star...

[Remake deste texto: POIS!... [estórias exemplares] -33- 372 euros por dia]
escrito por ai.valhamedeus

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POIS!... [estórias exemplares] -31- o sexo fraco (3)

Ontem fui às compras. Não era Sábado, mas mesmo assim fui às compras. Apeteceu-me; e porque as férias assim o permitem. Apeteceu-me quebrar a rotina!

E a rotina cobrou-me!

Em vez das habituais figuras femininas, já minhas e vossas conhecidas, ajoujadas de sacos e apressadas pela hora adiantada, bastante atrasadas para as tarefas da confecção dos almoços de filhos e maridos esfomeados, deparei com um aparato de polícias carrancudos, fitas entre grades (chamemos-lhes assim, à falta de melhor vocábulo do dicionário), trânsito espartilhado e bastantes mirones/figurantes e participantes, afinal. Pensei tratar-se de alguma acção policial com hora marcada, pois divisei as câmaras de televisão. Da TVI, por sinal.

Pensei: ameaça de bomba? Roubo de banco? Assalto à mão armada? Incêndio?

Não, tratava-se tão-só da visita do Sr. Primeiro Ministro, expressamente ali chegado para a inauguração da Loja do Cidadão, sita no novo edifício do Mercado Municipal.

Como gosto pouco de ajuntamentos, e ainda menos de ajuntamentos de fatos Giorgio Armani, quebrei novamente a rotina, prescindindo da habitual mesa ao sol tímido de começo de Abril. Também quase não havia lugares, dado que estes tinham sido ocupados pelos curiosos, quiçá amantes de fatos de fino corte.

Ainda encontrei conhecidas matando dois coelhos com uma só cajadada, e que me informaram por entre a fruta e os legumes de que “ele até é um homem muito bonito e muito simpático. E foi muito bem recebido. Não houve lugar a apupos”. Pois!

Depois de dois dedos de conversa sobre assuntos menos sensíveis, despedi-me e redesenhei a minha rota dirigindo-me para o Pátio das Letras onde apanhei sol na mesma e pude ler em relativa paz os poemas de Ruy Belo. E digo relativa, uma vez que este pátio já é frequentado por muitos, novos e menos novos: a testemunhá-lo um jovem, aparecido momentos depois, saudando outros que lá se encontravam à maneira dos tribunos do século vinte e um, numa troça saudável sobre tão ilustre visita.

escrito por Gabriela Correia, Faro

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POIS!... [estórias exemplares] -30- o sexo fraco (2)

O sol arredio hoje fez-nos uma visita, pese embora curta, mas uma visita! Brilhou, aqueceu um pouco a alma, e foi o bastante para apetecer comprar este mundo e o outro. Em boa verdade, mais este. Que o outro está pela hora da morte; ou não fosse o outro!

Estava eu pois, circunspecta, a escolher os legumes e demais produtos hortícolas quando um fiapo de conversa chegou nítido aos meus ouvidos. Nítido, não. Muito audível até; como se fosse soprado por altifalante: o vizinho entradote interpelava, à laia de saudação, a vizinha bem madurinha, se também comia. A resposta veio célere na forma truculenta e vernácula. Não, eu só… . A pudicícia não me deixa acabar a frase, que já devem ter adivinhado. O vizinho ficou speechless, bem como o dono do estabelecimento. A minha reacção foi espontânea: que horror! Ela riu-se em jeito de desculpa e não levou a mal a intervenção da desconhecida.

Fiquei a saber, dada a voz bem alta e o cariz da dona da voz, de quem não tem papas na língua, que a resposta tão pronta fugia bastante à verdade: ela precisava de medicamentos para realizar a necessidade fisiológica básica, segundo explicou já em linguagem mais socialmente correcta.
Saí dali com a sensibilidade bastante abalada.

Talvez por isso resolvi beber uma água
(a propósito, sabiam que há águas muito in cuja garrafa de um design extravagante, feito por estilista de nomeada, pode chegar aos 1.500 euros? Em tempos de crise é um insulto, ainda maior, à sensibilidade de qualquer um).
Portanto, parei numa esplanada para beber a tal água e continuar a leitura do Eduardo Agualusa
(tudo a combinar, como se vê)
e desfrutar do sol já muito tímido a esconder-se atrás de nuvens de cenho assaz carregado. Aqui foi a minha pituitária que alertou o cérebro: uma madame balzaquiana descansava dolentemente a mão, no fim da qual se consumia lentamente um cigarro, de onde se escapulia um fumozinho irritante que me entrava pelo nariz, sem cerimónias. Pedi, reparem, o termo é pedir, se não se importaria, quiçá, de mudar o cigarro de mão. Resposta sorridente e urbana
(já que vive na cidade):
mas estou numa esplanada!?... O marido grunhiu qualquer coisa, um pedido de desculpas não era, pela certa, e ela continuaria impávida a lançar-me o fumo para a cara, não fora a existência salvadora de uma cadeira e respectiva mesa vazias bem longe destes “urbanos”habitantes. Virei-lhes as costas e entranhei-me no livro. A leitura sempre me salvou de situações desagradáveis. A leitura e a música.

De regresso a casa, de pisca ligado há bastante tempo, abrandando para estacionar à porta de casa, oiço uma buzinadela irritada atrás de mim: uma trintona num grande carro a protestar não sei por que razão, de mão impaciente no ar. As palavras não as ouvi, graças a deus! Aonde iria aquela com tanta pressa? Na escola de condução ter-lhe-ão dito que se estaciona de rompante e não se abranda? Ou nem lhe terão mencionado a existência de pisca-pisca, numa sinalética de entendimento urbano?

Feliz com esta mostra de urbanidade que impera nas cidades, carreguei as compras e refugiei-me em casa
(será esta mostra suficiente para um estudo sociológico e comportamental? O meu defunto sociólogo já cá não está para mo dizer, hélas!).
E fiquei a pensar nos incidentes de maior monta que levaram a guerras no passado, e continuam a levar. No limite, as purgas, a queima de livros, a Kristallnacht, e denúncias de vizinhos dum tempo que se deseja que não volte. Porém, já alguém afirmou que o maior erro do nosso tempo é pensar-se que os erros terríveis do passado jamais se repetirão. Foi profeta. E não é Allah!

Se tiverem um tempinho e não se vos der de ir ao cinema
(outro dos meus vícios),
vejam o filme “O Rapaz do Pijama às Riscas”. É um outro filme sobre o III Reich, oferecendo-nos muitos olhares. Depende de que lado se está. Literalmente. Um filme a um tempo belo e terrível. Mas o belo só existe, porque existe o horribilis, não é? E há quem defenda que a maior invenção do Homem não foi Deus, mas o Diabo.

Cruzes, credo, canhoto!

[Faro, 07 de Fevereiro 2009]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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POIS!... [estórias exemplares] -29- o sexo fraco (1)

Entrou de rajada! Pequenina, afobada, palrosa, dirigiu-se logo à cabeça da bicha composta por algumas pessoas que esperavam a sua vez. Desculpando-se, muito explicativa: “que eu não quero passar à frente de ninguém, Deus me livre”. Arfando, queria saber se, mais tarde, haveria pão muito cozido, porque eu, e virou-se para mim, sabe, não posso comer pão mal cozido. Nem lhe toco.

Dei-lhe a vez, preocupada; assim como assim já tinha usurpado esse lugar. Que não senhora, que desculpássemos a intromissão, muito obrigada, meu amor! E aflorava, maternal, as costas de um negro retinto, sorridente e muito bem parecido, que se encontrava atrás de mim. O amor, à Algarvia, era para ele.

Em fracção de segundos ficámos a saber que tinha 88 anos, que nunca teve uma doença. Só agora é que apanhara uma gripe em Lisboa, pois “temos lá casa também”, mas os médicos apenas lhe detectaram o coração muito acelerado. E tudo por causa do desgosto causado por uma flausina, há muitos anos, empregada do marido que fora Director não sei de quê. Aqui eu já perdera o comboio das palavras que ameaçava descarrilar dada a alta velocidade que ela lhe imprimira.

E de repente lembrei-me: eu conheço esta senhora, esta mancha vermelha de batom a alegrar o rosto ainda bonito. A mesma que fora protagonista de um outro episódio nos finais do Verão passado, na mesma padaria, e sobre a qual escrevi um texto, publicado neste blogue sob o título genérico de O Sexo Forte.

Senti-me bem. O sol estava de volta; seres humanos, testemunhos vivos de pequenos-grandes dramas domésticos, queixosos mas resistentes, alegram-nos as compras. Enfim, seres vivos que marcam a diferença e assinalam a sua presença, em vez de seres anónimos que se cruzam connosco, indiferentes.

Quando for velha, velha quero ser como esta mulher, padecendo de auto-comiseração, porém autónoma; com uma estória de vida igual a tantas outras.

[Faro, 17 de Janeiro 2009]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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UMA GRELHA E UMA VIDA

Avaliação manifestação de professores grelhasHá uns dias sonhei que estava em Atacama. Nunca estive no Chile, mas andava pelo deserto mais árido do mundo com uma frescura invejável e sem sequer sentir sede! E não só: outras pessoas passeavam-se pela sufocante aridez sem qualquer protecção, conversando apressadamente, escrevendo relatórios e preenchendo fichas; ou consultando a NET (banda larga, claro, da SAPO ADSL)…

Havia uma senhora, também, muito sisuda e compenetrada do seu papel, que se encontrava à entrada de Atacama e que distribuía um roteiro a cada visitante, com um daqueles questionários de hotel em que se indica o que gostámos mais e o que nos agradou menos, durante a estadia. E uma grelha, para se preencher no final da visita.

Pois, andava eu encantado pelas ressequidas areias povoadas de “ossos do ofício”, quando uma rabanada de vento me arrancou os papéis da mão, pelo que desatei a correr de um lado para outro, desatinado, a ver se os recuperava. Porém, tal como no suplício de Tântalo, de cada vez que me vergava para apanhar um dos papéis, uma outra aragem fustigava-o para mais longe, convertendo-o em muitos papelinhos. E foi assim que acordei, meio angustiado, a pensar que ainda bem que tudo não passara de um sonho e tentando convencer-me de que aqueles papéis extraviados não teriam uma grande importância.

Logo a seguir, enquanto tomava um duche quente, fui recuperando, a pouco e pouco, a minha qualidade de “pobre, mas docente”. Contudo, na viagem para o trabalho, comecei a questionar a minha noção de responsabilidade, começando a sentir-me “culpado” por nem sequer ter olhado para os ditos documentos. Pensei que se tivesse dormido mais um bocadinho, talvez tivesse encontrado tempo para dar uma vista de olhos por tudo aquilo, estaria agora de consciência tranquila, pelo dever cumprido. Mais uns “minutitos” e poderia ter devolvido os questionários e a grelha à senhora que estava à entrada de Atacama, para que fizesse com a papelada o que lhe passasse pela cabeça. Não gosto de ficar com coisas que me não pertencem. O seu a seu dono, como diz um velho ditado. Uma vez trouxeram-me uma carteira cheia de notas (de banco), que alguém achara em cima de um muro, próximo da minha casa. Mas, como entregá-la à polícia era o mesmo que entregá-la a um dono intermediário, fui divulgando pela vizinhança que estava na posse de uma carteira perdida. Dormia mal, a pensar naqueles papéis todos. Afortunadamente, passados alguns dias apareceu uma vizinha, que logo descreveu a carteira e tudo quanto existia no seu interior.

– Ainda bem que não a levou à polícia – disse-me, na brincadeira, certamente. E mandou-me um cesto de cerejas.

Ora, o grande problema de se sonhar com papéis que não nos pertencem é ficarmos sem saber onde entregá-los. E esse é o problema da Sra. Ministra da Educação, que não pode apresentar-se agora a um governo de oportunidades perdidas, dizendo que está na posse de mais uma oportunidade perdida. Tomá-la-iam por socióloga. Por isso, terá de ficar com o seu sonho, por muito que lhe custe. Eu, ainda tive a sorte de alguém responder afirmativamente à divulgação de uma notícia sobre um objecto perdido, mas parece-me que a Sra. Ministra não terá a mesma alegria. Deve já ter pensado em mil maneiras de se desfazer de um sonho incómodo, como me aconteceu no caso dos questionários e da grelha. Contei esta preocupação a uns colegas, que ainda se riram de mim.

– Se te deram as grelhas, tanto podias preenchê-las como devolvê-las em branco. Esquece isso…

Não consegui explicar-lhes que não era assim tão fácil - as grelhas não eram minhas -, que restaria sempre um complexo de culpa a pairar no vazio. E em chegando ao serviço, quando a minha chefe afirmou que teria de preencher as grelhas de avaliação, porque ninguém me tinha obrigado a concorrer a professor titular, compreendi de repente, que o trabalho docente que desempenho há mais de um quarto de século, também não era meu. Foi o momento em que tudo se iluminou. “Estou a sonhar uma vida que é de outrem”, disse de mim para mim. Estou, (a)final, numa viagem sem retorno, como a Sra. Ministra da Educação. Também não sei a quem devolver uma vida de professor. Já é demasiado tarde e tenho muito sono.


escrito por José Manuel de Azevedo, Prof. com 65 anos, sem reforma à vista, residente em Oliveira de Frades [foto de Jerónimo Costa]

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POIS!... [estórias exemplares] -28-o sexo forte (7)

Como já estais a adivinhar, ontem, Sábado, fui às compras. Já vos habituei ao meu périplo pelas mercearias, frutarias, e outras locandas de bairro. Eis que entro na padaria, e que achais que estava em discussão “sobre a mesa”? A Educação, pois então! E em especial a avaliação! Agora qualquer bicho careto, com perdão para os bichos caretos verdadeiros, nos avalia
(o computador não reconhece a palavra bicho e propõe-me bicha! Também não reconhece o careto. Tanto pior: carrego no ignorar tudo e sigo adiante. No que estou tão-só a imitar a ministra e afins).
Mas, dizia eu, qualquer um nos avalia. Porque sim e mais que também, que agora é que eles vêem o que é bom para a tosse. No meio dos rotweillers assanhados, decerto PSs acérrimos, encontrava-se um dissidente. Congeminei: ou é da oposição, ou tem na família professores. Entrei na contenda, pois não sou mulher de fugir da luta, e gosto de esclarecer os desinformados. A bem ou a mal. Prefiro depois lamber as feridas ou bater em retirada estratégica se o esclarecimento se revelar inútil.

E foi o que aconteceu.

As palavras são como as cerejas. E as ideias também. A páginas tantas já se falava de Aulas de Substituição. Não tenho a certeza de ter sido eu a introduzir o tema. Mas dou de barato que sim.

Expus as minhas razões, e uma mãe, com todo o aspecto de mãe de família, retrucou agastada: E a mim que me importa que seja um Professor de Inglês que vá substituir um Professor de Educação Física?! Ele não vai dar uma aula, vai tomar conta do meu filho. E eu fico mais descansada.

Então sempre é isso. Afinal sempre é essa a filosofia das ditas. Onde terá ela aprendido? Com a Sr.ª Ministra e seus prosélitos é que não foi, com certeza!!

Achei que estava na hora da tal estratégica retirada e deixei a agastada a falar com o dissidente-defensor.

Ainda atirei antes de sair: eu não consinto que os meus alunos me tratem por você, já que a tão preocupada mãe usou esse tratamento, tão comum no Algarve. O meu despeito fez-me pensar: pois, para Tu poderes estar descansada à conversa no café, com as amigas. Fui, porventura, igualmente injusta.

Com o orgulho em frangalhos, porém não a dignidade, decidi ir de tarde, já com as compras devidamente acondicionadas, a um “evento” musical anunciado num desses outdoors tão solícitos quanto enganadores.

Ainda mal refeita da contenda, toda empinocada para a audição musical, música clássica estais a ver! Sim, que a um concerto de música clássica não se vai vestida como se vai às compras, eis que desaguo num Congresso com o predomínio do sexo forte.

No pouco tempo que lá estive, não creio que este venha a ter história, sequer estória, a menos que os objectivos dos participantes nada tenham a ver com a multiplicidade e complexidade dos da nossa avaliação. E receio estar a ser injusta, tanto ou mais do que é esta nossa avaliação.

E mais não digo, que nem isto era para dizer. E foi-me muito bem feita por ter trocado a apresentação de um livro no Pátio de Letras pela música. Ainda que clássica.

[Faro, 16 de Novembro. Porque ontem foi Sábado e eu também fui às compras]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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POIS!... [estórias exemplares] -27-o sexo forte (6)

ILUSÃO

Tu queres-me sempre alegre.
Um sorriso a despontar
A cada instante.
Porque foi assim que me criaste
Porque foi assim que me trouxeste
Das profundezas
Do tempo tão agreste
Em que nos conhecemos
Por acaso

[Gabriela Correia. Faro, Agosto 2001]
(Porque amanhã é Sábado e eu vou à Manifestação dos Professores deste país, indignados com esta política para a Educação)

escrito por Gabriela Correia, Faro

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POIS!... [estórias exemplares] -26-o sexo forte (5)

Hoje não é só Sábado. É Dia-de-Todos-os-Santos, como se sabe: sabem-no os crentes, os ateus e os agnósticos, creio! E até os alunos do 10º Ano.

Pelo menos os alunos duma turma, onde fui dar uma Aula de Substituição, em substituição, como o nome indica, de um colega que, farto de tudo, virou a mesa e pediu a reforma antecipada. Quem me dera!

Sem plano, sem rede, tive de me haver com os aprendentes de MACS. Não sabem o que isto é? “Atão”, é um “sucedâneo” da Matemática para alunos, como direi, mais avessos à dita. Como não sou da área
(e à Ministra que lhe importa?! Desde que a aulinha seja “dada”, no cumprimento da lei e para que os professores trabalhem realmente, as escolas que se amanhem…),
e dado o meu gosto pela Língua Portuguesa e pela História, lá consegui interessar uns 3, não mais, e mantê-los na sala ENTRE AS 11.55 E AS 13.25. Não tendo os ditos mais nenhuma aula nesse dia! Não puderam ir para casa, não fosse esta estar vazia e o papão bater à porta, disfarçado da/o filha/o da vizinha do lado e acabar tudo numa grande orgia. E a culpa seria minha, e só minha! Maginem.

Lembrei-me, a páginas tantas, e porque vinha a talhe de foice, de lhes perguntar sobre os gostos literários de cada um em particular. Ensino individualizado, pois então! Perguntei o que lhes era actualmente ministrado na disciplina de Português e acabámos a falar dos Lusíadas, do Vasco da Gama, e… dos Feriados Nacionais. Só sabiam o do dia 1 de Novembro. Hoje, portanto.

Como os meus Santos residem no meu coração, onde os guardo avaramente, e deles só resta “pó, cinza e nada”, tive de ir fazer pela vida, alimentando-me.

Ora, ao poisar o carro no sítio do costume, lá divisei um arrumador a fazer pela dele. Mas não era um arrumador qualquer. Este tinha educação e, quiçá, instrução. Porventura terá frequentado um dos Cursos das Novas Oportunidades. Deu-me amavelmente os bons-dias, aconselhou-me a observar as medidas de segurança antes de abandonar o veículo
(Caramba, um agente da PSP não teria feito melhor!),
prometeu reforçar a segurança do mesmo, dizendo que ia tomar muito bem conta dele, e só após este discurso, quando já me afastava do veículo, cumprindo à risca o que ele me aconselhara, é que ele atirou: “E então, não mereço uma moedinha?!”. Teve de certeza a disciplina de Psicologia Aplicada a elementos do chamado sexo fraco, de coração mole e maternal, temendo uma riscadela no veículo. Como não temo já nada, antes sou “temível”, segundo alguém, que não percebe nada de mulheres, sentenciou, fiz-me desentendida e surda, ignorei o apelo, e fui de rota batida em demanda do alimento existencial. Do outro bastam-me os decretos-lei desta equipa ministerial.

Na padaria, um homem de idade, pequeno e curvado, comprava três papossecos/moletes. Que raio de nomes! Entre um e outro, venha o diabo e escolha. Ou então o acordo ortográfico
[já sei, já sei, que este acordo nada tem a ver com o léxico. Estava a ser irónica e ignorante, a exemplo do Dr. Sousa Tavares, que percebe tanto de educação].
O meu coração empedernido para o jovem arrumador derreteu-se, confrangido, perante a ruína humana. Perante o que os anos deixam e o tempo consome!

Não pude evitar a lembrança de Manoel de Oliveira e a sua postura de Homus Erectus! Em todos os sentidos. E desejei ardentemente acabar os meus dias a fazer fitas. Das boas.

Das outras já nos chega a actual equipa ministerial.

[Faro, Sábado, dia de compras e de Todos os Santos].

escrito por Gabriela Correia, Faro

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POIS!... [estórias exemplares] -25-o sexo forte (4)

Hoje, como vós todos sabeis, muda a hora. Hoje, como quem diz! Será já amanhã, uma vez que a hora mudará às duas da madrugada. Mas às duas da madrugada não cantará um passarinho, antes um galo, se alguém beber mais do que a conta e se desequilibrar.

Pois, como ia dizendo, por este motivo da mudança de horário de Verão para horário de Inverno
(alguém antecipou o que se está a passar com as estações),
resolvi também mudar: não fui às compras!!

Confesso, não fui às compras, como é meu hábito; fui ao cabeleireiro! Pois nem só de pão vive o homem, que quereis vós? Tal como os campos mudam com as estações, assim os humanos com as cabeleireiras: de repente somos morenas e de cabelos escuros, ainda bem não, já nos transformámos em loiras, ruivas e de madeixas várias. 

E então lá vou eu ficar mais bonita sabendo que vou deixar o coiro e o cabelo; literalmente. Mas para se ficar mais bonita vale tudo. É ou não é? 

Neste reino da beleza encontra-se quem se quer e quem não se deseja. Para além de se ficar a saber das novidades. Em ambiente descontraído e de relaxamento, quando mal nos precatamos já abrimos o coração, desabafamos e contamos o que nos vai na alma. Na alma, em casa, na profissão. 

Como declarou a cabeleireira, ufana, ela tem muitas professoras na lista dos clientes. E de todos os graus de ensino. 

É verdade, encontrei lá mais três “vítimas” do que se passa actualmente nesta área. Uma delas estava mesmo com uma depressão, segundo afirmou, e aos 52 deu-lhe para odiar a profissão. A profissão não, o sítio onde a exerce. Incentivada pela minha solidariedade, muita solidariedade mesmo, vá de contar o que se passara um destes dias na sua escola do Ensino Básico: “Onde é muito pior, pode crer”! Acreditei sobremaneira, e sem esforço, ao ouvi-la contar a queixa levada directamente às altas esferas, ignorando as chefias intermédias, contra uma funcionária do refeitório por, alegadamente, ter puxado os cabelos a um pirralho que cuspiu no prato da sopa depois de esta já o ter admoestado em tom de conselheira mais velha e na qualidade de Auxiliar de Acção Educativa. 

Ficámos a matutar no que irá acontecer à funcionária. Já que ao pirralho nada aconteceu, nem um puxãozinho de orelhas por parte dos progenitores! Calma, estou a pensar metaforicamente.

E porque torna e porque deixa, eis senão quando entra um elemento masculino, profanando aquele gineceu tão alvoroçado de queixas, condenações e ruídos de secadores a todo o gás.

É certo que ele passou por nós como cão por vinha vindimada, estranhando porventura não se estar a falar de futebol, de gajas boas, e assim. E desapareceu no gabinete da esteticista. Mistério! Seria o marido? Apesar de ser muito mais velho do que ela!? Uns bons sessenta e alguns…

Que não, que não era o marido. Um cliente para o tratamento dos pés. “É que os homens estão a ficar tão vaidosos quanto as mulheres”.

E esta, hem?

Mas apelo a todos os homens deste país: não pintem o cabelo! É que ficam muito melhor com ele ao natural. Ainda que “vá muita neve na serra”!

[25 de Outubro. Porque hoje é Sábado e eu baldei-me às compras!]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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POIS!... [estórias exemplares] -25-o sexo forte (3)

Ontem amanheceu um céu azul e oiro! O que tornou a via-sacra das compras menos dever e mais prazer. O cafezinho da praxe, a frutaria, o mercado do peixe
(já quase deixei de comer carne),
o inevitável supermercado. Ah, e a padaria!

Regressei a casa, ajoujada. Não fora a ajuda do carro e não teria tido ânimo para transportar tanto quilo de compras. O que mais me “mete as costas para dentro” ainda é a arrumação de tudo o que compro. Até parece que tenho “uma casa de família”!! Nem já a gata me vem esperar à porta. Também se foi, vítima da doença dos humanos.

Na atrapalhação de abrir a porta de entrada, tarefa dificultada por falta de mãos e tralha a mais, nem reparava no par junto à floresta de carros estacionados. O que me chamou a atenção foi o som. De alguém a soluçar. Relanceei o olhar, pois pareceu-me reconhecer a vizinha de um dos andares cimeiros. E era mesmo: uma jovem esbelta, no início dos trinta, longos cabelos de um castanho claro, de roupas jovens e muito modernas a valorizar a silhueta. Que inveja! 

Ele aparentava ser jovem também, mas a postura era pouco recomendável e a roupa deixava algo a desejar. Ela, serena, de voz baixa, tão baixa que se tornava inaudível. E tal como a voz, mantinha-se no lado inferior do passeio. Ele alterado, muito gesticulante e suplicante, ocupava a parte superior. Mas esta posição não lhe concedia qualquer ascendente sobre a serena rapariga, tão posta em sossego. Pelo contrário. E acreditem, ou não, era ele quem soluçava, gesticulava, pedia encarecidamente. O quê, não sei! Abri a porta o mais rapidamente possível, dadas as circunstâncias, e subi a escada para o elevador perseguida pelos argumentos lamentativos dele. Já em casa ainda ouvi o som choroso que me entrava pela janela aberta.

Liguei o rádio na Antena 2 a fim de que a música clássica me apaziguasse o espírito. Tive pena dele. E eu não gosto de ter pena de ninguém. Não é um sentimento bonito que favoreça o visado.

Mas havia outras razões: é que eu já tinha passado por semelhante situação; humilhante para o suplicante. E não quis rememorar a cena. 

Não sei se o mendicante moderno foi atendido na sua súplica. O meu não foi. Ainda que por breves instantes o perdão me tivesse assomado ao espírito. Foi um momento fugaz que teria alterado o meu percurso de vida completamente. O que pesou na decisão longínqua, que afinal recordo, foi a estória, que a minha Mãe sempre contava, da irmã mais nova, de coração terno e idealista, a aceitar de volta o prevaricador que, como era de prever, voltava ao mesmo, esquecida que estava a jura e trejura de emenda. Ela morreu aos 25 anos num hospital do Estado Novo. Nunca se soube a causa. Eram mulheres, e fracas! Mas a minha Avó cortou relações com o prevaricador, e proclamava aos quatro ventos que fora ele o autor moral da morte da filha dilecta.

E eu a pensar que o meu dia de compras não ia ter história!...

[Faro, 19 de Outubro. Porque ontem foi Sábado e cumpri o ritual das compras]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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POIS!... [estórias exemplares] -24-o sexo forte (2)

Porque hoje é Sábado e fui às compras numa manhã sombria e de chuva tem-te não caias, entrei num café, a ganhar ânimo para a visita às capelinhas do consumo de bens de primeira necessidade.

Estava eu posta em sossego, fruindo do remanso e gozando o doce fruito do cafezinho, quando vejo, sem ver, entrar uma conhecida minha que já não via há bué
(o meu computador não reconhece, ainda, a palavra! 'tá mal; é melhor eu inscrevê-lo já numa acção de formação do Ministério da Educação, ou trocá-lo pelo Magalhães, está visto).
As compras têm destas coisas, encontramos quem menos se espera.

Pois é verdade, lá estava ela já a perguntar pela família, neste caso mono-parental, e eu a retribuir e a perguntar pela dela, família alargada e heterossexual. E foi aí que eu soube que a saúde não andava nos seus melhores dias. Tal como a família! A bomba rebentou logo ali, ainda mal tinha tomado assento: afinal, o número de netos tinha diminuído em pouco tempo. Não por morte, felizmente, das crianças, mas em virtude das voltas da Vida e dos seus muitos mistérios insondáveis, apenas ultrapassáveis à custa de forças que vamos buscar “não sei onde”.

Foi o caso que um dia ela se deitou a pensar em todos os netos que Deus lhe tinha concedido a graça de ver crescer, e a quem tinha mimado e oferecido presentes, que só as Avós sabem desencantar, estragando as crianças à porfia
(estou deserta por estragar também os meus).
No dia seguinte já não eram dela. Eram “de uma outra qualquer, que ela nem conhecia”, pois a nora resolveu seguir para outros destinos, assaz longínquos, o verdadeiro pai dos seus filhos. Ficando o pai, que afinal não era o pai, e o resto da família, desasados e receosos dos olhares e comentários malévolos dos vizinhos e conhecidos.

Ele há coisas! À laia de consolo, adiantei: foi melhor assim. Reforçando–o com a assumpção do triunfo da verdade sobre a mentira de um casamento de fachada. E apreço pela coragem da nora, vamos lá…

– Pois, suspirou. E fomos às compras que se fazia tarde para o almoço.

E digam-me lá se não tem razão quem afirmou que “a Vida nos prega partidas”, e quem declarou que “a realidade transcende a ficção”.

[Faro, 11 de Outubro. Porque hoje é Sábado, e eu fui às compras!]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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POIS!... [estórias exemplares] -23-o sexo forte

Fui surpreendida pela voz ainda jovem da mulher ao meu lado. Saco de compras na mão, afirmou perante o sorriso condescendente e divertido dos circundantes:

– Tenho 87 anos e nunca estive doente. Nunca usei nada na cara, a não ser batom!

E era verdade. Lá estava o tom vermelho a atestar a garridice. O vestido de manga cava traía-lhe a idade, mas a ela não se lhe dava...

– E casou com um homem mais novo 13 anos! – revelou a menina da caixa; uma gordinha que, se os médicos não estiverem enganados, não chegará àquela idade. – E olhe que agora não se nota nada, pelo contrário.

Amaldiçoei logo ali a decisão, tomada há anos, de não juntar as minhas às idiossincrasias de alguém com onze anos menos! Coisas do destino?

Depois ela declinou a morada em Faro, e a outra em Lisboa, desejou felicidades a todos e saiu. Não antes de ter afirmado que “o marido não me serve de nada”.

Saí com ela e, com efeito, lá estava ele à espera. Pacientemente à espera, com o carrinho das compras por companhia. Ela interpelou-o e virando-se para mim disse:

– Tenho um marido que não me serve para nada. Não vamos a lado nenhum. Só quer estar em casa. Vai cá ficar tudo para os outros.

Os outros seriam uma filha que disse ter
(a meu ver, sem grande entusiasmo).
Provavelmente um genro gastador daquilo que amealharam, e netos mimados. Ainda tentei dar algum préstimo ao marido, que olhava, alheado, quem passava, referindo a ajuda no transporte das compras.

– Ora …, disse ela.

E lá abalaram. Ela de rosto ainda bonito, com a marca do batom a destacar-se, e ele sem marca que o iluminasse. Ela ostentando duas ou três jóias que trazia. Quiçá um pouco descabidas naquele contexto. Por falta de ocasião, ou actividade mais nobre (?) a justificá-las.

[Faro, 04 de Outubro de 2008. Porque hoje é Sábado e dia de compras].

escrito por Gabriela Correia, Faro

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POIS!... [estórias exemplares] -22-estoicismo

-- O problema -- rematou ela -- é que não se vive como se quer. Vive-se como se pode.

Abanei negativamente a cabeça.

-- Não, minha cara. Vive-se como se quer, desde que se queira (viver) como se pode.

-- Pois é... mas, então, reduzes os teus desejos às tuas possibilidades.

-- Só às vezes -- concluí. -- Porque, outras vezes, queremos menos do que podemos.

escrito por ai.valhamedeus

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estórias da carochinha * 4. A FIGURA (cont.)

[leia o capítulo anterior, se é necessário avivar a memória...]

--Ah! A história!

Eu sei de muitas estórias. A minha vida é uma história pegada.

Ignorei o chavão.

As palavras são como um biombo, escondem atrás verdades poucas vezes confessadas. Porventura inconfessáveis. Para que o mundo, sobretudo o nosso, não tombe. O mal não está nas palavras; o mal, se mal existe, está em quem as usa, as escolhe. É como com as armas: inofensivas nas mãos de alguns; mortíferas, de destruição maciça, nas de outros.

“O silêncio é de oiro”, “o calado é o melhor”, repetia-lhe a Avó, num aviso guardado no fundo da memória. Bem no fundo, com toda a certeza, visto ela privilegiar o diálogo, a clarificação das situações, até não restar nada do lodo do equívoco. Tão-só a superfície clara da verdade. Tão clara e límpida como os seus olhos, que alguém já classificara de claros, não na cor, e profundos. Madrigal inconsequente, como todos os madrigais soltos na emoção do momento; na clara ilusão da alma descuidada.

Desviou-os então de onde os pensamentos lhos haviam levado, fixando-o. À espera.

Ele captou a seriedade, o interesse quase impositivo, e algo no rosto dela lhe deu a certeza de que se não começasse a sua versão da estória, nunca mais iria ter a oportunidade de a contar.

De pé, a uma certa distância, de respeito profissional pelos clientes, bandeja descansando debaixo do braço, os olhos ora no horizonte da tarde quase perfeita, ora na minha mesa, principiou:

-- As pessoas cruzam-se todos os dias sem se verem; cada uma no seu rumo, na sua labuta ou ócio, os pensamentos sabe Deus onde, e não se imagina o que cada um carrega consigo. Ai, ai, este homem afinal é um filósofo! Veja, você! As pessoas olham sem ver. Viram a cabeça, sorriem ou riem-se sem pejo dessa que passou aí, há pouco. Pensam que é mais uma maluca, uma drogada! Mas não é bem assim. Eu é que sei o que se passou.

Suspendeu a narrativa, voltou o olhar triste e solidário para ela, que o recebeu sem desviar o seu, e suspirou. Não havia sinais de raiva na sua saudade ou lembranças; antes um lastro de melancolia e uma auréola de poesia.

E pareceu-lhe a ela que aquele suspiro continha toda a mágoa, todos os cadilhos de uma vida incompleta.

[continua]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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estórias da carochinha * 3. A FIGURA (cont.)

[leia o capítulo anterior, se é necessário avivar a memória...]

Com expressão vazia olhou o mar, os barcos, o pombo que, sem cerimónias, entrou afoito, a fazer pela vida, esperando encontrar umas migalhas, marcando o território. O empregado foi buscar de imediato material de limpeza e, encolhendo os ombros, murmurou mais para si do que para os presentes: “é todos os dias isto!”.

O sol ia-se retirando, por entre vermelho e púrpura, mas os últimos raios ainda doiravam as mesas e cadeiras já vazias de conversas. A dona dos cães levantou-se, autoritária, e eles seguiram-na ensarilhando-se na trela, na afanosa conquista de um lugar mais perto dos afectos, junto às pernas dela.

Por falta de quórum o bulício foi-se aquietando e, mais livre, ele foi-se chegando e atirou, sem aviso:

-- Sabe, tenho reparado em si! Anda sempre com uns papelinhos, uns cadernitos, e escreve, escreve. Não é bem verdade, também leio, pensou ela pouco à vontade. E fico muitas vezes a olhar para lado nenhum. Se lhe perguntassem o que é que olhava tão fixamente, não saberia dizer. Querem lá ver que este homem é um observador! Lembrou-se, então, daquelas frases idiotas do tipo: ”sorria, está a ser filmado.” E dos conselhos dos optimistas que pululam nos mails: “Não te esqueças de sorrir, alguém pode estar apaixonado pelo teu sorriso”. Pois!

Mas já ele insistia na atenção dela:

-- Quando era miúdo, gostava muito da escola. Ainda sei de cor versos que aprendi na altura… Quer ouvir? E tinha escolha? “Com que então caiu na asneira / de fazer na 5ª feira 26 anos/ que tolo! …” E recitou, sem enganos, até ao fim, os conhecidos versos de João de Deus, que uma senhora da alta burguesia de Coimbra lhe solicitava, sem êxito, para os anos da filha. Segundo parece, o interesse era outro; casar a filha que, naquele tempo, com aquela idade, corria sérios riscos de ficar solteirona. Encalhada, como se diz neste tempo, com aleivosa maldade. Encalhado estava também o poeta, no seu Curso de Direito que decorria há quase 10 anos! A sua “Guerra de Tróia”, como jocosamente ele lhe chamava. Por fim, cansado da insistência da dama, lá lhe saíram aqueles versos. Que isto de poesia, não é por encomenda. O que é que ela julgava?!...

-- Olhe, eu podia ter avançado mais nos estudos se os meus pais tivessem posses e não fôssemos tantos. Mas tive de começar a trabalhar… Não é como agora, os pais dão tudo aos filhos e depois queixam-se. Ele é telemóveis, computadores, play-não-sei-das-quantas, … Ora bem, temos aqui um observador; e um moralista. Mas, e a história?...

[continua]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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estórias da carochinha * 2. A FIGURA (cont.)

[leia o capítulo anterior, se é necessário avivar a memória...]
Não sabia.

-- Você não é daqui, pois não?

Olhou-o, a surpresa perante tão inopinada pergunta a reflectir-se no rosto que, alguém já lhe tinha dito, revelava sempre o que estava a pensar. Era tão transparente! Nunca conseguiria pôr-se na pele do patriarca da família Corleone, aconselhando o filho a nunca mostrar nas palavras, gesto ou mínimo trejeito que fosse, o que lhe ia no íntimo.

Não, não era dali.

Afinal era de onde? Sentia-se amiúde uma estrangeira no próprio país; como os negros no país de Martin Luther King forçados a utilizar a porta das traseiras; como o D. Sancho que regressara ao seu primevo lugar, segundo os cronistas da cidade, meio escondido no lado esquerdo das escadarias dos noivos de Agosto, as vetustas pedras da Catedral, lavadas de fresco, a servirem de pano de fundo às suas costas de povoador. A impressão de não pertencer a lugar algum, a tristeza de foragida, de eterna turista em busca de um lugar a que chamasse seu.

-- É que a vi tão interessada na figura…, tornava ele. Se quiser, conto-lhe a história.

Vamos lá então ouvi-la, e acomodou-se, atenta, tirando definitivamente os fones dos ouvidos.
Mas antes de poder começar a narrativa, já ele era solicitado por novos convivas do sol da esplanada: Olhe, faz favor!

E lá foi ele apressado, no seu ganha-pão diário, deixando-me expectante e, agora sim, muito interessada na figura, que já se tinha ido, desaparecendo na dobra da rua.

[continua]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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estórias da carochinha * 1. A FIGURA

As palavras lançadas para o ar da tarde buliçosa chegaram-me antes da figura.

Chegaram-me amortecidas pelos fones, a separar-me do bulício apetecível, humanizando a música nos meus ouvidos. Literalmente. Ou talvez fosse o contrário.

Só depois me chegou a figura. A figura que lançava as palavras como pedras, acompanhadas de gestos de tribuno perante audiência distraída. Ou maestro pondo na ordem os desmandos e desmandados amadores da partitura.

Seja como for, era uma figura ainda jovem, de estatura um tudo-nada acima da mediana, a atirar para o gordo. Nem bem, nem mal vestida. Sem destino definido. A oratória sem nexo, ou talvez fazendo muito sentido; pelo menos para ela.

Os utentes do sol da esplanada olharam-na, mais por via do som das palavras do que por verdadeiro interesse.

Tirei os fones dos ouvidos e atentei mais nas palavras do que na figura.

Foi então que o vi. Primeiro reparei no denodo com que, orgulhoso, passava fintando as mesas, erguendo bem alto a bandeja, qual facho ou troféu olímpico. Depois vi o sorriso, que não soube interpretar. Simpatia postiça, domínio sobranceiro, ou timidez disfarçada?

Ao nível do chão três cães brancos, felpudos, lindos, descansavam aos pés da dona que segurava na trela com autoridade e sem margem para dúvidas.

Aproximou-se de mim e indicando a figura sobressaltou-me com a pergunta:

-- Sabe quem é?

[continua]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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