A música de Kandinsky – Os domínios da arte
Do Cântico Final de Vergílio Ferreira, retirei este pequeno trecho: “Mário [pintor], como quase todos os artistas, praticava o desconhecimento de todas as formas de arte além da sua. Admitia mesmo, vagamente, que a música era uma arte que vivia perto do passatempo [...] Havia as artes Fortes e as artes Débeis. As Fortes eram apenas as plásticas e a literatura”.
Mário repetia-o com muita frequência e, um dia, disse-o num grupo onde estava Paula, que era pianista. Ela ouviu-o com um certo desdém e rematou a conversa num tom piedoso com um “você não sabe música.” A visão de Mário era, naturalmente, preconceituosa e, sobretudo, como dizia Paula, não sabia música.
Kandinsky, contudo, o pintor do abstracto que identificava nas cores e nas formas simples — o ponto, a linha ou o plano — temperaturas, movimentos e sensações capazes de desencadear emoções próprias, dizia que a música era a arte pura, porque não estava sujeita aos limites da realidade. Era verdade!
Os sons vão directos à alma e tocam-na de forma imediata, provocando todas as sensações e emoções. E o segredo de toda a obra de arte está nas emoções que consegue induzir. A realidade — que nos prende o quotidiano —, neste sentido, é como se nos fechasse numa gaiola que nos dificulta o caminho para este (sublime) segredo da obra de arte.
Explicava o pintor como as cores e as formas podem combinar-se como se fossem sons de uma peça musical, transmitindo-nos as mesmas variações e os mesmos andamentos. Com esta ideia, ele sonhava encontrar a harmonia absoluta, completamente emancipada das referências da natureza e concebida como pura emanação do espírito do artista; que, aliás, pode ser revivida, em cada instante, por quem desfruta da obra de arte.
Deu muitas explicações sobre essa sua visão. Explicações que só podem ser compreendidas se conseguirmos soltar-nos do mundo real e mergulhar num regime nocturno da imagem, uma visão onírica — se quisermos — em que todas as formas se dissolvem em ternura, agitação e sensualidade.
Quando isso é possível, o resultado é sublime. Acontece quando é a obra que nos leva pela mão, no caminho delineado pelo artista, mas é melhor ainda quando conseguimos sair desse caminho e voar, ver mais além, alcançar outros espaços e um mundo sem tempo.
Experimentem — por exemplo — olhar demoradamente para o quadro de Kandinsky aqui reproduzido (coloquem-no em tamanho grande), enquanto ouvem uma serenata de Mozart ou um nocturno de Chopin… Pode ser o que mais vos inspire e agrade.
Imaginem agora que os azuis e os amarelos se misturam e separam, em sucessivos tons de verde, mais claros e mais escuros; que os amarelos se encontram com os encarnados e tomam a cor de fogo do sol poente; ou que, progressivamente, deixam entrar mais azuis de todos os tons e vão morrendo em crepúsculos suaves.
Mas continuem a ouvir a música, como se ela viesse da tela. Verão agora todas as formas em movimento, para a esquerda e para a direita, como uma dança, emitindo raios de luz na neblina, que se vão apagando como o crepúsculo, de onde emerge uma lua de Cesário Verde.
Repararão que há sons que brotam da terra e podem ver que há corpos com braços longos, lábios vermelhos e olhos que olham com ternura. São corpos que se abraçam e beijam com saudade ou com amor… É a harmonia perfeita.
Mas tudo dependerá dos vossos olhos e do vosso coração....
Eu creio que é por causa disto — pela necessidade destas sensações — que existe a Arte, sem a qual a vida das pessoas seria sempre contingente e agónica... Inconscientemente agónica. Não o desperdicemos!...



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