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OLHAR COM ALMA - 5 [A música de Kandinsky ]

A música de Kandinsky – Os domínios da arte

Do Cântico Final de Vergílio Ferreira, retirei este pequeno trecho: “Mário [pintor], como quase todos os artistas, praticava o desconhecimento de todas as formas de arte além da sua. Admitia mesmo, vagamente, que a música era uma arte que vivia perto do passatempo [...] Havia as artes Fortes e as artes Débeis. As Fortes eram apenas as plásticas e a literatura”.

Mário repetia-o com muita frequência e, um dia, disse-o num grupo onde estava Paula, que era pianista. Ela ouviu-o com um certo desdém e rematou a conversa num tom piedoso com um “você não sabe música.” A visão de Mário era, naturalmente, preconceituosa e, sobretudo, como dizia Paula, não sabia música.

Kandinsky, contudo, o pintor do abstracto que identificava nas cores e nas formas simples — o ponto, a linha ou o plano — temperaturas, movimentos e sensações capazes de desencadear emoções próprias, dizia que a música era a arte pura, porque não estava sujeita aos limites da realidade. Era verdade!

Os sons vão directos à alma e tocam-na de forma imediata, provocando todas as sensações e emoções. E o segredo de toda a obra de arte está nas emoções que consegue induzir. A realidade — que nos prende o quotidiano —, neste sentido, é como se nos fechasse numa gaiola que nos dificulta o caminho para este (sublime) segredo da obra de arte.

Explicava o pintor como as cores e as formas podem combinar-se como se fossem sons de uma peça musical, transmitindo-nos as mesmas variações e os mesmos andamentos. Com esta ideia, ele sonhava encontrar a harmonia absoluta, completamente emancipada das referências da natureza e concebida como pura emanação do espírito do artista; que, aliás, pode ser revivida, em cada instante, por quem desfruta da obra de arte.

Deu muitas explicações sobre essa sua visão. Explicações que só podem ser compreendidas se conseguirmos soltar-nos do mundo real e mergulhar num regime nocturno da imagem, uma visão onírica — se quisermos — em que todas as formas se dissolvem em ternura, agitação e sensualidade.

Quando isso é possível, o resultado é sublime. Acontece quando é a obra que nos leva pela mão, no caminho delineado pelo artista, mas é melhor ainda quando conseguimos sair desse caminho e voar, ver mais além, alcançar outros espaços e um mundo sem tempo.

Experimentem — por exemplo — olhar demoradamente para o quadro de Kandinsky aqui reproduzido (coloquem-no em tamanho grande), enquanto ouvem uma serenata de Mozart ou um nocturno de Chopin… Pode ser o que mais vos inspire e agrade.

Imaginem agora que os azuis e os amarelos se misturam e separam, em sucessivos tons de verde, mais claros e mais escuros; que os amarelos se encontram com os encarnados e tomam a cor de fogo do sol poente; ou que, progressivamente, deixam entrar mais azuis de todos os tons e vão morrendo em crepúsculos suaves.

Mas continuem a ouvir a música, como se ela viesse da tela. Verão agora todas as formas em movimento, para a esquerda e para a direita, como uma dança, emitindo raios de luz na neblina, que se vão apagando como o crepúsculo, de onde emerge uma lua de Cesário Verde.

Repararão que há sons que brotam da terra e podem ver que há corpos com braços longos, lábios vermelhos e olhos que olham com ternura. São corpos que se abraçam e beijam com saudade ou com amor… É a harmonia perfeita. 

Mas tudo dependerá dos vossos olhos e do vosso coração.... 

Eu creio que é por causa disto — pela necessidade destas sensações — que existe a Arte, sem a qual a vida das pessoas seria sempre contingente e agónica... Inconscientemente agónica. Não o desperdicemos!...

escrito por Jorge Matos

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OLHAR COM ALMA - 4 [Riomaggiori ]

Riomaggiori 
(Telemaco Signorini)

… com os olhos postos no mar

Herdei de um grande amigo e professor uma área de estudo que nunca mais deixará de ser a minha paixão. Refiro-me à História Marítima.

É bem verdade que tudo começou com a História dos Descobrimentos, numa época em que o seu estudo era generalizado e muito popular. Entrei trazendo comigo o conhecimento da náutica, da navegação e da vela. Sobretudo a vela.

Com a ajuda desse meu professor e amigo, fui descobrindo que História Marítima não era a mesma coisa que História dos Descobrimentos. Na sua definição as coisas são claras, mas muito secas. As definições simplificam demasiado e nem sempre facilitam a compreensão. Vejamos, então: História Marítima é toda a história da utilização do mar pelos seres humanos, ao longo do tempo.

Evidentemente que os conceitos não se confundem, mas, no ambiente académico português, não é nada fácil descolar uma coisa da outra, e o efeito é desastroso, porque a História dos Descobrimentos tem muitos estigmas e feridas no seu corpo. Em primeiro lugar foi instrumento de um certo tipo de nacionalismo português que ainda hoje vai e vem, em ondas de matizes diversos. É verdade. Apesar do esforço de alguns historiadores honestos ele volta sempre carregado de palavras que são como armas de arremesso e propaganda. Quase todos eles muito deslocados da História em si.

Para além disso, os estudantes (se calhar o público em geral) cansou-se da História dos Descobrimentos. Não lhe apetece voltar a discutir o Infante D. Henrique, a Viagem de Vasco da Gama, ou as conquistas de Afonso de Albuquerque. Assuntos aliás, sobre os quais se tem reflectido pouco e papagueado muito, transformando os discursos em melopeias fastidiosas.
 
A História Marítima está muito para além disso.

Olhemos, pois, para este quadro de Telémaco Signorini onde se vê a aldeia de Riomaggiori, na costa da Ligúria, um pouco a leste de Génova. Quando a vejo, assim, como a pintou Signorini, com este amontoado de casas que formam uma arriba sobre o mar, não consigo deixar de imaginar uma vida marítima. Penso em gente que se habituou ao cheiro da maresia, que acorda com o ruído das ondas, que tem nos lábios um sabor intenso a sal e a pele enrugada pelo vento.

Lembro-me de como a Europa foi transportada às costas de Zeus (touro) pelo mar, até Creta, onde teve a sua descendência. Sim, a Europa foi roubada à Ásia e transportada para o mar a quem passou a pertencer. Mas a minha imaginação não pára por aí e continua para outras histórias, tão fantásticas como aquelas que os gregos contaram sobre os seus deuses mediterrânicos. Continuo a olhar para quadro, mas os meus olhos vão mais além e agora vêem embarcações que passam e lenços que acenam das janelas.

Deixo-me entrar numa hora marítima, que não é igual à de Álvaro Campos.
 
Vejo velas desfraldadas, oiço apitos dos contramestres, vejo mulheres sentadas na areia, apoiadas num cesto vazio. Há um cais apinhado de emigrantes, há gente que chega e que parte, há tudo… Há poetas que cantam um amor perdido ou achado, há sereias, há ciclopes, galés que mostram o esporão ameaçador, há um cruzador alemão com um mastro onde sobem e descem bandeiras de sinais, há marinheiros franceses com o seu pom-pom rouge…

Devagarinho, volto para a praia de Riomaggiori. Desembarco de um escaler e vou subindo os degraus, procuro amores, procuro a vida… Ter-me-ei cansado de partir?... 

Sim, cansei-me!... Agora quero chegar, quero voltar, quero regressar e continuar a ser. Vou escrever histórias de marinheiros. Vou contar-vos dos vendavais terríveis, com ondas que tapavam a lua. Vou dizer-vos que há frios que nos deixam gelados, por dentro e por fora. Que há fogos de San’Telmo que rugem ao meio dia. Que há saudades que nunca acabam… Vou contar-vos tudo e muito mais, porque assim mesmo são os marinheiros de todo o mundo.

Mas antes vou subir pelo varadouro e procurar o caminho de uma janela, onde possa ficar a olhar para o mar. Só mais um pouco… um bocadinho… Espera por mim!... Não, não esperes por mim. Vem até aqui à janela, abraça-me e olha comigo para o mar. Não digas nada. Riomaggiori é eterno e pode esperar.

Estão a ver o que é a História Marítima?... Não, não é o mesmo que História dos Descobrimentos.
 
escrito por Jorge Matos

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OLHAR COM ALMA - 3 [On The Stile]

On The Stile (no degrau)
(Winslow Homer - 1836-1910)

Winslow Homer (1836-1910) foi um artista norte-americano, nascido em Boston, no seio de uma família tradicional da Nova Inglaterra. Era ainda muito novo quando os seus pais se mudaram para uma aldeia rural, na região de Cambridge (Massachusetts), onde foi uma criança feliz, que começou a desenhar muito cedo, encorajado (provavelmente) pela mãe, que era pintora.

A sua vida esteve sempre ligada às artes gráficas, trabalhando como desenhador e gravador, até conseguir montar o seu próprio atelier, onde produziu excelentes trabalhos usando, sobretudo, a aguarela e o óleo. Aliás foi na aguarela que (a meu ver) mais se distinguiu, com muitos temas ligados ao mar, à vida marítima. Mas, como quase todos os artistas, foi obrigado a partilhar o seu talento (e a formação técnica) com o trabalho gráfico e o desenho para jornais e revistas que lhe pagavam. Foi na condição de desenhador do jornal Harper’s Weekly que acompanhou uma parte da Guerra Civil Americana, deslocado na frente de batalha. 

Mas também teve ocasião de viajar pela Europa, nomeadamente pela Grã-Bretanha e França, onde contactou com as mais importantes correntes estéticas que fervilhavam no Velho Continente. Uma vida muito rica, com experiências muito intensas, mas nada disso lhe apagou uma fixação pela natureza, adquirida na infância. Não fosse a riqueza da sua paleta cromática, marcada por cores vivas e intensos contrastes, e diríamos que era no naturalismo ou no realismo que tinha encontrado a sua referência estética. Talvez o tenham colocado numa dessas gavetas.

Mas eu olho para este quadro, pintado em 1878 (The Houghton Farm, New York), e os seus coloridos fazem-me lembrar as obras de Édouard Manet, encontrando muitos traços próprios do mundo artístico europeu da segunda metade do século XIX. Mas não foram estes os factores que me prenderam na observação desta aguarela, nem é para aí que quero levar o meu olhar. Para além do adágio das cores, olhar para este quadro foi como uma visão dos tempos atrás de tempos que são sempre tempos de ternura. 

A pintura é para ser observada com um olhar demorado, até que ela nos leve ao seu próprio mundo. E quando dele nos aproximamos, os detalhes devem ser degustados devagarinho, como se se tratasse de um licor. As sensações colhidas pelo olhar são bebericadas suavemente, fazendo-nos entrar, a pouco e pouco, na poesia da obra, até a vivermos como um sonho nosso, cada vez mais delicioso.

E assim aconteceu com este quadro, a que Winslow Homer chamou On The Stile (no degrau). Sim, o que vejo é uma pequena escada que dois jovens usam para passar de uma lado para o outro de um limite… de um limite… mas, a partir daí, o olhar foi deambulando pela história, deixando os grilos cantar, deixando-nos adivinhar as sombras do Parnaso onde descansam todos os amores eternos, como os meus. E veio a brisa da tarde nos campos de mirtilos trazendo o murmúrio de um riacho, um cheiro de alecrim, um sol que acena a sua despedida, uma neblina que anuncia a sua chegada, uma hora de emoções a haver… Vão-se calando os grilos.

Este quadro foi pintado numa quinta, no interior do estado de Nova Iorque, mas traz todas as recordações dos campos da infância do pintor. Uma nostalgia que veio como uma carícia do tempo, para nos lembrar que houve tempos em que não havia tempo e as horas não passavam. Quando as mãos se entrelaçavam e os pés podiam mergulhar-se na frescura da água que rega, apenas para sentir o sabor da terra, ouvir vento, o sol, o cair da tarde… Era isso o amor.

escrito por Jorge Matos 

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OLHAR COM ALMA - 2 [el ciego de Toledo]


El Ciego de Toledo
(Joaquín Sorolla y Bastida - 1863-1923)

Há mais de trinta anos que não vou a Toledo, mas (se a minha memória não me atraiçoa) suponho que esta é a Ponte de Alcântara, que dava entrada na cidade, para quem vinha de Madrid.

Mas esta é uma pintura de Joaquín Sorolla e muito mais há para ver, para além da Ponte de Alcântara e do homem cego que segue devagar, apalpando o caminho que segue ao longo do rio Tejo e circunda a cidade. Sim, este rio que aqui vemos é o nosso Tejo. O mesmo que ilumina os campos de Santarém e veio fazer a cidade de Lisboa, mesmo à beira do Atlântico.

Mas toda a obra de arte é um convite para o sonho e o meu olhar quer ver mais do que o rio, as casas e as figuras... Quero lembrar-me de Toledo e dos tempos em que a tomou Afonso VI, o avô de Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal. 

Eram tempos duros, esses que foram vividos entre os séculos XI e XII. Foram os tempos em que Toledo era um pequeno reino islâmico (uma taifa), aliado de Leão e Castela, até ser pacificamente ocupado pelos cristãos.

Afonso VI foi um rei muito curioso. Era um dos três filhos de Fernando Magno, herdeiros de um império que deveria ser dividido pelos irmãos, Sanches, Garcia e Afonso, como era a tradição visigótica.

Sanches de Castela era, talvez, o mais forte deles. Aquele que conseguiu derrotar e prender o irmão Garcia, da Galiza, para depois vir a ser assassinado (provavelmente) num conluio preparado por Afonso. Não era invulgar que assim fossem delineados os jogos de poder na Europa Medieval, e foi assim mesmo que o avô de Afonso Henriques se fez Imperador das Hespanhas.

Casou cerca (?) de seis vezes – uma delas com uma princesa muçulmana, filha (ou nora) de Al-Mutamide – mas não lhe sobreviveu nenhum filho varão. O herdeiro nascido desta princesa moura morreu na batalha de Zalaca.

Mas, se vos falo de tudo isto, é melhor me recordar de Toledo, cidade onde senti todo o peso de Castela, da vida na Meseta Ibérica, da forma como a natureza ali se impôs aos homens e delineou o seu carácter. Como se forjaram figuras como Afonso VI, Afonso Henriques e muitos outros. Gente muito dura e, simultaneamente, muito trágica sentindo intensamente o equilíbrio precário entre a vida e a morte.

Assim cresceu a minha visão deste quadro de Sorolla. À medida que olhava este Cego de Toledo, com o seu chapéu de aba larga, o cajado que são os seus olhos e a pesada capa de burel, ia imaginando toda esta história antiga vivida por perto daquelas montanhas e daquele rio.

Caminha inseguro, o Cego, mas leva consigo a memória das pedras, dos regueiros, dos muros, de tudo o que o pode fazer tropeçar ou cair. E vai tacteando… enquanto segue o seu caminho e ouvindo o marulhar do rio.

Há uma tradição cristã diz que a cegueira é um castigo de Deus. Mas outras lendas do Mediterrâneo – o mar que tudo sabe e onde tudo se aprende – dizem que não é assim. O cego é aquele que ignora as aparências enganosas do mundo, para poder aceder às suas realidades secretas, profundas, interditas a todos os outros e que só ele pode ver.

Todas as tradições têm uma razão de ser e, talvez, que as duas estejam certas. Os nossos tempos são de excesso de visualismo – na televisão, no computador, no telemóvel – e isso cria apenas impressões rápidas, que não conseguem chegar ao cérebro para se fazerem em ideias. Tudo são flashes que gritam na forma de memes,  podcasts, tic-tocs... 

Pensando em tudo isto, volto ao Cego de Toledo. Ali vai ele, prosseguindo o seu caminho. Talvez não procure nada. Talvez só queira que não lhe façam mal, que não se aproveitem da cegueira dos seus olhos e o deixem continuar com o que lhe vão dizendo os outros sentidos… e o seu cajado.

Olhemos agora para todo o quadro, para a Ponte de Alcântara com o peso de dez séculos,  para os campos de Toledo, para o Tejo, para o festival de luz e cor, tão típico de Sorolla, que eu imagino ser de um final de tarde – porque eu gosto do final da tarde.

escrito por Jorge Matos

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OLHAR COM ALMA - 1 [a ronda da noite]

A Ronda da Noite (1662)
 
Quase se dispensava a indicação do artista e a designação da obra, de tão conhecidos e adorados que são pelos apreciadores e pelos turistas da arte. Todos sabem quem foi Rembrandt (Rembrandt van Rijn - 1606-1669) e o que é a Ronda da Noite.
 
Na verdade, este título só lhe foi dado no século XVIII, em parte porque o quadro estava muito oxidado e tinha escurecido, dando a ideia de uma cena nocturna, e, provavelmente, porque a designação que lhe estava atribuída era demasiado longa.
 

Retrato da companhia do capitão Frans Banning Cocq e do tenente William van Ruytenburgh

Um título que também não foi dado por Rembrandt e que, além do mais, não era suficientemente inclusivo. O quadro envolve aspectos e leituras mais profundas que não cabiam na ideia simples de um retrato de uma companhia de infantaria no século XVII.
 
Mas chamemos-lhe apenas Ronda da Noite, por comodidade e uso comum, notando, apesar de tudo, que os recentes estudos sobre a tela (depois de uma limpeza) mostraram bem que não se tratava de uma cena nocturna, mas de algo que ocorria sob um sol luminoso.

Mas é assim que é conhecido e é prático que assim o designemos.
 
Não pode é deixar de se realçar que é, sobretudo, um retrato. Um retrato com duas figuras proeminentes, mas bastante disruptivo do conceito tradicional de retrato, onde os retratados tinham uma postura própria. Assumiam o chamamos de uma pose condizente com  a sua importância e as funções que desempenhavam.
 
Este é o retrato de uma acção, ao qual o pintor retirou essas formalidades para lhe dar movimento. E essa é a grande novidade desta obra magistral de Rembrandt: o ter conseguido retratar uma companhia de infantaria, quando se preparava para a acção, com toda a espontaneidade desse momento.
 
Algo que não se repetiria tão cedo na pintura europeia e tampouco na flamenga.
 
Em tempos vi um filme (não me recordo de nenhuma referência dele) sobre Rembrandt, onde se falava deste quadro. E lembro-me de uma cena em que os dois personagens centrais se deslocaram à oficina do pintor para este recolher a sua imagem.
 
Naturalmente que se colocaram assumindo a postura formal, muito direitos, com a cabeça bem levantada, as armas ao alto e o bastão bem visível. Rembrandt disse-lhes que não era isso que queria e começou a conversar com eles, tentando quebrar aquela pose de gelo.
 
Provocou-os de tal forma que o tenente Ruytenburgh deu um passo em frente, agarrando o espontão tal como se vê no quadro. Rembrandt mandou-o parar, olhou-o com atenção e disse-lhe que era assim que o queria pintar – em acção, como faz quando se prepara para o serviço de guarda e não da forma estática como se tinha colocado antes.
 
O artista queria realçar um conjunto de coisas que saíam do tradicionalismo (não lhe chamo clássico porque tenho muito respeito por essa palavra), quer do retrato formal, quer da representação de cenas militares.
 
A companhia do capitão Banning Cocq era a força militar de Amsterdão e o garante da sua segurança e independência. A independência de uma sociedade dominada por uma próspera burguesia comercial e não pela nobreza tradicional, como sucedia na maior parte da Europa de então.
 
É isso que eu leio no quadro: uma nova forma de retrato de duas personagens centrais – que podiam ter-se colocado ao lado uma da outra, com as suas armas, como era costume nos retratos – mas numa postura de movimento e acção, tal como faziam quando organizavam a ronda pela cidade.
 
A tela original era maior do que aquela que hoje podemos ver no Rijksmuseum, em local de grande destaque. Em 1715 entenderam cortar-lhe uma faixa larga do seu lado esquerdo, para a fazer caber onde queriam. Felizmente há uma cópia mais pequena, mas com a toda a cena pintada por Rembrandt onde podemos contar 34 figuras humanas.
 
Muito mais poderia dizer-se sobre a Ronda da Noite – na verdade têm corrido rios de tinta sobre este quadro fascinante – mas não caberia neste espaço e seria fastidioso para vós.
 
Acrescento apenas a curiosidade de que o modelo que serviu para pintar a figura feminina, que está um pouco atrás e à mão direita do Capitão Cocq, é Saskia, a mulher de Rembrandt. Sendo curioso o facto de estar um pouco tapada pela luva do capitão. Uma associação simbólica que seria interessante explorar, porque os pintores não deixam nada ao acaso nas suas obras.
 
Deixo-vos com esta obra magistral, cujo título original – atribuído por Rembrandt – ainda desconhecemos. 
 
Sugiro que o olhem com “olhos de ver” – como costumo dizer. Não o façam com pressa e deixem-se levar pela cena representada e pela história do próprio quadro, deixando-se entrar dentro dela. Vivendo-a um pouco na companhia daqueles personagens. É assim que me parece que deve ser desfrutada a obra de arte. Experimentem.
 
escrito por Jorge Matos

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