TRUMP(A)

NA SEMANA DO DIA DA POESIA * 6


Não há Vagas 

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
 
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
 
- porque o poema, senhores,
   está fechado:
   "não há vagas"
 
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
 
    O poema, senhores,
    não fede
    nem cheira
[Ferreira Gullar, in 'Antologia Poética']

escrito por ai.valhamedeus

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NA SEMANA DO DIA DA POESIA * 5



AURORA
A poesia não é voz - é uma inflexão. 
Dizer, diz tudo a prosa. No verso 
nada se acrescenta a nada, somente 
um jeito impalpável dá figura 
ao sonho de cada um, expectativa 
das formas por achar. No verso nasce 
à palavra uma verdade que não acha 
entre os escombros da prosa o seu caminho. 
E aos homens um sentido que não há 
nos gestos nem nas coisas: 

voo sem pássaro dentro. 
[Adolfo Casais Monteiro, in 'Voo Sem Pássaro Dentro']

escrito por ai.valhamedeus

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COM CHINFRIM OU SEM CHINFRIM?


O atentado de ontem, em Londres, matou 4 pessoas, além dos feridos. Por se tratar de terrorismo -- um número suficiente para gerar, nas tvs, na imprensa e nas redes sociais um grande CHINFRIM.

Na manhã do dia anterior, um ataque dos cu-ligados (as "Forças Democráticas Sírias", uma aliança de combatentes árabes e curdos apoiada pela coligação militar internacional liderada pelos Estados Unidos) contra uma escola síria fazia pelo menos 33 mortos. Por se tratar de gente pacífica e democrática -- o número de mortos NÃO foi suficiente para gerar, nas tvs, na imprensa e nas redes sociais QUALQUER CHINFRIM.

Coisas de terrorismo, num caso, e de pacifistas democratas, noutro.

escrito por ai.valhamedeus

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VINHO E MULHERES... E DIJSSELBLOEM


Talvez não seja a opinião deste marmanjo, mas...
...TRES COSAS hay en la vida... que a embelezam: música... vinho e mulheres.
escrito por ai.valhamedeus

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NA SEMANA DO DIA DA POESIA * 4



VERSOS
Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma...

Versos!... Sei lá! Um verso é o teu olhar,
Um verso é o teu sorriso e os de Dante
Eram o teu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!

Meus versos!... Sei eu lá também que são...
Sei lá! Sei lá!... Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez...

Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês...
[Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"]

escrito por ai.valhamedeus

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NA SEMANA DO DIA DA POESIA * 3




COMO DIZER POESIA
Tomemos a palavra borboleta. Para usar esta palavra não é preciso fazer com que a voz pese menos de um grama nem dotá-la de asinhas poeirentas. Não é preciso inventar um dia de sol nem um campo de narcisos. Não é preciso estar-se apaixonado, nem estar-se apaixonado por borboletas. A palavra borboleta não é uma borboleta real. Existe a palavra e existe a borboleta. Se confundires estas duas coisas darás razão a quem queira rir-se de ti. Não atribuas grande importância à palavra. Estarás a tentar insinuar que amas as borboletas de uma forma mais perfeita do que qualquer outra pessoa, ou que compreendes a sua natureza? A palavra borboleta não passa de informação. Não é uma oportunidade para pairares, levitares, aliares-te às flores, simbolizares a beleza e a fragilidade, nem de modo nenhum personificares uma borboleta. Não representes palavras. Nunca representes palavras. Nunca tentes tirar os pés do chão ao falares de voar. Nunca feches os olhos, tombando a cabeça para um dos lados, ao falares da morte. Não fixes em mim os teus olhos ardentes ao falares de amor. Se quiseres impressionar-me ao falares de amor mete a mão no bolso ou por baixo do vestido e toca-te. Se a ambição e a sede de aplausos te levaram a falar de amor deverás aprender a fazê-lo sem te envergonhares a ti mesmo nem às tuas fontes. 
Qual é a expressão exigida pela nossa época? A época não exige expressão nenhuma. Já vimos fotografias de mães asiáticas enlutadas. Não estamos interessados na agonia dos teus órgãos remexidos. Não há nada que possas estampar no teu rosto que se equipare ao horror desta época. Nem sequer tentes. Apenas te sujeitarás ao desdém daqueles que sentiram profundamente as coisas. Já assistimos a películas de seres humanos em pontos extremos de dor e desenraizamento. Toda a gente sabe que andas a comer bem e que estás até a ser pago para estares aí em cima. Estás a atuar diante de pessoas que passaram por uma catástrofe. Tal facto deverá tornar-te bastante discreto. Diz as palavras, transmite a informação, chega-te para o lado. Toda a gente sabe que estás a sofrer. Não poderás contar à plateia tudo o que sabes sobre o amor a cada verso de amor que disseres. Chega-te para o lado e as pessoas saberão o que tu sabes por já o saberes. Nada tens para lhes ensinar. Tu não és mais belo do que elas. Não és mais sábio. Não lhes grites. Não forces uma penetração a seco. É mau sexo. Se revelares o contorno dos teus genitais, então cumpre o que prometes. E lembra-te que as pessoas não desejam propriamente um acrobata na cama. De que é que nós precisamos? De estar perto do homem natural, de estar perto da mulher natural. Não finjas que és um cantor adorado com um público vasto e leal que tem vindo a acompanhar os altos e baixos da tua vida até ao momento presente. As bombas, os lança-chamas e essas merdas todas não destruíram apenas árvores e aldeias. Destruíram igualmente o palco. Achaste que a tua profissão escaparia à destruição geral? Já não há palco. Já não há ribalta. Tu estás no meio das pessoas. Portanto, sê modesto. Diz as palavras, transmite a informação, chega-te para o lado. Fica a sós. Fica no teu canto. Não te insinues. 
Trata-se de uma paisagem interior. É por dentro. É privado. Respeita a privacidade do texto. Estas obras foram escritas em silêncio. A coragem da atuação é dizê-las. A disciplina da atuação é não as violar. Deixa que o público sinta o teu amor pela privacidade ainda que não haja privacidade. Sejam boas putas. O poema não é um slogan. Não poderá publicitar-te. Não poderá promover a tua reputação de seres sensível. Tu não és um garanhão. Tu não és uma mulher fatal. Toda essa treta relacionada com os bandidos do amor. Vocês são estudantes da disciplina. Não representes as palavras. As palavras morrem se as representares, murcham, e a única coisa que sobrará será a tua ambição. 
Diz as palavras com a exata precisão com que verificas uma lista de roupa suja. Não te comovas com a blusa de renda. Não fiques de pau feito ao dizer cuecas. Não te arrepies todo só por causa da toalha. Os lençóis não deverão suscitar à volta dos olhos uma expressão sonhadora. Não é preciso chorar agarrado a um lenço. As meias não estão lá para te recordar viagens estranhas e longínquas. É só a tua roupa suja. São só as tuas peças de roupa. Não espreites através delas. Veste-as. 
O poema não é senão informação. É a Constituição do país interior. Se o declamares e deres cabo dele com nobres intenções, então não serás melhor do que os políticos que desprezas. Não passarás de uma pessoa a agitar uma bandeira e a realizar o apelo mais reles a uma espécie de patriotismo emocional. Pensa nas palavras como sendo ciência e não arte. Elas são um relatório. Tu estás a falar num encontro do Clube de Exploradores da National Geographic. As pessoas que tens à tua frente conhecem todos os riscos do montanhismo. Honram-te partindo desse princípio. Se lhes esfregares isso na cara, será um insulto à sua hospitalidade. Fala-lhes da altura da montanha, do equipamento que usaste, sê rigoroso em relação às superfícies e ao tempo que demoraste a escalá-la. Não manipules o público à caça de bocas abertas e suspiros. Se mereceres as bocas abertas e os suspiros, isso não se deverá à avaliação que fizeres do acontecimento, mas à que o público fizer. Resultará da estatística e não do tremer da tua voz nem das tuas mãos a cortar o ar. Resultará dos dados e da discreta organização da tua presença. 
Evita os floreados. Não tenhas medo da fraqueza. Não tenhas vergonha do cansaço. O cansaço dá-te bom ar. O ar de quem seria capaz de nunca mais parar. Agora, entrega-te aos meus braços. Tu és a imagem da minha beleza.
[Leonard Cohen. Tradução de Vasco Gato. O texto pode ser ouvido (em inglês, com tradução para português), aqui: https://www.youtube.com/watch?v=IvXn4P9Kj2Y

escrito por ai.valhamedeus

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NA SEMANA DO DIA DA POESIA * 2




O POEMA 

O poema não é o canto
que do grilo para a rosa cresce.
O poema é o grilo
é a rosa
e é aquilo que cresce.
É o pensamento que exclui
uma determinação
na fonte donde ele flui
e naquilo que descreve.
O poema é o que no homem
para lá do homem se atreve.
Os acontecimentos são pedras
e a poesia transcendê-las
na já longínqua noção
de descrevê-las.
E essa própria noção é só
uma saudade que se desvanece
na poesia. Pura intenção
de cantar o que não conhece.
[Natália Correia, in Poemas (1955)]

escrito por ai.valhamedeus

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NA SEMANA DO DIA DA POESIA * 1


TU ÉS EM MIM PROFUNDA PRIMAVERA

O sabor da tua boca e a cor da tua pele,
pele, boca, fruta minha destes dias velozes,
diz-me, sempre estiveram contigo
por anos e viagens e por luas e sóis
e terra e pranto e chuva e alegria,
ou só agora, só agora
brotam das tuas raízes
como a água que à terra seca traz
germinações de mim desconhecidas
ou aos lábios do cântaro esquecido
na água chega o sabor da terra?

Não sei, não mo digas, tu não sabes.
Ninguém sabe estas coisas.
Mas, aproximando os meus sentidos todos
da luz da tua pele, desapareces,
fundes-te como o ácido
aroma dum fruto
e o calor dum caminho,
o cheiro do milho debulhado,
a madressilva da tarde pura,
os nomes da terra poeirenta,
o infinito perfume da pátria:
magnólia e matagal, sangue e farinha,
galope de cavalos,
a lua poeirenta das aldeias,
o pão recém-nascido:
ai, tudo o que há na tua pele volta à minha boca,
volta ao meu coração, volta ao meu corpo,
e volto a ser contigo a terra que tu és:
tu és em mim profunda primavera:
volto a saber em ti como germino.
[Pablo Neruda, in Os Versos do Capitão]

escrito por ai.valhamedeus

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DO CONTRA [113] no dia do pai, para os bons pais



Deus abandonou-me.
(Aconteceu a mais alguém?)
Não me surpreende:
Se até o seu filho bem amado Ele abandonou, Por que não o faria a mim, Que não lhe sou nada?!
escrito por ai.valhamedeus

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O LIVRO DO CAVACO E OS NÃO FACTOS


Cavaco Silva entendeu escrever um livro sobre os seus dez anos na presidência. Nada de mal. Mas, como todos os manhosos, não exibe uma ideia, sobretudo do que ele entende ser os superiores interesses do país, interesses esses por que pautou a sua vida política (ele diria pública). Eu penso que, na nossa democracia, os superiores interesses do país seriam os explanados na Constituição, uma vez que nela são consagrados alguns princípios programáticos importantes, tais como o direito à habitação, saúde e educação. Mas desconfio de que não são esses os princípios por que o homem se pauta, sei lá, digo eu.

Ao folhear o índice, chamou-me a atenção um dos capítulos que diz A FALTA DE BOM SENSO DE UM MINISTRO (pág. 203 a 207). Pensei que iria aqui ter acesso àquilo que seria o exemplo dos princípios por que se pautava o Sr e indicasse factos que poderiam indiciar tais princípios. Primeiro pergunta a Sócrates a sua posição sobre o sector agrícola. Sócrates falou mal do governo anterior por causa das medidas agroambientais. Sócrates deu instruções ao ministro, Jaime Silva, para deixar de criticar o governo anterior. Mas havia animosidade entre o ministro e a CAP.

Tudo espremido, nem uma ideia, nem um facto sobre a falta de bom senso, a não ser que o ministro teria chamado de direita à CAP (redonda mentira, como se sabe). Lá para o fim, fala de perda de fundos da União Europeia por causa da incompetência do ministro. Foi só.

Esta posição manhosa, sem se comprometerem, é próprio destes políticos ranhosos e cobardes. Vou ainda consultar alguns capítulos. Sim, não irei ler o livro de seguida, por uma questão de higiene.

De folhear o livro, parece-me que a ideia geral do homem é que haja harmonia na família portuguesa e não truculências. Acho que já conhecemos a ideia…

Há uma coisa que quero dizer. Acho que não terá mal uma pessoa contar a sua história enquanto governante, mesmo que seja umas pseudomemórias.

escrito por Carlos M. E. Lopes

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PARA RIR * 4. Me explica, por favor!

“o trabalho temporário é um elemento indicador da dinamização da atividade económica em todos os países”.
[Vitalino Canas, provedor do trabalhador temporário]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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