Palestina livre!

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MÚSICA DE ABRIL

25 de Abril: "Desta vez é que é de vez"

Com o 39º episódio do podcast Clássica Mente, quis fazer uma pequena homenagem ao 25 de Abril (uma das datas mais importantes da minha vida), nos seus 50 anos. 

Através da música. Da música de Abril.

Está aqui.

escrito por ai.valhamedeus

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SEM CRAVO NA LAPELA

cravos do 25 de Abril

Apanhei com o 25 de abril com 19 anos. Aquela quinta-feira começou com a aula de filosofia e o Prof. Louro a dizer, discretamente, como sempre, que algo se passava em Lisboa. Foi um desassossego que durou mais de um ano.

Nas ditas ciências sociais não há “se”. Por isso se diz que não são ciências. Eu também acho que não.

Olhando para hoje, sinto que o poder está nas mãos dos mesmos que teriam o poder sem qualquer “revolução”.

Acho o 25 de abril um golpe de estado que deu errado, a que se seguiu uma revolução que deu errada. Hoje, vivemos na “tranquilidade” de um sistema em que todos somos “felizes”. 

No dia 24 de abril, tínhamos dez milhões de acomodados; no dia 25 de abril, dez milhões de antifascistas e no 1º de maio, dez milhões de revolucionários. No 4 de outubro de 1910, tínhamos 8 milhões (?) de monárquicos; no dia 5 de outubro, oito milhões de republicanos. No dia 27 de maio de 1926, oito milhões de republicanos; no dia 28, oito milhões de apoiantes da Lei e da Ordem.

Se consultarmos as atas das Câmaras Municipais, verificamos a forma prazenteira como se disponibilizam, os apoiantes do antigo regime, em servir o MFA.

Somos um país de invertebrados.

O PS e o PSD dividiram, entre si, o pessoal da União Nacional e da Ação Nacional Popular. E têm os tiques próprios desses tempos.

Ao 25 de abril, às lutas pelo poder, seguiu-se o 11 de março, data maldita para o “pessoal” do 24 de abril. Essa época, finda a 25 de novembro, é o período mais lindo da história de Portugal. Permitiu sonhar em voz alta, tudo era possível e tudo era sonhável. E tudo deu errado. O 25 de novembro constituiu o “termidor” da revolução portuguesa. O PREC deu-me sonhos de podermos ter um mundo melhor. Não deu certo.

A minha grande frustração foi a de o 25 de abril não ter desaguado num 1º de maio. Eu queria mudar o regime, mas queria mudar o sistema. Por isso, nunca, tal como diz o José Afonso em Por Trás Daquela Janela, usei cravo na lapela.

escrito Carlos M. E. Lopes

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VÍDEO DA SEXTA.221."Defender a liberdade"

Abril...  SEMPRE!


escrito por Adriana Santos

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25 DE ABRIL EM PORTO RICO



No 25 de abril, os professores de português de Porto Rico organizaram uma jornada interessante. Falei de algumas interioridades do antes do golpe. Um professor de política falou da europa desse tempo. E apresentaram um par de filmes. Vi o «Afirma Pereira».


escrito por José Alberto, Porto Rico

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EX-CITAÇÕES * 100. no rescaldo do 25 de abril

1.

Para que uma revolução vença realmente não basta que conserve o poder, é preciso que seja amada. Só a revolução amada é democrática. Mas a revolução só é amada quando não emprega a violência.
O 25 de Abril foi uma revolução justa bela e serena. Foi uma revolução que usou a força e não usou a violência. O facto de a revolução do 25 de Abril ter usado a força e não ter usado a violência é um facto exemplar. O 25 de Abril foi uma revolução bela e amada porque não usou a violência. Foi um progresso da história das revoluções porque não usou a violência. E essa escolha da não violência foi o rasto mais revolucionário do 25 de Abril.
O propósito da democracia é não usar a violência. Sabemos que uma democracia que usa a violência é sempre uma democracia que se suicida. A história mostra que as revoluções que usam a violência acabam sempre por criar novas formas de tirania. Onde há violência há abuso e onde há abuso não há justiça. Onde há violência há medo e onde há medo não há liberdade.
Onde há medo há sempre alguém que pousa o seu pé em cima da cabeça dos outros.
A esquerda é a escolha política daqueles que acreditam que o mal nunca é necessário.
[[Sophia de Mello Breyner Andresen - Primeira página de um texto de 1975]

2.
O 25 de Abril vale cada vez mais a pena e é na fidelidade aos seus valores que Portugal se tem de ‘salvar’ e ganhar futuro.
[José Carlos de Vasconcelos]

3.
Necessariamente a tolice estará nas maiorias
[Camilo Castelo, Branco, citado por José Viale Moutinho]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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PRIMAVERAS LIVRES, FLORES VERMELHAS

[Para festejar o 25 de Abril, recupero um texto escrito a 25 de Novembro de 2007, com o título "Viagem a Ítaca"]

Não queria que passasse em branco o 25 de Novembro. Lembro-o celebrando o 25 de Abril e as gratas recordações que desses tempos guardo.

Socorro-me de uma canção do cantautor catalão Lluís Llach
[Abril 74, do álbum Viatje a Ítaca],
dedicada à "revolução dos cravos", quando Espanha era ainda dominada por Franco. Canta-a, aqui, com o tenor José Carreras:

Para o caso de querer acompanhar, deixo a letra:
Companys,
si sabeu on dorm la lluna blanca,
digueu-li que la vull
però no puc anar a estimar-la,
que encara hi ha combat.

Companys,
si coneixeu el cau de la sirena,
allà enmig de la mar,
jo l'aniria a veure,
però encara hi ha combat.

I si un trist atzar m'atura i caic a terra,
porteu tots els meus cants
i un ram de flors vermelles
a qui tant he estimat,
si guanyem el combat.

Companys,
si enyoreu les primaveres lliures,
amb vosaltres vull anar,
que per poder-les viure
jo me n'he fet soldat.

I si un trist atzar m'atura i caic a terra,
porteu tots els meus cants
i un ram de flors vermelles
a qui tant he estimat,
quan guanyem el combat.
Companheiros,
se sabeis onde dorme a nuvem branca
dizei-lhe que a quero
mas que não posso ir amá-la
porque aqui ainda há combate.

Companheiros,
se conheceis o canto da sereia,
lá, no meio do mar
eu iria lá vê-la
mas aqui ainda há combate.

E se um triste azar me barra e caio por terra
levai todos os meus cantos
e um ramo de flores vermelhas
a quem tanto amei,
se ganharmos o combate.

Companheiros,
se desejais as primaveras livres,
quero ir convosco
que para poder vivê-las
me fiz soldado.

E se um triste azar me barra e caio por terra
levai todos os meus cantos
e um ramo de flores vermelhas
a quem tanto amei,
quando ganharmos o combate.


Com menos uns anos, Luís Llach interpretou assim, numa versão mais intimista, Abril 74:


escrito por ai.valhamedeus
[com um abraço para o Cunha, através de quem conheci Lluís Llach]

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ABRIL, ÁGUAS MIL

Em Abril, águas mil, diziam, à uma, a minha Mãe e a minha Avó, quando me pressentiam queixosa, chorosa até, por não poder pôr o pé na rua.

Coadas por um funil, rematava a minha Avó, a traduzir em imagem a chuva miudinha que ensopava quem ousasse sair de casa sem qualquer protecção contra ela.

Chuva de molha tolos, e piscava o olho à minha Mãe.

Bem se lhe dava a elas que eu não pudesse ir brincar no empedrado da rua! Jogar ao mata, à péla, com uma bola, por vezes feita de papéis muito bem amarrotados no côncavo das mãos. A necessidade aguça, ou antes, aguçava o engenho, não é?

A chuva não era problema que nos demovesse, a bola improvisada é que, coitada, ficava desfeita em menos de um fósforo.

E o livro? Insistia a minha Mãe. Tu gostas tanto de ler…

Eu fazia ouvidos de mercador à insinuação da minha Mãe, e teimava com aquela chuva embirrenta, insulsa, que me vedava o prazer de fazer pontaria a uma pedra, espetada ao alto no interstício mais adequado à função. Acertar nela era o orgulho supremo, a assertividade da nossa destreza.

Que querem? Não havia consolas, nem televisão àquelas horas.


Compasso. Visita pascalNo Abril da minha infância, ainda não havia França. Nem Tarrafal
(que se soubesse),
que até rima com Natal. Nem soldados a dizerem: adeus, até ao meu regresso! Não havia eleições, nem revoluções
(que se soubesse).
Só havia um senhor em Belém e uma Nossa Senhora em Fátima.

E havia a Festa da Páscoa! Que era quase sempre em Abril.

Na aldeia da minha Avó, o padre ia de casa em casa, no Domingo de Páscoa, transportando o hissope mergulhado numa caldeirinha com água benta, e borrifava a sala de visitas dos mais abastados onde, em mesa de toalha de renda, se destacava um envelope chorudo. Bebia-se licor com o dono da casa: o padre e seus acólitos que transportavam a cruz encimando um bastão alto. De prata! Se calhar era latão ou estanho. Não sei. E também não importa.

Demoravam-se mais do que a conta. Depois dirigiam-se, apressados, a casa do pobre, que apresentava numa única divisão uma mesa pequena ao centro, com uma toalha colorida de plástico
(última novidade)
e, a dominar, uma laranja coroada por 50 centavos ufanos e à vista de todos.

Um padre ou outro ignorava a moeda luzidia espetada na laranja, por razões cristãs.

Mas a viúva não o permitia: não sou menos c’os outros, atão! Exclamava com entono. E enfiava o dinheiro na mão renitente do acólito mais jovem.

Também aqui o padre cumpria a tradição, borrifando a laranja e a toalha de plástico, mas demorava-se pouco. Até porque viúvas não bebem.

E lá saía a correr, afobado, como se tivesse o refogado ao lume, ou os feijões na panela. Seguido da garotada, felizes por participarem naquele entremez, que só ocorria uma vez por ano.


Na cidade o padre, que me recorde, não ia a casa dos crentes para a Visita Pascal. Nós é que íamos à igreja na Sexta-feira Santa para percorrermos as ruas estreitas e escuras do Calvário
(da toponímia da cidade faz parte precisamente a Rua do Calvário),
de vela na mão, atrás de Nosso Senhor dos Passos, de rosto contristado e vestes roxas. Bem como da sua chorosa Mãe, igualmente de roxo.

Pela mão da minha Avó eu seguia, fascinada, toda aquela procissão de luzinhas, umas enfeitadas com uma espécie de abajur ao contrário, hexagonal ou redondo, protegendo a mão de quem a segurava, do pingo quente da cera derretida; outras sem protecção nenhuma. Porventura, a cera quente curava as calosidades das mãos envelhecidas pela labuta diária.

Fosse como fosse, no Sábado de Aleluia, mal o sol rompia, a minha Avó desatava numa cantilena alusiva à alegria que se apossava dela, pelo fim da Quaresma.

Nós, arreliados e sonolentos, acabávamos por exultar com ela: ia haver amêndoas e folar!


Pois, na minha infância não havia playstations e a obesidade não era problema.

Ah, e o 25 de Abril vinha a seguir ao 24 e precedia o 26. Que pena!

escrito por Gabriela Correia, Faro

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UM CRAVO PARA VÍTOR ALVES

Abril vai ficando órfão dos seus principais artífices.

Definharam as flores; na continuada desfaçatez caíram os ideais e, aos poucos, vemos partir, um após outro, aqueles que, com abnegação, nos devolveram a liberdade e instituíram a democracia que não queremos, ou já não podemos defender.

Vítor Alves retirou-se para a última das suas viagens com um cheirinho a alecrim, cansado de ouvir, uma e outra vez, Chico Buarque traçando o destino da “festa”.


escrito por Jerónimo Costa

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CRAVO COM CHEIRINHO A ALECRIM

Já, em 2007, deixei aqui lavrada a minha sensação de que o gajo nem pelo 25 de Abril nutre grandes simpatias. Confirmou, este ano, a ideia de que não gosta de cravos
[antes que alguém mo pergunte: tem todo o direito de não gostar].
Dos cravos, gosto da cor. Mas, do que gosto mais é mesmo do simbolismo. Porque, tratando-se de cheiro, gosto muito mais do cheirinho de alecrim. O Chico, pelos ouvistos, também:


Quer cantar? Eu dou uma ajudinha:
Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente,
Ainda guardo renitente
Um velho cravo para mim.

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente,
Esqueceram uma semente
Em algum canto de jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim.

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim.
escrito por ai.valhamedeus

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ABRIL 2010

Escola E. B. 2,3 de Castro Daire.
Comemoração do 25 de Abril.
Projecto dinamizado pelo Grupo de História em colaboração com E.V.T.


escrito por Adriana Santos

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MÚSICA PARA O 25 DE ABRIL

São 4 cds com músicas de algum modo relacionadas com o 25 de Abril
[ok! a relação nem sempre é fácil de estabelecer...].

CD1
[está aqui ou aqui]
01. - Soneto Presente [Ary Dos Santos] - 1:11"
02. - Até Quando [Luis Cilia] - 1:40"
03. - Eu Sou Português Aqui [Jose Fanha] - 2:55"
04. - Já Chegou A Liberdade [Tonicha] - 2:35"
05. - Porque [Padre Fanhais] - 3:11"
06. - Assim Cantamos [Luis Cilia] - 4:31"
07. - Chão Nosso [Trovante] - 3:02"
08. - A Luta Vai Ser Dura Companheiro [Grupo Outubro] - 2:19"
09. - Cantata Da Paz [Padre Fanhais] - 4:43"
10. - Água Mole Em Pedra Dura [Pedro Barroso] - 3:11"
11. - Tango Dos Pequenos Burgueses [Jose Jorge Letria] - 3:06"
12. - Quem Não Trabalha Não Come [Grupo Outubro] - 2:59"
13. - Rapsódia Político [Portuguesa] - 3:33"
14. - Que Fizeste Ao Sol [Alberto Julio] - 4:28"
15. - Dueto A Uma Voz [Fernando Tordo] - 2:34"
16. - Grândola Vila Morena [Jose Afonso] - 3:18"


CD 2
[está aqui ou aqui]
01. - De Maos Dadas Venceremos [Jose Barata Moura] - 2:48"
02. - A Gente Nao Vai Ficar Parada [Grupo Outubro] - 3:31"
03. - Retrato Do Povo De Lisboa [Ary Dos Santos] - 1:51"
04. - Quadras Do Poeta Aleixo [Padre Fanhais] - 3:23"
05. - Terra Mae [Varios] - 3:50"
06. - Cai Cai [Fernando Tordo] - 3:17"
07. - O Preto No Branco [Tonicha] - 3:03"
08. - O Heroismo Desportivo Do Marechal Cornualha [Fernando Laranjeira] - 5:08"
09. - Amor Breve [Alberto Julio] - 4:57"
10. - Monangambe [Ruy Mingas] - 4:10"
11. - Arte Poetica [Jose Jorge Letria] - 3:50"
12. - Tanto Me Faz [Tonicha] - 3:33"

CD 3
[está aqui ou aqui]
01. - Canção Da Cidade Nova [Francisco Fanhais] - 3:16"
02. - Canção De Madrugar [Hugo Maia De Loureiro] - 4:50"
03. - Pedra Filosofal [Manuel Freire] - 4:56"
04. - Canto Do Ceifeiro [Francisco Fanhais] - 2:52"
05. - Quem Nos Viu E Quem Nos Vê [Jose Jorge Letria] - 3:41"
06. - Canção Para A Unidade [Pedro Barroso] - 4:27"
07. - Fala Do Velho Do Restelo Ao Astronauta [Manuel Freire] - 2:56"
08. - Grande, Grande Era A Cidade [Jose Jorge Letria] - 4:12"
09. - Mascarada [Afonso Dias] - 3:11"
10. - Quem Canta Seus Males Espanta [Pedro Barroso] - 6:23"
11. - Maria [Canção] - 4:56"
12. - A Valsa Da Burguesia [Jose Barata Moura] - 3:15"
13. - Portugal Ressuscitado [Inclave Tonicha Fernando Tordo] - 3:43"


CD 4
[está aqui ou aqui]
01. - A Voz Do Meu Povo [Tonicha] - 4:21"
02. - Com Volta Na Ponta [Afonso Dias] - 3:16"
03. - Canção Combate [Inclave Tonicha Fernando Tordo] - 2:13"
04. - Daqui O Povo Não Arranca Pé [Carlos Alberto Moniz Maria Do Amparo] - 3:44"
05. - Venceremos [Samuel] - 2:15"
06. - Só O Povo Unido [Jose Barata Moura] - 2:40"
07. - Compaheiro Vasco [Carlos Alberto Moniz Maria Do Amparo] - 3:15"
08. - Os Senhores Da Guerra [Grupo Outubro] - 2:37"
09. - A Minha Terra [Samuel] - 2:38"
10. - Obrigado Soldadinho [Tonicha] - 3:03"
11. - A Vossa Vontade Será Feita [Grupo Outubro] - 3:38"
12. - Cravo Vermelho Ao Peito [Jose Barata Moura] - 3:07"

escrito por ai.valhamedeus

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25 DE ABRIL – 36 ANOS DEPOIS

Curvem-se os ventos ao poder imenso
Calem-se os medos no olhar perdido
Dêem-se graças ao senhor das trevas
Fechem-se as comportas da alma dos vencidos

Agitem estandartes fervorosos
Soltem palavras de ordem cobiçosas
Gritem ao derredor glórias imerecidas
Nomeiem feitos já passados

Escorracem do chão das casas a memória
Proclamem a divindade redentora
Amarrem a vontade dos espíritos

Tragam à tona vícios encobertos
Cortem as árvores sem idade
Enganem o tolo com sorriso e vénias

Erguendo o punho com vivas à Liberdade
escrito por Gabriela Correia, Faro

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LEIT(e)URAS [39] capitão de abril, capitão de novembro

Sousa e Castro

Sousa e Castro acabou por escrever as suas memórias dos anos setenta.

Mas começou mal. Pediu um prefácio a Marcelo Rebelo de Sousa, que era melhor não ter pedido. Depois de considerar que ser-se “conterrâneo é argumento definitivo em termos de disponibilidade para secundar alguém”, isto porque Sousa e Castro será do concelho de Celorico de Basto e Marcelo terá visto nascer lá uma avozinha… diz logo a seguir que as recordações de Sousa e Castro são “singelas, cruas, espontâneas…” Claro que diz disparates quando se refere ao PPD. Mas é, diz o prefaciador, “sonhador, ingénuo, simpático, lutador, desprendido”. Sobre o que Castro viveu dentro do MFA, aí já Marcelo nada pode dizer. Um bonito prefácio, sim senhor!

Quanto ao conteúdo, fiquei surpreendido com algumas nuances do 25 de Novembro. Não sabia que Rosa Coutinho tinha sido pura e simplesmente linchado militarmente pela “revanche” pós 25 de Novembro; que Lucas Pires foi um algoz enquanto instrutor de processos de afastamento de militares impolutos e que foram perseguidos só por serem considerados de esquerda. Um bando de malfeitores, foi o que foi. Gostei sobretudo desta parte. Acresça-se que trata Soares e Sá Carneiro como sempre os vi: muito oportunistas. Só por isso, vale a pena ler o livro.

escrito por Carlos M. E. Lopes

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SERÁ OUTRA VEZ QUANDO QUISERMOS - 16.

Se alguém vir por aí algum desses efedepê que clamam que os professores são preguiçosos, por favor, diga-lhe que venha ver o que os professores fazem nas escolas. Aqui, por exemplo
[ou talvez seja melhor que não veja]:



escrito por ai.valhamedeus

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SERÁ OUTRA VEZ QUANDO QUISERMOS - 15.

Em vésperas de Maio, um hino

[contra este momento socratino]
que é também um aviso: Aprende a nadar, companheiro!
MARÉ ALTA

Aprende a nadar, companheiro
aprende a nadar, companheiro

Que a maré se vai levantar
que a maré se vai levantar

Que a liberdade está a passar por aqui
que a liberdade está a passar por aqui

Maré alta
Maré alta
Maré alta





escrito por ai.valhamedeus

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SERÁ OUTRA VEZ QUANDO QUISERMOS - 14.

E SE A REVOLUÇÃO FOSSE HOJE?

[não é uma ideia disparatada: "Los portugueses quieren otra "revolución" ante la crisis"]


escrito por ai.valhamedeus

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SERÁ OUTRA VEZ QUANDO QUISERMOS - 13.

Eu sei, eu sei que o Poema é enorme
e ao mesmo tempo pequeno
para convocar a memória do que já perdemos,
estamos a perder e perderemos ainda mais se!

Se não lermos poemas desta dimensão, ou ainda maiores
para que o esquecimento não seja maior do que Abril
porque d’As Portas que Abril Abriu
são raras as que não fecharam e, as que restam
fecharão em breve se
a nossa passividade for a tolerância.

Depois, o poema pode ser pequeno,
pequeno nada do que resta. Resta?

As Portas que Abril Abriu

Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.
Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.
Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.

Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.
Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.
Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.
Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.
Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.
Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração.
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.
Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.
Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação
uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com que a força da vida
seja maior do que a morte.
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.
Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.
Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.
Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.
Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.
Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
– pode nascer um país
do ventre duma chaimite.
Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
– é força revolucionária!
Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.
Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.
E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados «páras»
que não queriam o degredo
dum povo que se separa.
E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam.
Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração.
Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma ração
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão.
Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão.
Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.
Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril f
ez Portugal renascer.
E em Lisboa capital
dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.
Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.
Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.
Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.
Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.
Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.
Mas eram olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.
E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.
Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.
E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.
A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que se desdobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.
Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.
E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideais
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.
Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio fazia
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.
Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.
E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.
Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.
Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.
Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.
Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.
Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
— cumpriu-se a revolução.
Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os generais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
já não há revoluções.
Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.
E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.
Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.
E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
aprenderam Portugal.
Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opõe àqueles que o firam
consciência nacional.
Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.
Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.
Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.
Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.
Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
– Não havia estado novo
nos poemas de Camões!
Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.
Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram
das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.
Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.
E em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalho crescer.
Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
dum país que vai nascer.
Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser
pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.
No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pé do Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!
É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.
Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza!
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.
Na frente de todos nós
povo soberano e total
que ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.
Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!

[José Carlos Ary dos Santos. Lisboa, Julho-Agosto de 1975]
escrito por Jerónimo Costa

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SERÁ OUTRA VEZ QUANDO QUISERMOS - 12.

ENTREVISTA DO ZECA

Recolhido de uma das várias mailing lists que assino:

Olá, amigos!

envio uma entrevista de José Afonso, penso que dada à Antena Um pouco antes de falecer.

Infelizmente, não está nas melhores condições. Falta-lhe o fim, que julgo ser a ficha técnica do programa, após a canção "O pintor morreu". Procurei-a no sítio da RTP, mas não a encontrei.

No entanto, quem a quiser ouvir, pode usar a ligação infra, porque as palavras do Zeca lá estão desassombradas sobre Portugal e sobre a sua vida, prestes a findar. São palavras doloridas sobre este país que cada vez dá mais vontade de chorar, país onde uns passam fome e outros enchem os bolsos com o dinheiro que é de todos. Mas é o Portugal que nos resta e o Abril que podemos festejar!
Está AQUI.

escrito por ai.valhamedeus

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SERÁ OUTRA VEZ QUANDO QUISERMOS - 11.

25 de Abril - SERÁ OUTRA VEZ QUANDO QUISERMOS: este é o título de um vídeo da Adriana, colaboradora do Ai Jesus!, registo das comemorações do 25 de Abril na Escola Básica 2, 3 de Castro Daire. Um projecto dinamizado pelo Grupo de História em colaboração com E.V.T..



escrito por ai.valhamedeus

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SERÁ OUTRA VEZ QUANDO QUISERMOS - 10.

Um texto da jornalista Graça Franco que vale a pena (re)ler, retirado do Público do passado dia 24: O Espaço em Branco foi o grande aliado da Liberdade em tempos de censura.

Memória de um espaço em branco

Há 28 anos que escrevo em liberdade. Isto é, desde que sou jornalista. A minha geração tem essa dívida de gratidão para com os militares de Abril. Os que de entre nós optaram pelo jornalismo não tiveram de escrever um único texto a pensar "isto passa ou não passa na censura?". Bastaria isso para justificar a alegria daquele dia e a festa de amanhã. Não sei viver sem liberdade e espero deixar aos meus filhos, se não um país rico e desenvolvido, pelo menos um país livre.

Mas, exactamente porque a Liberdade de Expressão é um dos mais sólidos pilares da democracia e verdadeiro garante da sua qualidade, não convém dar o combate por terminado. Trinta e cinco anos depois de iniciado, o regime vive uma das piores crises de sempre. Não se trata só de uma crise económica de que não há memória. Antes fosse. Trata-se da pior das crises: a da credibilidade. Minado pela descrença gerada pelo compadrio, pela corrupção, pelo salve-se quem puder de uma elite cuja qualidade parece degradar-se a cada hora. A Democracia parece soçobrar ao drama da má moeda.


As Liberdades que temos por garantidas não estão ainda conquistadas em definitivo. É coisa pela qual vale a pena e é preciso continuar a lutar em cada dia. Daí esta crónica integralmente dedicada ao espaço em branco.

Para quem não saiba, o Espaço em Branco foi o grande aliado da Liberdade em tempos de censura. Quando esta se conseguiu impor, ainda travestida de "censura de guerra" antes mesmo de Salazar e em plena Primeira República.

A 4 de Janeiro de 1919, a primeira página do
Diário de Notícias saía exibindo quase metade em branco. Era o sinal do corte. Era a prova, também, de que a lei repressiva não só não terminaria com a guerra como sobreviveria à própria morte de Sidónio e ao curto período da Monarquia do Norte. A censura foi justificada ainda por mais algum tempo por quem tinha por missão defender a República com a necessidade de travar a Monarquia. Só terminará em Fevereiro de 1919, dando lugar aos últimos seis anos de regime (até ao 28 de Maio) de novo em liberdade.

A Censura de Salazar será bem pior. Começará ainda antes dele, logo a 22 de Junho de 1927, em pleno ministério de Gomes da Costa, com o curioso recurso a uma nota enviada aos jornais para publicação, subscrita por um obscuro segundo comandante da polícia. Dizia ela tão-só o seguinte: "Por ordem superior levo ao conhecimento de V. Exa. que a partir de hoje é estabelecida a censura à imprensa, não sendo permitida a saída de qualquer jornal sem que quatro exemplares sejam presentes no comando geral da GNR para esse fim." Um dia antes, em entrevista ao
Diário da Tarde, Gomes da Costa afirmara: "Fala-se em censura à imprensa. Não senhor. Não estou disposto a estabelecê-la. Pelo menos... enquanto os jornais não me incomodarem..." Devem ter incomodado. Tudo se passa num clima de excepção, de suspensão de garantias quando o risco de contragolpe monárquico parece ainda iminente. Filha de pai incógnito, a Censura será apresentada aos jornais pelo coronel Prata Dias, que assumirá a chefia dos serviços e que, segundo o relato de O Mundo, disse "amavelmente" aos representantes dos jornais, para sua orientação, que os assuntos que cairiam sob a sua alçada de corte podiam em traços largos resumir-se a "insultos" a membros do Governo e notícias que "fundada ou infundadamente" pudessem alarmar o espírito público e que tivessem origem em movimentos de carácter revolucionário, fosse qual fosse a sua "natureza". E acrescentou que "não seriam permitidos espaços em branco".

Estava criado o monstro. Na fluidez imprecisa do que cai ou não no crivo do censor e nessa obrigatoriedade expressa de omissão do corte. Para que o público jamais conhecesse a real eficácia da sua acção. Para que o escândalo deixasse de ser visível e permanente. Até que o leitor acabasse a suspeitar se a censura efectivamente teria cortado alguma coisa.

Para os jornalistas que ainda conseguiram suster a medida por vinte e quatro horas, alegando os transtornos que adviriam desse preencher de espaço, começava o pesadelo e o desafio. Jamais o espaço seria preenchido ao gosto da Censura, que a isso nunca se prestaram os jornalistas (apesar das "aclarações" a que a Censura frequentemente recorria para sugerir saídas alternativas e que eram, praticamente, sempre olimpicamente ignoradas!).

Como ainda esta semana Pinto Balsemão recorda no texto que assina na
Visão lembrando a experiência dos jornalistas do Expresso: "Como os espaços em branco eram proibidos, cada corte, de pequena ou grande extensão, forçava-nos a repaginar, tirar nova prova de página e voltar a submetê-la aos censores."

Habituámo-nos de tal forma à liberdade que não apenas a desprezamos como às vezes a esquecemos. Dela só nos damos conta quando, perdida, verificamos com surpresa que ela deixa um enorme espaço em branco na nossa democracia. Mas até para o notarmos é essencial que não nos obriguem a escondê-lo. Aqui fica esse espaço, assumidamente em branco, em tributo pelos seus bons serviços, prestados à causa da liberdade.











escrito por ai.valhamedeus

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