
Depois de
Maitê Proença, José Saramago decidiu incendiar Portugal. Só que o prémio Nobel, tendo atingido menos portugueses, atingiu mais alvos -- os católicos de toda a Terra; e os da Lua, onde provavelmente também haverá católicos -- quando declarou que
a Bíblia é um manual de maus costumes
[veja um vídeo com extracto das declarações].
Desta vez, Saramago tem razão. Só que a Igreja tem, contra ele, um argumento divinamente poderoso. Chamemos-lhe o
argumento da interpretação, que é divinamente poderoso porque, quando aplicado a um texto
[no caso, aos textos bíblicos],

dá para tudo -- e, ao dar para tudo, anula qualquer hipótese de argumentação séria e impede quem quer que seja de ter razão em que circunstância for.
O argumento sintetiza-se assim, aplicado aos textos (pretensamente sagrados):
[nalguns casos -- quais casos? isso é questão a decidir circunstancialmente]
não deve ser lido literalmente, mas interpretado;
- o poder dessa interpretação -- e da mudança da interpretação -- tem o seu centro na cidade santa, o Vaticano.
A História provou já suficientemente que este argumento, além de divinamente poderoso, é divinamente maléfico, porque já forneceu fósforos para acender fogueiras para queimar hereges.
Seja, por hoje, um
exemplo. O capítulo 10 do
Livro de Josué [um dos livros bíblicos, recordo eu, para que não haja dúvidas]
apresenta-nos um Josué chefe do povo de Deus que vence e destroça reis, com a ajuda super-poderosa do (seu) Deus: é Ele-Deus quem põe em desordem os inimigos
[que Israel "desbaratou com grande matança", diz a Bíblia],
é Ele quem depois lança do céu sobre os inimigos grandes pedregulhos
["e foram mais os que morreram das pedras da saraiva do que os que os filhos de Israel mataram à espada", diz a Bíblia],
é Ele quem finalmente manda parar o Sol e a Lua, para que o seu povo pudesse acabar definitivamente com os inimigos.

Esta coisa de Javé ter mandado parar o Sol
[e é a Bíblia, repito, que diz que foi assim. O Sol e a Lua]
foi entendida, durante séculos, pelos intérpretes oficiais assim mesmo,
literalmente:
o Sol anda porque só assim o Senhor Deus pôde fazê-lo parar até nova ordem. Quando, no século XVII, um senhor sem direitos de interpretação jurou
[antes de, sensatamente, jurar o contrário]
que o Sol não andava nada, que era preciso dar uma/outra interpretação ao texto bíblico, foi o cabo dos trabalhos: Galileu
[esse é o nome do tal senhor]
só não foi parar à fogueira
[que já se acendera para reduzir a cinzas as mentes heréticas de gente como Giordano Bruno]
pelas boas relações que tinha com a Sua Santidade (SS) da época. Mas, apesar de ter renegado a heresia, Galileu ficou em prisão domiciliária até à morte -- e foi bem feito para aprender que intérpretes da Palavra Divina há só uns: os donos do Vati-cano.
400 anos depois, os mesmo donos da Verdade Interpretada voltaram ao ofício interpretativo, desta vez para absolver Galileu; para dizer que afinal o cientista nunca foi condenado, porque
SS da época nunca assinou a condenação [o que prova que os intérpretes, além do mais, são cínicos];
para propor uma estátua, na cidade santa, do injustamente condenado; para lhe
fazer exposições; ...só falta, mas talvez não tarde, que, um dia destes, o cientista de Pisa seja beatificado.
Não obstante, segundo os intérpretes,
o texto bíblico continua válido; o que nele se pretende transmitir à humanidade é, segundo a nova interpretação, a ideia de que Deus é amigo do seu povo e está do seu lado, sempre que é necessário...
Agora pergunto eu: o que é que mudou para que mudasse a interpretação? Isto, apenas: já ninguém, hoje, vai nessa estória de o Sol andar -- e a estória bíblica é tão ridícula que há que tentar salvá-la pela (re)interpretação.
Segunda pergunta: quem garante que esta é a interpretação definitiva? ninguém. Nem Deus! Porque, afinal, nada disto é razoável. E, ao falar na falta de razoabilidade, Saramago tem toda a razão.
escrito por
ai.valhamedeus
LEIA O RESTANTE >>