Para não esquecer...

BUDAPESTE DE CHICO BUARQUE

Estreou o filme Budapeste, baseado no livro homónimo de Chico Buarque.

A história é interessante:
...um "ghost writer" que entra em crise durante um "Congresso de Ghost Writers" no qual todos fazem catarse e começam a reclamar a autoria dos seus livros.

...um "autobiografado" pelo "ghost writer" que acredita no que diz a sua autobiografia, que o mostra muito melhor do que é.

...e a fuga para um país cujo idioma é o único que o diabo respeita...



Um pequeno extracto do livro
[que está AQUI]:
Ética, leis de imprensa, responsabilidade penal, direitos autorais, advento da internet, era extenso o temário do encontro, a portas fechadas, num hotel soturno de Melbourne. Oradores de diversas nacionalidades se sucediam em palestras que eu acompanhava em espanhol, pelo sistema de tradução simultânea. Mas já na segunda jornada, à medida que entrávamos pela noite, as questões de interesse comum iam dando lugar a depoimentos pessoais, constrangedores. Aquilo começava a lembrar uma convenção de alcoólatras anônimos que padecessem não de alcoolismo, mas do anonimato. Veteranos autores, ostentando o nome completo no crachá, disputavam o microfone para um festival de vanglórias. Citavam uma enfiada de obras suas, e sem necessidade expunham a identidade dos presumidos autores, ora um grande estadista, ora o notório ghost-writer de um grande estadista, ora um romancista laureado, um filósofo, um proeminente intelectual, provocando rebuliço e gargalhadas na platéia. Na terceira noite eu estava mesmo decidido a abandonar a sala, quando o microfone caiu na minha mão e os circunstantes cruzaram os braços a me observar. Eu era o calouro, eu era talvez um elemento estranho, eu andara ouvindo confissões comprometedoras, eu não tinha saída, meu silêncio seria um acinte. Desculpando-me por me expressar em português, fiz um resumo do meu currículo, mencionei minha tese de doutorado, fui aplaudido, concedi em recitar alguns dos meus fraseados pausadamente, para que os intérpretes pudessem traduzi-los a contento. Em seguida expliquei o contexto de um ou outro trabalho, fiz alusão a personalidades que me deviam favores, daí a pouco estava a desembuchar fragmentos embaralhados de todos os artigos que me vinham à cabeça. Já era uma compulsão, eu fervia, falava, falava, teria falado até o amanhecer se não desligassem a aparelhagem de som. Ao ver a sala vazia e o elevador lotado, subi de um fôlego sete lances de escada; eu estava leve, eu estava magro, lá em cima me veio a sensação de ter ficado oco.
escrito por Eduardo LG, Argentina

2 comentário(s). Ler/reagir:

Anónimo disse...

Li o livro pouco depois de ter sido publicado em Portugal. Muito interessante.
Visitei Budapeste alguns anos depois de ter lido o livro. Graças a Deus não me aconteceu nada do que aconteceu ao protagonista do dito! Claro.
Recomendo vivamente esta cidade, tão ligada à Sissi da minha adolescência.
Gabriela

Ai meu Deus disse...

Uma crítica ao livro não tão positiva como a da Gabriela está aqui.

O texto tem o título, bem achado, "Chico Buarque de Budapeste" e começa assim (parafraseando a frase com que começa "Budapeste"): "Devia ser proibido debochar de quem se aventura a escrever romances". E continua:

"Aspirar ao ofício de romancista é um desígnio tão nobre, e tão alto, que o seu ruir, retilíneo, rápido, repulsa risos. Devia ser proibido também debochar de quem se aventura a ler Budapeste, o romance de Chico Buarque de Holanda. O compositor é tão fadado à felicidade no que faz, tão fecundo nos fás, que a fé dos fãs é facultada.

Desde já se diga que este artigo é uma leitura de Budapeste sem os olhos encandeados pelo brilho das canções de Chico. Aqui será lido Budapeste como um romance, como um livro que vem à literatura como todos os outros deveriam vir, com a força única e exclusiva da sua verdade e da sua arte".

E, após longas reflexões termina deste modo, insinuante: "Seria muito interessante, e salutar, que o próximo romance de Chico fosse enviado à editora dentro de um envelope pardo, sem outra indicação a não ser o nome do remetente, José da Silva, e um seu endereço em Teresina. Se publicado, muito agradável e pedagógica seria a recepção da crítica. Claro, se houvesse".