TRUMP(A)

UMA ESQUERDA ALEGRE E FLEXÍVEL

Foi apresentada, esta semana, uma coisa que se chama Nova Esquerda. Digo coisa, porque pareceria ser um partido, mas parece que não é, embora pareça que talvez seja
[sendo coisa de (ex?) alegristas, não admira que seja assim tão hesitante e indefinida].
E não sou em quem o diz, inventando; é o próprio Azevedo Pinto
[o porta-voz e uma das caras destacadas do que também pode ser chamado movimento, jovem viseense que tem navegado em várias águas político-partidárias]
quem o sublinha, em entrevista ao viseense Jornal do Centro. Pretendendo esclarecer que não se trata de um partido envergonhado, afirma que
Hoje em dia as pessoas estão muito cansadas com os partidos e com a política em Portugal. Isso leva ao afastamento, a começar pelas gigantescas taxas de abstenção e, depois, a um fenómeno que começa a ser interessante do ponto de vista da análise, que é a questão do voto branco e do voto nulo, se somarmos as duas coisas estamos a falar de um universo de 70 por cento de pessoas que estão fora do sistema. A designação não é um partido envergonhado. Tem que ser partido enquanto registo formal, porque a lei assim o obriga, mas a organização informal deve ser dessa forma, informal quanto possível.
E segue-se uma série de afirmações, alegríveis, deste tipo: que o movimento-partido está organizado, de um modo tradicional para ir a votos, mas de um modo diferente para funcionar fora dos votos; para ir a votos na opinião de Azevedo Pinto, embora possa não ir a votos; com uma estrutura sem funcionários mas com lideranças fortes...

Isto faz-me lembrar o pê-èsse. O pê-èsse é social-democrata
(como um ou outro, raro, destacado militante declara),
mas diz-se socialista; de esquerda teoricamente e quando na oposição, com uma prática de direita quando governa. Uma mistura disto e daquilo: uma coisa em que não se sabe se se pode confiar
[e, portanto, não se deve confiar, porque não se deve confiar em quem não se sabe se se pode confiar].
Curiosamente, no seu sítio da web, a Nova Esquerda alerta para "a provável ditadura de Ferreira Leite"; só que o PSD, nós sabemos que partido é. O pê-èsse, esse não sabemos. A Nova Esquerda parece ir pelo mesmo caminho do pê-èsse
[é uma chatice!].
Pode ler toda a entrevista aqui. Para o caso de a mesma ser retirada, transcrevo-a a seguir.


Alexandre Azevedo Pinto, 38 anos, economista, natural de Viseu, foi candidato à câmara municipal de Viseu, quando o Bloco de Esquerda (BE) estava a dar os primeiros passos. Saiu do BE quando entraram no partido antigos militantes do PCP. Participante activo na campanha presidencial de Manuel Alegre e muito próximo do histórico socialista, tem-se envolvido, em várias iniciativas de cidadãos. Líder do Movimento de Cidadãos de Viseu que, em conjunto com os comerciantes, tem reclamado a transferência da Loja do Cidadão para o centro histórico, surge como porta-voz e umas das caras da Nova Esquerda, apresentada na quarta-feira ao país.

No artigo de opinião que escreveu no Jornal do Centro apresenta o novo partido como "um grupo muito expressivo de homens e mulheres deste país [que] decidiu criar um Novo Sujeito Político em Portugal". Ao longo do texto não usa uma única vez as palavras partido político. Parece estar a criar-se um partido envergonhado.

Hoje em dia as pessoas estão muito cansadas com os partidos e com a política em Portugal. Isso leva ao afastamento, a começar pelas gigantescas taxas de abstenção e, depois, a um fenómeno que começa a ser interessante do ponto de vista da análise, que é a questão do voto branco e do voto nulo, se somarmos as duas coisas estamos a falar de um universo de 70 por cento de pessoas que estão fora do sistema. A designação não é um partido envergonhado. Tem que ser partido enquanto registo formal, porque a lei assim o obriga, mas a organização informal deve ser dessa forma, informal quanto possível.

Que interpretação é dada ao nome Sujeito Político em Portugal?

Um sujeito político é um elemento de transformação e de mobilização da sociedade portuguesa que traz consigo uma grande expectativa em relação a esta mudança, que é necessária na sociedade portuguesa e permite encaixar um conjunto de estratégias de mudança.

O que o distingue de um partido tradicional?

Os partidos de uma forma genérica estão organizados num modelo mais tecnocrata, em que há os chefes em cima e os que os respeitam em baixo. Isto criou uma sociedade estruturada a partir desta organização. Esta forma está esgotada e as pessoas estão a borrifar-se para chefes de partidos, de aparelhos locais ou de aparelhos nacionais. É algo que mete impressão a muita gente.

Mas tem que haver uma chefia.

Não, tem que haver uma organização e uma direcção necessariamente. Como modelo alternativo, sugerimos um modelo em rede muito mais flexível, onde as lideranças podem ser criadas também muito diferente das que temos hoje, e essa lógica de rede assente numa lógica de novas tecnologias, de sociedade de informação, muito mais flexível na medida em que não temos um aparelho com funcionários.

É um partido para não entrar na arca do poder?

Essa é outra questão. Terá que ter uma organização e é um projecto que poderá ir a votos. Agora, pode estar organizado para ir a votos, mas pode existir uma forma diferente de estar organizado. Isso é possível.

Mas sempre com caras em quem qualquer português que vá votar lhe confie o futuro do país. Ou não?

Sim. As lideranças são importantes. Podemos ter lideranças fortes sem caciques nacionais ou locais. Os partidos estão parados no tempo e não perceberam uma realidade em mudança e essa realidade em mudança é que 70 por cento das pessoas não liga nada a isto. Isso é preocupante e devemos resolver.

Quem é que faz parte da Nova Esquerda?

Estamos a falar num conjunto de cerca de 200 homens e mulheres de todo o país (e pessoas fora do país), muitos vindos do Partido Socialista, outros do MIC (Movimento de Intervenção e Cidadania) – eu próprio fui fundador bem como um conjunto alargado de pessoas que estão na Nova Esquerda. Mas nós continuamos no MIC como continuam pessoas de outros partidos nomeadamente do PS – e que, de alguma maneira, se revêem nesse duplo objectivo: renovar e transformar o sistema político em Portugal e associarmos essa renovação e transformação à esquerda da política portuguesa.

Há já uma crítica que vos é apontada nas conversas informais que se ouvem: são os frustrados que não conseguiram impor-se às ideias noutros partidos. Que comentário lhe merece esta análise?

Não percebo como se faz a opinião pública neste país. O mais incrível é que as pessoas falam do que nem sequer conhecem. Acho que a opinião pública neste país anda um pouco manipulada e deixa-me muito a desejar.

O MIC de Viseu tem muita influência neste novo movimento?

Há pessoas do MIC de Viseu que têm um papel muito destacado no projecto. Talvez porque foi um grupo muito coeso, que desde o primeiro momento esteve na candidatura de Manuel Alegre e houve pessoas que inclusive estiveram com a candidatura de Manuel Alegre a secretário-geral do Partido Socialista.

É uma Nova Esquerda para ir a votos?

Essa é a minha opinião. Nós vamos fazer uma convenção fundadora e esse será necessariamente um dos tópicos de discussão.

Já nas legislativas?

Os timings são muito curtos. O nosso objectivo seria ir nestas eleições. Uma das questões é apresentação das 7500 assinaturas e todos os formalismos, por forma ainda entrar na agenda das legislativas. Não sei se será possível, é difícil pelos timings.

Não concorrendo às eleições, qual vai ser o papel da Nova Esquerda nos próximos actos eleitorais?

Ainda não tenho resposta. É um modelo que está em construção e vamos ter necessariamente que reflectir.

O Alexandre seria um bom candidato à Câmara Municipal de Viseu?

(Risos) eu já fui candidato, derrotado se quiserem, mas as autárquicas têm ainda uma dupla dificuldade. Isso vê-se nos pequenos partidos. É talvez o tipo de eleição que mais obriga a uma lógica de militância. Se fosse uma candidatura isolada, poderia ser uma hipótese, mas acho muito difícil face à agenda e aos candidatos perfilados. Foi muito ponderada em tempos a apresentação de uma candidatura de independentes em Viseu, terão percebido os sinais.

E porque não avançou?

Entendemos que não faria sentido nesta fase, porque ainda não havia um grupo suficientemente consolidado do ponto de vista de um projecto para Viseu. E a avançar não podíamos falhar. Depois, há imensas dificuldades do ponto de vista da própria formalização de uma candidatura independente. A lei dos partidos condiciona muito os independentes. E, desse ponto de vista, também queremos dar um sinal de diferença. Uma das propostas que vamos fazer, na mudança do sistema político em Portugal, é a candidatura de cidadãos independentes a legislativas, os cidadãos poderem disputar de igual para com os partidos, a candidatura a eleições legislativas. Estamos a melhorar a democracia e a aproximar os cidadãos dos eleitores. O monopólio dos partidos é passado e é mesmo muito importante para a própria renovação dos partidos.

Essas candidaturas de cidadãos não poderão transformar-se em listas de interesses particulares, promovidas por grupos economicamente poderosos?

Isso é possível.

E um risco grande para a democracia.

É um problema que temos na sociedade portuguesa e transversal à natureza humana. Aí o que temos que exigir é lisura no tratamento de informação e que às pessoas seja exigida uma participação de igual para igual. Tem que haver uma mudança sistémica. O povo, de alguma maneira, tem demonstrado que está insatisfeito com este estado de coisas.

O Alexandre Pinto pode ser a cara da Nova esquerda?

As coisas estão muito cruas desse ponto de vista. Há uma comissão promotora que tem como missão apresentar, organizar e fazer a primeira convenção, em Coimbra, dia 4 de Julho na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, numa sala emblemática, a Sala 17 de Abril, ligada à crise estudantil. A nós também nos interessa mover neste quadro simbólico, como um sinal para que as pessoas percebem que vivemos num quadro de símbolos.

Porquê Coimbra?

Pela centralidade, pela Sala 17 de Abril e pela Universidade de Coimbra. Estas coisas não têm que ser sempre em Lisboa.

Saiu do Bloco de Esquerda (BE) mas continua a ir às iniciativas do BE quando está em Viseu Francisco Louçã. Integrou o movimento alegrista de Viseu, lidera o Movimento de Cidadãos. É ânsia de protagonismo?

Se me disser protagonismo político, talvez. Relativamente ao Bloco é conhecida a minha saída, eu continuo a ter uma óptima relação com o Francisco Louçã do ponto de vista das questões económicas. Eu respeito-o muito como economista, até mais do que como político (sorri), ao contrário das relações que ficaram pior tratadas, por exemplo, com o Miguel Portas.

Arranjou outros palcos?

Gosto da palavra palco (sorri). Muitas pessoas ainda hoje acham que eu sou do Bloco de Esquerda. Eu não me sinto nada desagradado com isso.

O que o move?

A questão da cidadania. No Bloco, integrava uma quarta corrente que pertencia a pessoas que não vinham de nenhuma filiação política anterior, estavam na área dos independentes dentro do Bloco. Esse espaço acabou por desaparecer e eu entendi que já faria muito sentido continuar no projecto. Mas a minha atitude de cidadania manteve-se e procurei encontrar outras soluções politicas, mantendo a coerência. Entendi que a candidatura de Manuel Alegre representava tudo isso. Viseu teve um protagonismo muito grande, na decisão de Manuel Alegre avançar, na candidatura presidencial. Está escrito e muito bem explicado num livro organizado por Helena Roseta e Nuno David.

Foi uma desilusão Manuel Alegre não ter avançado com um partido?

Para mim, foi uma desilusão Manuel Alegre não ter avançado.

A Nova Esquerda é uma resposta a essa desilusão?

Eu respeitarei a decisão individual de Manuel Alegre, acho que ficou claro que quererá voltar a ser candidato presidencial e tem desde já o meu apoio, apoio do Alexandre e inevitavelmente do movimento.

Como comunicou a Manuel Alegre a criação deste novo partido?

Foi avisado muito tempo antes e percebeu isso muito bem.

Como está a luta pela transferência da Loja do Cidadão de Viseu para o centro histórico?

O Governo e o Partido Socialista local têm tido uma atitude incompreensível. Ainda não percebi hoje qual é a posição que o PS tem relativamente à Loja do Cidadão. Um dia dizem uma coisa, no outro dia dizem outra. O Governo diz uma coisa, o PS local diz outra, depois, dizem meias coisas.

O movimento parou?

Não, estamos a aguardar uma clarificação das coisas novas no processo. Na última reunião da Assembleia Municipal coloquei questões específicas ao dr. Fernando Ruas e ele, de uma forma gentil, deu-me resposta e avançou com uma ideia nova: uma decisão da autarquia, em que afinal a Loja do Cidadão já não iria para o antigo quartel dos Bombeiros Voluntários, mas para o Mercado 2 de Maio e, ao mesmo tempo, diz que tinha já falado com o arquitecto Siza Vieira para alterar o Mercado 2 de Maio, construir um edifício adicional no piso superior e tendo necessidade de deitar abaixo um conjunto de magnólias.

Vão esperar que a situação se clarifique?

Acho que tem que ser clarificada o mais rápido possível. O prazo de renovação do actual contrato está a decorrer, não sei se estão a decorrer negociações. A ideia que o dr. Fernando Ruas deu foi que o ministro não inviabilizava o avanço, mas também não movia uma palha. Eu acho que a câmara está a fazer mais do que devia, está a fazer a parte que competiria ao Governo e aí é que critico o Governo e o PS e tenho que saudar o dr. Ruas.

O objectivo do Movimento de Cidadãos de Viseu está cumprido?

Um dos objectivos com que nos mobilizámos era introduzir o centro histórico como núcleo central no debate político dos candidatos [às eleições autárquicas]. Penso que o estamos a conseguir. Agora, a nossa luta ainda não acabou, atenção. Nós entendemos que a Loja do Cidadão deve ir para o centro histórico, as 500 pessoas que estiveram na concentração só ficarão satisfeitas quando virem a Loja onde ela merece estar.

Qual o candidato à Câmara de Viseu que vai apoiar?

(Risos) não sei se publicamente irei apoiar algum, ainda não os conheço todos, poderá até acontecer que eu, Alexandre Pinto, vá apoiar um candidato.

E o Movimento de Cidadãos de Viseu?

Não vai apoiar enquanto movimento nenhum dos candidatos. Individualmente é possível que possam até integrar listas de candidatos.


escrito por ai.valhamedeus

1 comentário(s). Ler/reagir:

freespirit disse...

Estas ideias deixam-me confuso - é pena é que, nesta época de exames, este sentimento não seja isolado.

Um movimento que é contra as lideranças mas que apoia incondicionalmente Manuel Alegre.

Uma pessoa que "Saiu do BE quando entraram antigos militantes do PCP." Qual é a lógica?

A favor de candidaturas independentes numas eleições em que não se vota para quem vai ser o Primeiro-Ministro, mas para quem nos representa no Parlamento. Funcionaria como? Um grupo de independentes junta-se, vota-se neles e defendem o quê? O que é que esta dinâmica tem de diferente em relação a chamar-se partido a esse grupo?
Ou votar-se-ia directamente num independente e ele valia tantos votos no Parlamento quanta a percentagem que o povo lhe desse?

A diferença às vezes é boa.
Não sei em que é que esta nos ajuda. E também não sei se esta "diferença" é assim tão diferente daquilo de que os portugueses não gostam nos políticos.
Porque, afinal, do que eles não gostam, é que se queira apenas o "poleiro" e... não sei, não sei se é diferente neste aspecto.