TRUMP(A)

VERDADES QUASE MENTIRA (2)

Indo eu, indo eu, não a caminho de Viseu, mas em demanda de umas vitualhas para o fim-de-semana provavelmente molhado, avistei uma das testemunhas que mal presenciara o assalto à vítima do tal “moço de uns 40”, aqui há atrasado. Indaguei, preocupada, do desenrolar da situação. Afortunadamente, e para sossego de pessoas de bem a quem acontecem coisas ruins, “a polícia já lhe deitou a unha”. Da carteira é que nem rasto.

Alá é grande e Maomé o seu profeta, pensei. A crer na polícia!

Com uma ou duas teses sobre o assunto, na cabeça, arranjei assento numa esplanada, a cumprir rituais, rotinas que nos ancorem em cais falsamente estáveis. Ao meu lado, uma família moderna: pai muito compincha, adolescente pressionando competentemente as teclas do telemóvel último grito, enquanto o progenitor arengava qualquer coisa importante: foi muito caro. Agora não te esqueças de o levar para a escola… A mãe fumava um cigarro silencioso.
Finda a leitura de um poema de Maria Rosário Pedreira, poeta que recomendo veementemente, ergui-me da cadeira e fui à minha vida. Não é uma vida que se veja, mas é minha.

No espaço junto à escada rolante para a grande superfície alimentícia, deparo com a personificação do aforismo “se Maomé não vai à montanha, vai a montanha a Maomé”. Literal e literariamente: a dona de uma conhecida livraria, rodeada de livros por todos os lados. Uma ilha de leitura a tentar a curiosidade dos passantes. Folhear um livro ou outro, quiçá. Passar as mãos p’lo pêlo do livro. Mostrando que estão atentos ao Plano Nacional de Leitura.

Hélas! Não compram, suspirou ela em resposta ao meu interesse pelo negócio. Tenho uma reserva deste, para quando a interessada receber o Ordenado Mínimo de Inserção, disse, apontado um autor estrangeiro e o título sugestivo “Coisas Más Acontecem a Pessoas Boas”.

Ou qualquer coisa no género.

escrito por Gabriela Correia, Faro

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