TRUMP(A)

MÚSICA PARA O FIM DE SEMANA - elvis costello

João Lisboa, no Atual do Expresso de 23 de Outubro passado, atribui 4 estrelas, no máximo de 5, ao último disco de Elvis Costello: National Ransom.

[está aqui]

E justifica-se assim:
Na capa de “National Ransom” (assinada pelo mesmo Tony Millionaire que já fora responsável pela do anterior “Secret, Profane & Sugarcane”), um prototípico “lobo mau” — fardado de casaca, cartola e polainas, como os pérfidos capitalistas da iconografia agit-prop anarquista-comunista da primeira metade do século passado —, de dente arreganhado e olhar fulminante, corre sobre um fundo híbrido de dólar e libra de valor variável, carregando uma mala de onde se soltam notas em chamas. ‘National Ransom’, a faixa de abertura, por entre a estridência elétrica da guitarra de Marc Ribot e a vertiginosa cavalgada da secção rítmica de Pete Thomas e Dennis Crouch, abre o plano sobre o tumulto em curso “from the real old Macau to the new False Americas, in the liberated territories”, onde “unusual suspects shake down various dubious characters” e as confusas silhuetas do naufrágio se apercebem de que “outside someone’s wailing, they’re running wild just like some childish tantrum, meanwhile we’re working every day, paying off the national ransom” e reparam que “there’s a wolf at the window with ravening maw”. Em registo de vaudeville, ‘A Voice in the Dark’, última paragem, antecipa o genérico final com o aforismo bem-humorado “Kings reign beneath umbrellas, hide pennies down in cellars and money pours down and yet not everyone gets soaking wet”, enquanto “a wolf begins to howl in tune”. Em tempo de predadores, Costello não dá tréguas e quando brinca fá-lo muito a sério. Como em “Secret, Profane…”, predomina uma benévola tonalidade bluegrass que dá margem para que outros idiomas musicais se intrometam com mútuo benefício. Os sinos dobram, raparigas suspiram em português, e Jimmie espera sob o céu que desaba numa nação indiferente. J.L.
Para aguçar o apetite do ouvido, aqui fica, "em registo de vaudeville", a faixa A Voice in the Dark:


escrito por ai.valhamedeus

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