TRUMP(A)

NOTÍCIAS DOS ALGARVES – FERIADO DE 8 DE DEZEMBRO

Fui cedo levar a minha filha ao comboio; transporte ideal para desempregados, e outros.

Estranhei, mas agradeci, o pouco movimento a arrepiar o dorso da cidade. Bastante maltratado, diga-se. Será da chuva?

Ah, é verdade. É feriado. Louvado seja Deus, onde quer que ele esteja. Pode até ser na Madeira, a festejar o euro milhões. Há lugares por toda a parte e posso estacionar, sem arreceio, num dos muitos reservados à edilidade e demais organismos estatais; vazios. Como a cidade. À parte uns quantos automóveis, perturbando as gaivotas e os pombos à espera de alimento que a Divina Providência lhes proporciona, materializado em migalhas deixadas pelos
(poucos, que “a coisa aqui está preta")
convivas do café.

Também os arrumadores da azáfama dos dias úteis confiam na Divina Providência, ao invés dos lírios do campo, de uma moedinha a premiar a ajuda, desnecessária, no estacionamento: destorça, dona! Está bom.

Alguns são autênticos filósofos, driblando as leis.

-- Achei estranho, disse-me um, num dia qualquer, que me afiançou ter concluído o 12º Ano na Alemanha, o que lhe valeu a equivalência ao 7º Ano de Escolaridade. Então está bem, disse-lhes ele, fazendo o gesto da tão conhecida cerâmica de Bordalo Pinheiro. E vim-me embora; agora estou desempregado, dona.

Adiante. O que ele estranhou quando regressou de férias
(eu nem sabia que os arrumadores também tinham férias)
foi o facto da placa assinalando UATI e dois lugares de estacionamento, das tantas às tantas horas, ter sido removida. E foi a única aqui na zona, disse o arrumador, proferindo ainda umas quantas “verdades” sobre os ataques à educação.

Não perdi tempo, nem energias a confirmar se as outras placas com lugares cativos se mantinham a postos, facilitando a vida aos seus utentes; por uma abscôndita razão, tentei, outrossim, incomodá-lo na sua liberdade de pombo-correio, ou de Fernão Capelo Gaivota, trazendo-o para os carris da norma (lidade).

Cedo desisti, pouco convicta dos argumentos.

Depositei-lhe na mão uma moeda de 1 euro, a agradecer. E não foi, certamente, pelo estacionamento.

P.S.
Espero não haver aqui nenhum comentador que me mande ir hoje trabalhar, como o deve estar a fazer o arrumador. Firme no seu posto: à chuva e ao sol. Mais à chuva, nesta época do ano.

escrito por Gabriela Correia, Faro

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