TRUMP(A)

A CRISE DA MARMELADA OU A MARMELADA DA CRISE

Não sei se se lembram, mas no meu tempo, quando algo corria mal, ou algo não funcionava, costumávamos dizer: esta marmelada não funciona. E ele havia toda a sorte de marmelada, a bem dizer. Dessa também.

Bem, o causo é que, ao passar pela rua onde mora a minha, digamos, costureira, olhei por casualidade, quiçá por hábito, para a janela do rés-do-chão. É uma janela indiscreta, porém ao contrário. Ao invés de ser a D. Rosa a espiar-nos, somos nós que a vemos sempre a postos, em frente à máquina da costura em chuleios e costuras.

Tem sorte a D. Rosa, que já conta 74, em ter esta janela à face da rua. Não corre o risco de passar para o outro lado, e só ser descoberta oito anos depois.

Abandonemos, contudo, este parêntese triste e continuemos o tema bem mais doce da marmelada. Nos intervalos da costura, a D. Rosa ainda tem tempo para fazer marmelada. Que vende às vizinhas e a uma ou outra cliente mais gulosa. E como todos sabeis, a marmelada depois de ser vertida nos recipientes necessita de um pouco de sol. Para não criar bolor. Lembro-me bem de ver as tigelas e as malgas de marmelada dourada, feita pela minha Mãe e pela minha Avó, a secar ao sol de Março. Não eram as andorinhas que anunciavam a Primavera, na minha infância, mas sim os ditos recipientes da marmelada, assediados por abelhas, sobretudo por vespas. A disputarem a marmelada que iria espraiar-se, lasciva, no nosso saboroso pão de centeio. Como nunca mais comi igual.

Não estranhei, por conseguinte, ver no parapeito da janela da D. Rosa recipientes, oh, valha-me Deus! De plástico! Com uma marmelada muito mais escura do que a da minha infância. Parei para uma saudação, que eu ainda sou do tempo em que os vizinhos se cumprimentavam e falavam uns com os outros.

Como ia a vida, queixas da crise, etc., etc. E olhe que há mesmo crise, disse a D. Rosa com ar zombeteiro. Eu vejo pela marmelada. Nos outros anos, mal fazia a marmelada, ia toda embora, em menos de nada. Este ano, estou a ver que nunca mais a despacho!

Para a ajudar, acabei por lhe comprar uma tigela de plástico de marmelada.

Pode ser que seja da crise, pode ser que seja dos marmelos, ou até do açúcar, mas esta marmelada nada tem a ver com a da minha infância.

Perdoem a imodéstia, mas a minha marmelada é muito melhor. Dá é muito trabalho a fazer.

escrito por Gabriela Correia, Faro

1 comentário(s). Ler/reagir:

Tatiana disse...

Está muito bem visto, é de louvar que a Gabriela tenha a sensibilidade e a subtileza de usar um produto de culinária para falar da crise num texto cheio de humor e nostalgia, esta última de uma forma saudável e sonhadora.
Beijinhos
Tati