TRUMP(A)

UMA BOL(INH)A DE NEVE

Depois de uma longa hibernação surgem, de vários quadrantes, sinais de algum inconformismo capaz de corporizar uma revitalizada contestação (mais uma!) a este prolongado “assédio moral” que tem feito dos professores um corpo em deriva e da escola pública uma instituição profundamente instável. Escolas, departamentos e grupos disciplinares, começam a adensar o número que, cada vez mais, dá força à indignação. Para já – e sem surpresa –, a ADD está no centro da contestação, ora porque as incongruências nascem de geração espontânea, ora porque a maníaca profusão legislativa cresce na razão directa do aumento das intermináveis e inúteis tarefas. Entretanto, pede-se muito pouco: alteração do modelo de avaliação; embora, um pouco mais longe... os “colaboracionistas” também se mostrem desagradados com empecilhos menores. O tempo vai frio, propício a bolas de neve. Santana Castilho já começou a juntar os alvos flocos que podem desaguar numa mole imensa, outra vez na Capital. Mas com tantas marionetas empenhadas no seu próprio labirinto, será que resulta?
Escutemos então num naco de prosa de S. C.:
«Um Teatro de sombras
[…]
O modelo de avaliação do desempenho dos professo­res é tecnicamente uma nulidade e politicamente um desastre. Introduziu nas escolas tarefas burocráticas e administrativas que representam, estimo, 40% do tempo activo dos docentes. Só o cumprimento da observação de aulas significa o sacrifício de um grande número de horários completos dos professores eventualmente mais qualificados. A sua lógica substituiu o clima cooperativo, que deve nortear o corpo docente de uma escola, por um espírito de competição malsã. A versão actual supõe (despacho n.º 16.034/2010 da ministra da Educação, DR n.º 206, II Série, de 22 de Outubro) quatro dimensões de actuação dos docentes, desdobradas em 11 domínios operacionais. Estes 11 domínios desagregam-se, por sua vez, em 39 indicadores, referidos a cinco níveis, cada um deles com múltiplos descritores, num total, pasme-se, de 72. Nenhuma inteligência sã suporta a permanência de tamanho monstro. Mas vai para três anos que toda uma comunidade docente é manipulada atrás da tela. E o que é duro de assumir é que tamanha tragédia só permanece em cena porque grande número de actores reescreve sadicamente nas escolas os guiões oficiais, numa psicótica fusão entre abusadores e abusados, entre personagens e actores, entre professores e burocratas. […]»
[Santana Castilho, Professor de ensino superior, Público, 16 de Fevereiro de 2011]

[ilustração rapinada daqui]

escrito por Jerónimo Costa

1 comentário(s). Ler/reagir:

Anónimo disse...

O que nasce torto,dificilmemte se endireita.Da famigerada Lurdes a esta de que me esqueci já o nome,Deus vos proteja de tamanha incompetência.C.C.