TRUMP(A)

DO CONTRA [85] o único animal que crê

Em última instância

[digo em última instância, porque há expressões da fé que são razoáveis],
a fé é irracional, é a negação da razão. Por esse motivo a fé é a negação da dignidade do Homem enquanto ser racional.

Há uma expressão da fé que, repito, pode ser considerada razoável. Mas há, igualmente, uma fé estúpida. Para esclarecer a distinção, recorramos a 2 exemplos: o dos milagres e o da Eucaristia católica.

Um milagre é um fenómeno que vai contra as leis da Natureza conhecidas e, por isso, é inexplicável. O crente explica-o como revogação sobrenatural dessas leis. Não vou discutir aqui, agora, a questão dos milagres
[Hume fê-lo, em tempos idos, muito bem];
nem sequer vou defender que a explicação que o crente dá do fenómeno milagroso seja boa
[ao contrário, acho que não é boa ideia explicar o desconhecido pelo recurso ao desconhecido];
mas não posso deixar de admitir que, em casos deste tipo, há algo que torna a fé razoável: o próprio milagre. Aceitar que algo que contradiz as leis naturais é resultado da acção de um ser sobrenatural (sendo, como disse, discutível) é aqui razoável.

Muito diferente é o que se passa na Eucaristia, vulgo Missa, católica. No rito da Consagração
(o momento central da Missa),
acredita-se, por efeito da reprodução das palavras e gestos de Cristo na Última Ceia, o pão e o vinho transubstanciam-se, tornam-se Corpo e Sangue de Cristo. Isso mesmo: um pedaço de pão
[que é apenas pão antes da fórmula mágica "Tomai e comei, isto é o meu corpo"]
ganha outra... substância, depois dessa fórmula mágica. Nem um único sinal, ou qualquer alteração, manifesta qualquer diferença entre o objecto antes e depois da fórmula mágica
[porque é impossível distinguir uma hóstia consagrada de uma que o não foi, é por isso que se devem guardar devidamente as primeiras].
Acreditar nisto só pode ser um acto de fé estúpida. Estúpida.

Augusto Abelaira definiu o Homem como o único animal que consegue distinguir a água benta da água normal. Talvez por isso o Homem seja o único animal estúpido. O único que se alimenta de fé.

escrito por ai.valhamedeus

5 comentário(s). Ler/reagir:

Frei José da Santíssima Trindade disse...

Achei muito estranho que a senhora que neste blog sempre sai a disparar contra os ataques às desgraças da Igreja Católica (Romana), não tenha escrito nada para denunciar a desgraça da beatificação de um papa que de santo, segundo a própria definição eclesiástica, não tem muito. Onde é que ficou aquele sentido de justiça que antes a levava a disparar?
Ou é que se sente obrigada a vir a terreiro para pagar dívidas? Ou será porque está de acordo que, por princípio divino, a Igreja Católica está proibida de fazer autocrítica?

Anónimo disse...

oh meu deus... valha-nos Jesus...
as coisas sábias que estes iluminados tão bem sabem expressar... com certeza ainda pensam que vivem no tempo em que foram educados no temor e no tremor. as pessoas esclarecidas sabem "ler" os imbolos e os sinais da eucaristia, como tantos outros que por aí há. os rituais são isso mesmo, rituais, comportamentos que se repetem para rememorar um acontecimento "original". Qual é o problema? falar de algo de que não se tem experiência, como parece ser o vosso caso em relação à fé, é algo que até os sábios como vocês deviam evitar. não o fazendo estão apenas a seguir os comportamentos que tanto se esforçam por criticar, ainda que seja ao contrário. explicitando: com o argumento da ignorância limitam-se a dizer as mesmas "charadas" das igrejas com a diferença do que para uns é santo e divino, para outros é material e profano... já tinha escrito o poeta que também era físico:
"Os meus olhos são uns olhos / e é com esses olhos uns / que eu vejo no mundo escolhos / onde outros com outros olhos /não vêm escolhos nenhuns". o resto podem continuar a ler e meditar...
é a diversidade de interpretações e a tolerância sobre as mesmas que torna os povos melhores, não é o discurso inflamado sobre a boa fé ou a má fé... a boa prática religiosa ou a má prática religiosa... hoje em dia a religião se for o ópio do povo, com certeza não o é no mundo ocidental que é muito pouco religioso e tantas vezes tão pouco tolerante para aqueles que decidem professar esta ou aquela religião...

Ai meu Deus disse...

oh meu deus, digo eu, caro/a anónimo/a!

Se conhecesse o conceito de transubstanciação (que tudo indica não conhecer), que é invocado no texto, não confundia um ritual onde se "rememora" o que quer que seja com o que, segundo a Igreja Católica, acontece na consagração.

Mas também não lhe vou explicar: tudo indica que a seguir repetiria os mesmos chavões de sempre: ópio do povo (quem é que falou nisso?), as nossas frustrações e ignorâncias, os nossos temores e tremores, e o resto que já se sabe, de tão lido nos seus comentários (seus, a julgar pelo estilo). Sobre a substância do texto (o conceito de fé), nicles!

Aprenda, se ainda tiver/for a tempo.

Anónimo disse...

Por acaso leu bem o texto? todo seu conteúdo nada tem que ver com as críticas que a ele faz. Apenas se limita a relativizar os acontecimentos da igreja, neste caso a católica, ressalvando, que hoje em dia só lá vai quem quer, só a segue quem o desejar.
Não sou teólogo e por isso não posso discutir consigo que ao que parece já terá andado com esses livros na mão, coisas só acessíveis aos especialistas.
Com os meus textos apenas me limito a chamar a atenção para os vossos excessos em relação a catolicismo, preocupação que não manifestam por exemplo em relação aos hindus, muçulmanos, ou...). as parangonas que uso, ilustram as ideias, não são para a conversa, tal como essa que se atribui a Marx, mas de facto não é dele do ópio, no contexto que aqui é usado.
Não pense que todos aqueles que não concordam com as suas ideias pertencem a um bando de ignorantes e analfabetos.
a nossa diferença é que você sabe muito e pretende levar os "descrentes" a aderir ás suas ideias, para todos em conjunto definirem e acatarem uma visão única do mundo. Eu sou um ignorante que me guio pelo senso comum e penso que quanto maior for a pluralidade de interpretações e a disposição para acolher o diverso, melhor o mundo será. O progresso é filho da diversidade, não dos totalitarismos, venham de onde vierem...

Ai meu Deus disse...

Caro/a último/a anónimo/a,

correndo o risco de me repetir, gostava que ficasse bem claro que:

1. "Do contra" é uma secção deste blogue onde digo o que penso sobre alguns aspectos (doutrina, teorias, práticas,...) da Igreja vaticanina. Como nunca disfarcei isso, quem ler um texto "Do contra" está avisado de que vai encontrar, como regra, alguma agressividade; pode lê-lo ou simplesmente "passar adiante";

2. Limito-me à Igreja vaticanina (e apenas aos aspectos "mais comuns": não sou teólogo, nem me interessam discussões teológicas), porque do Islamismo ou do Hinduismo, o que sei é menos que nada (bem... é verdade que a gente sempre pode "inventar"... ;-));

3. Apesar e contra os apelos recorrentes, é isso que continuarei a fazer enquanto escrever "Do contra"s, Não quero converter ninguém, muito menos criar uma crença única -- só me faltava agora mais essa... Apenas pretendo dizer o que penso e dar espaço a que quem pensa de modo diferente me confronte;

4. Confesso que me faz alguma comichão o facto de, seja qual for o tema do "Do contra", haja comentários sistematicamente a "atirar ao lado". Outra coisa é a discussão de ideias -- e dessa, meu/minha caro/a, dessa eu gosto. Quem me conhece, mesmo discordando de mim, pode confirmar que assim é;

5. O facto de reconhecermos o direito de os outros terem opinião diferente da nossa não nos impede de discutirmos a opinião dos outros. E de o fazer até com alguma vivacidade. Isto não é considerar o outros ignorante, é... discutir ideias;

6. Há assuntos que são objecto de opinião, há outros que não. Por exemplo, é falso que a Eucaristia seja (para os católicos) um simples acto de rememorização, Ainda que alguns católicos o possam afirmar, quem o afirma tem que explicar uma série de coisas -- entre as quais, o conceito de transubstanciação.