TRUMP(A)

O POVO E OS MITOS

Na esplanada da praia, gozando as delícias de Apolo, deus dourado que o novo economista da cena governamental quer vender aos reformados de bolsos cheios, dos países da UE com um sol zangado e escasso em comparências.

Cadeiras e mesas coloridas publicitando uma marca de gelados bem conhecida. Azáfama contida, uma vez que ainda não estamos em plena época balnear.

Ah! E um livro em frente a uma chávena de café.

Poderia ser o paraíso, não fora a falação das mesas circundantes. Umas mais do que outras:

-- A essa hora já eu estava na cama, a dormir. Hoje às oito já estava na praia.

-- Eu cá gosto é de ver o touro a ser toureado no chão. Dos cavaleiros não gosto.

-- Não posso ver o animal a ser espetado. Coitadinho do bicho.

-- Por mim acabavam as touradas, e de vez. Agora, até na televisão… a fazerem pouco do pobre do animal.

As palavras são como as cerejas, não é? Sem transição, a conversa passou para a quase destruição do equipamento social de um espaço infantil, vulgo baloiços e afins, vítima de uns hooligans ingleses, em tamanho pequeno. Perante a complacência e olímpica neutralidade dos avós!

As hostes dos avós lusos melindraram-se e, antes que o velho tratado de amizade entre os dois povos se extinguisse logo ali, os súbditos de Sua Majestade zarparam para outros ambientes mais favoráveis, levando a reboque a tumultuosa offspring.

Percebi que o incidente, por sinal pouco diplomático, se passara na capital.


Mas já a conversa lá ia, desenfreada, desta vez sobre o acontecimento trágico dos jovens sem cintos de segurança, a toda a brida por essas auto-estradas da abundância, num carro potente e sem seguro. Formoso e não seguro, como a Lianor.

-- Não queria estar na pele do amigo que lhe emprestou o carro, disse um economista, na certa.

-- Eu não queria era estar na pele da mãe, condoeu-se uma voz feminina.

Alguém tentou tirar ilações quanto à responsabilidade da sociedade que catapulta jovens para o estrelato repentino. E da comunicação social, com a promoção da fama em directo. Mas ninguém estava virado para assuntos de ética, numa manhã tão serena e propícia.

Eu achei que esse alguém tinha razão. Recordei-me do último livro de Lídia Jorge: A Noite das Mulheres Cantoras. Se o lerem, compreenderão porquê.

Regressei à Doris Lessing e ao seu conto “A Non – Marrying Man
(desculpem, mas estou a lê-lo no original),
cuja personagem “went native”, precisamente para se libertar dos acessórios da vida, que os outros achavam imprescindíveis à existência.

À qual nós, hoje, acrescentámos o computador, as redes sociais, e toda a panóplia tecnológica.

Imprescindíveis, não acham?

escrito por Gabriela Correia, Faro

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