TRUMP(A)

O SR MIGUEL OU É BURRO OU SE FAZ

Há muuuuito tempo que não leio nem ouço Miguel Sousa Tavares. A razão é simples: com frequência,  o sr. Miguel escreve e fala sobre o que não sabe

[numa das últimas vezes que o ouvi, perorava contra a função pública invocando as diuturnidades, que já não existiam há bué de tempo]
-- e, como não sabe, inventa, para defender as duas ou três ideias que não lhe saem da cabeça
[talvez seja isso que impede que lhe entrem outras]. 
Dito de outro modo: é grande o risco de o ouvir/ler dizendo asneira.

Por muita insistência de amigos, acabo de quebrar a jura de o ignorar, lendo um dos textos (publicado no Expresso) onde vai destilando odiozinhos de estimação para ganhar mais uns cobres. Nada de novo: é o habitual chorrilho de tolices, a habitual sessão de pancadaria nos professores, nos ditos privilégios de classe, na dita mediocridade dos profissionais...

A leitura reforçou ainda a ideia de que o sr Miguel (usando linguagem da gente humilde da aldeia onde me criei) ou é burro ou faz-se (numa versão mais polida, ou é palhaço ou faz-se). O texto está construído sobre falácias, de que destaco apenas o seguinte (e já estou, com toda a certeza, a gastar cera a mais com tão ruim defunto):



  1. O sr Miguel parece saber que o argumento no meu tempo era muito pior e a coisa funcionava é, no mínimo, "perigoso" (um argumento estafado, usado por muitos comentadores, que facilmente descamba para a analogia falaciosa, como aqui se prova); por isso diz (e repete) que não o vai usar. Mas usa: usa-o para concluir que "tudo é relativo", que na Finlândia é que é,... e que, em comparação, os professores portugueses trabalham pouco e ganham muito. Não sei por que razão o sr Miguel perdeu tantas palavras nos parágrafos anteriores (será só porque lhe pagam à palavra?), se eles não suportam estas teses, apenas atiradas para o papel (como diria o meu amigo Quim, sou dessa opinião ou da contrária, se necessário for).
  2. Invocando, pela enésima vez, a ideia tola de que a classe docente recusou "a possibilidade de ser avaliada para efeitos de progressão profissional - isto é, uma classe onde os medíocres reivindicaram o direito constitucional de ganharem o mesmo que os competentes", o sr Miguel avança para a recente greve, "irresponsável" e "leviana" aos exames. Vou ignorar a leitura leviana que o sr Miguel faz da mesma (entendendo-a como sinal exemplar da pouca importância que os professores atribuem à avaliação); chamo apenas a atenção para um belo exemplo da falácia do boneco de palha: o sr Miguel enumera uma série de falcatruas, de pseudo-direitos adquiridos, de regalias,... para as colocar como objetivo da greve e mais facilmente lhe poder malhar. Por que razão o sr Miguel se não concentra na análise objetiva das reivindicações explícitas que levaram à greve?
    Bem sei que é isto que o homem tem feito/escrito, há muitos anos; mas, porra!, vai sendo tempo de mudar a cassete.
  3. O alvo das espingardas do sr Miguel são sempre os mesmos. Quando, por (mais um) exemplo, escreve sobre os trabalhadores que se reformaram antecipadamente, é sobre estes que atira. A elasticidade mental do sr Miguel não é suficiente para, uma vez por outra, se colocar do outro lado do espelho (das causas de tais antecipações -- muitas delas indesejadas pelos próprios aposentados -- e dos responsáveis por essas causas). O que o sr Miguel vê é tão só o seu lado --  o pensamento vulgar (o que vende artigos de opinião) é o que lhe vem à mona.
  4. E o texto termina com mais uma analogia falaciosa: a comparação entre um cirurgião que não pode entrar em greve face a um doente anestesiado para a operação (ou um bombeiro face a um incêndio ou um controlador aéreo face a um avião a aterrar) e um professor que faz greve a um exame. Repito: ou o sr Miguel é burro ou se faz.
    Admitamos que não se lhe possa pedir que saiba, expressamente, que numa analogia válida não pode haver diferenças significativas entre os termos comparados (como existem na sua comparação); admitamos que os seus odiozinhos de estimação lhe anestesiam os neurónios responsáveis pelo raciocínio. Mesmo admitindo isso, custa aceitar que o homem não perceba vagamente que a comparação não é válida e que passam por aí as razões por que no Ensino não há serviços mínimos, ao contrário dos outros serviços que ele invoca.
    Ou será que o homem sabe-o bem -- tão bem quanto sabe que textos menos falaciosos não lhe renderiam tanto?

escrito por ai.valhamedeus [ilustração retirada do artigo do Expresso]

0 comentário(s). Ler/reagir: