TRUMP(A)

DO CONTRA [108] papa xico não é charlie


O Papa Xico, a pretexto do ataque ao semanário Charlie Hebdo, sentenciou que a liberdade de expressão não dá direito de insultar a fé do próximo.

Sua Santidade confunde aqui duas coisas (dois planos). Esperar-se-ia, porque é inspirado pelo divino espírito santo, que as não confundisse
(já outro tanto não se espera da eurodeputada Ana Gomes, que deve ter outros bichos inspiradores).
Sua Santidade confunde crenças/ideias com pessoas. E insiste na confusão quando compara/argumenta as ofensas ao Islão com as ofensas à (sua) mãe:
 "se um grande amigo fala mal da minha mãe, ele pode esperar um soco, e isso é normal. Não podemos provocar, não podemos insultar a fé dos outros, não podemos ridicularizar".
Porque, quem sabe?, o papa Xico poderá ler estas linhas, vou tentar explicar-lhe que uma coisa são crenças e outras, pessoas. Para dar um exemplo do catolicismo: eu acho tola a crença dos católicos na transubstanciação. Que alguém acredite que um pedaço de pão se transforme no corpo de um deus sem qualquer sinal que aponte nesse sentido -- isto é um perfeito disparate. No entanto, isto não impede o meu relacionamento com muitas pessoas (amigos, familiares) que acreditam na transubstanciação. Mais: já transportei pessoas, que não poderiam ir de outro modo, para "assistirem" à missa.

Esta distinção, de pessoas e das crenças das pessoas, tem várias virtudes; algumas:
  • permite a livre expressão, incluindo a "do outro lado"; permitiu ao ex-arcebispo-atual-papa "ofender" os gays proclamando que o casamento gay é uma manobra do diabo para destruir famílias (ou, vinda do outro lado, a ofensa deixa de ser ofensa?);
  • permite que se recorra aos tribunais e outros modos legalmente/legitimamente estabelecidos de punição; permitiu que alguns portugueses recorressem aos tribunais, por se sentirem ofendidos por uma imagem do papa, de outro papa mais tolo que este, com preservativo no nariz.
  • evita atitudes como a da Arábia Saudita que declarou, na lei, que todos os ateus são terroristas ; evitaria, por mais incrível que possa parecer, a chacina no Charlie Hebdo (e até, eventual e paradoxalmente, o fim do semanário); evitaria a caça aos cristãos nalguns países...

Se virem o papa Xico por aí, digam-lhe que passe por aqui!...

escrito por ai.valhamedeus

9 comentário(s). Ler/reagir:

O papa xico disse...

Dizes que o que estou a fazer uma confusão pois uma coisa são pessoas e outras são crenças.
Mas parece que estás também a fazer uma confusão. Repara que quando estás a falar mal da minha fé estás a falar mal de uma pessoa que é tão querida para mim como a minha mãe. A fé não é uma mera crença, é uma confiança numa pessoa, ou seja, Deus (sendo muito análogo à confiança com a minha mãe). Por isso estás equivocado quando dizes que a analogia não corre.
Abraço,

Ai meu Deus disse...

Caríssimo Santo Padre,

Permitide-me que Vos agradeça que tenhais perdido parte do Vosso tempo dedicado a espalhar a fé, a paz (ainda que com socos) (ainda espalhais o Império?) para nos dardes a Graça da Vossa Santa visita.

Confessar-Vos-ei depois um pecado por pensamentos: li as Vossas santas palavras e cogitei que Vossa Santidade não tem escutado atentamente a palavra do Espírito Santo. O meu pecado foi tão grande que cheguei ao ponto de me atrever a tentar substituir o divino Paráclito e explicar-Vos melhor que continuais a não ter razão (peço antecipadamente perdão para mais este pecado, contra a Vossa infalibilidade, esperando que a penitência não seja um soco).

Uma "coisa" é a pessoa da Vossa mãe -- outra, as ideias que ela defende, em que acredita. Admitamos que, pecando muito, eu chamava "ordinária" à Vossa mãe (Sossegue, Santidade! Guarde o soco para outros pecados! é apenas uma suposição). Neste caso ofenderia a Vossa mãe, naquilo que ela (não) é. Algo muito diferente de qualificar com nomes que o Santo Vaticano considere infames alguma "verdade" em que a Vossa mãe acredite. O que está em questão no segundo caso é uma ideia/teoria e não uma pessoa.

Bem sei que não foi disto que Vossa Santidade falou agora, diretamente. Ou não foi bem disto... mas daqui se salta para lá -- e Vossa Santidade ainda parece ser saltarico qb (perdoe-me mais este demoníaco atrevimento!, que espero não seja ofensivo).

Para que uma analogia seja válida, não basta que haja semelhanças entre os termos comparados; é necessário que não haja diferenças relevantes. E, neste caso, há diferenças significativas entre as duas entidades que são queridas a Vossa Santidade (e eu permito-me a ousadia de imaginar o quanto Deus Lhe será querido: é afinal o alicerce de Vossa Santidade...). É a diferença entre uma pessoa pacificamente real e uma entidade polemicamente real; não sei se o divino Paráclito abonará esta minha ideia -- mas é a diferença entre uma pessoa e uma crença. Talvez Vossa Santidade me dê o soco com a ideia de que para Vós Deus é tão real como a Vossa mãe (além de ser pelo menos tão querido). Mas, se me permitides o atrevimento, isso é para Vós. Não aceitar esta distinção (e o que daí decorre) conduz a algumas das atitudes que referi no texto que Vossa Santidade se dignou comentar e muitas outras, de que destaco, pela atualidade, a daquele blogueiro que está em vias de levar socos, soqueamento público, num país que é governado por um deus (ou Deus?) concorrente do Deus (aqui, certamente Deus) de Vossa Santidade: o Dubai. Rushdie foi "condenado à morte" com a justificação que Sua Santidade invoca... E os pecados da Santa Madre Igreja, que Vossa Santidade lembra na "entrevista" no avião, afinal, não tiveram uma justificação substancialmente diferente.

Só para terminar... acabo de receber a visita do Espírito Santo; Ele, que sabe tudo, disse que topou que eu estava a escrever sobre este assunto e decidiu vir assinar por baixo tudo aquilo que fica atrás escrito. Estou mais descansado, assim.

Esperando o perdão de Sua Santidade, beijo a Vossa Santíssima mão (calma, Santidade! Eu não disse "mãe"!)

Anónimo disse...

Já o disse, não acho grande piada aos cartoons do Hebdo...
Que não devem ridicularizar as religiões, como defende SS, parece-me bem o contrário da postura de transparência e verdade que este papa procura transmitir.
As religiões (todas) contêm pecados e pecadilhos que um humor inteligente pode ajudar a desmontar. A Islâmica é, na minha opinião, particularmente retrógrada, mas a Católica tem também dogmas de bradar aos céus...
Com um enorme respeito por todos os Crentes que respeitam os não Crentes!
VM

Anónimo disse...

António,
Parece que a tua argumentação continua com equívocos. Para ser claro vejamos um exemplo em concreto:
Caso 1 - Uma pessoa faz um desenho ou caricatura de uma pessoa muito querida para mim, a minha mãe, numa caluniosa posição sexual de "Ménage à trois".
Caso 2 - Uma pessoa faz um desenho ou caricatura de uma pessoa muito querida para mim, o meu Deus, numa caluniosa posição sexual de "Ménage à trois" [cf. http://i.huffpost.com/gen/848893/thumbs/o-CHARLIE-HEBDO-UNE-CATHOLIQUES-facebook.jpg ].
Ora, se há limites há liberdade de expressão, tal como reconhecem bons filósofos como Stuart Mill (com o seu princípio do dano), então pelo menos não se deve poder caluniar e não se deve apelar à violência. Ora, o primeiro caso, para mim, é um claro caso de calúnia em que há uma imputação mentirosa que ofende a honra e dignidade de uma pessoa muito querida a mim. Mas então o segundo caso também é um exemplo de calúnia em que há uma imputação mentirosa que ofende a honra e dignidade de uma pessoa muito querida para mim. Portanto, estás equivocado quando dizes que não há analogia entre estes dois casos ou com casos similares.

Outro ponto: a resposta à calúnia ou a qualquer outra forma de desrespeito não é nem pode ser a violência (pois fazer isso seria uma "aberração" - há esqueceste-te citar que o papa também referiu isso). Para resolver tais casos há instituições democráticas.

Anónimo disse...

Primo do Ricardo
Pelos vistos que é e está inspirado pelo Espírito Santo és tu

Anónimo disse...

Tanto ressabiamento/ressentimento ante o cristianismo é quase como que uma doença.
Parece que ainda não percebeu que já não vive em nenhuma teocracia - como as muitas que vai citando - há plena separação entre a igreja e o Estado, tanto em Portugal como em boa parte da Europa, ninguém é obrigado ao culto ou a outras obrigações religiosos e por aí fora... mas continua incomodado que haja cristãos ou crentes porque parece considera-los uns "mentecaptos". é simpático com os seus amigos e familiares que acompanha á igreja, onde provavelmente vai a batizados, casamentos e funerais, mas gostaria de o não fazer. Enfim, acha que a crença dos outros, os templos sagrados e o culto são resquícios de incultura, medo e atraso civilizacional. Acha que todos devem respeito uns aos outros, mas que em relação às suas crenças ou práticas religiosas, a "criatividade" do discurso deve ser infinda. Ou seja, pede para si o que não está disposto a conceder aos crentes, isto é, respeito.
Nos tempos que correm com o mundo ao alcance de um clic, não há razão para um discurso tão fundamentalista sobre a crença, que quase iguala os fundamentalistas religiosos. Não será com o recurso a um fundamentalismo ateu que conseguiremos combater os fundamentalistas religiosos.

Ai meu Deus disse...

Vamos lá ver...

Há ou não há uma diferença muito relevante entre uma pessoa como a mãe do Papa ou o próprio Papa -- e uma "entidade" que só é pessoa(???), digamos, muito polemicamente? A primeira é uma pessoa. Ponto final. A segunda é uma pessoa para/segundo-a-crença-de (do Papa, do/a autor/a de comentário anterior...).

Já agora... no meu texto não me pronuncio sobre os limites à liberdade de expressão; não era esse o tema do texto, apenas recuso a analogia que o Papa faz entre Deus e a mãe, que continuo a achar falaciosa. Mas sempre digo que entendo que há inevitavelmente limites à liberdade de expressão; nem seria possível viver em sociedade de outro modo. Acho que há o que se poderiam chamar limites objetivos (reconheço que esta não é a melhor qualificação, mas acho que se entenderá); a calúnia de pessoas, por exemplo; ou, dito de outro modo, a difamação de pessoas relacionada com factos (por exemplo, dizer que a minha vizinha é uma prostituta).

Em relação às crenças (incluindo Deus), não me parece haver limites. Explicito que entendo não haver limites, neste domínio, para as ofensas. E uma das razões principais (não a única) é esta: como pode estabelecer-se o que é ofensivo, quando se trata de crenças? Quando digo mal da cidade onde vivo, não ofendo aqueles que a adoram? quando o pessoal goza com as derrotas do FCP não estão a ofender uma minha crença? quando me dizem que por ser ateu hei de padecer eternamente nas chamas do inferno, não me estão a ofender (as crenças)? quando o Papa diz que a homossexualidade é coisa do diabo, não está a ofender as crenças (e as vivências) dos homossexuais? quando se diz que o Deus X é o único Deus verdadeiro, não se estão a ofender as crenças dos que acreditam noutro(s) deus(es)? quando se diz... (chega de enumeração? ;-) )

Anónimo disse...

Dizes que "recuso a analogia que o Papa faz entre Deus e a mãe, que continuo a achar falaciosa". Mas por que razão é falaciosa essa analogia? Dizes que a Mãe é pessoa enquanto que Deus é meramente uma crença. Porém por que razão Deus é uma mera crença e não uma pessoa? Parece que tens de mostrar que Deus não é uma pessoa.

Depois também cometes falácias ao comparar criticas a Deus com críticas a crenças sobre futebol, etc. "Quando digo mal da cidade onde vivo, não ofendo aqueles que a adoram?" Tens razão, ao criticares a cidade, a própria cidade como não é uma pessoa, não se pode sentir ofendida. Mas no caso de Deus, como é uma pessoa, por que razão não se pode sentir ofendido?

Acho que estás a ignorar propositadamente um pormenor: quando as pessoas têm fé em Deus é como ter fé numa mãe. Ou seja, do mesmo modo que se pode confiar na mãe também se pode confiar em Deus. E tanto num caso como no outro não se trata de uma mera crença, mas de uma confiança numa pessoa. É claro que tu como ateu vais recusar qualquer raciocínio que vise argumentar a favor da analogia; mas se não argumentares solidamente que Deus não é uma pessoa, vais cometer a falácia de petição de princípio.

Ai meu Deus disse...

Hummmmm...

Primeiro: a minha obrigação de provar que Deus não é uma pessoa não é maior do que a tua de provar que é.

Mas deixemos isso de lado porque não é o ponto principal. O ponto é que há uma diferença relevante para a validade da analogia do papa: uma das partes é pacificamente uma pessoa, a outra é-o no máximo polemicamente. Para nós ambos, e não só, a mãe do papa é real; Deus, crês tu que é e eu creio que não. Estas duas entidades não podem por isso ser comparadas para o efeito que o papa o fez. O respeito devido a ambas não é comparável: ainda que tu digas que sim, objetivamente não é, porque objetivamente elas não são vistas do mesmo modo por todas as partes.

Segundo: as minhas analogias que declaras falaciosas só o são SE se aceitar a tua premissa de que Deus não é uma (mera) crença. O problema está no se... ;-)

Terceiro: o que está em questão não é ter fé (em Deus e na mãe). Claro que ter fé em A é como ter fé em B, se considerarmos o ter fé; ainda que possam ser fé de modo diferente -- e no caso são-no. A fé que tens em Deus é de uma natureza muito diferente da "fé" que tens na tua mãe (aqui, a fé tem muitas aspas). Admitindo que Deus existe e que o possas encontrar após a morte, a tua fé em Deus tal como é agora desaparecerá a partir desse momento (esta ideia não é minha, é do apóstolo Paulo, que a formula sem os meus "ses", ;-), mas concordo com ela)