(O assunto é complexo e não consegui explicá-lo num texto mais curto. Desculpem-me)
Desta vez coloco o título do livro antes do nome do autor, precisamente porque é a obra específica que quero destacar. O autor é muito conhecido, embora as suas obras mais populares não nos revelem a grandeza da sua dimensão intelectual.
Umberto Eco começou a sua carreira como filósofo interessado no pensamento medieval – São Tomás de Aquino, especialmente – mas cedo alargou os seus horizontes de estudo a uma vasta área das Ciências Humanas, que não deixou para trás a História.
E eu insisto nesta tecla da História, porque ela ocupou uma grande parte do seu trabalho – publicou uma monumental História da Idade Média em quatro volumes – permitindo-lhe um vasto conhecimento do Ser Humano, com uma perspectiva diacrónica mais ou menos longa.
Aliás, eu penso que essa é a grande vantagem da História, em relação a outras ciências humanas que procuram explicar relações políticas, conflitos e jogos de poder, sem terem em conta essa dimensão.
Umberto Eco foi efectivamente um intelectual de elevada craveira, que juntou ao conhecimento histórico um treino de reflexão filosófica e uma profunda compreensão das mentalidades e da cultura, que o aproximou do que entendo por essência da natureza humana.
Algo que tem, simultaneamente, um carácter persistente e dinâmico, como o mostra a História, e que nos permite chegar a uma vertente muito mais rica e interessante dos fenómenos humanos.
Mais rica, sobretudo, do que a que produzem algumas ciências emergentes, como a Ciência Política, as Relações Internacionais ou a Geoestratégia; que, a meu ver, se conformam com processos, fundamentalmente, descritivos e assentes em fontes demasiado voláteis.
Mas voltemos ao livro de Umberto Eco, cujo título – A Passo de Caranguejo – é uma metáfora que nos sugere algo cujo desenvolvimento não teve um sentido de progresso crescente. Fenómenos que seguiram linhas transviadas, para os lados ou para trás.
Trata-se de um conjunto de artigos escritos entre 2000 e 2005, período em que decorreram acontecimentos como o 11 de Setembro, as guerras no Afeganistão e no Iraque, o Kosovo e a ascensão de Berlusconi.
Assuntos que despertaram a sua atenção com maior intensidade e que procurou compreender para além do aparato noticioso comum, levando-o a uma reflexão mais cuidada que resultou numa conferência ou na escrita de um artigo.
O primeiro desses trabalhos recebeu o título de “Algumas Reflexões sobre a Guerra e a Paz”. Nada mais oportuno para uma nova leitura no momento que estamos a viver, certos de que encontramos nele qualquer coisa que vai além da espuma destes dias violentos.
O autor define, neste trabalho, um percurso de certas características da guerra que lhe permitiram classificar os conflitos em Paleoguerras e Neoguerras, nas quais as primeiras são todas as que ocorreram até à Segunda Guerra Mundial, ou até à Guerra Fria, que considerou distinta.
Caracterizou-a como um clima de tensão latente entre os dois grandes blocos militares do século XX, sem que houvesse um confronto directo entre eles, mas com múltiplos conflitos periféricos, apoiados por um bloco ou outro.
Finalmente chegámos a uma nova forma de conflito – que designou por Neoguerra – onde incluiu todas aquelas que tiveram lugar depois da queda do Muro de Berlim, como as guerras do Golfo, do Afeganistão, etc.
O que as distingue, de facto, na perspectiva de Umberto Eco?... Vou tentar explicar, mas antes devo fazer uma consideração adicional.
Eu sei que os estrategistas e os estudiosos de geopolítica têm outras designações e classificações para a evolução das formas de conflito, mas o que aqui está em causa é a forma como o autor tratou o assunto, porque a sua análise tem aspectos diferentes do que é comum considerar.
Começando pelas Paleoguerras, que decorreram durante muitos séculos, diz o autor que começavam com o objectivo claro de “derrotar o adversário, de modo a extrair um benefício da sua derrota”.
Nestas guerras era muito claro quem era o inimigo e onde se encontrava, de modo que os choques entre forças davam-se em territórios conhecidos e terminavam com uma vitória e uma derrota. Uma derrota consubstanciada numa rendição e na sujeição da vontade adversária.
A Guerra Fria foi um equilíbrio de terror, guardado pelo medo do nuclear. Mas esse equilíbrio “permitia ou chegava mesmo a tornar indispensáveis formas de Paleoguerra marginais”, como sucedeu no Vietname, no Médio Oriente ou em estados africanos.
A queda do bloco soviético, contudo, acabou com os pressupostos da Guerra Fria, mas fez emergir todos os problemas que eram a razão de ser das ditas guerras marginais.
Isso deu origem a outras tantas guerras – hoje percebemos bem que tiveram uma gravidade diferente umas das outras – que tendiam agora para a forma da Paleoguerra, mas com características muito diferentes.
Já não se desenrolavam em duas frentes distintas, foram invadidas pelos meios de comunicação social e tiveram um impacto global, com efeitos nas políticas domésticas. A identidade do inimigo passou a ser incerta e os confrontos deixaram de ser frontais.
Chama-lhe Umberto Eco Neoguerra, sobre a qual nos diz muito mais do que consigo reproduzir aqui, realçando, contudo, uma das suas características: as Neoguerras nem sempre terminam com um vencedor e um derrotado, sucedendo, com frequência, que ambos perderam a guerra.
Para além disto, a Neoguerra transformou-se num produto mediático, onde a destruição e a morte está em contradição com os objectivos – ou com o negócio – dos media, que procuram vender felicidade e não dor.
Na verdade o público exige-lhes espectáculo – digo eu – e hoje em dia esse espectáculo pode ser construído com a dor dos outros. O problema é que isso não é suportável (ou sustentável) por longos períodos, o que obriga a que as guerras sejam curtas, apesar de intermináveis.
Não é necessariamente uma contradição o que acabo de dizer. Se o conflito violento (mediático) se esgota, não se esgota a incerteza do desequilíbrio constante e ameaçador, que nos mantém a todos numa espera permanente. Não da paz, mas do novo recomeço, do novo horror.
Enquanto escrevia este texto, procurando sintetizar a ideia de Umberto Eco, ia-me lembrando da guerra da Ucrânia e da forma como escapa a algumas destas concepções, parecendo estar muito mais próxima de uma Paleoguerra.
Noutra altura (talvez) possa falar do conflito da Ucrânia, mas convido-vos agora a pensar no que se está a passar no Médio Oriente e nas urgências de alguns dos contendores, por razões diversas, mas todas elas com um elemento comum: a força mediática do conflito e os efeitos que terá nas políticas domésticas (no Irão não há internet) e no espectáculo.
Deixo-vos com um convite para que leiam a obra A Passo de Caranguejo e com uma pergunta: este conflito terá vencedores?... Verdadeiros vencedores?...
escrito por Jorge Matos



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