TRUMP(A)

SEXTAS À NOITE 3. o quadro negro

Samira Makhmalbaf

Anteontem à noite, o Cine Clube de Faro levou ao espaço muito agradável do Pátio de Letras, espaço cultural com bar, já aqui por mim referenciado, o primeiro de 4 filmes de cineastas iranianos. O QUADRO NEGRO, assim se chama o dito filme, da jovem filha de Moshen Makhmalbaf (Gabbeh), Samira Makhmalbaf, a mais nova cineasta de sempre a receber o Prémio do Júri do festival de Cannes, é sobre professores que se deslocam com o quadro negro às costas, em zona de guerra, à procura de alunos. Como paga aceitam qualquer coisa, sobretudo comida
(que ninguém parece ter, pelo menos em quantidade suficiente para dividir com outros, mesmo sendo professores),
e um lugar para ficar. Porém, a sua oferta é rejeitada por quase todos, quer por falta de vontade para aprender, por desconfiança, ou por simples questão de prioridades: a de salvar a própria vida.

Ainda assim, eles não desistem e um deles consegue encontrar e entusiasmar um interessado que vai repetindo os ensinamentos do professor, em andamento, por sendas estreitíssimas acompanhando as montanhas repletas de pedras e cascalho, em meandros sinuosos, perigosa e literalmente à beira do abismo.

O quadro acaba por ser não apenas um veículo para a instrução peripatética, em ambos os sentidos, mas também corda de roupa e até abrigo para “armas químicas”. É igualmente um instrumento de declaração amorosa forçada. O “marido” insiste com a mulher para que ela leia a palavra que ele escrevera: amo-te. Mas teimosamente, a mulher remete-se ao silêncio, mesmo ante a ameaça da atribuição de zero a aluna tão desmotivada. Posteriormente, extensível a toda a família. Acabando num auto-atribuído zero. E tudo isto escrito no quadro negro!

Porém, num gesto magnânimo e apaziguador, ele proclama: mas como és boa rapariga, dou-te um 18!

É um dos momentos mais divertidos e ternos de todos os momentos ternos e divertidos do filme. E … são todos.

A não perder.

escrito por Gabriela Correia, Faro

1 comentário(s). Ler/reagir:

Anónimo disse...

Onde está "...abrigo para armas químicas", leia-se: "contra armas químicas".
Obrigada
Gabriela