TRUMP(A)

VERDADES QUASE MENTIRA (1)

Vinha eu posta em sossego, com a seira das compras na mão… Sim, eu também vou às compras!

Pois bem, paremos a narrativa, e façamos então uma pausa reflexiva! Já lá vai o tempo em que as pessoas singulares eram pensadas como não comendo, não dormindo, não bebendo, não nada. Em suma, não vivendo. Apenas subsistindo. Não é verdade. Vive-se até muito bem! Singularmente.

Mas, voltemos à narrativa, que, neste ínterim, já vai apanhar a acção fora do tempo real.

Vinha eu, portanto, posta em sossego, quando, ao dobrar a esquina, me deparo com uma certa comoção provocada pelas personagens, apresentando a sua versão dos acontecimentos. Em meio ao estranho setting, no amplo espaço do estacionamento quase vazio de carros, encontrava-se sentada como rainha em trono, numa cadeira de plástico branco, e também posta em sossego, pese embora o joelho esfacelado, uma cidadã de cabelos da cor da cadeira. Pensei numa cena de um filme a ser rodado sem o conhecimento prévio do cidadão comum. Ou numa peça de teatro do absurdo.

Mas não: a personagem de 75 anos, conforme disse com a serenidade de quem aceita já tudo o que o dia lhe reserva aos polícias ainda jovens, recém-chegados “a fim de tomarem conta da ocorrência”. O que a apoquentava era o desaparecimento da carteira, o rapto da sua identificação, quiçá a sua reforma.

-- O joelho não tem importância, disse ela, com resignação.

Mas, à perca menos, a autoridade solicitou, via telemóvel
(quem for contra este utilíssimo instrumento tecnológico, levante o dedo!)
a presença do 112, o qual compareceu prontamente; ou não estivéssemos nós nas proximidades do Hospital!

Tudo bem, por ora. Vamos às testemunhas oculares e ignoremos os mirones. Entre eles, eu própria. Que não serviram de muito, pois não lhes ocorreu fixar ou tomar nota da matrícula. Que “era um moço novo, aí de uns 40 anos, de cara magra”. E passava a mão pelo rosto, igualmente magro, a exemplificar.

O moço estivera ali “uns bons 5 minutos, no carro” e, quando a senhora se aproximara, de mala na mão, confiante na liberdade de movimentos que a Constituição lhe assegura, ele arrancara-lha sem cerimónias, arrancando com o carro a uma velocidade digna de um Schumacher na Pole Position, “levando a senhora de rojo alguns metros”.

Não eram as cinco de la tarde; eram 5 para a 1!

Impotentes e frustrados por não terem visto nada, os mirones iniciaram então a sua sessão privada de opiniões:

-- A culpa é de lhes terem tirado (referia-se aos polícias) autoridade. Eles já nem podem dar nos cornos (perdão, digo eu) a esta gente!, disse uma cidadã de compras na mão e com um gorro de lã na cabeça.

-- Já não há regras em lado nenhum. Nem respeito. Os professores não têm mão neles, nem os pais… Não, não fui eu quem falou. Mas podia ter sido. Ainda estive tentada a corroborar a afirmação, mas lembrei-me de que “o moço” não era assim tão moço e teria andado na escola muito antes da era Maria de Lurdes Rodrigues.

-- Cada vez há menos empregos e as necessidades são cada vez maiores, sentenciou, com um sorriso divertido, um cínico-pragmático.

-- Há dinheiro para tudo, menos para o que devia, disse outro. Gastaram com o Carnaval, com o Presidente a conduzir um tractor. Deve andar a querer imitar o da Madeira. Ele até o convidou para vir cá quando foi da campanha para a Câmara! São todos iguais.

Ficámos calados, com o peso do inevitável a insinuar-se nas compras, tornando os sacos mais pesados.

Fui-me dali. Eu nem sequer sabia da cena do tractor; mas ainda ouvi alguém dizer:

-- É disso que o povo gosta; é isso que dá votos.

[Faro, Sábado Dia De Compras]

escrito por Gabriela Correia, Faro

8 comentário(s). Ler/reagir:

Anónimo disse...

Estão todos bem uns para os outros mesmo quando não falam sobre educação fazem pressentir o que pensam sobre…e querem que nós os outros pensem bem dos professores, as excepções são os bons que confirmam a regra dos maus serem a maioria

Anónimo disse...

Não lhe posso dar razão, preclaro anónimo. A verdade é que não há professores bons, nem por excepção. Basta ler o seu comentário. E além de muito maus, também uns malandros, porque não duvido que lhe tenham dado um par de diplomas.

jcosta disse...

O primeiro anónimo, presumo, há-de ser pessoa simpática. Podia aduzir aqui uns tantos argumentos a favor da minha presunção mas, pelo que leio, o senhor ou a senhora - que um anónimo também pode esconder o género -, já tem a sua opinião formada e bem ancorada de modo que estando os que aqui escrevem todos bem uns para os outros [mesmo quando não escrevem sobre educação], o "anónimo", além de simpático, há-de ser masoquista: sabe o que vem aqui encontrar, "bons" professores não será, porque esses, sendo uma excepção, estarão, por certo, a preparar aulas, a corrigir testes ou dando voltas tentando descobrir como ensinar numa altura em que (quase) ninguém quer aprender, mesmo assim, o anónimo aparece e, cheio de infusa ciência, entende que deve vir aqui lançar as suas farpas, engrossando o coro dos que se dedicam a espalhar lama sem razão, sem critério e sem fundamento sobre uma classe que vai fazendo prodígios com péssimos programas, em mutação constante; com péssimas condições, em degradação permanente e com alunos a quem se passa a mensagem de que a escola é pouco mais do que um arrumo, nem sempre seguro.

Da crónica da Gabriela (desculpe tratá-la assim), é lícito tirar alguma conclusão sobre a qualidade dos professores? Demonstre!

O seu comentário, além de deselegante, denota o espírito doentio de alguém que, por nada que se pressinta, resolve enveredar pelo agarra que é "professor". Mas uma atitude destas, que é também uma cegueira, num país cuja única riqueza reside nas pessoas e nas escolas que as ensinam|educam, pode levar-nos a algum futuro que não seja a sua hipoteca?

Meu caro anónimo tem sido com estes professores que temos combatido a analfabetismo, que conseguimos técnicos intermédios e superiores para fazer face às nossas necessidades; que preparamos cientistas de renome e somos reconhecidos dentro e fora do país. Claro que não somos bem sucedidos com todos, aliás o "anónimo" é um discreto exemplo de que às vezes falhámos. Mas com o que os seus "amigos" querem fazer da escola, se o conseguirem, o anónimo ficará muito mais acompanhado. Pense nisso, ainda é tempo de ver claro, apesar da propaganda e da peneira.

Anónimo disse...

eu sou o terceiro anónimo
será? olhe que de argumentos está fraco j costa!!!esforce-se mais
Claro que o argumento está em diplomas não merecidos????como o pode afirmar, conhece o primeiro anónimo? se sim discutam frente a frente, senão não afirme sobre diplomas que não conhece.
O seu foi merecido? também se pode duvidar!!!

Anónimo disse...

Odeio professorado........só gosto de professores, e estes que blogam por aqui são professorado...........

jcosta disse...

Para o penúltimo "anónimo":

Já percebi que tem predilecção pelo ataque a quem escreve e não ao que é escrito.Dedique-se então à porrada.

Se assim não fosse teria escrito que os argumentos são fracos e não o que escreveu mas, provavelmente, não verá diferença!

Os seus argumentos são excelentes; não descrutinei sequer um.
Como nada escrevi sobre "diplomas", nem me importa saber se tem algum, não percebo porque apareço no mesmo molho. O merecimento, às vezes, também se descobre pelas marcas que deixamos.

Para destruir pontes, bastam as calamidades [e os falsos "ingenheiros"]

n.r.p. Se ao menos o último "anónimo" conseguisse [e soubesse]lavrar a diferença...

Anónimo disse...

Diplomas. Ofende-se o primeiro anónimo porque se atiram aos seus diplomas sem o conhecerem. Ele conhece os professores que aqui ataca? Apresenta factos? Argumenta?
Só a espuma da raiva ao canto da boca...

Anónimo disse...

olhe que realmente isto dos anonimos da para misturar e uns nao sao outros...........