TRUMP(A)

SEXO E MORAL

Num texto anterior, afirmo que No sexo não há moral. Um comentário da Catarina leva-me a fazer o que na altura não fiz: justificar-me.

Como bem explica André Comte-Sponville, a moral/ética responde à pergunta Que devo fazer? Mas, ao responder a esta pergunta, de certo modo encontro a resposta para outra: O que todos devem fazer? Assim, quando à pergunta Devo ajudar os outros? respondo que Sim!, estou a dizer que é isso o que todos devem fazer.

Isto, no domínio da moral. Mas há domínios onde não é assim -- e esses não são domínios da moral. Por exemplo, quando decido que o branco é a cor que devo usar no Verão, essa decisão não implica a obrigação de os outros fazerem o mesmo. Ou seja, neste domínio, não há moral.

É neste sentido que eu defendo que no sexo não há moral. Devo "fazer sexo" só na cama ou também pode ser no chão? só no chão do quarto de dormir ou também no da cozinha? só com outra(s) pessoa(s) ou sozinho? ou não devo masturbar-me? usando preservativo ou desprotegidamente?

E as perguntas poderiam continuar. Qualquer resposta que eu dê vale para mim
[e para a(s) pessoa(s) eventualmente implicada(s)];
quero dizer, não tem o carácter universal que tinham as respostas morais.

Não é este, no entanto, o entender de quem defende uma moral sexual. O Vaticano, por exemplo. Segundo este(s), o dever de não usar anti-conceptivos é universal; o mesmo acontece com os deveres de rejeitar o sexo anal, o sexo antes do casamento, o sexo com pessoas do mesmo sexo, o sexo em grupos... Isto
[entendo eu e apenas no que diz respeito ao tema deste texto]
são questões tão amorais como a cor das meias por que opto ou a opção entre cueca e fio dental.

Digo eu. E o leitor?

escrito por ai.valhamedeus

5 comentário(s). Ler/reagir:

Anónimo disse...

Eu acho que há moralidade e ética em todos os grupos e em todos os comportamentos mesmo os sexuais. Comportamento entre si e não local (praia, casa, campo). Daí que alguns tem em grupo (pertencem a esse grupo e tem as suas regras que respeitam) e outros de formas diferentes mas todos respeitam regras. Admitir amantes, não admitir, admitir outros relacionamentos fora do casamento, não admitir e por ai fora. Mas todos cumprem regras que quando uma das partes não cumpre dá "buraco"
Joana

Anónimo disse...

Sim as regras deles. Não as de outras pessoas que discordem desse grupo. Só dentro do grupo é que as regras são cumpriveis. Ou não?
Haverá ética, mas não a tal moral "universal" do Vaticano. Usar preservativo é uma regra que devia ser universal para prevenir o risco. E é ética. Para não prejudicar terceiros. Nada tem a ver com moral. Estou certa, senhores professores de filosofia?
Gabriela

Anónimo disse...

A moral do vaticano é só do vaticano nem sequer é a dos católicos. Quando aqui se fala em "no sexo nao existir moral" não interpreto como não existir a moral do vaticano, nem interpreto a questão do preservativo.Mas sim e somente moral nos comportamentos que envolvem a sexualidade. Gente há que nem católica é e tb se nega a usar o preservativo. A questão do preservativo não se pode colar só ao vaticano é muito mais vasta. Poucos devem ser os católicos que obedecem ao papa quando acham o contrário. Se formos discutir a questão do preservativo podemos questionar tanta coisa:
sexo oral quem o faz com preservativo?
adolescentes não católicos mesmo sabendo que se podem prejudicar quem o usa? mitos dos adolescentes relativamente ao sexo, que nem a educação para a saude tem conseguido destruir e construir novos sentimentos relativamente ao uso do preservativo. Se fosse só os obedientes ao vaticano que não usassem preservativo estavamos bem se saúde
Francisco

Anónimo disse...

Sei disso. Mas quando uso esse exemplo é um bom exemplo, creio eu, para fazer a distinção entre moral e ética.
Além disso, o que está aqui em causa é a militância do Vaticano contra o uso dele, numa época de tamanho perigo. Se se é contra o aborto porque é atentar contra a vida, ser contra o uso de uma coisa que poderá evitar a morte futura de tantos, onde está a moral e a ética, Francisco? Uma razão, a sua, não invalida a outra, a minha, pois não?
E ouvir jovens a gritar: "o papa é fixe, o preservativo não presta", só nos pode arrepiar, não acha

Ai meu Deus disse...

Quando digo que não há moral, quero dizer moral "sem adjectivo" (nem a do Vaticano, nem outra qualquer).

Claro que há regras -- nem eu disse o contrário. Mas nem todas as regras são do domínio moral: no Verão devo vestir roupa mais fresca -- mas este dever não é moral. Entendo que no sexo, repito, há normas mas não há normas morais. Não há "devo..." ou "não devo" -- no sentido em que "devo ajudar os outros" ou "não devo perturbar o sono dos meus vizinhos".

Por outro lado, é claro que há, em "actividades sexuais", situações "reguladas" pela moral -- mas o que está aí em causa não é o sexo em si. Por exemplo: se eu violento alguém para ter relações sexuais, não é a relação sexual que está moralmente em causa -- é a falta de respeito pela autonomia do outro; e esta condenação moral é independente do sexo -- pode ser a violentação do outro para lhe roubar a carteira...

O mesmo poderia dizer-se dos "relacionamentos fora do casamento" e de muitas outras situações. O que está (moralmente) em causa não é o sexo em si. Não há deveres morais na opção pelo sexo anal, oral, homossexual, no chão da cozinha, masoquista, masturbatório,...