TRUMP(A)

DIA MUNDIAL DA CRIANÇA

Mais um Dia Mundial! Para o nosso calendário ficar mais airoso. Já imaginaram um calendário repleto de dias e meses e o respectivo espaço em branco, como algumas das nossas noites? Assim sempre fica mais compostinho. E ficamos a saber que existem crianças, mulheres, pais, mães, vizinhos, Santo disto e daquilo, etc, etc. Enfim, uma festa permanente. Melhor, um arraial pegado, como diria a minha Avó.

Pois, hoje é o Dia Mundial da Criança, e, por conseguinte, vamos dar-lhe visibilidade e prioridade, como vem acontecendo no recente concurso televisivo, muito bem apresentado por uma apresentadora muito competente. Sempre sorridente. Rindo-se do fracasso dos adultos perante o ar façanhudo
(o meu dicionário não aceita a palavra e sugere-me farfalhudo)
e impante
(também não conhece; sugere implante)
dos super miúdos. E sobretudo irritante. Quem não se sentiu já irritado? Como se este concurso mostrasse alguma sabedoria preponderante, quiçá importante! É a ideia que se faz, levianamente, do que é a aprendizagem e o conhecimento. Tal como outros, com responsabilidades, já o fizeram.

Porém, e para que não se diga que escrevo de cor, deixo aqui excertos, de depoimentos, no JL – Suplemento de Educação, de experts, sobre o concurso:

Uma professora, inquirida sobre a inocuidade, ou não, do concurso do ponto de vista pedagógico, diz que “… a experiência com o programa será mais marcante para as crianças que estão no ecrã do que para as que estão diante dele. Por via do grande nervosismo que têm de enfrentar ao competirem com uma equipa de adultos, de gerir expectativas quanto à sua prestação, de aprender a lidar com os fracassos
(que, por acaso, são escassos).
Mais à frente explica por que acha que …Na televisão portuguesa as crianças têm mais vez que voz, merecendo esta última, enquadrada no direito à participação, uma atenção especial. Direito inscrito na Convenção Sobre Os Direitos da Criança, a qual fará em Novembro 20 anos.

João Mendes Ferreira, Psicólogo Clínico acha que Supermiúdos exalta a competitividade como princípio absoluto, ao serviço da autoglorificação e da utilização das próprias capacidades para vedar o acesso dos demais àquilo que desejam – tal é a moral desta ingénua tele-escola de inveja e de inversão dos papéis educativos. …O respeito por uma identidade em construção e o reconhecimento da imaturidade daqueles que educamos, está subjacente ao dever de os protegermos. …Supermiúdos é um desperdício. Tóxico. E deixa um conselho final: Aos concorrentes
(os infragraúdos),
uma sugestão: metam-se com alguém do vosso tamanho.

Como dizia Fernando Pessoa: o melhor do mundo são as crianças.

E Gonçalo M. Tavares, na sua singularíssima poesia, INVESTIGAÇÕES. NOVALIS, escreve:
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No fundo das Coisas: Nada.
No fundo do Nada: as Coisas.
A superfície é Poço, claro.

61
No fundo do poço, as crianças.
(Ah), como são altas!
Hei-de voltar a este singular autor, e à sua poesia. Que, como também disse Pessoa, primeiro estranha-se, depois entranha-se. Em mim já se entranhou.

escrito por Gabriela Correia, Faro

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