TRUMP(A)

ÓSCARES: SI NON È REI È BEN TROVATO

Deixando em sossego as celebradas críticas americanas
[e tutti quanti]
em torno d’A Rede Social, fosse porque um novo paradigma comunicacional se desenhava, fosse porque era preciso lançar, de vez, o apetecido isco do cinema aos mais jovens, entretidos com
[outros]
jogos fúteis, a Academia de Artes e Ciências Cinematográfica(EUA) passou ao lado de tão elaboradas teses e, num assomo, que alguns se entretêm a etiquetar de conservador, decidiu galardoar O Discurso do Rei. Entre o excesso de palavras que povoam a rede, Hollywood preferiu a dificuldade de as dizer, valorizando mais um tropeção do que uma torrente imparável de vocábulos que, aos milhares, aparecem n’A Rede trocadas em festiva abundância. O Discurso do Rei é, antes de mais, uma denúncia contra o poder, qualquer poder
[fundamentalmente o real],
que castra, rejeitando, segundo os seus preconceitos, que são também o seu critério, os menos aptos, ainda que sejam canhotos ou gagos; é também, pela assertividade de Lionel, terapeuta [des]classificado da fala, um exercício mediando a passividade e a agressividade que, uma vez por ausência, outra vez por descomedimento, moram nos nossos discursos.

Pelo tema, pela interpretação, pela simplicidade, pela humildade, pelo rumo, pelo querer, ah!, pelos valores impressivos, imbuídos na tela, O Discurso do Rei é um filme notável. Era previsível [!?] que entre uma bem urdida lição de História, que é também uma intensa viagem cultural à Europa da 1ª metade do séc. XX, e pequenos jogos de poder, direitos de autor e inveja, a Academia não tivesse dificuldade de maior em fazer a sua opção. Colin Firth (Bertie) tem um desempenho sublime e Si non è Rei è ben trovato
[até na forma como, pela segunda vez, para ser ele, gaguejou ao receber o Óscar].
Uma nota telegráfica para outro grande filme que vive essencialmente de uma prodigiosa interpretação. Refiro-me a Natalie que, em Cisne Negro, envereda pelo arrojado caminho da perfeição, onde, como último limite, hipoteca a provável vida de que é feita a ficção. Qualquer dos dois filmes transporta uma mensagem genuína: sem esforço, pouco mais sobra do que a vertigem da espuma.

Também sem surpresa, Inside Job
[A Verdade da Crise]
viu o seu reconhecido mérito galardoado com a tão apetecida estatueta de ouro.

escrito por Jerónimo Costa

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