TRUMP(A)

UM MURRO NOS CORNOS... DA PROVA


Quanto se trata de (a)bater o inimigo (ou, se preferirem, o adversário), nem tudo vale.
  1. O ministro Crato é um (a)batedor de professores. Há provas suficientes disso  (e de que é (a)batedor do ensino português -- mas não é disso que trato agora).

    A última (que eu conheço) desse ministro: para defender a prova de avaliação docente (que já provou não ter qualidade avaliativa nenhuma) afirmou que "não faz sentido nenhum que um professor dê 20 erros de ortografia numa frase".

    O ministro mente. Que provas tenho de que o ministro mente? objetivas, nenhuma. Mas o ministro também não apresentou objetivamente nenhuma: atirou 20 erros, mas poderia ter atirado 40 ou 50: como poderemos verificar isso?
    Mais: não é razoável admitir que alguém dê 20 erros numa frase -- a não ser que o ministro (ou alguém por ele, certamente, que ele não deve ter posto olho em qualquer prova) identifique o final de uma frase pelo ponto final e a tal frase seja uma daquelas "frases" à Saramago com pontuação a perder vista...

    Mas admitamos, misericordiosamente, que até houve um professor que escreveu uma frase com 20 erros. Admitamos que houve dois ou três. Não é razoável admitir que o número de professores que deu 20 erros numa frase seja tão elevado que seja suficientemente significativo para o ministro o referir, como argumento, numa audição na Assembleia da República.
        
  2. O presidente do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE)  não se poupa nas críticas feitas ao docentes e a todos as pessoas que continuam a censurar a importância da Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC). Ao Diário de Notícias (DN), Hélder Rodrigues fala no “número considerável de chumbos”, mas que tal já não o surpreende, uma vez que a instituição que lidera tem, com frequência, contacto com documentos “enviados por docentes” que, diz, “mostram falhas gravíssimas de escrita e até do ponto de vista científico”.

    E prossegue dizendo que este problema “tem de ser tratado de forma clara e frontal” e que “é preciso acabar com a tradição portuguesa de que quando não se sabe fazer mais nada vai-se para o ensino”.

    Este Helder Rodrigues é parvo. Além de parvo (onde é que esse tipo foi buscar este raio de tradição portuguesa?), este Helder é agressivo. Mesmo usando palavras que parecem não o ser, a ideia é-o.
    Não se pode tirar, logicamente, a conclusão de que todos os que foram/vão para o ensino são gente que não sabe fazer mais nada; mas é essa a ideia que passa. Como professor, sinto-me tão agredido por este Helder que, ao nível da agressividade dele, me apetecia responder que é tradição portuguesa gente que não sabe fazer mais nada ir para presidente de uma merda qualquer; e que essa gente merecia um murro nos cornos.
  3. Para que quem está por fora disto tenha uma ideia do que está verdadeiramente em questão, faço saber que a questão da prova que teve mais insucesso (78,9%) era de escolha múltipla (segundo parece, foi na escolha múltipla que os professores que fizeram a prova mais tremeram): perguntava e apresentava como hipótese de resposta o seguinte:

    o selecionador nacional convocou 17 jogadores para o próximo jogo de futebol. Destes 17 jogadores, seis ficarão no banco como suplentes. Supondo que o selecionador pode escolher os seis suplentes sem qualquer critério que restrinja a sua escolha, podemos afirmar: (a) que o número de grupos diferentes de jogadores suplentes é inferior ao número de grupos diferentes de jogadores efetivos; (b) superior ao número de grupos diferentes de jogadores efetivos; (c) igual ao número de grupos diferentes de jogadores efetivos; (d) não se relaciona com o número de grupos diferentes de jogadores efetivos”.

    Digam-me agora que raio de interesse tem este tipo de questões para avaliar a qualidade de um professor de filosofia, de português, de história, de geografia, de...?
  4. Quanto se trata de (a)bater o inimigo (ou, se preferirem, o adversário), nem tudo vale.

escrito por ai.valhamedeus

1 comentário(s). Ler/reagir:

Anónimo disse...

E se lhe disserem que uma boa percentagem de candidatos a professores - não 1% ou 2% mas talvez um terço dos candidatos 25% - à formação inicial, hoje mestrado - ficam aquém do 10 na prova escrita de Português - quem não tem um grau de dificuldade por aí além, só tendo acesso à formação pela média feita com a oral - que pouco ou nada tem que ver com a prova escrita?
Já viu essas provas? Acha-as difíceis para este tipo de seriação? Acha que um futuro professor que ensinará os jovens deste país pode ser tão "ignorante" na língua em que se expressa e na designada e mais que básica cultura geral?
O coitado do "homem da máquina" repete ali aquilo que aqueles de vocês que são professores - provavelmente também ele - ouviram centenas de vezes no tempo em que andaram na Universidade: a lenga lenga dos nossos mestres era, de forma mais precisa que a apresentada: "Quem sabe ensina: quem não sabe, ensina a ensinar". Aliás este slogan tinha a ver com a pouca consideração que as Universidades clássicas tinham pela formação pedagógica daqueles que decidiam ser professores. Entendiam eles que os bons que sabiam, ensinavam a teoria, quem não sabia para ensinar a teoria, ensinava a pedagogia aos futuros professores.