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OLHAR COM ALMA * 1 [a ronda da noite]

A Ronda da Noite (1662)
 
Quase se dispensava a indicação do artista e a designação da obra, de tão conhecidos e adorados que são pelos apreciadores e pelos turistas da arte. Todos sabem quem foi Rembrandt (Rembrandt van Rijn - 1606-1669) e o que é a Ronda da Noite.
 
Na verdade, este título só lhe foi dado no século XVIII, em parte porque o quadro estava muito oxidado e tinha escurecido, dando a ideia de uma cena nocturna, e, provavelmente, porque a designação que lhe estava atribuída era demasiado longa.
 

Retrato da companhia do capitão Frans Banning Cocq e do tenente William van Ruytenburgh

Um título que também não foi dado por Rembrandt e que, além do mais, não era suficientemente inclusivo. O quadro envolve aspectos e leituras mais profundas que não cabiam na ideia simples de um retrato de uma companhia de infantaria no século XVII.
 
Mas chamemos-lhe apenas Ronda da Noite, por comodidade e uso comum, notando, apesar de tudo, que os recentes estudos sobre a tela (depois de uma limpeza) mostraram bem que não se tratava de uma cena nocturna, mas de algo que ocorria sob um sol luminoso.

Mas é assim que é conhecido e é prático que assim o designemos.
 
Não pode é deixar de se realçar que é, sobretudo, um retrato. Um retrato com duas figuras proeminentes, mas bastante disruptivo do conceito tradicional de retrato, onde os retratados tinham uma postura própria. Assumiam o chamamos de uma pose condizente com  a sua importância e as funções que desempenhavam.
 
Este é o retrato de uma acção, ao qual o pintor retirou essas formalidades para lhe dar movimento. E essa é a grande novidade desta obra magistral de Rembrandt: o ter conseguido retratar uma companhia de infantaria, quando se preparava para a acção, com toda a espontaneidade desse momento.
 
Algo que não se repetiria tão cedo na pintura europeia e tampouco na flamenga.
 
Em tempos vi um filme (não me recordo de nenhuma referência dele) sobre Rembrandt, onde se falava deste quadro. E lembro-me de uma cena em que os dois personagens centrais se deslocaram à oficina do pintor para este recolher a sua imagem.
 
Naturalmente que se colocaram assumindo a postura formal, muito direitos, com a cabeça bem levantada, as armas ao alto e o bastão bem visível. Rembrandt disse-lhes que não era isso que queria e começou a conversar com eles, tentando quebrar aquela pose de gelo.
 
Provocou-os de tal forma que o tenente Ruytenburgh deu um passo em frente, agarrando o espontão tal como se vê no quadro. Rembrandt mandou-o parar, olhou-o com atenção e disse-lhe que era assim que o queria pintar – em acção, como faz quando se prepara para o serviço de guarda e não da forma estática como se tinha colocado antes.
 
O artista queria realçar um conjunto de coisas que saíam do tradicionalismo (não lhe chamo clássico porque tenho muito respeito por essa palavra), quer do retrato formal, quer da representação de cenas militares.
 
A companhia do capitão Banning Cocq era a força militar de Amsterdão e o garante da sua segurança e independência. A independência de uma sociedade dominada por uma próspera burguesia comercial e não pela nobreza tradicional, como sucedia na maior parte da Europa de então.
 
É isso que eu leio no quadro: uma nova forma de retrato de duas personagens centrais – que podiam ter-se colocado ao lado uma da outra, com as suas armas, como era costume nos retratos – mas numa postura de movimento e acção, tal como faziam quando organizavam a ronda pela cidade.
 
A tela original era maior do que aquela que hoje podemos ver no Rijksmuseum, em local de grande destaque. Em 1715 entenderam cortar-lhe uma faixa larga do seu lado esquerdo, para a fazer caber onde queriam. Felizmente há uma cópia mais pequena, mas com a toda a cena pintada por Rembrandt onde podemos contar 34 figuras humanas.
 
Muito mais poderia dizer-se sobre a Ronda da Noite – na verdade têm corrido rios de tinta sobre este quadro fascinante – mas não caberia neste espaço e seria fastidioso para vós.
 
Acrescento apenas a curiosidade de que o modelo que serviu para pintar a figura feminina, que está um pouco atrás e à mão direita do Capitão Cocq, é Saskia, a mulher de Rembrandt. Sendo curioso o facto de estar um pouco tapada pela luva do capitão. Uma associação simbólica que seria interessante explorar, porque os pintores não deixam nada ao acaso nas suas obras.
 
Deixo-vos com esta obra magistral, cujo título original – atribuído por Rembrandt – ainda desconhecemos. 
 
Sugiro que o olhem com “olhos de ver” – como costumo dizer. Não o façam com pressa e deixem-se levar pela cena representada e pela história do próprio quadro, deixando-se entrar dentro dela. Vivendo-a um pouco na companhia daqueles personagens. É assim que me parece que deve ser desfrutada a obra de arte. Experimentem.
 
escrito por Jorge Matos

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