
El Ciego de Toledo
(Joaquín Sorolla y Bastida - 1863-1923)
Há mais de trinta anos que não vou a Toledo, mas (se a minha memória não me atraiçoa) suponho que esta é a Ponte de Alcântara, que dava entrada na cidade, para quem vinha de Madrid.
Mas esta é uma pintura de Joaquín Sorolla e muito mais há para ver, para além da Ponte de Alcântara e do homem cego que segue devagar, apalpando o caminho que segue ao longo do rio Tejo e circunda a cidade. Sim, este rio que aqui vemos é o nosso Tejo. O mesmo que ilumina os campos de Santarém e veio fazer a cidade de Lisboa, mesmo à beira do Atlântico.
Mas toda a obra de arte é um convite para o sonho e o meu olhar quer ver mais do que o rio, as casas e as figuras... Quero lembrar-me de Toledo e dos tempos em que a tomou Afonso VI, o avô de Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal.
Eram tempos duros, esses que foram vividos entre os séculos XI e XII. Foram os tempos em que Toledo era um pequeno reino islâmico (uma taifa), aliado de Leão e Castela, até ser pacificamente ocupado pelos cristãos.
Afonso VI foi um rei muito curioso. Era um dos três filhos de Fernando Magno, herdeiros de um império que deveria ser dividido pelos irmãos, Sanches, Garcia e Afonso, como era a tradição visigótica.
Sanches de Castela era, talvez, o mais forte deles. Aquele que conseguiu derrotar e prender o irmão Garcia, da Galiza, para depois vir a ser assassinado (provavelmente) num conluio preparado por Afonso. Não era invulgar que assim fossem delineados os jogos de poder na Europa Medieval, e foi assim mesmo que o avô de Afonso Henriques se fez Imperador das Hespanhas.
Casou cerca (?) de seis vezes – uma delas com uma princesa muçulmana, filha (ou nora) de Al-Mutamide – mas não lhe sobreviveu nenhum filho varão. O herdeiro nascido desta princesa moura morreu na batalha de Zalaca.
Mas, se vos falo de tudo isto, é melhor me recordar de Toledo, cidade onde senti todo o peso de Castela, da vida na Meseta Ibérica, da forma como a natureza ali se impôs aos homens e delineou o seu carácter. Como se forjaram figuras como Afonso VI, Afonso Henriques e muitos outros. Gente muito dura e, simultaneamente, muito trágica sentindo intensamente o equilíbrio precário entre a vida e a morte.
Assim cresceu a minha visão deste quadro de Sorolla. À medida que olhava este Cego de Toledo, com o seu chapéu de aba larga, o cajado que são os seus olhos e a pesada capa de burel, ia imaginando toda esta história antiga vivida por perto daquelas montanhas e daquele rio.
Caminha inseguro, o Cego, mas leva consigo a memória das pedras, dos regueiros, dos muros, de tudo o que o pode fazer tropeçar ou cair. E vai tacteando… enquanto segue o seu caminho e ouvindo o marulhar do rio.
Há uma tradição cristã diz que a cegueira é um castigo de Deus. Mas outras lendas do Mediterrâneo – o mar que tudo sabe e onde tudo se aprende – dizem que não é assim. O cego é aquele que ignora as aparências enganosas do mundo, para poder aceder às suas realidades secretas, profundas, interditas a todos os outros e que só ele pode ver.
Todas as tradições têm uma razão de ser e, talvez, que as duas estejam certas. Os nossos tempos são de excesso de visualismo – na televisão, no computador, no telemóvel – e isso cria apenas impressões rápidas, que não conseguem chegar ao cérebro para se fazerem em ideias. Tudo são flashes que gritam na forma de memes, podcasts, tic-tocs...
Pensando em tudo isto, volto ao Cego de Toledo. Ali vai ele, prosseguindo o seu caminho. Talvez não procure nada. Talvez só queira que não lhe façam mal, que não se aproveitem da cegueira dos seus olhos e o deixem continuar com o que lhe vão dizendo os outros sentidos… e o seu cajado.
Olhemos agora para todo o quadro, para a Ponte de Alcântara com o peso de dez séculos, para os campos de Toledo, para o Tejo, para o festival de luz e cor, tão típico de Sorolla, que eu imagino ser de um final de tarde – porque eu gosto do final da tarde.
escrito por Jorge Matos


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