Para não esquecer...

CRESPO E PINA ÀS VOLTAS COM O MAL

Há dias assim, um diz: mata, o outro: esfola!

Juntam-se os dois à esquina, a tocar a concertina e – perante a desafinação nacional, eles são dos poucos que não baralham as notas nem escangalham o tom deste insuportável só-li-dó.

O problema de que tratam é incontroverso. A sua denúncia, pela justeza, justifica a persistência.

Mas o pior, o pior desta maleita que nos consome qualquer vestígio de uma ética, mesmo circunstancial, é que Mário Crespo e Manuel António Pina não denunciam a excepção; eles falam da regra e de uma preocupante normalidade que já pouco nos surpreende e devia surpreender-nos, oh, se devia! Pior que o mal, seja lá o que isso for, tantos são os seus rostos, é torná-lo inclusivo, geneticamente inclusivo, como se não houvesse alternativa, opção, pequeno ganho civilizacional que fosse, e há.

Mário Crespo
Não é a crise que nos destrói. É o dinheiro

Nada no mundo me faria revelar o nome de quem relatou este episódio. É oportuno divulgá-lo agora porque o parlamento abriu as comportas do dinheiro vivo para o financiamento dos partidos. O que vou descrever foi-me contado na primeira pessoa. Passou-se na década de oitenta. Estando a haver grande dificuldade na aprovação de um projecto, foi sugerido a uma empresária que um donativo partidário resolveria a situação. O que a surpreendeu foi a frontalidade da proposta e o montante pedido. Ela tinha tentado mover influências entre os seus conhecimentos para desbloquear uma tramitação emperrada num labirinto burocrático e foi-lhe dito sem rodeios que se desse um donativo de cem mil Contos "ao partido" o projecto seria aprovado. O proponente desta troca de favores tinha enorme influência na vida nacional. Seguiu-se uma fase de regateio que durou alguns dias. Sem avançar nenhuma contraproposta, a empresária disse que por esse dinheiro o projecto deixaria de ser rentável e ela seria forçada a desistir. Aí o montante exigido começou a baixar muito rapidamente. Chegou aos quinze mil Contos, com uma irritada referência de que era "pegar ou largar". Para apressar as coisas e numa manifestação de poder, nas últimas fases da negociação o político facilitador surpreendeu novamente a empresária trazendo consigo aos encontros um colega de partido, pessoa muito conhecida e bem colocada no aparelho do Estado. Este segundo elemento mostrou estar a par de tudo. Acertado o preço foram dadas à empresária instruções muito específicas. O donativo para o partido seria feito em dinheiro vivo com os quinze mil Contos em notas de mil Escudos divididos em três lotes de cinco mil. Tudo numa pasta. A entrega foi feita dentro do carro da empresária. Um dos políticos estava sentado no banco do passageiro, o outro no banco de trás. O da frente recebeu a pasta, abriu-a, tirou um dos maços de cinco mil Contos e passou-a para trás dizendo que cinco mil seriam para cada um deles e cinco mil seriam entregues ao partido. O projecto foi aprovado nessa semana. Cumpria-se a velha tradição de extorsão que se tornou norma em Portugal e que nesses idos de oitenta abrangia todo o aparelho de Estado.

Rui Mateus no seu livro, Memórias de um PS desconhecido (D. Quixote 1996), descreve extensivamente os mecanismos de financiamento partidário, incluindo o uso de contas em off shore (por exemplo na Compagnie Financière Espírito Santo da Suíça - pags. 276, 277) para onde eram remetidas avultadas entregas em dinheiro vivo. Estamos portanto face a uma cultura de impunidade que se entranhou na nossa vida pública e que o aparelho político não está interessado em extirpar. Pelo contrario. Sub-repticiamente, no meio do Freeport e do BPN, sem debate parlamentar, através de um mero entendimento à porta fechada entre representantes de todos os partidos, o país político deu cobertura legal a estes dinheiros vivos elevados a quantitativos sem precedentes. Face ao clamor público e à coragem do voto contra de António José Seguro do PS, o bloco central de interesses afirma-se agora disposto a rever a legislação que aprovou. É tarde. Com esta lei do financiamento partidário, o parlamento, todo, leiloou o que restava de ética num convite aberto à troca de favores por dinheiro. Em fase pré eleitoral e com falta de dinheiro, o parlamento decidiu pura e simplesmente privatizar a democracia.
[Mário Crespo. JN, 11 de Maio de 2009]

Manuel António Pina
Foleiros & doutores

Terminaram as chamadas "Queimas das Fitas" e, salvo raras excepções, o balanço foi o do costume: alarvidade+Quim Barreiros+garraiadas+comas alcoólicos. No antigo regime, os estudantes universitários eram pomposamente designados de "futuros dirigentes da Nação". Hoje, os futuros dirigentes da Nação formam-se nas "jotas" a colar cartazes e a aprender as artes florentinas da intriga e da bajulice aos poderes partidários, enquanto à Universidade cabe formar desempregados ou caixas de supermercado. A situação não é, pois, especialmente grave. Um engenheiro ou um doutor bêbedo a guiar uma carrinha de entregas com música pimba aos berros não causará decerto tantos prejuízos como se lhe calhasse conduzir o país. Acontece é que muitos dos que por aí hoje gozam como cafres besuntando os colegas com fezes, emborcando cerveja até cair para o lado, perseguindo bezerros e repetindo entusiasticamente "Quero cheirar teu bacalhau" andam na Universidade e são "jotas". E a esses, vê-los-emos em breve, engravatados, no Parlamento ou numa secretaria de Estado (Deus nos valha, se calhar até já lá estão!).
[Manuel António Pina, JN, 11 de Maio de 2009]

escrito por Jerónimo Costa

3 comentário(s). Ler/reagir:

Anónimo disse...

Dois textos realmente exemplares.
O primeiro revela o descaramento com que os partidos exercem a chantagem

O segumdo, para mim bem mais grave, mostra a degradação do ensino universitário e o futuro de Portugal

Aos nossos mancebos faz-lhes muita falta o comprimento do serviço militar em vez das alarvidades que cometem na Queima e antes e depois da Queima.

Agora até elegem uma miss Queima.

Bem dizia o "primeiro" que com a reforma do ensino até as putas iam à universidade

Anónimo disse...

Meu estimado homónimo:
não seria melhor a largura de um bom serviço civil comunitário? Só perguntava...

jcosta disse...

Não é propriamente uma resposta, mas bastava uma banda larga com...espessura.