TRUMP(A)

O DIA DA ESEN

Dou a ler o discurso do Presidente do Conselho Geral da Escola Secundária Emídio Navarro de Viseu,nas celebrações do Dia da Escola deste ano, que tiveram lugar ontem. Não é apenas
[talvez não seja mesmo]
um discurso de circunstância. Polémicas, como o seu autor, estas são palavras para ler "com vagar", sem "aceleração" nem "urgência".
Exmo. Sr. Director; caros Estudantes; caros Funcionários; Colegas.
Exmos. Convidados.
Desde há cinco anos que 24 de Janeiro se constituiu oficialmente como o dia da Escola Secundária de Emídio Navarro. A data, como muitos recordam, tem a sua génese marcada pelo dia da sua inauguração solene que aconteceu há 110 anos, precisamente a 24 de Janeiro de 1900.
Emídio NavarroAniversário, saudação, festejo, louvor, são expressões que nos ocorrem como marcas indeléveis desta celebração. Uma escola, só por existir, já constitui motivo bastante de júbilo; à semelhança de uma maternidade, ela garante, ou deve garantir, a todos quantos dela necessitam – e todos necessitamos – um parto intelectual bem sucedido. Foi assim que, há mais de 2500 anos, os gregos lhe atribuíram, na Academia e no Liceu, a delicada tarefa da prática da maiêutica, vinculando definitivamente a escola a um outro nascimento não menos relevante: o nascimento para o conhecimento. Com uma ponta de ironia era necessário que o ser que franqueava a escola reconhecesse e aceitasse a sua ignorância e em diálogo permanente, numa disputa argumentativa, chamada diálogo, aprendesse o que desconhecia, contribuindo para o avanço civilizacional de que ainda hoje somos herdeiros, às vezes pouco fiéis e tantas vezes desperdiçadores depositários. Diálogo e argumentação, só possíveis em democracia – outro legado grego em lenta dissolução – são ingredientes que estão na base da educação para a cidadania – encargo principal e maior da escola. Ventos adversos, pejados de incompreensão, têm varrido, nos últimos anos, o espaço escolar a tal ponto que milhares de experientes e abnegados profissionais, numa atitude que espanta não surpreender, têm abandonado extemporaneamente a sua actividade. Fazem-no em defesa da sanidade que ainda lhes resta e cansados dos permanentes atropelos à sua dignidade. Os que ficam, apesar dos entendimentos, fazem contas e esperam, com ansiedade, o tempo oportuno da saída. Entretanto, as mudanças recentes, ao invés do apaziguamento e do bem-estar necessários à equilibração de quem ensina e de quem aprende, semeiam a desconfiança e, no lugar onde deveria florir a responsabilidade desponta o medo; no espaço onde deveria brotar a liberdade nasce o temor da endoutrinação. Medo e responsabilidade não conjugam; endoutrinação e liberdade não se cruzam na construção de uma sociedade civil participativa. A escola pública, apetrechada de um modelo de avaliação sobejamente considerado imprestável e gerador de injustiças insanáveis; de um modelo de gestão adverso das mais elementares práticas democráticas e de um estatuto do aluno que é um autêntico labirinto na consumação de resultados estatísticos, a escola pública, dizia, precisa urgentemente de massa crítica, de tempo e do regresso saudável à cooperação. Uma escola, por mais que o imponham por decreto, não é uma empresa; o tempo de aprender é substancialmente diferente do tempo de produzir; Isabelle Albaret, interpretando Marc Guillaume diz a propósito:

Vivemos num mundo de competições, menos espaciais do que temporais. O desvio pela física mostra como massa e velocidade estão intimamente ligadas. Uma análise que, transposta para o nosso mundo económico e social, revela a distorção crescente entre o tempo das organizações e o do «homem comum». Se a aceleração e a urgência comandam as primeiras, o segundo só consegue criar e pensar ao longo do tempo. Não será caso para fazer, seguindo o exemplo de Marc Guillaume, o elogio do vagar?

Aceleração e urgência são incompatíveis com o tempo da escola; se assim não fosse, como justificar que os alunos por aqui passem mais de 1/6 das suas vidas? Professores e alunos precisam de tempo e é isso, em primeiro grau que reivindicamos. Também nos interessam os resultados, mas não queremos que as nossas energias se centrem apenas aí; queremos que os nossos alunos se desenvolvam e progridam de modo a que cada um se sinta preparado para o exercício dos seus direitos e deveres e isso implica uma atenção considerável devotada aos processos. Os nossos horários estão repletos de actividades; as nossas reuniões sucedem-se; a confusão entre componente lectiva e não-lectiva raia o absurdo e a frescura e disponibilidade mental para potenciar as aprendizagens na sala de aula, são, cada vez mais, um bem raro em extinção. Os horários dos alunos são exaustivamente preenchidos com um currículo irrespirável e exigente, deixando-nos nos braços de uma dicotomia perversa: usar um critério de rigor, sobrecarregando e perdendo alguns dos estudantes ou seguir a via mais fácil, hipotecando-lhes o futuro. É preciso encontrar a justa medida e o bom senso recomendaria alterações que devolvessem o gosto por ensinar e aprender; o fomento da cooperação; a equidade nas decisões e – o que é essência e matriz de qualquer escola –, o empenho numa cultura democrática, aspectos que se podem implementar pelos corredores da autonomia inerente a qualquer escola porque uma escola é, antes de mais, como refere Juan Luís Vives, em Diálogos sobre a Educação um lugar onde se vai como animal e se volta como homem ou mulher:
Para se distinguir dos animais
PAI — Meu pequeno Túlio, posso falar um pouco contigo?
CRIANÇA — Com certeza papá. Não posso ouvir coisa mais grata.
PAI — O teu cãozinho ruscio é um animal ou um homem?
CRIANÇA — Animal, creio eu.
PAI — O que é que tu tens para ser homem e que ele não tem? Comes, bebes, dormes, caminhas, corres, jogas. Ele também faz todas estas coisas.
CRIANÇA — Mas eu sou humano.
PAI — Como sabes? Que tens tu mais do que o cão? Porém toma atenção à diferença, ele nunca conseguirá ser homem. Mas tu podes se o quiseres.
CRIANÇA — Por favor papá! Faz com que o seja o mais depressa possível.
PAI — Assim se fará se fores para onde se vai como animal e se volta como homem.
CRIANÇA — Com todo o gosto irei papá. Mas onde é esse lugar?
PAI — No exercício das letras, na escola.
CRIANÇA — Vou sem demora a uma coisa de tão grande importância.


Vão sendo longas as palavras, contudo e porque este dia é de louvor saudemos então todos os alunos desta escola dos quais, por empenho e dedicação maiores, se destacam os melhores que irão receber o prémio Ribas de Sousa (antigo Director e Professor desta escola) cuja memória também saudamos na figura dos familiares presentes, incentivando e elogiando o modo persistente como a Fundação, desde sempre, vem acarinhando a nossa escola e os nossos alunos.
Saudemos também os alunos que participaram no Parlamento dos Jovens pela forma elevada e empenhada como dignificaram a escola a que pertencem.
Uma saudação especial para os estudantes do grupo AJEN que participaram, com mérito, no Festival de Teatro Jovem;
Também para os Jovens Repórteres para o Ambiente uma calorosa saudação pelo seu reconhecido e elogiado trabalho;
Por último, o nosso reconhecimento e saudação a todos os estudantes que participaram, com mérito, nas Olimpíadas de Física, de Química, de Química júnior, de Astronomia e de Matemática.
Naturalmente, sem os vossos professores e, em muitas circunstâncias, sem a sua abnegação, este dia não teria o fulgor que lhe é devido. A todos os professores, mesmo os que não se cruzaram com qualquer destes alunos, o nosso reconhecimento pela sua dedicação, pelo seu empenho e pela sua resistência. Porque somos uma grande família, os nossos funcionários são parte integrante das nossas conquistas; sem eles não teríamos as condições que, permanentemente, representam um indispensável contributo para o êxito da nossa missão. Aos Pais a quem pedimos uma maior magistratura de influência, junto dos filhos, deixamos a nossa mensagem de felicitação porque sem o vosso contributo este reconhecimento seria difícil ou impensável.
Em nome do nosso projecto e pelo reforço da nossa identidade,
Bem-hajam pela vossa presença.
Viseu, 25 de Janeiro de 2010
J. Costa
escrito por ai.valhamedeus

3 comentário(s). Ler/reagir:

Anónimo disse...

A um post destes chamo eu, que sou ignorante, post Peixe Espada.

Isto é:
Chato e comprido

"Afonso Henriques"

Anónimo disse...

A ignorância é atrevidota, não é?
Com tantos sítios onde podias parasitar à vontade, logo havias de escolher este para descarregar o fel. Alguma benesse te hipotecou a razão, ou és assim mesmo, por natureza? D. Afonso, que só desmerecesses, era um tipo com vistas largas, apesar de alguns fracos súbditos que de vez, em quando, usurpando-lhe o nome, se vão vender a Castela. Mudando de assunto: não gostas de peixe espada? Apura o gosto, mais "chata e comprida" é a estupidez!

Anónimo disse...

Ó Afonso, diz-me lá, de anónimo a anónimo, se não foi a inveja que te levou a escrever este comentário virus, isto é: minúsculo e destruidor?!