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A ESEN FEZ 111 ANOS

Na passada segunda-feira, 24 de Janeiro, a Escola Secundária de Emídio Navarro de Viseu comemorou o "Dia da Escola". O programa das actividades incluiu uma sessão solene onde intervieram vários elementos da comunidade escolar e foram entregues prémios de mérito a alguns alunos. Publicamos a seguir a intervenção do Presidente do Conselho Geral, o professor Jerónimo Costa:

Corria o ano de 1900, era janeiro, o calendário marcava o dia 24 e a escola, que hoje se enraíza na memória desse tempo, era inaugurada.

Passaram, entretanto, 111 anos e desde há seis, esta data tem sido adoptada para, com celebrações várias, assinalar o dia da Escola Secundária de Emídio Navarro.

É inevitável buscar as origens da escola, não da nossa, mas de todas, nos confins da civilização grega, onde os antigos, desposando as praças públicas, praticavam filosofia e trocavam ideias. Ensinar caminhando, haveria de vincular, então, os que ensinam e aprendem ao apelido de peripatéticos. Foi preciso descansar na demora para que as escolas, subalternas em relação aos conflitos e às guerras, se disseminassem, civilizando, um pouco por todo o lado.

Os séculos XIV e XV conhecem, por razões de natureza essencialmente religiosa, uma importante expansão das escolas. A escolástica que toda ela se alimenta da génese que mora na escola, é um claro exemplo desse surto que, com essa designação, perdura no tempo. Do eclesiástico para o uso quotidiano; do mundo rural para os meandros do comercial e até para garantir o futuro, a escola, como diziam os latinos é uma escada:
scolae scalae. Mas é preciso esperar pelo Marquês do Pombal, nos finais do séc. XVIII, para que as escolas se tornem públicas, ordenadas e seculares. Há-de decorrer todo o século XIX, até quem bem perto do seu limite e, por decreto, seja criado o estabelecimento, cujo espaço, fruto de múltiplas intervenções, alterações e acrescentos, se confina ao que hoje desfrutamos como escola. Também ela, neste preciso momento, em fase de intranquila transição, ora porque a consideramos descaracterizada, ora porque o acréscimo de bem-estar e conforto, que já teve, e que esperávamos potencialmente ampliado, muito tarda em consumar-se, de modo a responder às nossas expectativas. O desacerto no que parecia óbvio; o inóspito na imagem que deveria acolher e motivar têm, no contraponto de equipamentos, salas novas e tecnologicamente bem equipadas, algumas razões de satisfação que vão tolerando a espera e ajudando a suportar o muito que ainda falta e cuja exigência não descuraremos.

Aproveitando o vínculo afectivo e institucional que, desde sempre, tem unido a autarquia à Emídio Navarro e porque estamos a discorrer sobre a requalificação, sendo esta uma Escola de referência para cegos e amblíopes, em conjugação com o Jardim Sensorial de Stº António, também ele requalificado – e bem –, para o usufruto dos cegos, aqui fica o apelo para que, mediado pelo Conselho Geral, órgão de direcção estratégica por excelência, se encontre a plataforma necessária para levar a bom termo a desejada articulação da escola com o jardim, com efectivos benefícios arquitectónicos, entre outros, para a cidade e para a Escola.


E porque celebramos uma efeméride que, do passado nos projecta no futuro, reforçando a nossa identidade, a nossa Escola, tem agora latente, concretizados que sejam os compromissos, uma expectativa de maior e melhor abertura à comunidade, seja pela diversificação das ofertas formativas, seja pelo espaço requalificado de que dispõe. A breve trecho, dando vida a centenas de peças que integram o seu espólio e documentam a sua história, vai estar disponível um espaço, na casa do Arco, designado por conhecimento e memória, onde todos podemos recordar, aprender, conferir e até promover a necessária reconciliação com o que fomos, enquanto escola. Para isso esperamos a colaboração de instituições e de especialistas, sem descurar a prudente experiência dos que ainda aqui laboram ou por aqui passeiam a saudade.

Também este ano, tudo indica, no decurso do 2º semestre, a Emídio Navarro integrará o conjunto de iniciativas celebrativas de homenagem àquele que foi um dos seus mais ecléticos docentes, o professor Rolando de Oliveira. A Autarquia, na pessoa do seu Vice-Presidente, Dr. Américo Nunes, que, em Setembro nos deu conta dessa já estabelecida decisão, pode contar com o nosso empenho.

E, das questões de pertinente circunstância, regressemos ao dia da escola que tem em Emídio Navarro, nascido na vizinha Rua do Arco, um lídimo patrono, não por uma razão qualquer mas fundamentalmente porque foi, compulsados os arquivos, exímio Ministro das Obras Públicas; encarregado de várias reformas no sector da Agricultura; responsável, na área do ensino, pela criação de cinco Escolas Agrícolas, incluindo a de Viseu, cinco Escolas Industriais e nove Escolas Elementares de Desenho Industrial. Deputado, Embaixador, Ministro do Reino, Conselheiro e homem livre, sobejou-lhe ainda tempo para criar e dirigir, pelo menos cinco jornais: A Académica, Progresso, Correio da Noite, Novidades, e o Transmontano. Porque era um homem de excepção, dotado de um irrepreensível carácter, afeiçoado a valores civilizacionais de forte pendor humanista e porque hoje também aqui estamos para reconhecer e louvar, com prémios e certificados de mérito, estudantes de excepção ou que de alguma forma excepcionalmente se destacaram, permitam-me que vos leia, para que todos conheçamos um pouco melhor o nosso patrono, o texto de Apresentação, escrito por Emídio Navarro, para a 1ª edição do jornal Novidades, por si criado a 7 de Janeiro de 1885, onde também são perscrutáveis os sinais de crise que, uma e outra vez, por regra, assolam o país. Diz o seguinte:

Este jornal apresenta-se ao público sem programa. Um programa pressupõe um ideal definido, e, no momento actual, não o tem a sociedade portuguesa.

Todos nós, os que lidamos neste marulhar de águas turvas e revoltas, a que se chama política, navegamos um pouco à mercê dos ventos encontrados, em demanda de ignotas pragas, sem sabermos que perigos e que tempestades nos esperam detrás dos cerrados horizontes! Vamos para o desconhecido.

“Não fazendo programa, trabalharemos por ter uma história. É uma ambição grande, que talvez pareça afirmação de vaidades e orgulhos. É grande, sim; mas é ambição legítima em todos os homens de boa vontade e coração limpo, como o são aqueles que se juntaram para esta empresa.

Se este jornal pudesse ter programa, tirá-lo-ia do seu próprio título.

Novidades – coisas novas, vida nova.

(O JORNALISMO NA TRANSIÇÃO DO SÉCULO XIX PARA O XX [Rogério santos p.93 (Media e Jornalismo, 2006))

Aqui fica um recorte do Conselheiro Emídio Navarro que privou com uma plêiade de figuras proeminentes que marcaram o seu tempo, a nossa história literária e, em particular, a nossa Escola. Refira-se a propósito a carta enviada por Camilo, em 24 de Outubro de 1989, contendo um soneto de desagravo, para publicação no Jornal Novidades, de Emídio Navarro, penitenciando-se das afrontosas picardias trocadas com o escritor Alexandre da Conceição, entretanto desaparecido. Camilo é outra das figuras que tem o seu nome indelevelmente marcado na geografia circundante da nossa escola (caso do Arco e Fonte de S. Francisco).

Regressemos de novo à efeméride na sua dimensão contemporânea para saudar os que, na primeira pessoa, retornando à escola, que sempre será sua, nos brindarão com o seu testemunho e com as suas ainda actuantes sinergias, numa altura em que a escola continua surpreendentemente afastada da gestão democrática, afundada numa avaliação sem rumo e onde se assiste, dia após dia, à degradação das condições de trabalho e à imposição desmedida de sacrifícios a quantos nela lançam a semente do conhecimento. Como se isso não fosse bastante e não bastasse, muitos continuam a sentir, dadas as condições, que dela estão a ser literalmente expulsos desguarnecendo, apesar da sua vitalidade e experiência, o ensino público no qual tanto se envolveram e deram o melhor das suas vidas.

Centenas de escolas, carinhosamente lançadas pelos artífices da 1ª República, foram encerradas; muitos serviços públicos não resistiram à inclemência económica, o estado social tem rumo incerto; o país desertifica-se e litoraliza-se. À escola cabe reflectir sobre o seu próprio futuro, enfrentando os desafios que é preciso vencer.

Aos estudantes, que hoje serão publicamente reconhecidos pela comunidade escolar, cabe a responsabilidade do exemplo, contribuindo para que cada vez mais, nesta instituição, frutifique e aumente o número daqueles que se destacam.


À Fundação Ribas de Sousa, que há muito nos acompanha na distinção do mérito, um fundado bem-haja pelo seu actuante contributo.

A todos os professores que, em situação cada vez mais difícil, dão o melhor de si, o nosso reconhecimento pela sua dedicação, pelo seu empenho e pela sua resistência. A todos os funcionários que, cada vez em menor número, asseguram as difíceis tarefas de funcionamento, a nossa gratidão; sem eles não teríamos as condições que, permanentemente, representam um indispensável contributo para o êxito da nossa missão. Porque é preciso refazer a escola dos afectos integradora e sensível que já fomos, esse grande desígnio e desafio será parte integrante das nossas conquistas.

Aos Pais, a quem pedimos uma maior magistratura de influência, junto dos filhos, deixamos a nossa mensagem de felicitação porque sem o seu contributo este reconhecimento seria difícil ou impensável.

Em nome do nosso projecto e pelo reforço da nossa identidade, continuaremos na senda do futuro.


escrito por ai.valhamedeus

2 comentário(s). Ler/reagir:

Anónimo disse...

Obrigado, Senhor Presidente do Conselho Geral.
Obrigado, professor Jerónimo Costa pelas palavras de apelo e incentivo à recriação da " escola dos afectos, integradora e sensível que já fomos,", no cabal cumprimento do nosso projecto, da identidade da nossa Escola e da sua missão.

Anónimo disse...

Começa a haver saudades de uma direcção ou Cons. Exec.sensato,afectuoso e amigo dos professores´,como já houve.
C.C.