TRUMP(A)

A IRIDESCÊNCIA DOS DIAS - 2

(Hoje, dia 21, é a abertura oficial da Guimarães - Capital Europeia da Cultura. Porém, mais importante do que isso, é o dia do aniversário da minha Mãe, que faz 90 anos! E, que quando se acerca do espelho e nele repara, exclama invariavelmente: reparai! Pareço uma velhinha de 80 anos… Verdade seja, que ninguém lhos dá. Quando eu for velha quero ser como a minha Mãe).

Gosto de ir ler para o café! Estranho gosto? Quiçá. Ficou-me dos meus tempos de Coimbra quando, para fugir ao desconforto dos quartos colectivos, alugados por senhorias gananciosas, íamos estudar para o café. Estudar, e catrapiscar um gajo jeitoso, ou lá perto. 

Uma bica dava para uma tarde inteira. 

Mas os donos, e os empregados já não enchiam o olho, nem a boca, com “Sr. doutor(a)”, como era da praxe, mal lobrigavam a pasta sobraçada ou a capa a adejar. Alguns proibiam o “aluguer” prolongado da mesa; outros, mais humanos, ou até calculistas, começaram a delimitar-nos o horário de estudo: das tantas às tantas. Que topete! E que ingratidão! Se não fora pelos estudantes, os estabelecimentos comerciais da bica e do garoto não teriam quórum de monta. E, vamos lá, alguns de nós até tinham uns cobres a mais para gastar, no fim da bica… 

Mas não era sobre Coimbra e seus cafés, que, na sua maioria, já nem existem, que eu queria escrever. 

Agora, já não procuro os cafés da minha juventude, cheios do bruaá das conversas, e de fumo.

Agora, procuro os cafés sossegados, com o mínimo de pessoas. Para ler placidamente. E escrever. De fones ligados. Isolada q.b. 

Contudo, as aparências iludem, não é? 

Foi o que aconteceu: entrei e sentei-me a uma mesa, ao lado de uma senhora entretida a ler o jornal. Não havia mais ninguém. O sossego acabou-se-me quando a leitura do jornal ficou concluída. A senhora olhou para mim, exibindo um sorriso bonito (ela era ainda bonita), e começou a comentar as notícias: Fulano tal ia ser mesmo investigado. 

Hélas, lá se ia a minha leitura por água abaixo. 

Era viúva de um homem muito mais velho. Ela própria nascera em 1920. Fiquei de boca aberta. Se Deus quiser, vou fazer 91 em Novembro. 

E por que não há-de querer? Pensei. E alto: tem a certeza de que não se enganou na data? Que não. E, palradora, contou-me das viagens a Paris, à Escócia, etc. com o marido, da casa linda onde vivia. E também das desgraças da vida -- a morte de um filho! 

Talvez influenciada pelas notícias do jornal, contou: no dia 25 de Abril, um amigo do marido desenhara um V com os dedos, eufórico. O ainda não defunto declarara: o meu V é diferente do seu. O meu significa Veremos

E repetia-me, exultante, a graça. Muito cúmplice. 

Estávamos nisto quando começaram a chegar as amigas dela, as quais encheram o espaço entre as nossas mesas. (continua)

escrito por Gabriela Correia, Faro

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