Para não esquecer...

MÍSTICA PARA PRINCIPIANTES

Quem nunca espreitou para o título do livro do vizinho que atire o primeiro livro…

MÍSTICA PARA PRINCIPIANTES
O dia era sereno, a luz amigável.
Aquele alemão na esplanada do café
Tinha nos joelhos um pequeno livro.
Consegui ver o título:
Mística para principiantes.
De repente percebi que as andorinhas
que, com os seus silvos estridentes,
patrulhavam as ruas de Montepulciano,
e os diálogos surdos dos tímidos viajantes
do Leste, a chamada Europa Central,
e as brancas garças reais de pé – ontem, anteontem? –
nos campos de arroz como freiras,
e o crepúsculo, lento e sistemático,
que apagava os contornos das casas medievais,
e as oliveiras nas pequenas colinas,
abandonadas ao vento e aos incêndios,
e a cabeça da Princesa Desconhecida
que tinha visto e admirado no Louvre,
e os vitrais nas igrejas como asas de borboletas
salpicadas de pólen,
e o pequeno rouxinol que exercitava o seu canto
na berma da auto-estrada,
e as viagens, todas as viagens,
tudo isso era apenas uma mística para principiantes,
um curso introdutório, prolegómeno
a um exame que foi adiado.
[Zagajewski, Adam, sombras de sombras, Tinta-da-China, Lisboa, 2017, pág. 97]

escrito por Carlos M. E. Lopes

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